segunda-feira, 23 de junho de 2025

Professor da rede privada e a exploração capitalista

No ambiente da rede particular, o professor celetista não consegue cultivar sua vocação – sobrevive à lógica do lucro. Salários baixos e contratos instáveis têm precarizado a atuação desses educadores, que enfrentam jornadas exaustivas sem respaldo ou plano de carreira.

As salas superlotadas pressionam o trabalho docente. Com turmas inchadas, o tempo por aluno diminui, e o esforço individual se torna insustentável. Em paralelo, cresce a cobrança por resultados: metas numéricas impostas pela gestão e proprietários corroem o sentido pedagógico e forçam o profissional da educação a virar estrategista de desempenho.

Além da quantidade de alunos, soma-se a arrogância de pais e estudantes. Exigem atenção imediata, se indignam por notas baixas e cobram explicações. Em muitos casos, ignoram o cansaço acumulado do profissional – que é chamado, sem cerimônia, a oferecer reforço extracurricular e a produzir conteúdo para plataformas digitais, sem remuneração extra.

Os relatos de professores são contundentes: muitos acumulam tarefas didáticas, pedagógicas e tecnológicas, sem direito a pausas ou qualquer tipo de compensação. A rotina é exaustiva – e naturalizada como parte do ofício.

Essa realidade espelha relações de produção típicas do capitalismo: docentes tornam se proletários da educação privada, vendendo sua força de trabalho por salários que muitas vezes não superam R$ 2.285 mensais. Esse valor está 47 % abaixo da média da OCDE – calamidade nacional que penaliza professores em todas as redes (OECD, Education at a Glance 2023 – Brazil Country Note, 2023).

Relatos de professores apontam que a exploração exacerbada intensifica o adoecimento da categoria. Síndrome de burnout, depressão e ansiedade invadem a sala de aula e inviabilizam a permanência no magistério.

Aqui, no portal ICL Notícias, foi publicado recentemente matéria conectando capitalismo, burnout e falsa sensação de tempo livre (ICL Notícias, Sistema capitalista, burnout e a ilusão do tempo livre).No caso da rede privada de educação básica, este o fenômeno, como exemplo, intensifica-se: tempo de preparo, correção, reuniões e conteúdos online não contam como jornada, mesmo sendo exigido pela escola. É uma lógica de sobre-exploração que drena energia sem registro ou compensação.

O empregador, afinal, é uma empresa. A escola privada busca rentabilidade, trata a educação como produto e trata o professor como custo a ser minimizado. A instabilidade do contrato celetista, sem matrícula pública, reforça essa lógica: o trabalhador vive sob ameaça constante de demissão ou não-renovação.

Para poderem viver com o que ganham, muitos professores da rede privada são obrigados a trabalhar em várias escolas, distribuídos em três turnos: manhã, tarde e noite, numa escala 7 x 0. Fins de semana e feriados são destinados à correção de provas, preparação de aulas e atualização de plataformas. O que manda é a produtividade.

Para agravar a situação, cresce a prática de terceirizar a administração – e, em alguns casos, até o setor pedagógico – “antes comandada por docentes ou gestores escolares. Padrão que cria uma gestão mais burocrática, fria e distante, que empurra diretores e professores para uma condição funcional, como se ensinassem para uma corporação e não para uma comunidade escolar. Essa mudança fragiliza vínculos, desafia a autonomia docente e transforma o espaço escolar em mera máquina administrativa, voltada a metas em vez da educação.

Nesse cenário mercantil, a figura do educador se despersonaliza. Ensinar deixa de ser partilha intelectual para se tornar entrega de pacotes comerciais, alocados em metas. A pressão por resultados não significa qualidade, mas sim cumprimento de indicadores – que geram bônus a gestores, mas esgotam professores.

Diante dessa realidade, há alguma resistência: movimentos de docentes têm denunciado publicamente a precarização. Reivindicam melhores condições, remuneração digna e limite de jornada. Organizações profissionais apontam que não há educação de qualidade sem valorização real dos trabalhadores.

A crise alcança estudantes também. Professores esgotados transferem ao ensino, resultado e atenção deficitária (sem contar que, em geral, alunos neurodivergentes têm mais dificuldades de apoio do que na rede pública, que também não os atende adequadamente). Em circunstâncias extremas, a forma do capital prevalece sobre o conteúdo pedagógico – e isso compromete a formação integral.

A lógica do lucro, entretanto, impõe silêncio. Escolas cobram produtividade: relatórios, atividades online, correções rápidas, reuniões contínuas etc., etc. etc. Sem contrapartida. O docente fica refém de sua própria dedicação, sem respaldo legal ou institucional.

A superlotação não é circunstancial, mas método. A rede privada opta por mais alunos por turma, reduz custos e aumenta receita. A consequência é abandono – já que alguns docentes jogam a toalha ou migram para a rede pública com estabilidade (na verdade, não poucos acumulam duas matrículas públicas e

mais um tanto de escolas particulares).

Como resistir a essa produtividade alucinante e infinita? Como disse, a mobilização coletiva tem tentado ser uma saída. Sindicatos denunciando condições, manifestações, pautas de reivindicação trabalhista, apoio mútuo entre profissionais de ensino oferecem saída e denúncias nas redes sociais. Mas esses esforços esbarram em pressões corporativas e falta de apoio legal.

Se a educação é processo social, essa lógica mercantil fere sua essência. Centro-Oeste, Nordeste, Norte, Sudeste e Sul – por onde se olhe, vemos a exploração dos docentes privados: celetistas e desprotegidos. Mais uma vez, a saída pode passar por redes, movimentos e reformas: contratos estáveis, piso digno, limitação de lotação, regulação de aplicativos e plataformas. O lucro não pode eclipsar a formação.

É urgente questionar: qual escola queremos, sendo ela pública ou privada? Uma fábrica de métricas frias ou um espaço de construção coletiva? Até lá, permanecerá o professor da rede particular preso à exploração capitalista, celetista e mal pago – Ah! e exausto.

•        Professor, cuidado, a sala de aula está te matando

Silvaneide Monteiro Andrade, 56 anos, professora de Língua Portuguesa, morreu na manhã de uma sexta-feira, 30 de maio, dentro da sala de coordenação do Colégio Estadual Cívico-Militar Jayme Canet, no bairro Xaxim, em Curitiba.

Durante uma reunião com a equipe pedagógica e representantes do Núcleo Regional de Educação, foi cobrada por não ter cumprido metas de plataformas digitais. Sofreu um infarto fulminante. O SAMU foi acionado, mas nada pôde ser feito.

O corpo dela, estendido entre cadernos e relatórios, é a imagem final de um sistema que colapsa sobre os ombros de quem deveria ser amparado. Ninguém a socorreu a tempo: nem a escola, nem o Estado, nem a lógica que nos rege.

Não é um caso isolado. É o que se repete. Uma engrenagem que gira com a frieza de um relógio, transformando a sala dos professores em corredor hospitalar, e o planejamento pedagógico em protocolo de gestão inumana.

Desde a pandemia, a educação pública foi capturada por um delírio tecnocrático. Alunos voltaram com defasagens profundas (alguns analfabetos no segundo segmento do Ensino Fundamental). A resposta do poder público? Transferir a culpa e ampliar a pressão sobre quem está na linha de frente.

Deveria haver reforço pedagógico. Mas o que se reforça é a cobrança. O professor é convocado para ser cobrado em reuniões vazias e enfadonhas, formações descoladas da realidade e metas inalcançáveis. Enquanto isso, as salas continuam superlotadas, abafadas, violentas e sem mediação.

Crianças neurodivergentes, com ou sem laudo, são entregues a docentes sem qualquer apoio. TEA, TDAH, TOD, DI — siglas que escondem vidas únicas, jogadas ao acaso. A ausência de políticas inclusivas aprofunda o esgotamento de quem ensina.

Três turnos de trabalho. Para muitos, manhã, tarde e noite. E ainda há o quarto turno: em casa, corrigindo provas, lançando notas, preenchendo formulários. A dignidade não cabe no contracheque. Os boletins não refletem aprendizagem, apenas a simulação de um progresso que nunca ou quase nunca existiu.

Alunos sem domínio básico de leitura, escrita ou operações matemáticas são continuamente empurrados de ano em ano. As secretarias de Educação exigem aprovações em série, mesmo sem aprendizagem real. Gestores distantes da sala de aula impõem metas que ignoram a realidade escolar. O conteúdo vira maquiagem, a progressão vira farsa, e o professor, cúmplice forçado de um teatro que só agrava o abandono.

Na mochila, além de provas e diários, vai o cansaço, a frustração e o silêncio. Com sorte, algum remédio tarja preta. A psiquiatria virou extensão da sala dos professores. E a escola, um campo de extermínio lento.

Enquanto isso, influencers lotam teatros fazendo piada da dor alheia. Riem da depressão docente como quem nunca pisou numa sala de aula. Nas redes sociais, se acumulam seguidores zombando do sofrimento psíquico de quem ensina. Transformam em entretenimento o colapso emocional de quem sustenta a educação pública no país — e ainda lucram com isso.

E as cenas de cobrança se repetem: supervisores distantes da realidade escolar perguntam por que a aula não está mais atrativa. Sugerem vídeos, joguinhos, gamificação, outras fórmulas prontas e o diabo a quatro. Ignoram o calor insuportável, o vandalismo, a ausência dos pais. O problema, invariavelmente, recai sobre o docente.

Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano e professor da Universidade de Berlim, no livro “A sociedade do cansaço” (2010), alerta para uma era onde o excesso de positividade e desempenho adoece o sujeito. A produtividade virou tirania. A escola virou sua trincheira.

É disso que se trata: maquiar indicadores para captar verbas, forçar aprovações em massa, culpar os docentes quando os números não satisfazem. A estatística virou fetiche. A dor virou ruído. E o professor, bode expiatório.

Famílias entregam seus filhos às escolas sem ensinar o mínimo de respeito ao educador. E quando a agressividade explode, não se interroga o ambiente doméstico. Aponta-se o dedo para o docente, mais uma vez desamparado.

A morte da professora Silvaneide expõe o colapso moral de um sistema que exige sem oferecer a estrutura necessária. Cobra sem apoiar. Adoece sem cuidar. Educadores estão sendo levados ao limite — e a sociedade disfarça isso como “fatalidade”.

Os olhos dela se fecharam entre cobranças e metas. A rotina escolar prosseguiu, como tantas vezes faz diante do absurdo. Mas algo aconteceu. E está acontecendo. O risco é real. E cresce a cada chamada realizada no diário de classe.

É preciso romper o ciclo. Reduzir jornadas, garantir estrutura, contratar apoio, valorizar salários e devolver dignidade a quem educa. Enquanto isso não acontecer, outras Silvaneides continuarão a sucumbir. É hora de agir, antes que seja tarde demais.

•        Alvo de ataques, professor pede demissão após aula sobre mitologia em escola cívico-militar de SP

César Augusto Mendes Cruz, professor e doutorando em História, pediu demissão da Escola Municipal Senador Major Olímpio, que adota o modelo cívico-militar na cidade de Ilhabela, no litoral de São Paulo, depois de sofrer ataques de um vereador de extrema direita e da gestão do município após uma aula sobre o conceito de tempo em diferentes culturas para uma turma do 6º ano.

A aula, dada no início do ano letivo deste ano, abordava as interpretações de tempo na cultura ocidental e na cultura iorubá, com o mito de Irokô. Em um dos momentos, o professor apresentava três obras de arte que retratam o tempo como figura masculina idosa: uma pintura de Francisco Goya, uma de Rubens e uma de Jacopo del Sellaio. A atividade terminou com a canção “Oração ao Tempo”, de Caetano Veloso.

Após um ciclo de quatro aulas sobre o assunto, César Augusto relata que algumas famílias procuraram a Secretaria de Educação de IlhaBela alegando que o professor estaria “mostrando material impróprio”. “Supostamente, um dos alunos não estava dormindo de medo por causa da pintura de Goya”, diz o docente. A pintura do artista espanhol exibida foi “Saturno devorando um filho”.

O alto escalão da Secretaria, sem aviso prévio, realizou uma reunião com o professor, na própria escola municipal. “Eu fui pego de surpresa. Vieram com a pauta de que as famílias haviam reclamado, queriam saber de que maneira a minha aula se enquadrava no currículo”, conta o professor César Augusto.

“Eles já vieram com o currículo na mão, como censores mesmo, querendo saber de que maneira a minha aula se enquadrava dentro das habilidades previstas. Eu estranhei a abordagem, fiquei acuado por sentar em uma sala com três chefes”, completa. O professor encaminhou um ofício à Secretaria de Educação da cidade solicitando a ata da reunião, mas não obteve resposta.

“Me senti extremamente vulnerável institucionalmente, porque as regras da administração pública não foram acolhidas nesse sentido. A regra diz que eu não posso ter contato direto com a chefia que não seja a minha chefia imediata e eu fui levado para uma salinha que tinha o alto escalão da Secretaria de Educação”, relata o professor.

<><> Professor é alvo de ataques

Na reunião, César foi informado que seu nome circulava em grupos de pastores. Desde então, o professor passou a ser alvo de diversos ataques. O principal deles partiu de um vereador da extrema direita de Ilhabela, Gabriel Rocha (PL). Da tribuna da Câmara da cidade, o parlamentar centrou críticas no docente e atacou a obra de Francisco Goya. “Essa aula foi dada para crianças de dez anos. O que estão aprendendo é sobre um quadro libidinoso e perturbador”, disse.

“O professor que causou isso depois ainda teve a coragem de ir à Câmara fazer denúncia contra os gestores que só quiseram conversar”, completou. O vereador foi o idealizador da implantação das escolas cívico-militares em Ilhabela.

Após o discurso do parlamentar, os ataques a César Augusto nas redes sociais se multiplicaram. “O clima ficou muito difícil na escola porque eu estava sendo abertamente atacado na Câmara, meu nome estava sendo veiculado em grupos de WhatsApp”. Segundo o professor, a Secretaria de Educação realizou, em março, uma reunião com as famílias da turma, que foram incentivadas a procurar o Conselho Tutelar e o Ministério Público para denunciá-lo.

César, então, resolveu pedir demissão da matrícula que possuía para dar aulas na Escola Municipal Senador Major Olímpio. “A situação ficou muito ruim dentro da escola e eu não confiava na equipe gestora. Não vi outra situação, não tinha como eu continuar trabalhando lá, pedi para que o contrato fosse cessado. Mas, continuei no meu cargo de efetivo”, conta.

Após o pedido de demissão da escola, a secretária de Educação da cidade, Lídia Lúcia Sarmento de Lima, resolveu abrir um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) contra o professor, por supostamente ter mostrado material impróprio para os alunos e estar caluniando a secretária.

“Estou me sentindo vulnerável, cansado, exausto, assediado, exposto e inviabilizado na minha função. Eles estão impedindo que eu dê aula, estão impedindo que eu seja professor, estão impedindo que eu pense. A cena é digna de um processo inquisitorial, denúncias anônimas, sendo obrigado a prestar contas sobre a suposta denúncia para pessoas que têm autoridade constituída política, mas não autoridade pedagógica, tentando cercear minha maneira de dar aula. Isso tudo é muito sério”, desabafa o professor César Augusto.

<><> Conteúdo das aulas é referendado

A Associação Nacional de História, seção estado de São Paulo (ANPUH-SP), referendou o conteúdo ensinado pelo professor César Augusto Mendes Cruz. Em nota, a associação disse que a aula estava em conformidade com a BNCC, o Currículo Paulista e a Lei 10.639/2003. A Anpuh repudiou o que chamou de “obstrução do trabalho como historiador” e “interferência irregular da administração escolar”.

A Apeoesp, sindicato dos professores, criticou a adesão da gestão às pressões de “famílias desinformadas” e comparou o episódio à lógica de propostas como “escola sem partido”. O sindicato também referendou o contéudo e defendeu a liberdade de cátedra.

<><> Escola possui histórico de casos

A Escola Municipal Major Olímpio segue as diretrizes do modelo cívico-militar, com proposta pedagógica baseada em disciplina rígida e valorização de “valores cívicos”. “Um sargento e um subtenente reformados cuidam de dar algumas poucas aulas da parte cívica, que seriam símbolos nacionais ou convívio, coisas do tipo. Eles cuidam da parte disciplinar, ou seja, de punir os desvios de conduta e os desvios de disciplina”, resume o professor César Augusto.

Segundo relatos do professor, o seu caso não foi o primeiro a ocorrer na escola. “Já vinha num crescente de assédio a professores, porque antes de mim já tinha acontecido um assédio gravíssimo com professor de Ciências e, no ano passado, o professor de Português também foi censurado numa questão em que ele trabalhou linguagem neutra”, relatou.

<><> O que diz a Prefeitura de Ilhabela?

O ICL Notícias procurou a Secretaria de Educação de Ilhabela para questionar sobre o caso. Em nota, a Secretaria afirmou que “o professor de História foi convidado para um diálogo interno durante seu horário de trabalho pedagógico, após manifestações formais de famílias recebidas pela escola e pela SME”. Leia:

“A Secretaria Municipal de Educação de Ilhabela (SME) informa que o professor de História foi convidado para um diálogo interno durante seu horário de trabalho pedagógico, após manifestações formais de famílias recebidas pela escola e pela SME.

O conteúdo ministrado está em conformidade com o Currículo Paulista e as preocupações referem-se à forma de abordagem adotada em sala de aula, e não ao conteúdo. Durante a reunião, o professor foi orientado quanto à adequação da linguagem com alunos de 10 anos, reconhecendo que algumas expressões podem ter gerado interpretações divergentes.

A Secretaria Municipal de Educação reafirma que o professor recebeu apoio técnico e jurídico e que todas as medidas adotadas buscaram preservar a integridade dos envolvidos e evitar desinformações, mesmo o professor tendo buscado exposição na mídia sobre o caso. Em respeito à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) e ao sigilo funcional, a SME não comenta publicamente processos administrativos, garantindo o direito à privacidade, à ampla defesa e ao contraditório, garantindo a justiça e a imparcialidade”.

 

Fonte: ICL Notícias

 

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