segunda-feira, 7 de julho de 2025

Antonio Machado: Chega de improviso

A história de dois colossos emergentes, candidatos a potências superlativas nesta década. O mais tímido está voando, a Índia. O outro, apesar de bocudo, ainda é só uma promessa. Você sabe quem.

Tem a maior carga tributária entre todos os emergentes, mas não muda o que sabe não funcionar. Nesta quinta, 10:30, dia útil, um punhado de pessoas invadiu o saguão do Itaú BBA, na icônica Faria Lima, com cartazes e palavras de ordem bradando “chega de mamata”, “o povo não vai pagar a conta”. E como fazer isso? Num evento em Salvador, um dia antes, o presidente Lula empunhou um cartaz com a mensagem em letras garrafais: “Taxação dos super ricos!”

Se este for o caminho da grandeza, depois de 22 anos de promessas vãs, 16 dos quais sob administração do PT, quando o gasto público jamais cedeu, a carga tributária não afinou, a taxa de juro sempre esteve obesa, quase 100 milhões de pessoas foram incorporadas aos cadastros de transferências de renda ou empregadas pelo Estado, e o desenvolvimento não foi alcançado, vale questionar o modelo.

Discuta-se também, como propõe o ministro da Fazenda do governo, o tamanho das desonerações de impostos, “gastos tributários” pela língua da Receita Federal, mais de dois terços dos quais criados ou ampliados nestes 22 anos e mantidos sem avaliação se a meta do favor tributário foi cumprida e o custo-benefício de mantê-los.

Mas que não percam o propósito: não se tributa apenas para pagar a despesa de manutenção do setor público nem para promover planos eleitoreiros, a razão alegada pela vasta maioria de parlamentares para demolir por 383 a 98 o decreto presidencial que salgava ainda mais as alíquotas do IOF com fim de pagar parte do déficit fiscal.

E o investimento para formar cidadãos, alavancar a produção e a infraestrutura? É o filho enjeitado dos planos de ajuste fiscal, seja o teto de gastos destelhado da gestão passada ou o chamado arcabouço de agora, que sem onerar impostos é um conjunto vazio.

O contraponto com a trajetória da Índia realça nosso descaminho. Um programa de ação econômica criadora de riqueza, mantido há mais de 20 anos como valor nacional sem a forte polarização que divide a Índia em outros campos, é o que importa considerar.

Não temos um plano de progresso inclusivo, temos projetos políticos de poder.

<><> A gênese do descompasso

A falta de direção, que vem desde os anos 1980, o ocaso do regime militar, é a gênese do nosso descompasso. À época, nossa indústria era maior que a da China, hoje manufatura do mundo, e da Coreia do Sul somados, segundo o economista Paulo Gala. Índia, então, só se destacava pela miséria bíblica e a planificação estatal no estilo soviético desde a independência da Inglaterra, em 1947.

O denominador comum à expansão da Ásia como motor do crescimento econômico global é forte senso de nacionalidade, integração social pela educação e emprego, investimento contínuo em manufaturas com viés exportador, expansão de infraestrutura, e impostos e despesas públicas muito baixos em comparação com o mundo desenvolvido tanto em dinheiro corrente quanto em proporção do PIB.

Mais atrasada, sobretudo em relação à China, rival geopolítico, a Índia abandonou a planificação depois de 2004, abriu-se ao capital estrangeiro, colocou o setor privado como parte da formulação dos planos adotados, e investiu em ações de longo prazo. O principal é que tais ações foram mantidas quando a oposição chegou ao poder em 2014 e manteve os pilares da modernização e implantou outros.

A identidade digital única, conhecida como Aadhaar, correspondeu à integração nacional, facilitando o acesso a serviços públicos e privados e benefícios sociais. O imposto sobre o valor adicionado, IVA, totalmente digitalizado, baixou o custo de transações e restringiu drasticamente a informalidade. O que se tem desde então é que o PIB indiano cresce a um ritmo maior que o da China.

<><> Somos simples até demais

Detalhes sobre o fenômeno indiano Lula poderá ouvir do primeiro-ministro Narendra Modi, que veio ao Brasil para a cúpula do BRICS+ e depois fará uma visita de Estado. Poderá ouvir também do chefe de governo da Indonésia, que trilha uma trajetória semelhante.

Ambos são democracias, a Índia tem o maior regime parlamentarista do mundo, com população de 1,4 bilhão de habitantes, superior à da China. Só que nenhum é tão complexo quanto ela. Além do hindi e do inglês, tem outras 20 línguas oficiais entre 121 principais.

Não é fácil também a harmonia religiosa: 80% seguem o hinduísmo, mas das minoritárias o islamismo tem mais adeptos que toda a população do Brasil. A vizinhança é hostil. China, Paquistão e Índia, com os quais são comuns conflitos de fronteira, detém armas nucleares. Os desastres naturais são recorrentes, de calor intenso a terremotos.

Apesar de tantas adversidades, perto delas o Brasil é simples até demais. A língua é única, não há conflito religioso e étnico, nem terremotos ou furacões, a vizinhança é pacífica.

Mas temos uma elite, especialmente a política, sem visão nem ambição.

<><> O poder da ideia certa

E vamos ao pitch da tese: enquanto nosso PIB em dólares nominais é de US$ 2,2 trilhões, praticamente estagnado há duas décadas, o da Índia entrou em 2025 com US$ 4,19 trilhões, 4º maior do mundo, e tende a US$ 10 trilhões até 2032, segundo o Goldman Sachs – US$ 1 tri a cada um ano e meio. Quem está certo? Ou errado?

A economia da Índia equivale hoje a 3,6% do PIB global, estimado em US$ 115,49 tri pelo FMI. Era essa a nossa participação em 1980, hoje reduzida para insuficientes 1,9%.  A taxa de pobreza extrema caiu de 27% em 2011-12 para 5,3% em 2022-23, com carga tributária de 18% do PIB, contra 33% da nossa, que o governo quer aumentar.

Só de serviços tecnológicos, a grande força motriz da expansão da Índia (graças ao Aadhaar), o país exportou US$ 387 bilhões no ano passado, com taxa de crescimento anual composta de 11% de 2005 a 2024. Até 2030, diz o Goldman Sachs, tais exportações vão atingir 11% do PIB ou US$ 800 bilhões. E nós? Se o santo for forte, vamos exportar este ano, no total, US$ 346 bilhões, uma merreca.

É isso que se espera que algum candidato, o incumbente e os que o desafiarem, traga à discussão na campanha de 2026. Não é IOF nem a tal da “justiça tributária”, necessária mas hoje subterfúgio para justificar aumento de impostos e nenhuma reforma do setor público ineficiente e capturado por interesses.

Em vez de mais, o que urge fazer é reduzir a carga, cortar desperdícios, automatizar os serviços públicos e promover a entrada da economia no novo mundo.

Como disse o antecessor de Modi, Manmohan Singh, morto no fim de 2024, citando Victor Hugo no que foi o seu discurso inaugural da nova Índia: “Nenhum poder na Terra pode parar uma ideia quando a hora chega”. Nossa hora já passou. Quem se habilita a ter a ideia?

•        Crise do IOF nas redes expõe Congresso e fortalece narrativa do Planalto, segundo pesquisa

A crise entre Executivo e Legislativo em torno do aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) mobilizou milhões de internautas nas últimas semanas e, ao menos no ambiente digital, resultou em desgaste concentrado sobre o Congresso Nacional. Segundo levantamento divulgado nesta sexta-feira (4) pelo instituto Quaest, 61% das menções nas redes sociais foram críticas aos parlamentares, enquanto apenas 11% foram negativas ao governo Lula (PT).

A coleta, feita entre os dias 24 de junho e 4 de julho, reuniu 4,4 milhões de postagens nas plataformas X (antigo Twitter), Instagram, Facebook, YouTube e sites de notícias. A média foi de 18 mil menções por hora, um volume superior ao de outros episódios recentes, como o escândalo envolvendo o  Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) (15 mil/h), o inquérito sobre a tentativa de golpe de Estado (10 mil/h) e o próprio anúncio do aumento do IOF (595/h).

O pico das críticas veio a partir de 25 de junho, quando o Congresso rejeitou o aumento da alíquota do IOF, provocando uma reação digital massiva. Somente a hashtag #InimigosDoPovo foi usada mais de 300 mil vezes e representou 18% das postagens sobre o tema. Expressões como “Congresso da mamata” (13%) também viralizaram.

A Quaest destaca ainda a personalização da insatisfação em figuras políticas específicas. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), foi mencionado em 8% das postagens, tornando-se o principal nome associado à decisão do Legislativo.

<><> Governo colhe frutos de estratégia digital

Apesar do tema sensível da taxação, o governo federal conseguiu manter-se distante do foco negativo. Nas menções sobre o episódio, o presidente Lula foi citado em apenas 15% dos casos, com 45% de postagens em tom positivo, 31% negativas e 24% neutras.

O desempenho representa um contraste com outras crises recentes. No caso do INSS, por exemplo, 77% das citações ao petista foram negativas. Já na ocasião do próprio anúncio do aumento do IOF, as críticas a Lula chegaram a 76%. Agora, o cenário “representa uma vitória do governo nas redes“, diz o relatório da Quaest.

<><> Base governista lidera mobilização nas redes

O monitoramento também analisou o comportamento de parlamentares nas redes sociais e revelou uma inversão de tendência: desta vez, os governistas publicaram mais do que a oposição. Foram 741 postagens feitas por 119 parlamentares aliados de Lula, contra 378 publicações de 112 congressistas oposicionistas.

Parlamentares de centro representaram 18% das publicações, com 218 postagens de 79 membros. A base aliada foi responsável por quase 50% do total de posts sobre o tema, o que, segundo a Quaest.

Apesar do empate no número total de curtidas (1 milhão para cada lado), os governistas mantiveram maior presença e engajamento no debate. A oposição, que costuma dominar as redes, ficou com 31,5% das postagens, bem abaixo dos 51% registrados durante a crise do INSS.

<><> Conflito chega ao STF

A tensão entre os Poderes escalou ao ponto de envolver o Judiciário. A Advocacia-Geral da União (AGU) acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) na tentativa de reverter a decisão do Congresso. Em resposta, o ministro Alexandre de Moraes determinou que representantes das partes se reúnam no próximo dia 15, na Corte, em busca de conciliação sobre o impasse.

<><> Alcolumbre recebe menos críticas, enquanto Motta é alvo preferencial da esquerda

A crise com o governo em torno do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) expôs estratégias diferentes dos presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Enquanto o primeiro tomou a dianteira na derrubada do decreto do presidente Lula (PT), e se tornou alvo de ataques da esquerda, o senador optou por postura mais discreta, nos bastidores, e passou quase incólume.

A pressão maior nas redes sociais sobre o presidente da Câmara fez com que ele se queixasse ao Palácio do Planalto. Motta acabou defendido publicamente pela ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann (PT), e pelo líder de Lula na Câmara, o deputado José Guimarães (PT-CE), contra os “ataques pessoais”.

Aliados de Motta disseram à reportagem que o deputado ficou muito exposto nessa situação. Além de ter partido dele a decisão de pautar o projeto para sustar o aumento do IOF, o que pegou o governo e até a oposição de surpresa, o parlamentar gravou um vídeo específico para as redes sociais para defender sua posição.

Motta e Alcolumbre foram procurados via assessoria de imprensa e não responderam.

Dois interlocutores de Motta classificam até mesmo como um erro essa conduta e dizem que ele precisa compartilhar essa responsabilidade também com o Senado. Outros deputados se queixaram que a postura do presidente da Câmara fez com que os ataques fossem direcionados quase que exclusivamente à Casa e poupassem os senadores.

Essa percepção dos deputados é traduzida no volume de comentários nas redes sociais.

De acordo com a consultoria Bites, o deputado foi citado em 1,08 milhão de posts desde 17 de junho, um dia após a Câmara aprovar regime de urgência para o projeto que sustou o aumento do IOF. No mesmo período, Alcolumbre foi mencionado em 212 mil publicações.

As menções ao presidente da Câmara, em apenas 15 dias, representaram quase 30% de tudo o que foi falado sobre ele em todo o ano de 2025. E se intensificaram nesta semana, após um ataque coordenado da esquerda para levar à internet o discurso de que Lula estaria atuando em favor dos mais pobres, enquanto o Congresso defenderia os ricos.

<><> Motta nunca tinha recebido tanta atenção

Somente na quarta-feira (2), Motta foi citado em 169,6 mil postagens no X (ex-Twitter), em contas relevantes de Instagram, páginas abertas de Facebook, Reddit, fóruns, blogs e sites de notícias. Foram outras 205,5 mil menções na quinta, ainda segundo a Bites. O presidente da Câmara nunca tinha sido objeto de tanta atenção até então.

Antes, ele só tinha passado de 100 mil menções mas redes em um mesmo dia em 20 de março (115,9 mil), quando era alvo do campo oposto, cobrado pela oposição bolsonarista para pautar o projeto de lei que anistia os condenados pelos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023. Essa pressão continuou em abril, mas sem ultrapassar a marca de 100 mil comentários.

Alcolumbre, por outro lado, gerou mais atenção em outros momentos do ano, como quando foi alvo de bolsonaristas por suposto favorecimento a um assessor em repasses de emendas.

O presidente do Senado também optou por fechar seu Instagram para comentários, após o volume de críticas crescer. Motta manteve seu perfil aberto e viu o número de comentários superar em três vezes o de curtidas.

Dois aliados de Motta minimizam os ataques nas redes. Eles dizem que, historicamente, o presidente da Câmara é mais atacado do que o do Senado e afirmam que o deputado nunca esteve tão forte politicamente. Segundo eles, o episódio do IOF deu um novo patamar à presidência de Motta e ajudou a nacionalizar sua imagem.

<><> Sintonia entre Motta e Alcolumbre

Um líder classifica como desproporcionais as críticas que o deputado têm recebido nas redes. Ele argumenta que até mesmo integrantes da base de Lula e de partidos de esquerda, como PDT e PSB, votaram a favor de derrubar o decreto mas não estão sendo criticados.

Outro aliado de Motta diz enxergar dedo do governo nas críticas ao Congresso feitas nas redes sociais e avalia que o discurso de “nós contra eles” pode tensionar ainda mais a relação com o Executivo, num momento em que o governo precisa aprovar matérias de seu interesse.

Interlocutores dos presidentes da Câmara e do Senado ressaltam que há uma sintonia entre os dois, que costumam viajar juntos e atuar alinhados, e negam qualquer ruído. O episódio evidenciaria a diferença de perfil de cada um deles.

Há também diferenças na relação com o governo. Integrantes do Executivo não negam desconforto com o deputado paraibano, sobretudo por ele não ter avisado ministros ou articuladores do governo no Congresso sobre sua decisão de levar a derrubada do IOF para a pauta de votações, na semana passada. O próprio presidente Lula classificou, nesta semana, a decisão como “absurda”, citando Motta.

O petista não adotou a mesma postura com Alcolumbre, apesar de o presidente do Senado ter levado o projeto à pauta imediatamente após a Câmara aprová-lo, na mesma noite. O senador retribuiu dizendo que o Executivo tem legitimidade de recorrer à Justiça contra a derrubada do decreto. Já aliados do deputado criticaram a ação do Executivo no STF (Supremo Tribunal Federal).

Desde a derrubada dos decretos, Lula não falou com os presidentes das Casas. Após o Senado aprovar proposta que eleva receitas da União com petróleo, na terça (1º), o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), ligou para o presidente da República para informar o resultado e ressaltar o empenho de Alcolumbre na votação. Como resposta, ouviu do petista que transmitisse os agradecimentos ao presidente do Senado.

 

Fonte: Jornal GGN/ICL Notícias/FolhaPress

 

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