As
Big Techs e a invasão colonial da educação pública
A
contingente necessidade de soluções para a viabilização do ensino remoto
emergencial durante o período mais crítico da pandemia de Covid-19, em 2020,
foi uma janela de oportunidade sem precedentes para que as Big Techs avançassem
ainda mais no campo da educação, especialmente nas instituições públicas. Os
impactos dessa invasão foram notáveis desde as primeiras semanas, trazendo
repercussões importantes sobre o trabalho docente, na qualidade do ensino e na
reprodução e aprofundamento das desigualdades. Mas outros elementos, menos
visíveis no auge da crise sanitária, precisam ser melhor compreendidos,
especialmente em relação aos desdobramentos dessa tomada de assalto promovida
pelas grandes empresas de tecnologia.
De 2020
pra cá, o que se viu foi um avanço significativo das Big Techs sobre a educação
pública e privada que, mesmo após o retorno às atividades presenciais, se
entregaram ao canto da sereia do discurso hegemônico que envolve as tecnologias
digitais em um verniz salvacionista e neutro. Nos anúncios das empresas de
tecnologia para a educação — as chamadas EdTechs —, nas propagandas de escolas
privadas e nas narrativas construídas pelas secretarias de educação em todo o
país (e também do Ministério da Educação) o que se nota é um argumento pautado
no pressuposto de que investimentos em tecnologia estão intrinsecamente
relacionados às melhorias no desempenho escolar. Cabe ressaltar, nesse sentido,
que a própria concepção de “desempenho escolar” precisa ser colocada em
perspectiva, uma vez que, em geral, essa noção está atrelada aos critérios
estabelecidos por instrumentos de avaliação externa, que, por sua vez, devem
passar pelo rigoroso escrutínio da crítica comprometida com a qualidade da
educação pública. Assim, os discursos em torno da questão são sustentados por
presunções que raramente são colocadas em questão.
Todo
esse processo de inserção das plataformas e tecnologias digitais na educação se
dá, em grande medida, às custas da deterioração das condições de trabalho de
professores, gestores e supervisores e da qualidade da educação pública. É
claro que não se trata de um fenômeno absolutamente novo nem inaugurado pela
pandemia. Sobretudo no setor privado e, especialmente, no ensino superior, a
ampliação dos cursos EaD, capitaneada pelos grandes grupos privados de
educação, contou com as tecnologias digitais como peças chave para um duplo
movimento: ao mesmo tempo em que se apropriaram do discurso ideológico de que o
progresso e a modernidade estão diretamente vinculados ao avanço tecnológico,
lançando mão de plataformas digitais, aulas online e um ensino cada vez mais
concentrado nos cursos EaD; também usaram as ferramentas tecnológicas como uma
estratégia de redução de custo operacional dos negócios da educação,
possibilitando a máxima lucratividade. Esse processo foi encabeçado por grandes
grupos educacionais (Kroton, Virtu, YDUQS etc.) e, de certa forma, mimetizado
por universidades e faculdades privadas de menor porte na tentativa de se
manterem competitivas no mercado ou, simplesmente, para se adequarem aos
padrões impostos pelos grandes grupos empresariais e se tornarem aptas a serem
incorporadas por esses grupos. O crescimento do grupo Cogna/Kroton está baseado
nesse processo.
Assim,
mesmo antes da pandemia, já se observava na expansão do ensino superior privado
a busca pelo aumento de lucros às custas da qualidade do ensino e da
precarização do trabalho docente, como reforçam as análises do professor Lalo
Watanabe Minto, da Faculdade de Educação da Unicamp. Nos sindicatos de
professores da rede privada, a questão do ensalamento (agrupamento de salas e
turmas diferentes, física ou virtualmente) e a demissão em massa de professores
já era uma questão latente antes mesmo de 2020. Nesse sentido, a pandemia de
Covid-19 aprofundou essas questões no ensino privado e permitiu a expansão
dessa lógica para a educação básica e para o setor público, haja vista a
necessidade de redução da circulação de pessoas impondo a necessidade do ensino
remoto emergencial.
É
importante refletir — e aqui, mais uma vez, menciono o professor Lalo Minto —
que essa “necessidade” de manutenção das aulas durante o período mais crítico
da pandemia também é uma construção permeada pelas demandas da própria
acumulação capitalista. Nas escolas privadas, a questão explicitou a relação
mercantil que atravessa a educação na rede particular. E nessa toada, o ensino
público seguiu a mesma lógica, sob a alegação de que não podia ficar para trás.
No estado de São Paulo, especialmente, foi notável como o governo já contava
com uma estrutura pronta para o processo de digitalização do ensino. Pouco
tempo após o início da pandemia, o Centro de Mídias do Estado de São Paulo já
estava funcionando a pleno vapor, com uma estrutura que certamente não surgiu
do dia para a noite. Ou seja, pelo menos em São Paulo, sob o comando do então
governador João Dória (PSDB), o projeto de digitalização e introdução de
plataformas e tecnologias digitais na educação era anterior à pandemia, e se
concretizou a partir da janela de oportunidade inaugurada pela crise
sanitária.
A
experiência do Centro de Mídias no período da pandemia se resumiu a aulas
ministradas e gravadas por alguns professores, e reproduzidas para toda a rede
estadual. Nesse momento já se nota um deslocamento da atividade dos professores
e professoras responsáveis pelas turmas, que passaram a apenas mediar a
interação dos alunos com as aulas gravadas. Os professores e professoras que
conhecem a realidade de cada turma e que, portanto, teriam muito melhores
condições de conduzir o processo de ensino-aprendizagem, foram apartados do
processo. O Centro de Mídias foi um laboratório para o desenvolvimento do
processo que vem sendo implementado a toque de caixa pelo atual governador
Tarcísio de Freitas (Republicanos) e pelo Secretário de Educação Renato Feder,
com a imposição de plataformas e materiais digitais de uso obrigatório,
atrelada a um sistema de métricas e metas a serem cumpridas e um esquema
rigoroso de controle e vigilância. Nesse sentido, é notável que a partir da
pandemia tivemos uma mudança substancial nos processos de deterioração das
condições de trabalho docente que indicam de fato um processo de precarização.
Essa precarização está associada a um processo de alteração profunda no
conteúdo do trabalho docente. Processo esse que não é inaugurado com o uso de
tecnologias digitais, mas que, sem dúvida, foi intensificado por elas.
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Plataformas digitais na educação: precarização e controle do trabalho docente
A
introdução de plataformas digitais em diversas atividades escolares e
acadêmicas, fenômeno descrito por José Van Dijck e Thomas Poell como
“plataformização da educação”, inscreve-se em um contexto mais amplo que
caracteriza a fase atual da acumulação capitalista. O avanço das plataformas
digitais é um elemento fundamental para compreendermos os processos de
exploração do trabalho e de geração de valor do capitalismo financeirizado. E é
importante ressaltar: apesar de todos os nomes e adjetivos que são usados para
definir o capitalismo atual, o metabolismo social — ou antissocial, como diz o
professor Ricardo Antunes — do capital é ainda aquele e se assenta sobre as
mesmas bases descritas por Marx n’O capital, quais sejam, a propriedade privada
dos meios de produção, a divisão da sociedade em classes e a exploração de uma
classe por outra. Diante disso, na sua fase financeirizada, o capital avançou o
processo de acumulação para a esfera especulativa/fictícia, sem perder o lastro
na produção material. E as tecnologias digitais e plataformas têm sido os
veículos privilegiados das novas estratégias de acumulação. O principal ativo
das plataformas é justamente tornar ainda mais opacas as relações de trabalho
que possibilitam a produção de riqueza e a acumulação de capital. Em diversos
setores econômicos, esse processo de acumulação se dá por meio do expediente da
chamada “uberização”, que no entendimento de muitos especialistas — entre os
quais destaca-se Ludmila Abílio, é um fenômeno específico que diz respeito ao
agenciamento, gestão e controle do trabalho sob demanda por meio de plataformas
e aplicativos.
Nesse
sentido, é claro que existem nexos formais entre a “uberização” de diversos
setores da economia e o processo de digitalização da educação, mas é
fundamental ressaltar as especificidades. Na educação pública, pelo menos até o
momento, as plataformas não são agenciadoras do trabalho docente — no sentido
que os professores e professoras continuam sendo contratados pelo estado (com
diferentes tipos de vínculos, quase todos marcados por múltiplas
precariedades), e a atribuição de aulas e escolas, embora até possa ser mediada
por alguma ferramenta tecnológica, não está integralmente subordinada a elas.
Mas as tecnologias digitais têm, de fato, assumido um papel preponderante na
gestão e no controle do trabalho docente, especialmente quando notamos a existência
de um “sistema fechado” que articula plataformas, materiais digitais, sistemas
de avaliação externa e os mecanismos de monitoramento de acesso e de
verificação de métricas, como o Super BI.
Outra
especificidade do campo da educação é o fato de que esse processo de
digitalização só foi possível após uma série de outros ataques engendrados à
profissão docente, que foram descaracterizando o trabalho de professores e
professoras e fragilizando a categoria. Só pra ficar restrito a dois exemplos
dessas investidas contra o trabalho docente: primeiro, houve uma redução
sistemática dos concursos públicos e o aumento do número de professores
contratados na rede estadual, conhecidos como “Categoria O“, que possuem
vínculos instáveis e precários; segundo, a Reforma do Ensino Médio fragmentou,
flexibilizou e diversificou os currículos, esvaziando o conteúdo do trabalho
docente, permitindo a introdução de plataformas digitais e aplicativos nas
atividades pedagógicas e de gestão, intensificando a privatização do ensino. A
adoção desses aplicativos e ferramentas digitais concebe processos pedagógicos
estandardizados, impactando a organização do trabalho pedagógico, e abre espaço
para uma participação cada vez maior de empresas privadas na educação pública.
Essas e outras ofensivas contra o trabalho docente e a educação pública
integram um projeto político mais amplo, que privilegia interesses privados em
detrimento do direito à educação pública e democrática.
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Big Techs, acumulação primitiva de dados e colonialismo digital na educação
A
invasão das Big Techs na educação pública não se limita à substituição de
práticas pedagógicas e administrativas por plataformas digitais: ela consolida
um novo ciclo de acumulação capitalista, no qual os dados de estudantes e
professores tornam-se a matéria-prima de um mercado ainda obscuro mas altamente
lucrativo. A coleta indiscriminada de informações — desde hábitos de navegação
até desempenho em exercícios padronizados — configura o que Walter Lippoldi e
Davison Faustino chamam de acumulação primitiva de dados, um processo análogo à
expropriação de terras e recursos naturais no colonialismo histórico, mas agora
em escala digital.
Assim
como as potências coloniais extraíam riquezas de territórios dominados, as
corporações de tecnologia privatizam e mercantilizam dados educacionais,
transformando-os em algoritmos preditivos, ferramentas de vigilância e produtos
vendidos a terceiros — muitas vezes sem o conhecimento ou consentimento da
comunidade escolar. A falta de transparência sobre o armazenamento, o
processamento e o destino desses dados revela uma nova face do colonialismo
digital, em que países periféricos, como o Brasil, tornam-se fornecedores de
informações brutas para conglomerados sediados nos países centrais do
capitalismo, em especial nos EUA, sem qualquer contrapartida justa.
Esse
mecanismo reforça a dependência tecnológica e aprofunda as desigualdades
educacionais. Enquanto escolas públicas são pressionadas a adotar plataformas
que coletam dados sensíveis, por meio de contratos milionários, essas
informações são usadas para refinar sistemas de controle sobre o trabalho de
professores e segmentar estudantes em perfis de consumo, por meio do
desenvolvimento de microtargets para o direcionamento de anúncios de produtos e
serviços.
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Desafios e resistências
Há
quase um consenso no senso comum em torno da ideia de que as tecnologias
digitais são sinônimos de inovação, progresso e melhoria das condições de vida.
É necessário e urgente nos contrapormos a essa visão ideológica sobre as
tecnologias, sem cair em concepções tecnofóbicas e neoludistas. O recente
debate em torno da necessidade de regulamentação das Big Techs precisa ser
tratado com relevância.
No
campo da educação pública do estado de São Paulo, outra dificuldade objetiva
para consolidar uma resistência mais efetiva a esse e outros ataques à
categoria docente é o fato de que grande parte dos professores e professoras da
rede tem contratos precários e instáveis e está sob constante ameaça de perder
seu vínculo de trabalho. Para os professores concursados e estáveis há riscos
relacionados à atribuição de aulas, agravados pelas resoluções da secretaria de
educação que avançam no sentido de avaliações punitivas dos docentes. Por sua
vez, gestores se veem pressionados a garantir o cumprimento das metas de
desempenho sob o risco de perderem seus cargos ou de serem transferidos para
outras unidades, como já vem acontecendo. A cadeia de controle e pressão atinge
também os supervisores de ensino que são assediados pela secretaria de educação
para que garantam que diretores e professores cumpram as metas de uso das
plataformas.
A
resistência a esse cenário exige, além da organização sindical e da pressão por
políticas públicas de regulamentação, uma conscientização ampla sobre os riscos
da dataficação da educação. É urgente questionar: quem lucra com os dados
gerados em nossas escolas? Quem define os parâmetros de “eficiência” imposto
por essas plataformas? E, sobretudo, como descolonizar o digital, garantindo
que a tecnologia sirva à emancipação, e não à exploração?
A
saída, como sempre nos mostrou o processo histórico, passa, necessariamente,
pela organização dos trabalhadores da educação e das comunidades escolares.
Trata-se de um debate que não pode ser esquecido. Os ataques são tantos que
muitas vezes as pautas se perdem diante da urgência de novas ofensivas. Vivemos
sob uma Blitzkrieg na educação pública: militarização, plataformização,
privatizações, arrocho salarial. É, contudo, fundamental continuarmos no
esforço de entender a fundo o processo, ampliar e aprofundar o debate, garantir
que estudantes e familiares se envolvam nessas discussões a fim de criar massa
crítica capaz de fazer frente aos ataques.
A luta
por uma educação pública democrática passa, necessariamente, pela defesa da
soberania de dados e pelo controle social sobre as ferramentas digitais
utilizadas nas escolas. Sem isso, a plataformização da educação não será apenas
mais uma forma de precarização, mas a consolidação de um neocolonialismo
algorítmico, no qual estudantes e professores são reduzidos a fontes de
extração de valor — silenciosos, monitorados e cada vez mais apartados de seus
próprios processos de ensino-aprendizagem.
Fonte:
Por Ricardo Normanha , no Blog da Boitempo

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