A
controversa corrida pela mineração em águas profundas
Enquanto
começam as negociações oficiais na Jamaica sobre as regras necessárias para
preservar o fundo dos oceanos para as próximas gerações, a primeira operação
comercial de mineração em águas profundas do mundo em águas internacionais pode
estar prestes a começar.
A
Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA (NOAA) ainda não anunciou
formalmente se analisará um pedido controverso para a extração de metais do
fundo do mar.
Mas se,
como esperado, a agência classificar o pedido como "pronto para
análise", terá seis meses para decidir se a startup canadense The Metals
Company (TMC) poderá dar início à mineração em águas profundas.
A TMC
entrou com um pedido depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, assinou uma
ordem executiva em abril para acelerar as reivindicações privadas de exploração
do fundo dos oceanos em busca de minerais preciosos, embora ainda não existam
regras globais para esta atividade.
De
acordo com a legislação da ONU, as águas internacionais são consideradas
"patrimônio comum da humanidade" por 169 países e pela União Europeia
(UE). Ao contrário dos EUA, todos esses países são membros da Autoridade
Internacional dos Fundos Marinhos (ISA),criada para proteger os ecossistemas
das profundezas do oceano. A entidade não permite a mineração em águas
profundas, embora tenha emitido algumas licenças de exploração.
O fundo
do mar contém ricos depósitos de minerais como cobre, cobalto e níquel e outros
considerados importantes para baterias de veículos elétricos e para a transição
para a energia verde, o que torna as águas profundas muito atraentes para
empresas de mineração como a TMC.
A
empresa e o governo Trump consideram qualquer atividade de mineração com base
no decreto presidencial de abril como uma questão de segurança nacional e uma
forma de competir com a China, que domina o mercado de elementos de terras
raras.
Entretanto,
cientistas, especialistas jurídicos e analistas da indústria alertam que os
riscos para o clima, o direito internacional e o próprio oceano podem superar
os benefícios.
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CEO com histórico fraudulento
Esta
não é a primeira vez que Gerrard Barron, CEO da TMC, faz uma aposta ousada na
mineração oceânica. Há uma década, ele foi um dos primeiros investidores de uma
empresa canadense chamada Nautilus Minerals, que se comprometeu a extrair
metais, incluindo cobre e ouro, do fundo do mar da Papua-Nova Guiné, uma nação
insular do Pacífico.
Pouco
mais de uma década após abrir o capital na Bolsa de Valores de Toronto em 2007
e captar centenas de milhões de investidores, a Nautilus faliu sem nunca ter
explorado comercialmente o mar. Barron desistiu cedo e, segundo relatos, saiu
com aproximadamente 30 milhões de dólares (R$ 167 milhões).
Papua-Nova
Guiné, que tem recursos limitados para investir em infraestrutura, educação ou
saúde, ficou com equipamentos enferrujados e mais de 120 milhões de dólares em
prejuízos públicos.
A TMC
iniciou sua fase atual como DeepGreen, fundada em 2011 pelo ex-CEO da Nautilus
Minerals, David Heydon. Posteriormente, Gerrard Barron assumiu e se tornou CEO
e, antes da abertura de capital da empresa, em 2021, ele a rebatizou como The
Metals Company.
Desta
vez, a ideia é realizar mineração em alto mar, em águas internacionais. Para
isso, a TMC adquiriu subsidiárias nas pequenas nações insulares de Nauru, Tonga
e Kiribati, no Pacífico. Atuando como patrocinadoras estatais, elas solicitaram
junto à ISA autorização para contratos de exploração na Zona Clarion Clipperton
– um leito marinho internacional rico em nódulos polimetálicos. Embora a
mineração em águas profundas não tivesse sido chancelada, a ISA chegou a
considerar uma flexibilização das regras.
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"Eleição de Trump foi ótima notícia para nós"
No
final de 2023, a TMC enfrentou um dilema. A ISA não havia estabelecido regras
para a mineração comercial, e uma lista crescente de governos europeus,
incluindo Alemanha, Espanha e Suécia, bem como vários Estados insulares do
Pacífico, havia declarado moratórias nacionais ou "pausas
preventivas" sobre a prática. Isso fez com que o valor das ações da TMC
despencasse, e o índice Nasdaq ameaçou fechar o capital.
Assim,
a TMC decidiu mudar de tática, de acordo com informações compiladas pela
unidade de investigação da ramificação da ONG Greenpeace na Alemanha e pela
organização sem fins lucrativos Coletivo de Dados Anticorrupção, sediada nos
EUA.
Dados
vistos e analisados pela DW mostram que a TMC mudou sua estratégia de lobby dos
comitês de política oceânica, onde a resistência ambiental era mais forte, para
as autoridades de defesa e segurança nacional dos EUA, sob o argumento de que
os minerais do fundo do mar não eram apenas um recurso de tecnologia verde, mas
uma arma de segurança nacional contra a China.
Em uma
entrevista anterior à DW, Barron disse que "a eleição de Trump foi uma
ótima notícia para nós". De fato, poucas semanas após o presidente dos EUA
assinar seu decreto sobre mineração em águas profundas, as ações da TMC
dispararam. Elas passaram de 0,81 dólares no final de 2023 para 6,81 em junho
deste ano.
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Qual a importância desses metais?
A TMC
também sustenta que seus planos de mineração seriam essenciais para a transição
para a energia limpa. Entre outros metais, os nódulos que a empresa espera
recuperar do fundo do mar contêm cobalto e níquel, que antes dominavam as
baterias de veículos elétricos, e cobre, que alimenta quase todos os sistemas
elétricos. Contudo, as previsões de demanda estão evoluindo.
"A
composição química das baterias mudou drasticamente", disse Tony Dutzik,
analista sênior do grupo de estudos de política ambiental Frontier Group,
sediado nos EUA.
As
baterias LFP, que não usam cobalto ou níquel, agora representam mais de 50% das
baterias globais de veículos elétricos, de acordo com números recentes da AIE.
"Isso reduz a urgência", disse Dutzik.
De
acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), a demanda por cobalto e
níquel agora deve dobrar em cenários de emissões zero até 2040, uma perspectiva
mais modesta do que as expectativas anteriores de um crescimento ainda mais
acentuado.
Ao
mesmo tempo, a AIE estima que mais da metade da demanda por cobalto e 12% do
níquel poderiam ser atendidos por meio da reciclagem. "De acordo com as
próprias estimativas da ISA, o cobre proveniente da mineração em águas
profundas atenderia apenas cerca de 1% da demanda global até 2035",
afirmou Dutzik. "Se nos concentrássemos mais seriamente na reciclagem e em
design mais inteligentes de produtos [...] poderíamos reduzir
significativamente a necessidade de novas minas, seja em terra ou no mar."
A TMC
não respondeu a um pedido de comentários adicionais sobre suas mudanças de
narrativa no que diz respeito à importância da mineração em águas profundas.
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Segurança nacional ou manipulação política?
Alex
Gilbert, analista de energia e recursos do Instituto Payne, afirma que "o
verdadeiro elemento-chave é o processamento", acrescentando que é
"onde a China está explicitamente exercendo controle neste momento".
Como a maior parte do processamento é feita na China, ele afirma que o acesso à
mineração por si só não afrouxaria o controle de Pequim.
Mesmo
assim, Gilbert diz que, se nódulos em águas profundas forem
"comprovadamente viáveis", eles podem ser "potencialmente uma
parte da solução, mas não a solução". Dos cerca de 50 minerais que
Washington considera críticos, os nódulos polimetálicos cobrem quatro. "Se
a mineração em águas profundas puder ajudar com esses quatro, será um benefício
real", disse ele, contanto que os Estados Unidos, ou aliados próximos,
construam em terra as primeiras refinarias dedicadas aos nódulos.
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Possíveis danos ao fundo dos oceanos?
A TMC
insiste que seu impacto no fundo do mar será mínimo e que as operações de teste
são promissoras para a recuperação do ecossistema ao longo do tempo. Mas
biólogos de águas profundas, como Beth Orcutt, permanecem incrédulos.
Em
locais onde testes de mineração em pequena escala foram realizados na década de
1980, a cientista sênior do Laboratório Bigelow de Ciências Oceânicas, no
Maine, disse que décadas depois a vida microbiana ainda não havia se
recuperado. "Estas não são zonas mortas. São sistemas vivos",
explicou.
A
pesquisa de Orcutt mostra que as comunidades microbianas sustentam funções
essenciais do ecossistema, incluindo o ciclo do carbono, a retenção de
nutrientes e, possivelmente, até a produção de oxigênio.
"Ainda
não entendemos o que estamos destruindo", disse a pesquisadora. "Uma
vez que isso desaparece, não podemos trazer de volta."
Fonte:
DW Brasil

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