quinta-feira, 3 de julho de 2025

3 dicas para evitar que desentendimentos em uma discussão se transformem em briga

Discordar faz parte da natureza humana. Não somos todos iguais.

Mas, enquanto uma pequena discordância pode ser conduzida de forma tranquila, principalmente por mensagem ou na internet — onde podemos editar nossas respostas — uma discussão cara a cara sobre um tema delicado pode rapidamente virar um confronto mais pesado.

É possível que você tenha passado por isso durante as festas de fim de ano, quando passamos mais tempo com nossos familiares. Nessas horas, é comum que tensões antigas venham à tona.

Uma discussão pode começar por inúmeros motivos, desde uma divergência política até o comportamento do outro, algo bem familiar para quem passa muito tempo nas redes sociais.

E quanto mais forte for uma opinião, mais intensa e complexa uma discussão pode ficar.

Então, o que podemos fazer para evitar que uma discussão pequena vire uma briga, seja na internet ou pessoalmente?

Como especialista em interações sociais, acredito que prestar atenção no que dizemos para a outra pessoa — e como dizemos — é fundamental, além de aprender a evitar respostas que podem ser um "tiro no pé".

Lembre-se que discordar faz parte da vida e das relações.

Aqui vão três dicas essenciais para evitar que uma divergência de opinião vire algo mais sério.

>>> 1. Contenha o clima de tensão

Se você não concorda com alguém, mantenha a conversa de forma produtiva, evitando insultos diretos. Além disso, procure evitar ações que possam colocar a outra pessoa em uma posição de confronto, como acusações ou sarcasmos.

A gente costuma focar muito no conteúdo de uma discussão, e também nas nossas suposições sobre o que a outra pessoa realmente pensa.

Sobre o que é a discussão? É apenas um mal-entendido, ou é uma questão de personalidade, em que uma das pessoas está enviesada ou tem algum interesse escondido?

Nos importamos muito se a pessoa realmente acredita no que está dizendo. Os estudos mostram que, muitas vezes, nos incomodamos quando alguém faz o papel de "advogado do diabo" fora de certos contextos.

Mas não é possível saber das reais intenções do outro, por isso, é melhor evitar pensar o pior da pessoa com quem estamos discutimos.

Caso contrário, você pode acabar falando de forma injusta, como se a pessoa estivesse sendo manipuladora, prejudicial ou sem consideração.

>>> 2. Mantenha a cabeça aberta

Às vezes, o que alguém diz pode soar muito mal. Quando isso acontecer, leve em conta duas coisas.

Primeiro, nada do que dizemos tem um único significado. Há várias interpretações possíveis, e nem sempre dá para confiar naquela primeira ideia que vem à cabeça no calor do momento.

Durante uma discussão, vale a pena parar um pouco e pensar em todas as interpretações possíveis do que foi dito. Considere pedir um tempo para refletir ou até tomar um café, algo que consiga tirar aquele clima de tensão.

Segundo, se o que uma pessoa falou continua soando negativo, por mais compreensivo que você tenha tentado ser, peça a ela para explicar melhor. Pode não ser fácil, mas as pessoas acabam mostrando o que realmente queriam dizer quando precisam detalhar mais.

Fazer com que ela sinta que está sendo ouvida com atenção pode ajudar a desarmar uma briga antes que ela piore.

>>> 3. Foque no que importa

Há outro lado da moeda: escolher cuidadosamente o que você diz e pensar na imagem que quer passar.

Qualquer pessoa pode acabar entrando em uma discussão e falar algo de que vai se arrepender depois, inclusive você.

Algo que exige um equilíbrio cuidadoso é a "metacomunicação", ou seja, dar uma pausa para conversar sobre a própria discussão que está acontecendo e sobre a forma que está sendo conduzida.

Isso pode ser útil, por exemplo, se você quiser pedir para focar em um ponto específico ou algo mais concreto da conversa. Contudo, isso também pode ser interpretado como uma crítica à outra pessoa.

Se decidir falar sobre a forma com que a discussão está sendo conduzida, pode ser importante incluir um pedido de desculpas ou falar em um tom mais baixo para evitar que a outra pessoa pensa que você está a acusando de estar "discutindo errado".

É desafiador, então não se sinta mal se não se sair bem na primeira vez que tentar.

<><> Temos os mesmos valores?

As pessoas não discutem por discutir. Um dos principais motivos para uma discussão é se posicionar em relação aos outros. Estamos do mesmo lado e temos os mesmos valores?

As discussões também estão ligadas à identidade. As polêmicas geram sentimentos fortes. Temos consciência que podemos ser julgados pelas nossas opiniões, e presumimos que os outros também se sintam julgados por nós.

Esse julgamento mútuo pode se intensificar facilmente, não apenas durante uma discussão, mas na relação como um todo, provocando um afastamento temporário ou até a perda de uma amizade.

As pessoas que querem evitar chegar nesse ponto geralmente pensam que a solução é deixar de lado os sentimentos e "se ater aos fatos".

Mas, negar uma reação emocional pode ser como negar o próprio compromisso com uma causa importante. Reconhecer que alguém se sente assim é um passo importante para entender sobre o que vale a pena tentar mudar a opinião e o que é melhor deixar de lado, pelo menos por enquanto.

•        O segredo para ter conversas melhores

Conversas ricas e profundas podem ser maravilhosas, mas parecem cada vez mais raras no nosso dia a dia.

Seja com o parceiro, membros da família ou colegas, começamos facilmente a falar de coisas diferentes ou entramos muitas em disputas sem sentido, sem conseguirmos nos entender direito.

Para descobrir, conversei com o jornalista e escritor Charles Duhigg (Dúig), autor de O Poder do Hábito: porque fazemos o que fazemos na vida e nos negócios e Mais Rápido e Melhor: os segredos da produtividade na vida e nos negócios, ambos lançados no Brasil pela editora Objetiva.

Duhigg acabou de lançar Supercomunicadores: como desbloquear a linguagem secreta da comunicação.

>>> Confira abaixo a entrevista.

•        David Robson: Como você define um supercomunicador?

Charles Duhigg: Tenho uma pergunta. Se você estiver em um dia ruim e quiser ligar para um amigo, sabendo que falar com aquela pessoa faria você se sentir melhor – vem algum nome à sua mente?

•        Robson: Com certeza, eu penso imediatamente em uma das minhas melhores amigas.

Duhigg: Então, para você, ela é uma supercomunicadora – e, provavelmente, você é um supercomunicador para ela. Vocês dois sabem como ouvir um ao outro de forma que vocês realmente escutem o que a outra pessoa está dizendo.

E vocês sabem comprovar que estão ouvindo. Você sabe fazer as perguntas certas, as questões que realmente fazem você perceber coisas sobre si próprio, e ela oferece evidências de que quer estar presente para você.

Agora, algumas pessoas fazem isso consistentemente. Elas conseguem se conectar com quase qualquer pessoa. E essas pessoas são supercomunicadores consistentes.

Quando comecei a escrever este livro, imaginei que essas pessoas deveriam ser realmente carismáticas ou extrovertidas. Mas o resultado é que se trata simplesmente de um conjunto de técnicas ou ferramentas que qualquer pessoa pode aprender.

•        Robson: O que a neurociência nos conta sobre os segredos da boa comunicação?

Duhigg: Quando há uma comunicação entre duas pessoas, há também um engajamento de corpo e cérebro. As pupilas dos olhos começam a se dilatar basicamente à mesma velocidade e os nossos padrões de respiração começam a se igualar.

E, o mais importante, nossa atividade neural se torna cada vez mais parecida, à medida que começamos a pensar da mesma forma.

A questão sobre a comunicação é que eu posso descrever uma emoção que estou sentindo ou uma ideia que estou vivendo e você sente alguma versão daquilo. Os nossos cérebros passam a ficar cada vez mais parecidos.

•        Robson: No seu livro, você menciona pesquisas surpreendentes do neurocientista Beau Sievers, que revela como os supercomunicadores alteram a dinâmica do grupo.

Duhigg: É realmente fascinante. Ele reuniu grupos de pessoas e pediu que eles discutissem trechos de filmes que realmente eram confusos.

Ele descobriu que alguns grupos simplesmente se uniram e se conectaram – e as suas respostas eram muito melhores.

Dentro de cada um daqueles grupos, havia pelo menos uma pessoa que era um supercomunicador. Eles faziam coisas como perguntar 10-20 vezes mais questões do que a média das pessoas.

Algumas das suas perguntas se destinavam a convidar outras pessoas para o diálogo, enquanto outras permitiam que as demais pessoas expusessem algo mais significativo sobre si próprias.

Mas o mais importante é que eles reconheciam que havia diferentes tipos de conversa.

A maioria de nós acha que uma discussão é sobre um assunto. Estamos falando sobre o meu dia no trabalho ou sobre as notas do meu filho.

Mas, na verdade, toda discussão é composta de diferentes tipos de conversa e a maioria se enquadra em um desses três tipos.

Existem conversas práticas, quando fazemos planos ou resolvemos problemas. Existem conversas emocionais, quando eu conto a você como estou me sentindo e quero que você ouça e se solidarize comigo.

E existem as conversas sociais, que são como nos relacionamos com os demais e as identidades sociais que carregamos conosco.

Sievers descobriu que os supercomunicadores são tão eficazes porque eles prestam atenção ao tipo de conversa que está ocorrendo. Eles se adaptam às outras pessoas do grupo e convidam essas pessoas a também se adaptarem. Por isso, todos eles têm o mesmo tipo de conversa ao mesmo tempo.

•        Robson: Isso me lembra a pesquisa da psicóloga Anita Williams Woolley sobre inteligência coletiva. Ela concluiu que a sensibilidade social individual dos membros de uma equipe determina sua capacidade de resolver problemas juntos.

Duhigg: Certamente e, quando você pensa no que chamamos de sensibilidade social ou de ter empatia, isso realmente significa que você está simplesmente prestando atenção no que a outra pessoa está dizendo que precisa no momento e qual tipo de conversa ela quer ter.

•        Robson: Você defende que devemos fazer mais perguntas "profundas". Por quê?

Duhigg: As questões profundas perguntam a alguém sobre seus valores, crenças ou experiências.

Quando falamos sobre essas coisas, nós falamos sobre quem realmente somos. E são perguntas realmente fáceis de fazer, não é verdade?

Se você encontrar alguém que é médico, pode perguntar: "o que fez você decidir cursar a faculdade de medicina?" ou "do que você mais gosta sobre a prática da medicina?"

São duas questões profundas, que convidam a outra pessoa a dizer algo real e significativo sobre si mesma. E facilitam uma reciprocidade, para que nós possamos falar sobre por que decidimos fazer nosso trabalho.

•        Robson: Bem, nesta entrevista, eu queria fazer a você uma questão profunda. Quais experiências pessoais levaram você a escrever o livro Supercommunicators?

Duhigg: Eu trabalhava como gerente na época e, na verdade, eu era terrível naquele trabalho. Eu era bom na parte de estratégia e logística, mas a comunicação era minha dificuldade.

Eu caía em um mesmo padrão com a minha esposa. Eu chegava em casa depois de um longo dia de trabalho e começava a reclamar do meu chefe e dos meus colegas.

E ela, com toda razão, dava alguns conselhos, como "por que você não leva o seu chefe para almoçar, para que vocês possam se conhecer um pouco melhor?"

Mas, em vez de conseguir ouvi-la, eu ficava ainda mais irritado. E, então, ela também ficava irritada, porque, de repente, eu começava a gritar com ela, simplesmente porque ela me deu um conselho.

Quando contei isso aos pesquisadores, eles disseram que eu estava tentando ter uma conversa emocional, enquanto minha esposa tinha uma conversa prática. Se vocês não tiverem o mesmo tipo de conversa ao mesmo tempo, vocês realmente não irão ouvir um ao outro e, definitivamente, não irão se conectar.

Isso é conhecido na psicologia como o princípio da combinação. A comunicação real exige que vocês tenham o mesmo tipo de conversa ao mesmo tempo.

•        Robson: Qual o papel da comunicação não verbal?

Duhigg: Sabemos que cerca de 50% da forma com que enviamos sinais e recebemos informações em uma conversa não estão ligados ao conteúdo das palavras, mas a tudo o que nos rodeia: o tom de voz, a velocidade da fala, a linguagem corporal, as expressões no rosto.

O nosso cérebro tem essa capacidade de detectar o que as pessoas sentem, prestando atenção a duas coisas: a energia e o humor.

Os bebês conseguem perceber o humor dos seus pais, mesmo antes de aprender a falar ou entender as palavras.

Mas, quando ficamos mais velhos, as palavras se tornam tão cativantes, tão ricas de informações, que nossa tendência é parar de prestar atenção a todo o resto e, às vezes, precisamos nos relembrar de fazer isso.

•        Robson: No seu livro, você ilustra isso com a série The Big Bang Theory...

Duhigg: No início, The Big Bang Theory foi um completo fiasco. Ela teve sucesso porque os roteiristas descobriram como fazer os personagens expressarem seus sentimentos sem usar palavras.

A série é sobre esses físicos que são muito ruins em transmitir suas emoções ou sentimentos. É daí que vem o humor – eles são muito esquisitos e é aí que está a graça.

Mas a questão é como escrever uma comédia quando seus personagens principais não conseguem fazer o telespectador entender o que eles estão pensando ou sentindo.

Após o fracasso do primeiro piloto, os roteiristas criaram uma nova receita, na qual cada um dos personagens demonstra o que está sentindo através do seu astral e sua energia.

Por isso, no novo piloto, há uma cena em que dois físicos encontram aquela bela mulher, Penny, pela primeira vez e tudo o que eles dizem é "olá", "olá" e "olá". Mas, a cada vez em que eles dizem "olá", eles dizem de forma diferente.

Eles alteram o humor, mudam a energia e [subitamente] você sabe exatamente o que eles estão sentindo. No início, eles estão animados, depois eles se sentem realmente constrangidos, então sentem que precisam meio que recuar, mesmo sem mudar as palavras.

Com apenas suas mudanças de humor e energia, nós, o público, sabemos o que eles estão pensando e sentindo. E o mesmo é verdadeiro sobre qualquer conversa que ocorra.

•        Robson: Como escrever sobre a supercomunicação mudou sua vida?

Duhigg: Agora, no início de praticamente qualquer conversa, minha esposa e eu falamos sobre qual tipo de conversa queremos ter.

Liz dirá algo como "você quer que eu ajude você a resolver este problema? Ou você precisa apenas respirar e tirar isso do peito?" E eu faço a mesma coisa com ela.

Então provamos um ao outro que estamos realmente ouvindo, com perguntas complementares ou repetindo o que o outro disse.

O mais importante é que simplesmente mostramos um ao outro - e dizemos um ao outro - que queremos nos conectar. Porque, quando sabemos que alguém quer se conectar conosco, nós queremos nos conectar com essa pessoa.

 

Fonte: Por Jessica Robles, para The Conversation/BBC Future

 

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