Tarnoff:
Convite para reimaginar a internet
“Se a
internet está quebrada, como podemos consertá-la?” Essa é a pergunta feita pelo
escritor de tecnologia Ben Tarnoff em Internet para o Povo, livro de 2022 que
examina a origem histórica da internet, com foco na propriedade da
infraestrutura que a possibilita. Tarnoff oferece uma análise crítica e
informativa, traçando a evolução da internet desde suas raízes como um projeto
financiado pelo governo dos EUA até seu estado atual, dominado por gigantes da
tecnologia, além de abordar os principais problemas que ela enfrenta hoje.
Ao
mesmo tempo, o livro serve como um manifesto que defende alternativas ao atual
modelo oligopolista. Tarnoff destaca diversos experimentos e iniciativas que
exploram abordagens diferentes para o design, a propriedade e a governança das
redes. Esses esforços iluminam um caminho relativamente inexplorado, no qual as
próprias pessoas que usam a tecnologia diariamente podem participar ativa e
democraticamente de sua gestão e desenvolvimento.
• O título do seu livro fala em “o povo”.
O uso da palavra “povo” em vez de “usuários” ajuda a resgatar um certo sentido
de cidadania?
Como
usuários, somos concebidos em um papel um tanto passivo em nossa capacidade.
Isso limita nossa imaginação sobre que tipo de relação poderíamos ter com a
esfera digital. A ideia de falar sobre de pessoas em vez de usuários é gerar o
conceito de cidadania digital, mas também evoca uma coletividade política. O
plural versus o individual. A internet geralmente nos interpela como indivíduos
isolados em casa, diante de nossas telas, mas não acho que essa seja a única
forma de interagir com a internet. A maioria das palavras que usamos para
descrever aspectos do ambiente digital nos é fornecida pela indústria:
plataforma, nuvem, até mesmo inteligência artificial. A indústria já está
politizando a linguagem. Imagino o que aconteceria se fizéssemos o mesmo, desenvolvendo
metáforas diferentes.
• Você começa usando a metáfora dos
“canos” — a infraestrutura que possibilita a internet. Por que, apesar de seu
papel crucial, raramente falamos sobre eles?
Simplesmente
presumimos que eles funcionam. É algo invisível até você receber sua fatura
mensal de banda larga e pensar: “Por que isso custa tão caro?” Os EUA pagam
algumas das tarifas mais altas do mundo por um dos piores serviços de internet,
o que está ligado ao alto nível de concentração do mercado de banda larga no
país. Precisamos prestar mais atenção porque há concentrações de poder muito
importantes nessa camada, além de oportunidades para intervenções construtivas
que podem levar a internet a uma alternativa mais democrática.
• O Estado deveria garantir acesso
universal?
Certamente
acredito que sim. Essas discussões parecem muito específicas, mas, ao
debatê-las, percebemos que há questões de ordem superior por trás delas. Por
exemplo, o significado da democracia. Pode parecer fora de contexto, mas, para
mim, é importante porque quis basear meus argumentos não como uma intervenção
política suficiente em um sentido tecnocrático restrito, mas sim nesses valores
morais e políticos mais amplos que precisamos ter em mente ao pensar na
governança da internet.
Se
definirmos democracia em seu sentido original estrito — como a possibilidade de
as pessoas se autogovernarem —, então precisamos de duas coisas. O primeiro
princípio é que as pessoas tenham recursos para levar vidas autodeterminadas.
Você não pode ter uma vida autodeterminada se estiver passando fome, sem-teto
ou doente. Se aplicarmos esses princípios ao acesso à internet, podemos dizer
que uma conexão de alta qualidade, rápida e confiável é um pré-requisito básico
para a participação na sociedade moderna. Vimos isso durante a pandemia nos
EUA, onde as pessoas se reuniam em estacionamentos públicos para conseguir
acesso à internet, porque as crianças precisavam fazer lições, os pais
precisavam acessar seguro-desemprego e os avós queriam conversar por Skype com
os netos.
• E o segundo princípio?
As
pessoas precisam ter um grau de participação nas decisões que mais as afetam.
Isso é impossível em um sistema privatizado. É assim que democratizaríamos os
“canos” da internet.
• Você aposta em um modelo de
infraestrutura comunitária?
Nos
EUA, temos centenas de redes comunitárias, de propriedade pública ou
cooperativa, como as cooperativas rurais da Dakota do Norte. Elas oferecem
velocidades maiores a custos menores do que as gigantes monopolistas. E,
crucialmente, incorporam a participação democrática em suas operações
cotidianas. Essas cooperativas surgiram durante o New Deal, quando o governo
tentava eletrificar áreas rurais pobres, e recebem isenções fiscais federais.
Para isso, precisam cumprir condições, como realizar eleições regulares para
seu conselho. São entidades democraticamente geridas que prestam serviços a
seus membros-proprietários. Isso nos EUA, mas redes assim existem globalmente,
como o Guifi.net na Catalunha [Espanha].
• Como a parceria entre o ex-presidente
Donald Trump e o Vale do Silício impacta o cenário político nos EUA hoje?
A
aquisição do Twitter por Elon Musk ilustrou os perigos de termos nosso
ecossistema informacional tão vulnerável às pressões do mercado. Há uma
tendência de tratar a internet como exceção. Sua natureza algorítmica
transforma essas plataformas em mecanismos de disseminação de informações. O
cenário atual é sombrio em muitos aspectos. Há uma percepção crescente desse
aspecto fraudulento e descuidado de grande parte da internet contemporânea.
Parece que a qualidade de nossa experiência online se degradou nos últimos
anos. E parte disso, creio, é a proliferação de lixo gerado por IA. Não estou
particularmente otimista sobre as perspectivas de mobilização em torno da
internet, mas também não estou otimista sobre perspectivas de mobilização
social mais ampla nos EUA. O primeiro mandato de Trump foi bastante politizador
para muitas pessoas, mas o clima agora é bem diferente.
• Você compara as grandes plataformas a um
shopping center online. Temos a sensação de sermos consumidores quando as
usamos?
O
aspecto arquitetônico inspira essa metáfora. Shoppings são projetados para
fazer você comprar, e há certos aspectos do layout das plataformas que
incentivam comportamentos que podem ser monetizados por essas empresas. Mas o
shopping é um espaço onde as pessoas têm um grau de liberdade, e isso é importante.
Às vezes essas plataformas são apresentadas de forma conspiratória como
máquinas de lavagem cerebral. Não é bem assim que funcionam. Na verdade, é
importante que os usuários tenham a percepção de que são autônomos. Essa
percepção pode não corresponder totalmente à realidade, mas eles têm graus de
liberdade que tornam a experiência na plataforma prazerosa.
Se você
fosse um adolescente americano crescendo nos subúrbios, frequentando shoppings,
saberia que há um grau de liberdade nesses ambientes. Há jovens andando de
skate onde não deveriam. Adolescentes que não compram nada e usam drogas no
banheiro. Existem todos esses cantos e recantos nessas estruturas digitais onde
uma certa dose de autonomia e criatividade é possível, o que deve ser
celebrado. A questão, porém, é: como começar a desenvolver arquiteturas
alternativas que possam substituir esses shoppings online ou reduzir o espaço
que ocupam?
• Qual é a dificuldade em fazer esses
espaços digitais mais horizontais funcionarem?
Há
problemas muito enraizados. Nos EUA, está relacionado ao declínio da vida
comunitária, da vida cívica, dos sindicatos, associações de bairro, clubes… Há
um esvaziamento da sociedade e um aumento concomitante do isolamento social que
dificulta a coesão de certas formas de associação, especialmente a política,
como ocorria ao longo do século XX.
• Qual papel a regulamentação do setor
desempenha na democratização da internet?
A
regulamentação da internet pode produzir diversos efeitos, então precisamos ser
precisos quanto aos objetivos. Meus objetivos são a criação de entidades de
propriedade pública e cooperativa que possam incorporar os princípios da
participação democrática em suas operações cotidianas e começar a assumir
certas funções em nossa esfera digital que atualmente são desempenhadas por
grandes entidades com fins lucrativos, seja no nível de provisão de serviços de
internet (os chamados “canos”), seja em níveis superiores na organização de
nossas atividades online no nível das plataformas. Essa seria minha declaração
de missão.
Políticas
públicas poderiam ser uma ferramenta poderosa para promover o desenvolvimento
dessas alternativas e talvez provê-las com recursos extraídos das grandes
empresas. Sou totalmente a favor dessa forma de redistribuição. Mas, na minha
opinião, a regulamentação europeia parte do pressuposto de que a internet
permanecerá como um domínio privado com fins lucrativos, e que o propósito é
simplesmente estabelecer as regras do jogo e punir corporações que as violem.
Não nego que possa ter alguns efeitos positivos, como na proteção de dados. Mas
precisamos ampliar nossa imaginação sobre como usar as alavancas do setor
público – orçamentos, subsídios, incentivos fiscais etc. – para cultivar a
proliferação desse setor alternativo. Isso não vai acontecer por si só.
Realmente precisa de várias formas de apoio estatal.
• Resolver os problemas da internet é um
teste para a imaginação?
Acredito
muito no poder político da imaginação, mas imaginação não é algo que ocorre na
mente de um indivíduo sozinho em seu quarto. A imaginação em sua plenitude é
uma prática coletiva encarnada. É esse tipo de imaginação que precisamos para
desenvolver um conjunto alternativo de instituições para nossa esfera digital.
A privatização da internet, ocorrida desde meados dos anos 1990 até hoje,
exigiu transformar essa rede construída pelo governo dos EUA em uma rede que
servisse ao princípio de maximização de lucros. Portanto, se quisermos
desenvolver um tipo diferente de internet que não seja privada, ou
desprivatizar uma parte dela, esse processo precisa ser igualmente criativo.
Trata-se de encontrar as formas adequadas de vida social e organizacional que possam
governar a internet democraticamente.
Fonte:
Ben Tarnoff em entrevista a Alba Correa, no El Pais | Tradução: Rôney
Rodrigues, em Outras Palavras

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