segunda-feira, 14 de julho de 2025

A mãe 'trumpista' detida em batida de imigração que ainda apoia deportações do presidente

Se Arpineh Masihi pudesse votar, ela teria votado em Donald Trump. Ela é uma defensora devota do presidente dos Estados Unidos — até mesmo agora, que está detida como imigrante ilegal.

"Ele está fazendo a coisa certa porque muitas dessas pessoas não merecem estar aqui", disse Arpineh à BBC News por telefone, falando do centro de detenção de imigrantes de Adelanto, no Deserto de Mojave, na Califórnia.

"Eu o apoiarei até o dia da minha morte. Ele está tornando os EUA grande novamente."

A 96 quilômetros de distância, em sua casa em Diamond Bar, uma rica cidade suburbana no leste do condado de Los Angeles, uma bandeira de Trump tremula no jardim. Bonés com a inscrição "Maga" (acrônimo para Make America Great Again, ou Torne a América Grande Novamente, lema do movimento trumpista) decoram uma prateleira ao lado de um álbum de fotos da família, enquanto pássaros de estimação cantam em uma gaiola.

É uma casa animada, com três cachorros e quatro crianças pequenas, e o marido e a mãe de Arpineh estão com os olhos cansados e exaustos de preocupação, tentando manter a calma.

"Nosso lar está destruído", diz Arthur Sahakyan, marido de Arpineh.

·        'Todos nós cometemos erros'

Em muitos aspectos, Arpineh, de 39 anos, é uma história de sucesso americana — um excelente exemplo de como o país dá às pessoas uma segunda ou até mesmo uma terceira chance. A mãe de Arpineh se emociona ao falar sobre a filha, que vive nos EUA desde os três anos.

Ela passou por uma fase difícil há muitos anos, em 2008, quando foi condenada por furto qualificado e roubo e recebeu uma pena de dois anos de prisão. Um juiz de imigração revogou seu green card (o cartão de residência permanente nos EUA), o que é uma prática comum. Mas como ela é uma iraniana cristã de origem armênia, o juiz permitiu que ela permanecesse no país em vez de ser deportada.

"Somos cristãos. Ela não pode voltar, de jeito nenhum", diz Arthur, enquanto sua filha de 4 anos entra e sai correndo do quarto. Ele teme que a vida dela corra risco se for mandada de volta ao Irã.

Mas, desde que foi liberta da prisão, Arpineh reconstruiu sua vida, começando um negócio bem-sucedido e uma família, entre centenas de milhares de imigrantes iranianos que chamam o sul da Califórnia de lar.

O oeste de Los Angeles — muitas vezes chamado de Tehrangeles (em referência a Tehran, nome da capital iraniana em inglês — tem a maior população de iranianos fora do Irã.

Alguns, como Arpineh, foram detidos nas últimas semanas, durante as batidas de imigração que deixaram a cidade em alerta. Embora a maioria das pessoas detidas em Los Angeles seja do México, as atualizações diárias do Departamento de Segurança Interna mostram que imigrantes de praticamente todos os cantos do mundo foram presos.

Trump foi eleito em parte por causa da promessa de "lançar o maior programa de deportação de criminosos da história" — uma promessa na qual Arpineh, seu marido e sua mãe ainda dizem que acreditam.

No entanto, sua família diz que tem fé que Arpineh vai ser liberta, e acredita que somente os criminosos mais perigosos vão ser de fato deportados.

"Eu não culpo Trump, eu culpo Biden", diz Arthur. "A fronteira aberta é obra dele, mas acredito no sistema, e que todas as pessoas boas serão libertas, e as ruins serão mandadas de volta."

Embora muitos dos detidos não tenham antecedentes criminais, Aprineh é uma criminosa condenada, o que a torna um alvo preferencial para remoção.

O Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE, na sigla em inglês ) não respondeu a um pedido de comentário sobre o caso de Arpineh.

Arthur diz que não sabe detalhes sobre o crime. Eles conversaram brevemente sobre isso antes de se casarem, e depois ele se esqueceu do que considerava um vacilo juvenil da esposa.

Em vez disso, ele se concentra nas boas ações dela nos últimos 17 anos, trabalhando como voluntária no distrito escolar local e levando comida para bombeiros e policiais.

"Todos nós cometemos erros", diz ele.

·        'Não importa o que aconteça, nós vamos te pegar'

Então, quando o ICE telefonou para Arpineh em 30 de junho, enquanto a família tomava café da manhã, o casal pensou que fosse uma piada.

Mas a polícia de imigração chegou na casa deles 30 minutos depois.

Apesar das placas espalhadas por todo o condado de Los Angeles pedindo aos imigrantes que "conhecessem seus direitos" e não abrissem a porta para os agentes de imigração, o casal saiu para falar com os policiais.

Arpineh explicou que um juiz havia permitido que ela ficasse nos EUA por causa da situação no Irã, desde que não cometesse nenhum outro crime e se apresentasse com frequência aos agentes de imigração. A última vez foi em abril, ela se apresentou a eles, apresentando sua documentação.

Arthur contou que até os convidou para entrar na casa, mas eles recusaram.

Os agentes de imigração disseram a ela que as circunstâncias haviam mudado e que tinham um mandado de prisão contra ela.

Eles permitiram que ela voltasse para dentro de casa e se despedisse dos filhos — de 14, 11, 10 e 4 anos. E disseram que, se ela não saísse de novo, eles a pegariam em algum momento.

"Eles nos disseram que, não importa o que aconteça, nós vamos te pegar — talvez quando você estiver dirigindo na rua com seus filhos —, então pensamos no que estávamos vendo no noticiário: bombas de efeito moral, carros sendo fechados", diz Arthur. Eles não queriam arriscar que ela fosse detida de forma violenta, possivelmente com as crianças assistindo.

"Ela entrou e deu um beijo de despedida nas crianças", ele recorda. "Ela saiu como uma campeã, e disse: 'Estou aqui'."

Arthur pediu aos agentes de imigração que não algemassem a esposa. Eles disseram que isso não era possível, mas concordaram em fazer isso do outro lado do veículo para que os filhos do casal não vissem.

"Eu sabia que meus filhos estavam assistindo lá de cima", diz ele. "Não queria que eles vissem a mãe algemada."

Arpineh foi levada então para um prédio federal no centro de Los Angeles, um centro usado pelo ICE para processar as pessoas presas nas batidas em andamento na região. O prédio se tornou o centro de protestos, às vezes violentos, contra o ICE, que tomaram conta de Los Angeles por semanas.

Ela afirma que as pessoas detidas no prédio "eram tratadas como animais".

Arpineh disse à BBC que ficou presa em uma sala gelada e bem iluminada com outras 28 mulheres por três dias. Segundo ela, elas sobreviveram com lanches e uma garrafa de água por dia, se amontoando para se aquecer e dormindo no chão.

·        À espera de um indulto

Como Arpineh fala três idiomas — armênio, espanhol e inglês —, ela conseguiu se comunicar com muitas das outras mulheres, e diz que elas se ajudavam mutuamente.

Três dias depois, ela foi transferida para Adelanto, o centro de detenção privado do ICE no deserto a nordeste de Los Angeles, que tem a reputação de oferecer condições severas, semelhantes às de uma prisão.

Mas Arpineh diz que é muito melhor do que o que elas enfrentaram no centro de Los Angeles — agora ela faz três refeições por dia, tem acesso a chuveiros e uma cama. Embora tenha ouvido falar que é difícil conseguir tratamento médico se você precisar, Arpineh é jovem e saudável.

"Mas ainda é muito desafiador", diz ela.

Ela e o marido dizem que ainda têm fé no governo Trump e acreditam que ela vai ser liberta.

"Não sou deportável para nenhum país," disse Arpineh à BBC do centro de detenção.

Mas isso não impediu as autoridades de imigração no passado. Em fevereiro, um grupo de cristãos iranianos que havia acabado de cruzar a fronteira do México foi deportado — mas para o Panamá, não para o Irã.

Arpineh continua esperançosa em relação a um indulto, mas observa que também se sentiu desanimada.

Ela diz que ama os EUA e que se sente americana, mesmo que não tenha a documentação necessária.

Ela liga para o marido a cobrar uma vez por hora para que possam compartilhar atualizações sobre seu processo, embora até agora não haja muito o que compartilhar. Os filhos mais velhos entendem o que está acontecendo, mas a filha de 4 anos fica perguntando quando a mamãe vai voltar para casa, diz ele.

Todos os quatro filhos são cidadãos americanos, nascidos e criados na Califórnia. O casal acredita que as autoridades vão levar isso em consideração ao decidir o destino de Arpineh.

"Tenho quatro filhos cidadãos. Tenho um negócio. Tenho uma propriedade. Tenho carros", diz Arpineh.

"Não fiz nada de errado em tantos anos."

¨      Ex-secretário de imprensa de Obama relembra clima 'emocional' na Casa Branca após vitória de Trump

O dia mais difícil no trabalho para o secretário de imprensa da Casa Branca durante a maior parte do segundo mandato de Barack Obama foi logo depois que Donald Trump foi eleito presidente pela primeira vez, ele revelou recentemente durante um bate-papo informal em uma convenção de jornalismo.

Falando na conferência de 2025 da Associação Nacional de Jornalistas Hispânicos (NAHJ) em Chicago, Josh Earnest disse que foi difícil para o governo Obama perceber que teria que cumprir as promessas de uma transferência pacífica de poder, apesar de passar o ciclo eleitoral de 2016 oferecendo avisos terríveis "sobre o que poderia ou aconteceria se Donald Trump recebesse as chaves do Salão Oval".

Esses alertas decorreram, em parte, de avaliações de inteligência de que a Rússia, adversária geopolítica de longa data dos EUA, havia interferido na disputa em que Trump derrotou a ex-secretária de Estado Hillary Clinton. Earnest disse que o governo Obama subitamente se viu obrigado a defender a validade dessas avaliações, ao mesmo tempo em que afirmava que transferiria pacificamente os códigos de lançamento nuclear – e outras alavancas de poder – para Trump .

“[Obama] não quis dizer o quão perigoso [Trump] poderia ser?”, perguntou Earnest retoricamente, referindo-se a algumas das perguntas que ele e outros funcionários do governo enfrentaram ao informar jornalistas na época. “Foi uma mensagem dura.”

Os comentários de Earnest na quarta-feira – que foi secretário de imprensa de Obama de 2014 a 2017 – também ofereceram uma visão em primeira mão do clima sombrio na Casa Branca após a derrota de Trump para Clinton. Como muitos, Earnest "ficou muito surpreso". "Não achei que ele fosse ganhar", disse ele.

Muitos funcionários da comunicação de Obama estavam visivelmente desmoralizados, e Earnest disse que ele e seus assessores decidiram reuni-los, falar sobre a vitória de Trump e tentar redirecioná-los para os últimos dois meses no cargo.

Durante a conversa, Obama convocou Earnest para discutir a logística de um discurso transmitido em rede nacional que ele planejava proferir no Jardim de Rosas da Casa Branca. Earnest lembrou-se de Obama ter perguntado como estavam as coisas com a equipe naquela manhã – ao que ele respondeu que estavam "emocionados".

Obama então pediu a um assistente que chamasse a equipe ao Salão Oval. Ele se posicionou em frente à Mesa Resoluta, perto de seu vice-presidente, Joe Biden, que mais tarde sucederia Trump na Casa Branca, e lhes entregou uma versão inicial do discurso que proferiu naquele dia.

“Temos que lembrar que, na verdade, estamos todos no mesmo time”, dizia parte do discurso. “Somos americanos em primeiro lugar. Somos patriotas em primeiro lugar. Todos nós queremos o melhor para este país.”

Como Earnest observou, o fotógrafo oficial da Casa Branca de Obama, Pete Souza, capturou a cena com sua câmera. Ele lembrou que era a primeira vez que tantas pessoas presentes naquele dia estavam no Salão Oval.

“Foi muito comovente”, disse Earnest à apresentadora do chat, a âncora de notícias Tanja Babich, da ABC7 Chicago.

Um dos maiores críticos de Earnest após a vitória de Trump foi o próprio presidente eleito. Trump chamou Earnest de "cara tolo" em um comício em dezembro de 2016.

"Ele é tão ruim – na maneira como transmite uma mensagem", disse Trump sobre Earnest depois que este defendeu a avaliação da comunidade de inteligência dos EUA sobre a interferência da Rússia.

Earnest é um dos principais porta-vozes da United Airlines na sede da empresa em Chicago desde 2018. Ele passou algum tempo como comentarista de mídia no início do primeiro dos dois mandatos de Trump. Mas Earnest disse a Babich que não achou isso "particularmente gratificante", considerando que o estilo de governo imprevisível e caótico de Trump pode frequentemente desorientar os meios de comunicação.

"As perguntas poderiam ser resumidas a: 'Não é um absurdo o que Trump está fazendo?'", disse Earnest. "E a questão passou a ser encontrar maneiras diferentes de dizer 'sim'."

"Eu não estava fazendo jornalismo. Eu estava fazendo comentários. E era bem próximo do entretenimento."

 

Fonte: BBC News Mundo/The Guardian

 

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