Otan:
A diplomacia de canhões no Sul global
Em
2023, um ano após a invasão da Ucrânia pela Rússia, o embaixador alemão
Christoph Heusgen cutucou a primeira-ministra da Namíbia, Saara
Kuugongelwa-Amadhila, para saber por que seu país não havia condenado a Rússia.
Kuugongelwa-Amadhila respondeu calmamente que seu país estava “promovendo uma
resolução pacífica desse conflito para que o mundo inteiro e todos os recursos
do mundo possam se concentrar em melhorar as condições das pessoas em todo o
mundo, em vez de serem gastos na aquisição de armas, na morte de pessoas e na
criação de hostilidades” (Kuugongelwa-Amadhila, 2023). O dinheiro que é usado
para comprar armas, acrescentou Kuugongelwa-Amadhila, poderia ser usado até
mesmo na Europa, “onde muitas pessoas estão passando por dificuldades”. O que é
significativo nesse intercâmbio não foi o que Kuugongelwa-Amadhila disse, mas o
fato de ela ter dito algo que fosse contrário ao consenso do Norte Global.
A
perplexidade se espalhou pela sala e além dela. Por que esses líderes de países
pequenos e pobres do Sul Global estão se manifestando contra o Norte Global, e
por que eles não estão tão subordinados como antes? Como o Ministro das
Relações Exteriores do Japão, Yoshimasa Hayashi, escreveu no prefácio do
Diplomatic Bluebook 2023 do país, se propondo a entender o surgimento do Sul
Global, “O mundo está agora em um ponto de inflexão na história” (Instituto
Tricontinental de Pesquisa Social, 2024b). Em um relatório de novembro de 2024,
o relator da Otan e ex-ministro das Relações Exteriores da Lituânia, Audronius
Ažubalis, reconheceu as mudanças que estão ocorrendo no mundo com a ascensão do
Sul Global:
É
possível que o Ocidente não tenha se adaptado com rapidez suficiente a essa
nova realidade, permitindo que potências autoritárias como a Rússia e a China
fizessem incursões significativas na Ásia, na África, na América Latina e no
Pacífico, colhendo benefícios econômicos e geopolíticos significativos.
(Azubalis, 2024, p. 13)
A
avaliação de Ažubalis demonstra quão pouco os líderes do Norte Global entendem
sobre a ascensão do Sul Global. Na verdade, é o surgimento de um novo centro de
indústria e forças produtivas na Ásia (da Índia e da China ao Vietnã e à
Indonésia) e a criação de um novo conjunto de instituições de desenvolvimento
(incluindo o Novo Banco de Desenvolvimento) que permitiram que os países mais
pobres tivessem alguma influência sobre o Fundo Monetário Internacional,
dominado pelo Departamento do Tesouro dos EUA. Em outras palavras, não é que a
China esteja fazendo “incursões significativas” nesses continentes, mas sim que
a China – e outros países – são capazes de sustentar os esforços de
desenvolvimento nas nações mais pobres. Como o Norte Global não está fazendo
isso, esses países não estão mais em dívida com ele. Simplesmente descartar a
China e a Rússia como “potências autoritárias” e presumir que a retórica
cansada do liberalismo e da democracia ocidentais atrairá países que desejam
desenvolver suas economias é temerário. Igualmente absurda é a acusação de
autoritarismo por parte de países que rotineiramente se aliam a monarquias. A
incapacidade de entender o movimento real da história paralisa os intelectuais
da Otan, que, em vez disso, recorrem à suposição de que os povos da África,
Ásia, América Latina e Pacífico estão apenas sendo enganados pela Rússia e pela
China e que, se soubessem a verdade sobre o liberalismo e a democracia
ocidentais, tomariam a decisão correta de se subordinar ao Norte Global.
No
entanto, a Otan desenvolveu uma presença importante na região do Mediterrâneo,
no continente africano e na Ásia (e tem um papel menor a desempenhar na América
Latina, onde seu principal aliado é a Colômbia). No restante desta seção, vamos
nos concentrar nessas três regiões de atividade significativa da Otan.
• O Mediterrâneo, a Guerra ao Terror e a
instrumentalização da migração
Na
década de 1990, a Otan havia estendido seus tentáculos para explorar
colaborações em todo o mundo, começando pelo que chamou de “vizinhança do sul”
(ou seja, os países ao sul do Mar Mediterrâneo). Em 1994, lançou o
Mediterranean Dialogue [Diálogo Mediterrâneo], um fórum para países fora da
zona da Otan realizarem intercâmbios com países da Otan. Os países aderiram ao
diálogo em ondas, desde a Argélia, o Egito e Israel até a Jordânia, a
Mauritânia, o Marrocos e a Tunísia, muitos dos quais não tinham relações com
Israel e, ainda assim, sentaram-se à mesa com o representante desse país. Em
2004, um ano depois que os Estados Unidos e vários de seus aliados da Otan
participaram da guerra ilegal contra o Iraque, a Otan reuniu quatro países do
Golfo Árabe (Bahrein, Kuwait, Catar e Emirados Árabes Unidos) na Iniciativa de
Cooperação de Istambul para aumentar a cooperação militar entre a Otan e o
Golfo Árabe. Vários dos países dessas iniciativas (incluindo pelo menos o
Catar, os Emirados Árabes Unidos, a Jordânia e o Marrocos) participaram da
Operação Unified Protector da Otan em 2011, que destruiu o Estado líbio. Em
2016, a Otan inaugurou o Strategic Direction South Hub perto de Nápoles, na
Itália; em 2017, abriu um Centro Regional da Iniciativa Cooperativa de Istambul
no Kuwait; e depois, dentro desse processo de diálogo, sugeriu a abertura de um
Escritório de Relações da Otan, em Amã, na Jordânia. Esse escritório foi
anunciado na Cúpula da Otan de 2023 em Vilnius e inaugurado no ano seguinte.
Esses
pronunciamentos e comunicados falam efusivamente de direitos humanos e
democracia, mas as palavras-chave na realidade são contraterrorismo e
interdição de migrantes nos mares e oceanos. Após a atrocidade da guerra da
Otan contra a Líbia em 2011, quando a aliança já estava mergulhada no pântano
da Guerra ao Terror, ela começou sua guerra contra migrantes de várias partes
do Sul Global que viajaram para esse país devastado pela guerra para tentar
atravessar o mar em direção à Itália. Os líderes da Otan começaram a falar
dessa tragédia como a “instrumentalização dos migrantes”, o que significava
para eles que seus inimigos estavam empregando os migrantes como uma “ameaça
híbrida” para dominar seus países (uma frase que foi usada especificamente
quando a Rússia permitiu que requerentes de asilo de vários países cruzassem a
fronteira com a Finlândia em 2024). Em uma reunião em Washington em 2024, o
ex-secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, reconheceu diretamente que “a
Otan tem um papel a desempenhar” na “instrumentalização da migração” (Otan,
2024d). Essa é a Otan trazendo toda a sua panóplia de recursos militares para
defender a Fortaleza Europa, uma ideia de direita e anti-imigração.
• A África diz: “Otan, Dégage!”
A ação
mais consequente da Otan ao sul do Mediterrâneo foi o uso da força para
destruir o Estado líbio em 2011. Essa ação abriu as portas para que africanos e
outros migrassem para a Europa por meio da Líbia e deu início a um ataque
terrorista contra a Argélia, Mali, Burkina Faso e Níger. Mais de uma década
depois, os detritos da intervenção da Otan permanecem.
Notavelmente,
essa intervenção ocorreu sob o pretexto da “responsabilidade de proteger”
(R2P), uma norma internacional desenvolvida por uma Organização das Nações
Unidas sitiada que “busca garantir que a comunidade internacional nunca mais
deixe de impedir os crimes de atrocidade em massa de genocídio, crimes de
guerra, limpeza étnica e crimes contra a humanidade” (Global R2P, s.d). Embora
o Comitê Internacional sobre Intervenção e Soberania do Estado tenha
desenvolvido a R2P em 2001 em resposta ao genocídio de Ruanda em 1994 e ao
bombardeio da Iugoslávia pela Otan em 1999, foi somente depois que os Estados
Unidos prejudicaram a ideia de “intervenção humanitária” com sua guerra ilegal
contra o Iraque em 2003 que foram tomadas medidas mais concretas para consolidar
a R2P como uma norma internacional até que ela fosse formalmente adotada em uma
Cúpula Mundial da ONU em 2005.
A
França, que foi um dos autores da destruição da Líbia, usou o ataque terrorista
subsequente ao Sahel para legitimar sua própria intervenção militar na região,
que agora foi afastada por golpes populares sob a palavra de ordem France,
dégage! (Prashad, 2024).. Esse sentimento, “Fora França!”, entra em uma órbita
mais ampla: Fora Europa! Fora Otan!
Para a
maioria das pessoas no continente africano, não seria fácil distinguir entre a
UE, os EUA e a Otan. A política da UE sobre migração, por exemplo, não é uma
política civil, mas paramilitar, que usou a Arma dei Carabinieri da Itália e a
Guardia Civil da Espanha para patrulhar o Sahel por meio dos Grupos de Ação
Rápida para monitoramento e intervenção no Sahel (GAR-SI) de 2017 a 2021.
Enquanto isso, os EUA usaram drones para fornecer capacidade de vigilância a
partir da AB 201, uma enorme base militar dos EUA em Agadez, Níger (Civipol,
2021). A intervenção militar francesa, as bases dos EUA na região, o uso de
tecnologias de vigilância no Sahel e no Saara que são rigidamente
regulamentadas ou proibidas na Europa: é assim que o norte da África vivencia o
projeto da Otan – não pelos direitos humanos, mas pela brutalidade (Instituto
Tricontinental de Pesquisa Social, 2021).
No
entanto, a presença da Otan na África tem representado um desafio para os
governos do continente, que continuam buscando dinheiro e assistência técnica.
Em 2015, essa dinâmica deu à Otan o direito de criar um escritório na sede da
União Africana (UA) em Adis Abeba, Etiópia (Otan, 2023). É essa concessão à
Otan que permite que os Estados africanos solicitem treinamento e fundos para a
incipiente Força Africana de Prontidão (uma de suas cinco forças regionais é a
Capacidade de Prontidão da Comunidade Econômica dos Estados da África
Ocidental, que quase invadiu os Estados de Mali, Burkina Faso e Níger após seus
golpes populares em 2021, 2022 e 2023, respectivamente) (Eid, 2024). Os líderes
militares africanos continuam entrando e saindo dos quartéis-generais militares
dos países da Otan, que agora foram formalizados como as Conversações entre
Militares da Otan e da UA (Otan, 2024b). Com esse tipo de aconchego, não
significa quase nada o fato de o Conselho de Paz e Segurança da UA ter feito
uma declaração em 2016 pedindo aos Estados-membros que fossem “circunspectos”
em relação a bases militares estrangeiras em seu solo (União Africana, 2016).
• O desafio da Otan para a China
As
guerras na Iugoslávia, no Afeganistão e na Líbia levaram a Otan para fora de
sua área direta de operações. No entanto, isso está longe de ser o limite da
geografia do imperialismo da Otan. Como Sten Rynning, do Instituto Dinamarquês
de Estudos Avançados, escreveu em seu livro de 2024 NATO: From Cold War to
Ukraine, a History of the World’s Most Powerful Alliance, “Naturalmente, a Otan
não pode se dar ao luxo de ignorar o Indo-Pacífico, porque esse teatro se
tornou a principal preocupação geopolítica dos Estados Unidos” (Rynning, 2024,
p. 275). Essa formulação seria interessante para um linguista: A Otan “não pode
se dar ao luxo de ignorar” as questões centrais que preocupam não os membros da
Otan como um todo, mas os Estados Unidos. Em outras palavras, Rynning, cujo
livro é o mais próximo que chegaremos de um estudo autorizado da Otan, admite
abertamente duas coisas. Primeiro, que a política da organização não é
determinada pelo Conselho do Atlântico Norte (oficialmente o principal órgão
decisório da organização), mas pelos Estados Unidos. Em segundo lugar, desde
2009 (quando Barack Obama se tornou presidente dos EUA), os EUA passaram a ver
cada vez mais a China como seu principal rival, pressionando a Otan a expandir
sua órbita para ameaçar os chineses e colocá-los em seu lugar.
Até
recentemente, a Otan descrevia a China como uma nação que oferecia tanto
“oportunidades quanto desafios”, como escreveu na Declaração de Londres de
2019. Dois anos depois, sob pressão dos EUA, a Otan decidiu que a China não
oferecia mais “oportunidades”, mas que suas “ambições declaradas e seu
comportamento assertivo apresentam desafios sistêmicos à ordem internacional
baseada em regras e a áreas relevantes para a segurança da Aliança”, de acordo
com a Declaração de Bruxelas de 2021 (Otan, 2019; 2021). Em um ensaio publicado
no site da Otan em 2023, Luis Simón, do Real Instituto Elcano, com sede em
Madri (fundado e financiado pelo Estado espanhol), argumentou que “a China
constitui um desafio para um sistema internacional que ainda reflete amplamente
os valores e interesses transatlânticos” (Simon, 2023). Essa é uma observação
correta: não é que a China se oponha à “ordem internacional baseada em regras”,
como afirma o Departamento de Estado dos EUA, mas sim que ela pode se opor à
dominação transatlântica desse sistema.
Simón
observa duas outras maneiras significativas de a China ser “relevante” para a
segurança da Otan. Em primeiro lugar, a China tem sistemas de armas que podem
chegar à Europa e tem “participações em infraestrutura crítica na Europa”. Em
segundo lugar, como a Nova Guerra Fria contra a China é “imensamente importante
para os Estados Unidos”, a Otan deve estar envolvida na fronteira do
Indo-Pacífico. Isso reforça o argumento de Rynning de que, se é importante para
os EUA, deve ser importante para a Otan (aqui, Simón, um cidadão espanhol,
concorda com Rynning, um cidadão dinamarquês, de que a soberania das políticas
externas de seus próprios países pode ser cedida a Washington).
Foi
essa atitude que motivou a Otan a usar seu Programa de Parceria Individualmente
Personalizada (criado em 2021) para criar laços estreitos com a Austrália e a
Nova Zelândia (ambas já eram membros da aliança de inteligência Five Eyes), bem
como com o Japão e a Coreia do Sul. Esses países agora fazem parte do
Indo-Pacífico 4 (IP4) e participaram da Cúpula da Otan de 2022 em Madri como
membros próximos (Otan, 2024c). Então, em setembro de 2024, o primeiro-ministro
japonês Shigeru Ishiba pediu a formação de uma “Otan asiática”. No entanto,
embora a aliança tenha considerado a abertura de um escritório de ligação em
Tóquio no passado, uma Otan asiática seria em grande parte redundante,
considerando os elementos já estabelecidos da Estratégia Indo-Pacífica dos
Estados Unidos, como:
• Five Eyes (Cinco Olhos), uma rede de
agências de inteligência vinculadas por acordos não divulgados, composta por
Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Reino Unido e EUA.
• O Diálogo de Segurança Quadrilateral
(ou Quad), que inclui a Austrália, a Índia, o Japão e os Estados Unidos.
• The Squad, que substitui as Filipinas
por uma Índia menos entusiasmada.
• A aliança entre Austrália, Reino Unido e
Estados Unidos (Aukus).
• A aliança Japão-Coreia do Sul-EUA
(Jakus).
Além
disso, o governo dos Estados Unidos atraiu de forma muito provocativa a
província chinesa de Taiwan para o crescente papel da Otan na Ásia. Por
exemplo, o projeto de Lei de Política de Taiwan do Congresso dos EUA considera
Taiwan como um “importante aliado não pertencente à Otan”, enquanto uma emenda
recomendada à Lei de Controle de Exportação de Armas de 1976 inclui o país na
lista de “receptores da Otan Plus”, permitindo que ele evite regras de não
proliferação de diferentes tipos (Hudson Institute, 2025; USCC, 2024, p.
443-485; Senado dos EUA, 2022; Fernandes, 2018, 2022; Cannon & Hakata,
2021; Baldauff, 2024).
Em
outras palavras, já existem várias plataformas que fazem o trabalho de uma Otan
asiática, e a Otan já está totalmente envolvida no Indo-Pacífico, como
evidenciado por sua disposição em participar do projeto dos EUA de patrulhar as
águas ao redor da China e construir projetos de segurança, como bases e
alianças. A aliança atlântica da Otan já zarpou para o Oceano Pacífico. Essa é
a diplomacia de canhões do século XXI.
Em
1839, os navios britânicos que impunham o ópio aos chineses tinham nomes
sugestivos, como HMS Volage e HMS Hyacinth, o primeiro (Volage) indicando
inconstância, e o segundo (Hyacinth), uma referência à mitologia grega
indicando ciúme. Vale a pena preservar esses nomes. As alianças da Otan também
são inconstantes. Seus interesses também são movidos pelo ciúme, protegendo os
interesses de seus Estados-membros em detrimento dos interesses globais, como
ela pretende. Ele quer manter o sistema baseado em regras dos EUA e impedir o
desenvolvimento de outros países. É isso que torna a Otan a organização mais
perigosa e reacionária do mundo atual.
Fonte:
Dossiê do Instituto Tricontinental

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