quinta-feira, 19 de junho de 2025

Ricardo Queiroz Pinheiro: No fio da navalha

A direita brasileira caminha sobre um fio tenso e afiado. Precisa manter o apoio da base popular mobilizada pelo bolsonarismo, mas ao mesmo tempo quer se livrar do mau cheiro do próprio Bolsonaro. A equação é incômoda: como garantir o voto das camadas populares sem abrir mão da agenda de austeridade, privatização e desmonte dos direitos sociais? A solução buscada é uma engenharia híbrida — manter a linguagem de apelo popular, a retórica moralista e a agitação cultural, mas entregar a execução estrutural à ortodoxia fiscal e aos interesses do grande capital.

Essa ambição exige um malabarismo. O bolsonarismo revelou a existência de um eleitorado disposto a defender a ordem, mesmo quando ela vem revestida de brutalidade e perda de direitos. Mas o capital não precisa de descontrole; quer eficiência e subserviência. As trapalhadas institucionais, a retórica paranoica e o flerte com o caos permanente se tornaram incômodos para os gestores do projeto. O que se busca agora é um operador confiável: alguém que saiba dialogar com a base popular, mas que aceite tocar a partitura do tripé macroeconômico sem desafinar.

Não é um plano improvisado. Os movimentos são meticulosos. A elite quer preservar o impulso de direita no voto popular, mas sem dar espaço a um líder que fuja ao controle. O ideal é uma figura palatável, com aparência de equilíbrio e espírito conciliador, mas que, na prática, seja funcional à agenda do mercado. Um presidente fraco, neutralizado desde o início, ou — melhor ainda — um arranjo institucional que retire do Executivo qualquer poder efetivo. A principal expressão disso é a tríade: orçamento secreto, autonomia do Banco Central e judicialização da política.

A contenção do Executivo não depende mais de mudanças formais no regime político. Ela já opera, de maneira eficaz, por meio de uma tríade silenciosa: o orçamento secreto, que desloca o centro das decisões para o balcão do Centrão; a autonomia do Banco Central, que entrega o poder monetário a um núcleo blindado ao debate público; e a judicialização da política, que transforma o Judiciário em instância permanente de veto e/ou concessão. Juntas, essas engrenagens compõem uma arquitetura de bloqueio — pensada para neutralizar qualquer tentativa de reverter, mesmo que parcialmente, o programa neoliberal. O voto segue existindo, mas sua potência transformadora é amputada por fora.

Há, porém, uma complexidade que não pode ser ignorada. Não se trata de uma elite que domina contra o povo, mas que frequentemente obtém o consentimento ativo de parcelas expressivas dele. A adesão de segmentos populares à agenda neoliberal — marcada pela aversão à política institucional, pela idealização da ordem e por códigos morais conservadores — não nasce do acaso. Ela é cultivada por uma teia de mediações simbólicas que moldam visões de mundo, afetos e valores cotidianos. Nesse terreno, a disputa por sentido antecede e molda a disputa por poder. É aí que a guerra cultural entra: não como desvio retórico, mas como engrenagem essencial do projeto. Por meio dela, o neoliberalismo se apresenta como valor moral e o mercado como justiça superior — não imposta, mas desejada.

O bolsonarismo, nesse sentido, não é um acidente: é a expressão da capacidade do capital de traduzir seu projeto em afetos compartilhados. Combina cortes de direitos com retórica de redenção. Desmonta políticas públicas enquanto afirma proteger a família, a segurança e a liberdade. A lógica é brutal e eficaz: é possível perder renda, saúde, moradia — desde que se mantenha a sensação de pertencimento a uma ordem hierárquica que castigue os “outros”. A direita entendeu isso. E agora quer repetir a fórmula sem o elemento imprevisível: o próprio Bolsonaro.

Não há aqui contradição simples entre voto popular e projeto neoliberal. Há disputa — e o capital aprendeu a vencê-la por dentro. Através da mídia, das igrejas, dos aplicativos, dos algoritmos e das redes de sociabilidade concreta, molda desejos e fantasias políticas. O voto vira resposta a um enredo previamente montado: quem consegue nomear o medo e indicar o inimigo com mais nitidez, vence — mesmo que seu programa seja a continuidade do desmonte. É a vitória da política como gerenciamento de ressentimentos.

O social-liberalismo, espectro pálido da conciliação entre crescimento e inclusão, foi corroído por dentro e por fora. Já não convence o capital, nem empolga o povo. Suas promessas de justiça dentro da ordem tornaram-se anacrônicas diante da radicalização do rentismo e da erosão das formas de proteção social. A centro-esquerda, acuada, hesita entre defender o que ainda resta ou adaptar-se à nova racionalidade do capital. Enquanto isso, o projeto de dominação avança — mais técnico, mais frio, mais blindado.

O que está em jogo não é apenas a escolha do próximo presidente, mas a função política do voto. A elite busca um novo arranjo: onde se vota, mas não se decide; onde o Executivo se torna cerimonial e o Parlamento, um condomínio de interesses blindado à vontade popular. A democracia vira uma forma vazia, útil apenas para validar um programa que já está previamente definido. O povo participa — desde que não interfira.

A esquerda precisa encarar essa engrenagem sem ilusões. Não basta combater as figuras do autoritarismo; é preciso desmontar o sistema que produz consentimento à desigualdade. Isso passa por disputar os sentidos da vida cotidiana, os valores coletivos, as linguagens do comum. Por rearticular solidariedades, desnaturalizar o sofrimento, criar brechas onde ainda haja escuta e desejo. A direita se equilibra no fio da navalha, oscilando entre o autoritarismo aberto e o controle tecnocrático. Não caminha às cegas — tateia com cálculo, acumula ensaio e erro, e testa os limites do possível político como quem sabe que o tempo, se não for tensionado, pende a seu favor. O que ela não pode encontrar pela frente é passividade disfarçada de lucidez e pragmatismo.

¨      Tá na hora da política se encontrar com o Brasil profundo. Por Oliveiros Marques

O deslocamento de atores políticos em relação à realidade concreta e objetiva dos brasileiros e brasileiras — especialmente daqueles que atuam no Congresso Nacional — é absurdo. Como vocês sabem, trabalhei por quase duas décadas no Congresso e vi de tudo um pouco. Sou do tempo em que as meninas, sob o comando de uma senhora de feições sisudas, circulavam pelos corredores em busca de assinaturas de apoio para propostas de emendas constitucionais. Ou seja, faz tempo. E, em todo esse período, nunca percebi tamanha influência dos lobbies sobre a política como se vê hoje.

Não estou dizendo que não houvesse lobistas antes. Sempre houve. Estiveram ali, pelos corredores das comissões, pelos salões e, principalmente, pelos gabinetes. Mas a força de convencimento desses agentes de interesses privados nunca foi tão avassaladora. Se é que vocês me entendem.

Talvez a criação do orçamento secreto e das chamadas “emendas pix” tenha sido o adubo que fertilizou essa influência. Quanto mais poder se dá aos parlamentares, maior a soberba, maior a ilusão de que se bastam. E assim, vão acreditando que as ofertas dos lobistas são o que realmente importa. A ponto de emendas parlamentares para a compra de kits de robótica por prefeituras se tornarem símbolo de política pública para a educação. Só na cabeça de quem desconhece a realidade brasileira isso faz sentido. Só quem enxerga o mundo pelo fundo do bolso do paletó — aquela escuridão inebriante — pode tentar defender uma coisa dessas. E nem estou falando do superfaturamento dos kits.

A influência que antes se manifestava em forma de participação no debate público agora dita as regras. O caso mais claro está no debate das medidas de ajuste fiscal: no mesmo pacote em que topam aumentar a conta de energia elétrica e sugerem cortes em programas sociais, recusam-se a cobrar impostos dos mais ricos. Isso mostra como os _Faria Limers_ já planilharam boa parte do Congresso Nacional. Porque não é razoável que parlamentares se oponham a cobrar imposto de quem recebeu mais de R$ 5 milhões em dividendos em um único ano — sem pagar um centavo de imposto de renda —, enquanto quem ganha R$ 4 ou R$ 5 mil contribui com o leão.

E isso precisa ser dito com todas as letras: parte significativa do Congresso Nacional está capturada pelo lobby. E não, não se trata apenas de uma disputa ideológica entre direita e esquerda. Vai além. Trata-se de capitulação. E esse debate precisa ser trazido para o chão do Brasil. Não será vencido a partir do planalto. É no Brasil profundo — onde a vida de fato acontece — que as luzes da ribalta, desse espetáculo horrível, precisam ser acesas.

¨      Democracias desabitadas. Por Emilio Cafassi

As urnas fecharam, mas os sonhos não se levantaram: apenas as cortinas das urnas foram abaixadas. O entusiasmo foi silenciado, exceto para os contadores do cinismo: calculadora na mão e passaporte direto para as poltronas macias do privilégio. As urnas, outrora palco de pactos coletivos e sonhos disputados, encheram-se desta vez com mais ausentes, votos em branco e anulações silenciosas ou ruidosas.

Embora em proporções muito diferentes, em Montevidéu, Caracas e Buenos Aires, a disputa eleitoral no mês de maio foi menos uma eleição do que um espelho embaçado. Há algo em comum que se possa suspeitar nesses três cenários tão díspares e heterogêneos? O que refletem esses números, dispostos em colunas e porcentagens? Refletem, talvez, um cansaço que não grita mais; expressa-se na linguagem da retirada.

De um desgosto íntimo. De uma ruptura com o ritual. De um vínculo que se esvai não com a fúria, mas com um suspiro. No Uruguai, a geada do desencanto cobriu os velhos bastiões do progressismo: o voto em branco ou nulo subiu para 11,2% em Canelones e 7,8% na capital, Montevidéu, onde a participação permanece alta por obrigação, mas apresenta tendência de queda por convicção.

Em quase todos os departamentos, os votos na Frente Ampla caíram em comparação com 2024. No entanto, o fato mais perturbador não é o quanto se perdeu, mas o quanto e o que desapareceu. Como se o compromisso cívico tivesse se tornado uma névoa: presente na forma, ausente na substância. Na cidade de Buenos Aires, a abstenção se infiltrou pelas frestas de uma cidadania desiludida, onde o absenteísmo é maior entre os setores da classe trabalhadora. Eles não disputam mais eleições: simplesmente retiram a assistência.

Entre a falta de militância, a resignação ao poder econômico externo e o enfraquecimento do peronismo, a Capital Federal expôs mais uma vez sua orfandade representativa, como um terreno baldio sem lar ou abrigo político.

A Venezuela, com seu teatro eleitoral vazio, levou a metáfora ao extremo. O chavismo conquistou 23 dos 24 governos estaduais com uma participação oficial de 42,6%, embora a oposição estime que a abstenção real tenha ultrapassado 85%. Lá, o ato eleitoral não é mais exercido: é simulado. As imagens de urnas sem público e seções eleitorais desertas são eloquentes. Em um país com voto voluntário, cujo auge chavista chegou a ultrapassar 90% de participação, hoje a maioria não vai mais às urnas. Não porque não se importe, mas porque não acredita mais. E nessa descrença, a ausência se torna, paradoxalmente, seu último gesto de fé.

Este não é um acontecimento isolado nem recente. O desencanto multiplica-se por todo o Ocidente, amplificado pela ascensão da extrema direita. As suas raízes são pelo menos duplas: uma persistente, estrutural; a outra mais temporária, mas imediatamente efetiva. A apatia política de vastos setores não nasce do desinteresse, mas de um regime que os aliena institucionalmente: a democracia representativa não incentiva a participação. Em vez disso, desencoraja-a.

As repetidas tentativas de participação e seus estéreis resultados político-institucionais produzem frustração e passividade na sociedade civil. As mobilizações sociais nunca conseguem transcender o protesto ou a pressão, uma vez que o regime político as proíbe de qualquer intervenção institucionalizada na tomada de decisões, condenando-as a meras “reclamações”, a gritos ao ar livre, sem voz efetiva.

Ao mesmo tempo, nesta situação particular, as políticas monetaristas de ajuste e recessão apenas deterioram as condições de vida de amplas camadas sociais. Elas se dissipam como geadas tardias: murcham as condições de vida onde eram mais frágeis. A erosão cívica nem sempre ruge: às vezes, mal sussurra, como um desgaste que se infiltra em gestos indiferentes.

O enfraquecimento da democracia representativa em nossa região não exige mais golpes de Estado ou proscrições categóricas. Basta-lhe o bocejo, a renúncia, o deslocamento silencioso do cidadão à margem do quarto secreto no Uruguai, chamado quarto escuro na margem oposta do rio. Essa resignação não é simples apatia; é um sinal, um sintoma, um alerta. Nem é desinteresse: é um gesto que arde em silêncio. Quando a política não convoca nem ultraja, o que resta? Apenas o vazio disfarçado de normalidade.

O voto em branco  tão desconsiderado pelo partido governista quanto temido pelos estrategistas – deixou de ser um gesto excêntrico ou um luxo reservado aos mais requintadamente conscientes. Tornou-se um fenômeno massivo. No Uruguai, como na Argentina, ele prospera onde as tensões sociais são mais agudas, onde promessas de mudança encalharam repetidamente na rocha fossilizada da desigualdade. E quando até mesmo o gesto simbólico do voto deixa de ser satisfatório, surge o vazio absoluto da abstenção: uma espécie de secessão silenciosa, um exílio doméstico, sem qualquer saída.

Votar já não basta e, na verdade, nunca bastou. O que está em crise não é apenas o ato de votar, mas o seu significado. Na Venezuela, o ritual tornou-se uma simulação: um teatro de números recitados como dogmas, sem possibilidade de verificação, num cenário em que o principal inimigo é a anomia, esse esgarçamento invisível do pacto cívico. Os cidadãos permanecem em silêncio, não porque não saibam, mas porque já não têm esperança. O silêncio nas urnas não é medo: é descrença. É a política reduzida a protocolo: uma coreografia oca, sem alma, desprovida de consentimento ou legitimidade.

Na Argentina, o absenteísmo não grita: ele se infiltra. Ele se disfarça de cansaço sereno. Não há fraude nem proscrição, mas sim um abismo cada vez mais profundo entre a representação política e as decisões determinantes da vida cotidiana. A ideia de que “nada vai mudar” torna-se um princípio que não é gritado: corrói em silêncio.

O efeito é duplamente devastador: primeiro, o compromisso é retirado, depois a saúde cívica coletiva sofre. Como Mark Fisher alertou em seu livro Realismo capitalista: não há alternativa?, quando o sistema falha, o dano é invisível: aloja-se profundamente, como uma culpa implantada que parece natural e inescapável. E, portanto, o absenteísmo não é apenas aquele que não vota: é aquele que não se reconhece mais no bem comum.

Diante desse cenário, tanto os partidos governistas quanto a oposição reagem com a mesma miopia: promessas recicladas, campanhas sem brilho, candidaturas sem alma. Mas o problema não é tático. É existencial. Não é um problema de estratégia: é uma crise de sentido. O que está desaparecendo não é o eleitorado, mas a ilusão de que há um futuro a ser conquistado.

A democracia, portanto, torna-se gestão, e a política, espetáculo. Onde antes havia conflito, há deserção. E essa deserção não é neutra: ela favorece aqueles que melhor controlam a situação, aqueles que podem governar sozinhos, mesmo sem testemunhas ou supervisão.

Onde a participação declina, prevalece a ordem do silêncio. Não uma ordem fundada no consenso, mas na disciplina: policial, fiscal, cultural. Na Argentina, o esvaziamento simbólico do voto abre caminho para uma experiência que se proclama libertária, mas exige submissão. À medida que o voto popular declina, as perguntas são regulamentadas, o protesto é criminalizado e as operações de inteligência se multiplicam.

Um clima de hostilidade é fomentado onde qualquer pessoa que discorde é execrada, incluindo os aliados mais leais. A liberdade é um significante desequilibrado lá: o mercado é libertado enquanto a palavra é aprisionada, os cidadãos são expulsos das ruas e qualquer forma de dissidência expressiva ou pluralidade é reprimida.

Neste clima, a abstenção não é apenas um efeito: é também o prelúdio. Quando a democracia se reduz a uma eleição sem opções reais, a um ritual em que o cardápio repete sempre os mesmos pratos frios, quando toda dissidência é rotulada como casta ou conspiração, que espaço resta para a representação?

Não há espaço para representar a diversidade: apenas para ratificar o que foi imposto. Governos autoritários não temem o voto: temem cidadãos ativos. É por isso que celebram cada ponto de participação que desaparece, cada jovem que não comparece, cada bairro que se fecha como um animal ferido. Nessa desmobilização, eles veem sua oportunidade de permanecer. Nesse vácuo, eles se consolidam.

O preocupante é que essa tendência não é privilégio de regimes autoritários, onde a abstenção pode, por vezes, levar a insurreições, como em 2001 na Argentina ou como a desgastada oposição venezuelana sonhou inutilmente.

Tampouco é privilégio de democracias liberais intervencionadas, onde o FMI dita e a soberania impera, como na Argentina, onde votar parece cada vez mais um gesto de resignação. Também no Uruguai — onde a participação permanece elevada por mandato legal — começa a emergir uma fratura mais sutil, mas não menos grave: o ato de votar persiste, sim, mas esvaziado de significado. O voto que realiza, mas carece de crença. O voto sem fervor. O voto sem decisão.

A retração não desmantela apenas estruturas: ela solapa significados, costumes e linguagens. Seus efeitos não se medem apenas em posições ou regulamentos: infiltram-se também no imaginário, na língua pública, no espírito coletivo. Na Venezuela, o desengajamento eleitoral reforça a narrativa do regime, que transforma a apatia em obediência tácita, em consentimento aparente.

Na Argentina, o desengajamento se transforma em votos quebrados, em corpos ausentes, que rasgam ainda mais o fio que entra no tear social. E no Uruguai, a despolitização que começa a crescer embrionariamente nas margens ameaça erodir até os fundamentos simbólicos mais arraigados do progressismo, que vê seus bastiões esfriando silenciosamente, ao ritmo de uma cidadania que não se sente mais tão desafiada.

O que fazer diante desse fluxo e refluxo, que varre certezas e deixa promessas à deriva? Como reacender a chama da política em tempos de desencanto? Não basta invocar a epopeia do voto ou apontar os dentes do autoritarismo: é preciso algo mais profundo, mais vital. É preciso uma regeneração emocional do laço social. Uma reconstrução de um horizonte comum.

Reconstituir um horizonte comum baseado no desejo, na eficiência, na certeza de que ninguém se salva sozinho, de que a luta é coletiva, porque a democracia não se reduz às urnas, mas à construção coletiva do próprio destino. Hoje, as urnas não faltam; falta a convicção de que outro mundo pode nascer.

O paradoxo é cruel: votar nunca foi tão fácil, escolher nunca foi tão difícil. Telas e listas repletas de candidatos, com ruas anoréxicas de convicções. E nesse interstício, o cinismo cresce, os poderosos se agarram, o futuro se esvai. Portanto, a maior ameaça à democracia é que essa forma fiduciária de representação, baseada na autonomia do representante, na desconexão entre líderes e liderados, se apresente como única, gerando essa lenta evaporação do desejo coletivo.

Não é fraude. Nem mesmo ditadura explícita. É a lenta agonia de uma chama que bruxuleia, quase sem oxigênio, na atmosfera ideológica rarefeita pelo individualismo.

 

Fonte: Brasil 247/A Terra é Redonda

 

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