Ricardo
Queiroz Pinheiro: No fio da navalha
A
direita brasileira caminha sobre um fio tenso e afiado. Precisa manter o apoio
da base popular mobilizada pelo bolsonarismo, mas ao mesmo tempo quer se livrar
do mau cheiro do próprio Bolsonaro. A equação é incômoda: como garantir o voto
das camadas populares sem abrir mão da agenda de austeridade, privatização e
desmonte dos direitos sociais? A solução buscada é uma engenharia híbrida —
manter a linguagem de apelo popular, a retórica moralista e a agitação
cultural, mas entregar a execução estrutural à ortodoxia fiscal e aos
interesses do grande capital.
Essa
ambição exige um malabarismo. O bolsonarismo revelou a existência de um
eleitorado disposto a defender a ordem, mesmo quando ela vem revestida de
brutalidade e perda de direitos. Mas o capital não precisa de descontrole; quer
eficiência e subserviência. As trapalhadas institucionais, a retórica paranoica
e o flerte com o caos permanente se tornaram incômodos para os gestores do
projeto. O que se busca agora é um operador confiável: alguém que saiba
dialogar com a base popular, mas que aceite tocar a partitura do tripé
macroeconômico sem desafinar.
Não é
um plano improvisado. Os movimentos são meticulosos. A elite quer preservar o
impulso de direita no voto popular, mas sem dar espaço a um líder que fuja ao
controle. O ideal é uma figura palatável, com aparência de equilíbrio e
espírito conciliador, mas que, na prática, seja funcional à agenda do mercado.
Um presidente fraco, neutralizado desde o início, ou — melhor ainda — um
arranjo institucional que retire do Executivo qualquer poder efetivo. A
principal expressão disso é a tríade: orçamento secreto, autonomia do Banco
Central e judicialização da política.
A
contenção do Executivo não depende mais de mudanças formais no regime político.
Ela já opera, de maneira eficaz, por meio de uma tríade silenciosa: o orçamento
secreto, que desloca o centro das decisões para o balcão do Centrão; a
autonomia do Banco Central, que entrega o poder monetário a um núcleo blindado
ao debate público; e a judicialização da política, que transforma o Judiciário
em instância permanente de veto e/ou concessão. Juntas, essas engrenagens
compõem uma arquitetura de bloqueio — pensada para neutralizar qualquer
tentativa de reverter, mesmo que parcialmente, o programa neoliberal. O voto
segue existindo, mas sua potência transformadora é amputada por fora.
Há,
porém, uma complexidade que não pode ser ignorada. Não se trata de uma elite
que domina contra o povo, mas que frequentemente obtém o consentimento ativo de
parcelas expressivas dele. A adesão de segmentos populares à agenda neoliberal
— marcada pela aversão à política institucional, pela idealização da ordem e
por códigos morais conservadores — não nasce do acaso. Ela é cultivada por uma
teia de mediações simbólicas que moldam visões de mundo, afetos e valores
cotidianos. Nesse terreno, a disputa por sentido antecede e molda a disputa por
poder. É aí que a guerra cultural entra: não como desvio retórico, mas como
engrenagem essencial do projeto. Por meio dela, o neoliberalismo se apresenta
como valor moral e o mercado como justiça superior — não imposta, mas desejada.
O
bolsonarismo, nesse sentido, não é um acidente: é a expressão da capacidade do
capital de traduzir seu projeto em afetos compartilhados. Combina cortes de
direitos com retórica de redenção. Desmonta políticas públicas enquanto afirma
proteger a família, a segurança e a liberdade. A lógica é brutal e eficaz: é
possível perder renda, saúde, moradia — desde que se mantenha a sensação de
pertencimento a uma ordem hierárquica que castigue os “outros”. A direita
entendeu isso. E agora quer repetir a fórmula sem o elemento imprevisível: o
próprio Bolsonaro.
Não há
aqui contradição simples entre voto popular e projeto neoliberal. Há disputa —
e o capital aprendeu a vencê-la por dentro. Através da mídia, das igrejas, dos
aplicativos, dos algoritmos e das redes de sociabilidade concreta, molda
desejos e fantasias políticas. O voto vira resposta a um enredo previamente
montado: quem consegue nomear o medo e indicar o inimigo com mais nitidez,
vence — mesmo que seu programa seja a continuidade do desmonte. É a vitória da
política como gerenciamento de ressentimentos.
O
social-liberalismo, espectro pálido da conciliação entre crescimento e
inclusão, foi corroído por dentro e por fora. Já não convence o capital, nem
empolga o povo. Suas promessas de justiça dentro da ordem tornaram-se
anacrônicas diante da radicalização do rentismo e da erosão das formas de
proteção social. A centro-esquerda, acuada, hesita entre defender o que ainda
resta ou adaptar-se à nova racionalidade do capital. Enquanto isso, o projeto
de dominação avança — mais técnico, mais frio, mais blindado.
O que
está em jogo não é apenas a escolha do próximo presidente, mas a função
política do voto. A elite busca um novo arranjo: onde se vota, mas não se
decide; onde o Executivo se torna cerimonial e o Parlamento, um condomínio de
interesses blindado à vontade popular. A democracia vira uma forma vazia, útil
apenas para validar um programa que já está previamente definido. O povo
participa — desde que não interfira.
A
esquerda precisa encarar essa engrenagem sem ilusões. Não basta combater as
figuras do autoritarismo; é preciso desmontar o sistema que produz
consentimento à desigualdade. Isso passa por disputar os sentidos da vida
cotidiana, os valores coletivos, as linguagens do comum. Por rearticular
solidariedades, desnaturalizar o sofrimento, criar brechas onde ainda haja
escuta e desejo. A direita se equilibra no fio da navalha, oscilando entre o
autoritarismo aberto e o controle tecnocrático. Não caminha às cegas — tateia
com cálculo, acumula ensaio e erro, e testa os limites do possível político
como quem sabe que o tempo, se não for tensionado, pende a seu favor. O que ela
não pode encontrar pela frente é passividade disfarçada de lucidez e
pragmatismo.
¨ Tá na hora da
política se encontrar com o Brasil profundo. Por Oliveiros Marques
O
deslocamento de atores políticos em relação à realidade concreta e objetiva dos
brasileiros e brasileiras — especialmente daqueles que atuam no Congresso
Nacional — é absurdo. Como vocês sabem, trabalhei por quase duas décadas no
Congresso e vi de tudo um pouco. Sou do tempo em que as meninas, sob o comando
de uma senhora de feições sisudas, circulavam pelos corredores em busca de
assinaturas de apoio para propostas de emendas constitucionais. Ou seja, faz
tempo. E, em todo esse período, nunca percebi tamanha influência dos lobbies
sobre a política como se vê hoje.
Não
estou dizendo que não houvesse lobistas antes. Sempre houve. Estiveram ali,
pelos corredores das comissões, pelos salões e, principalmente, pelos
gabinetes. Mas a força de convencimento desses agentes de interesses privados
nunca foi tão avassaladora. Se é que vocês me entendem.
Talvez
a criação do orçamento secreto e das chamadas “emendas pix” tenha sido o adubo
que fertilizou essa influência. Quanto mais poder se dá aos parlamentares,
maior a soberba, maior a ilusão de que se bastam. E assim, vão acreditando que
as ofertas dos lobistas são o que realmente importa. A ponto de emendas
parlamentares para a compra de kits de robótica por prefeituras se tornarem
símbolo de política pública para a educação. Só na cabeça de quem desconhece a
realidade brasileira isso faz sentido. Só quem enxerga o mundo pelo fundo do
bolso do paletó — aquela escuridão inebriante — pode tentar defender uma coisa
dessas. E nem estou falando do superfaturamento dos kits.
A
influência que antes se manifestava em forma de participação no debate público
agora dita as regras. O caso mais claro está no debate das medidas de ajuste
fiscal: no mesmo pacote em que topam aumentar a conta de energia elétrica e
sugerem cortes em programas sociais, recusam-se a cobrar impostos dos mais
ricos. Isso mostra como os _Faria Limers_ já planilharam boa parte do Congresso
Nacional. Porque não é razoável que parlamentares se oponham a cobrar imposto
de quem recebeu mais de R$ 5 milhões em dividendos em um único ano — sem pagar
um centavo de imposto de renda —, enquanto quem ganha R$ 4 ou R$ 5 mil
contribui com o leão.
E isso
precisa ser dito com todas as letras: parte significativa do Congresso Nacional
está capturada pelo lobby. E não, não se trata apenas de uma disputa ideológica
entre direita e esquerda. Vai além. Trata-se de capitulação. E esse debate
precisa ser trazido para o chão do Brasil. Não será vencido a partir do
planalto. É no Brasil profundo — onde a vida de fato acontece — que as luzes da
ribalta, desse espetáculo horrível, precisam ser acesas.
¨
Democracias desabitadas. Por Emilio Cafassi
As
urnas fecharam, mas os sonhos não se levantaram: apenas as cortinas das urnas
foram abaixadas. O entusiasmo foi silenciado, exceto para os contadores do
cinismo: calculadora na mão e passaporte direto para as poltronas macias do
privilégio. As urnas, outrora palco de pactos coletivos e sonhos disputados,
encheram-se desta vez com mais ausentes, votos em branco e anulações
silenciosas ou ruidosas.
Embora
em proporções muito diferentes, em Montevidéu, Caracas e Buenos Aires, a
disputa eleitoral no mês de maio foi menos uma eleição do que um espelho
embaçado. Há algo em comum que se possa suspeitar nesses três cenários tão
díspares e heterogêneos? O que refletem esses números, dispostos em colunas e
porcentagens? Refletem, talvez, um cansaço que não grita mais; expressa-se na
linguagem da retirada.
De um
desgosto íntimo. De uma ruptura com o ritual. De um vínculo que se esvai não
com a fúria, mas com um suspiro. No Uruguai, a geada do desencanto cobriu os
velhos bastiões do progressismo: o voto em branco ou nulo subiu para 11,2% em
Canelones e 7,8% na capital, Montevidéu, onde a participação permanece alta por
obrigação, mas apresenta tendência de queda por convicção.
Em
quase todos os departamentos, os votos na Frente Ampla caíram em comparação com
2024. No entanto, o fato mais perturbador não é o quanto se perdeu, mas o
quanto e o que desapareceu. Como se o compromisso cívico tivesse se tornado uma
névoa: presente na forma, ausente na substância. Na cidade de Buenos Aires, a
abstenção se infiltrou pelas frestas de uma cidadania desiludida, onde o
absenteísmo é maior entre os setores da classe trabalhadora. Eles não disputam
mais eleições: simplesmente retiram a assistência.
Entre a
falta de militância, a resignação ao poder econômico externo e o
enfraquecimento do peronismo, a Capital Federal expôs mais uma vez sua
orfandade representativa, como um terreno baldio sem lar ou abrigo político.
A
Venezuela, com seu teatro eleitoral vazio, levou a metáfora ao extremo. O
chavismo conquistou 23 dos 24 governos estaduais com uma participação oficial
de 42,6%, embora a oposição estime que a abstenção real tenha ultrapassado 85%.
Lá, o ato eleitoral não é mais exercido: é simulado. As imagens de urnas sem
público e seções eleitorais desertas são eloquentes. Em um país com voto
voluntário, cujo auge chavista chegou a ultrapassar 90% de participação, hoje a
maioria não vai mais às urnas. Não porque não se importe, mas porque não
acredita mais. E nessa descrença, a ausência se torna, paradoxalmente, seu
último gesto de fé.
Este
não é um acontecimento isolado nem recente. O desencanto multiplica-se por todo
o Ocidente, amplificado pela ascensão da extrema direita. As suas raízes são
pelo menos duplas: uma persistente, estrutural; a outra mais temporária, mas
imediatamente efetiva. A apatia política de vastos setores não nasce do
desinteresse, mas de um regime que os aliena institucionalmente: a democracia
representativa não incentiva a participação. Em vez disso, desencoraja-a.
As
repetidas tentativas de participação e seus estéreis resultados
político-institucionais produzem frustração e passividade na sociedade civil.
As mobilizações sociais nunca conseguem transcender o protesto ou a pressão,
uma vez que o regime político as proíbe de qualquer intervenção
institucionalizada na tomada de decisões, condenando-as a meras “reclamações”,
a gritos ao ar livre, sem voz efetiva.
Ao
mesmo tempo, nesta situação particular, as políticas monetaristas de ajuste e
recessão apenas deterioram as condições de vida de amplas camadas sociais. Elas
se dissipam como geadas tardias: murcham as condições de vida onde eram mais
frágeis. A erosão cívica nem sempre ruge: às vezes, mal sussurra, como um
desgaste que se infiltra em gestos indiferentes.
O
enfraquecimento da democracia representativa em nossa região não exige mais
golpes de Estado ou proscrições categóricas. Basta-lhe o bocejo, a renúncia, o
deslocamento silencioso do cidadão à margem do quarto secreto no Uruguai,
chamado quarto escuro na margem oposta do rio. Essa resignação não é simples
apatia; é um sinal, um sintoma, um alerta. Nem é desinteresse: é um gesto que
arde em silêncio. Quando a política não convoca nem ultraja, o que resta?
Apenas o vazio disfarçado de normalidade.
O voto
em branco – tão desconsiderado pelo partido governista quanto
temido pelos estrategistas – deixou de ser um gesto excêntrico ou um luxo
reservado aos mais requintadamente conscientes. Tornou-se um fenômeno massivo.
No Uruguai, como na Argentina, ele prospera onde as tensões sociais são mais
agudas, onde promessas de mudança encalharam repetidamente na rocha fossilizada
da desigualdade. E quando até mesmo o gesto simbólico do voto deixa de ser
satisfatório, surge o vazio absoluto da abstenção: uma espécie de secessão
silenciosa, um exílio doméstico, sem qualquer saída.
Votar
já não basta e, na verdade, nunca bastou. O que está em crise não é apenas o
ato de votar, mas o seu significado. Na Venezuela, o ritual tornou-se uma
simulação: um teatro de números recitados como dogmas, sem possibilidade de
verificação, num cenário em que o principal inimigo é a anomia, esse
esgarçamento invisível do pacto cívico. Os cidadãos permanecem em silêncio, não
porque não saibam, mas porque já não têm esperança. O silêncio nas urnas não é
medo: é descrença. É a política reduzida a protocolo: uma coreografia oca, sem
alma, desprovida de consentimento ou legitimidade.
Na
Argentina, o absenteísmo não grita: ele se infiltra. Ele se disfarça de cansaço
sereno. Não há fraude nem proscrição, mas sim um abismo cada vez mais profundo
entre a representação política e as decisões determinantes da vida cotidiana. A
ideia de que “nada vai mudar” torna-se um princípio que não é gritado: corrói
em silêncio.
O
efeito é duplamente devastador: primeiro, o compromisso é retirado, depois a
saúde cívica coletiva sofre. Como Mark Fisher alertou em seu livro Realismo
capitalista: não há alternativa?, quando o sistema falha, o dano é
invisível: aloja-se profundamente, como uma culpa implantada que parece natural
e inescapável. E, portanto, o absenteísmo não é apenas aquele que não vota: é
aquele que não se reconhece mais no bem comum.
Diante
desse cenário, tanto os partidos governistas quanto a oposição reagem com a
mesma miopia: promessas recicladas, campanhas sem brilho, candidaturas sem
alma. Mas o problema não é tático. É existencial. Não é um problema de
estratégia: é uma crise de sentido. O que está desaparecendo não é o
eleitorado, mas a ilusão de que há um futuro a ser conquistado.
A
democracia, portanto, torna-se gestão, e a política, espetáculo. Onde antes
havia conflito, há deserção. E essa deserção não é neutra: ela favorece aqueles
que melhor controlam a situação, aqueles que podem governar sozinhos, mesmo sem
testemunhas ou supervisão.
Onde a
participação declina, prevalece a ordem do silêncio. Não uma ordem fundada no
consenso, mas na disciplina: policial, fiscal, cultural. Na Argentina, o
esvaziamento simbólico do voto abre caminho para uma experiência que se
proclama libertária, mas exige submissão. À medida que o voto popular declina,
as perguntas são regulamentadas, o protesto é criminalizado e as operações de
inteligência se multiplicam.
Um
clima de hostilidade é fomentado onde qualquer pessoa que discorde é execrada,
incluindo os aliados mais leais. A liberdade é um significante desequilibrado
lá: o mercado é libertado enquanto a palavra é aprisionada, os cidadãos são
expulsos das ruas e qualquer forma de dissidência expressiva ou pluralidade é
reprimida.
Neste
clima, a abstenção não é apenas um efeito: é também o prelúdio. Quando a
democracia se reduz a uma eleição sem opções reais, a um ritual em que o
cardápio repete sempre os mesmos pratos frios, quando toda dissidência é
rotulada como casta ou conspiração, que espaço resta para a representação?
Não há
espaço para representar a diversidade: apenas para ratificar o que foi imposto.
Governos autoritários não temem o voto: temem cidadãos ativos. É por isso que
celebram cada ponto de participação que desaparece, cada jovem que não
comparece, cada bairro que se fecha como um animal ferido. Nessa
desmobilização, eles veem sua oportunidade de permanecer. Nesse vácuo, eles se
consolidam.
O
preocupante é que essa tendência não é privilégio de regimes autoritários, onde
a abstenção pode, por vezes, levar a insurreições, como em 2001 na Argentina ou
como a desgastada oposição venezuelana sonhou inutilmente.
Tampouco
é privilégio de democracias liberais intervencionadas, onde o FMI dita e a
soberania impera, como na Argentina, onde votar parece cada vez mais um gesto
de resignação. Também no Uruguai — onde a participação permanece elevada por
mandato legal — começa a emergir uma fratura mais sutil, mas não menos grave: o
ato de votar persiste, sim, mas esvaziado de significado. O voto que realiza,
mas carece de crença. O voto sem fervor. O voto sem decisão.
A
retração não desmantela apenas estruturas: ela solapa significados, costumes e
linguagens. Seus efeitos não se medem apenas em posições ou regulamentos:
infiltram-se também no imaginário, na língua pública, no espírito coletivo. Na
Venezuela, o desengajamento eleitoral reforça a narrativa do regime, que
transforma a apatia em obediência tácita, em consentimento aparente.
Na
Argentina, o desengajamento se transforma em votos quebrados, em corpos
ausentes, que rasgam ainda mais o fio que entra no tear social. E no Uruguai, a
despolitização que começa a crescer embrionariamente nas margens ameaça erodir
até os fundamentos simbólicos mais arraigados do progressismo, que vê seus
bastiões esfriando silenciosamente, ao ritmo de uma cidadania que não se sente
mais tão desafiada.
O que
fazer diante desse fluxo e refluxo, que varre certezas e deixa promessas à
deriva? Como reacender a chama da política em tempos de desencanto? Não basta
invocar a epopeia do voto ou apontar os dentes do autoritarismo: é preciso algo
mais profundo, mais vital. É preciso uma regeneração emocional do laço social.
Uma reconstrução de um horizonte comum.
Reconstituir
um horizonte comum baseado no desejo, na eficiência, na certeza de que ninguém
se salva sozinho, de que a luta é coletiva, porque a democracia não se reduz às
urnas, mas à construção coletiva do próprio destino. Hoje, as urnas não faltam;
falta a convicção de que outro mundo pode nascer.
O
paradoxo é cruel: votar nunca foi tão fácil, escolher nunca foi tão difícil.
Telas e listas repletas de candidatos, com ruas anoréxicas de convicções. E
nesse interstício, o cinismo cresce, os poderosos se agarram, o futuro se
esvai. Portanto, a maior ameaça à democracia é que essa forma fiduciária de
representação, baseada na autonomia do representante, na desconexão entre
líderes e liderados, se apresente como única, gerando essa lenta evaporação do
desejo coletivo.
Não é
fraude. Nem mesmo ditadura explícita. É a lenta agonia de uma chama que
bruxuleia, quase sem oxigênio, na atmosfera ideológica rarefeita pelo
individualismo.
Fonte:
Brasil 247/A Terra é Redonda

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