O
tiro de misericórdia no magistério brasileiro
As
últimas semanas foram marcadas por alguns fatos tristes e assustadores para
aqueles e aquelas que lecionam: docentes vieram a óbito dentro das escolas. Um
espaço que deveria ser de acolhimento, cumplicidade e companheirismo
transformou-se em um lugar de morte. Com a reforma da previdência, passamos a
ter medo de não dar tempo de aproveitar a aposentadoria. Agora, a situação
piorou: temos medo de morrer no exercício da função e no local onde a
exercemos. É um misto de precarização, romantização e bizarrice. E é triste ver
que chegamos a este ponto, ponto em que nossa carreira virou algoz de nós
mesmos.
O
objetivo deste texto, além de homenagear as vítimas de suas próprias carreiras
e de chamar atenção para um grande problema, é mostrar de que modo, em questão
de algumas décadas, fomos ao fundo do poço; fomos de espaço da esperança ao
espaço da morte. Morte provocada pelo neoliberalismo e por um trabalho – bem–
feito, convenhamos – executado minuciosamente pela extrema direita, que busca
destruir qualquer coisa que tenha a ver com produção de conhecimento e cultura.
Se
voltarmos à década de 1930, quando a urbanização brasileira começou a caminhar
a passos largos, analisando documentos de época podemos notar certo empenho no
sentido de colocar a instituição escolar como elemento urbanístico. Não se
tratava apenas de um espaço de ensino- aprendizagem, mas sim, de um elemento
simbólico que mostrava o que se entendia por desenvolvimento nacional. Era como
se prédios escolares enriquecessem o espaço urbano, em termos de beleza e em
termos de formação da nação.
Não é à
toa que o período em questão foi marcado por inigualável grandiosidade
arquitetônica aplicada aos prédios escolares. A arquitetura não é inocente, ela
possui intencionalidades. O que teria levado o renomado arquiteto Grandjean de
Montigny a projetar o prédio do Colégio Pedro II, localizado no centro da
cidade do Rio de Janeiro? Assim como a grandiosidade arquitetônica que marcou
as escolas de fins do século XIX até os anos 1930 buscava dizer algo, o
encaixotamento das escolas atuais também busca. O ano de 1934 foi marcado por
um evento sobre arquitetura escolar. Em outras palavras, um campo autônomo de
pesquisa e concretização de prédios escolares surgia. A escola, cada vez mais,
ganhava especificidade, deixando de existir em espaços improvisados.
Indo
além, os anos 1930 ainda foram marcados pelo então presidente Getúlio Vargas
recebendo o título de professor honoris causa pelo Colégio Pedro II, 1938, além
de um grande movimento que, embora não fosse oficialmente católico, era chamado
de Cruzada pela Educação, cujo objetivo era pontilhar o território nacional de
escolas para que a população fosse alfabetizada. O convite para assumir a
direção do movimento foi endereçado a ninguém menos que dona Darcy Vargas,
esposa do então presidente da República.
Obviamente,
não se trata de defender um presidente autoritário como Vargas. A ideia aqui é
de trazer uma política pública, que está começando a matar, para o centro do
debate. E vários são os registros que apontam para o fato de os anos 1930 terem
sido marcados pela centralidade da educação escolar. Ela, talvez pelo contexto
de urbanização e industrialização, passava a ser vista como verdadeira
redenção. A educação promoveria o desenvolvimento e o crescimento econômico,
essa era a mentalidade.
No
entanto, é bom contextualizar: a escola ainda era para poucos. O período a que
me refiro não era um período, não ainda, de universalização da educação
escolar. Na década de 1920, o Brasil contava com 75% de analfabetos, e é
exatamente por isso que surgem propostas um tanto radicais de alfabetizar o
povo. Ainda havia setores da sociedade que, conseguindo ter acesso à educação
escolar, não conseguia completar os estudos. Do primário para o secundário,
havia o exame de admissão, um verdadeiro vestibular que, como qualquer
vestibular, busca eliminar a maioria. Todavia, existiam preocupações voltadas à
escolarização da população.
Portanto, pensar a educação de tempos
pretéritos, significa pensar no papel arquitetônico que buscava apontar para a
importância da escola e no papel simbólico que a escola desempenhava no sentido
de salvar toda uma população da ignorância e do analfabetismo, inserindo essa
mesma população nos ditames de um capitalismo que então se modernizava e no
modo de vida de um espaço que, cada vez mais, se tornava diferente do campo: o
espaço urbano.
Por
algumas razões, todos esses aspectos anteriormente mencionados caíram por
terra. Mudou-se a percepção do que deveria ser a boa escola. O Consenso de
Washington, no fim da década de 1980, institui o neoliberalismo enquanto
paradigma econômico, político, cultural, além de orientador de políticas
públicas. No fim das contas, o neoliberalismo transforma a educação em
mercadoria. Estudantes da rede pública são alvos de metas a serem cumpridas,
enquanto estudantes de grifes educacionais são consumidores de serviços. A
escola pode ser um presídio ou pode ser um shopping, depende do quanto você
pode pagar.
Traduzindo
o que chamamos de meta: a meta, no campo educacional e neste contexto
neoliberal, nada mais é do que uma média estipulada a partir da relação entre o
dinheiro investido e o resultado de tal investimento. Um estudante não é só um
estudante, ele é um custo, uma despesa e um futuro recurso.
O que o
neoliberalismo faz é, partindo do pressuposto de que tudo pode ser
mercantilizado e de que nós somos mercantilizáveis, forçar desinvestimentos,
tendo em vista que há dívidas externas a serem pagas, o que só é possível a
partir da retirada de investimentos de setores básicos de qualquer sociedade.
Sabendo que há uma dívida a ser paga e sabendo que o pagamento da dívida acaba
por exigir a redução de investimentos, a sociedade precisa manter tais
atividades funcionando. Como fazer isso? Forçando um aumento da produtividade a
partir da redução de recursos financeiros. Como? Impondo metas
mensuráveis.
E o que
temos hoje é a morte da pedagogia – e de professores – em nome da burocracia.
Trata-se de metas pouco educativas, pouco pedagógicas. No fim das contas, temos
relatórios, que sequer são lidos ou analisados, para preencher. A escola,
instituição que deveria zelar pela escolarização em sentido amplo – ensino,
aprendizagem, afeto, escuta, troca ––, faz com que ocorra um afastamento cada
vez maior. Com isso, professores acabam por se tornar meros executores de
diretrizes vindas sabe-se lá de onde.
A
transformação da escola em um recurso a ser gerido – atualmente, em muitas
redes de ensino, a direção é chamada de “equipe gestora” ––, para além das
metas e cobranças, e mantendo o romance com o ideário neoliberal, não poderia
deixar de precarizar professores e professoras até o limite. Se o estudante se
torna um custo, o professor se torna um produto barato a ser administrado e
explorado até o fim. Entram em cena os contratos temporários, que achatam
salários e retiram a autonomia docente (garantida por lei, mas quem se
importa?); uma rotatividade absurda nas escolas públicas, a ponto de
dificultarem a efetivação de um corpo docente em sentido mais profundo; um uso
abusivo do tempo desses professores temporários, que acabam não podendo
escolher onde trabalhar, dentre outros tantos prejuízos.
Como se
tudo isso já não fosse suficientemente horrível, temos uma extrema direita que
se empenhou muitíssimo em rechaçar provas científicas, desprezar manifestações
culturais e depreciar instituições de ensino. Parece pouco, mas não é agradável
conviver com todas as acusações e insinuações que sofremos no intervalo entre o
impeachment da presidenta Dilma Rousseff e o final de 2022. Não vou entrar aqui
no discurso corporativista surrado que elenca todos os afazeres de um docente,
até porque as pessoas sabem. Basta dizer o básico: toda uma categoria foi
permanentemente desrespeitada por arruaceiros reacionários de redes sociais em
busca de visibilidade e uns trocados.
A
extrema direita entra em cena já com um discurso depreciativo e com um
propósito de transformar a escola, sobretudo a pública, em seu quintal. Veio a
proposta de um ex-ministro da Educação solicitando que as crianças fossem
filmadas cantando o Hino Nacional; depois um professor universitário de
universidade federal com a produção científica de um calouro nada aplicado
assumiu o Ministério da Educação, enfim, o fundo do poço nunca chegava.
Essa
turba iletrada, cafona, violenta, insegura, mal resolvida, rancorosa,
amargurada e infeliz produziu e reproduziu discursos e representações sobre a
escola e sobre a docência que prejudicaram, e continuam prejudicando, sem
sombra de dúvidas, a saúde de muitos professores e muitas professoras do país.
O professor que antes era mal remunerado, passou a ser mal remunerado e
indesejável. Viramos pessoas indesejáveis por um tempo – não ser desejado pela
extrema direita é um prêmio de dignidade –, mas o estresse que isso provoca
começa a minar a saúde. Perseguições, assédios, relatórios, afazeres
burocráticos, tudo isso começa a rebrotar, mas sem nenhum pudor. Em menos de um
século, aqueles que garantiriam algum avanço para o país passaram a ser vistos
como pestilentos, malfeitores, indesejáveis e perpetuadores de tudo que há de
pior. É como se o magistério tivesse perdido sua razão de existir.
Esse
combo do neoliberalismo com o desrespeito cotidianamente produzido e
reproduzido mata pessoas. O sistema escolar que foi construído a partir dos
pilares de destruição de escolas está matando docentes, literalmente. E mais:
matando dentro das escolas, para sacramentar todo o desrespeito e exploração a
que somos submetidos e submetidas.
Este
texto é uma homenagem aos professores e professoras que recentemente perderam
suas vidas nas escolas em que tentavam trabalhar dignamente, apesar de todos os
impedimentos.
Fonte:
Por Giam C. C. Miceli, no Le Monde

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