quinta-feira, 12 de junho de 2025

O que é a verdade diante da inteligência artificial?

A pergunta feita por Pôncio Pilatos a Jesus atravessa os séculos. Hoje, ela retorna com força em meio à enxurrada de conteúdos gerados por inteligência artificial. Imagens hiper-realistas, vozes clonadas e deepfakes colocam em xeque aquilo que nossos sentidos sempre tomaram como certo. O que vemos é realmente confiável?

Em maio deste ano, o Google lançou o Veo 3, sistema que gera vídeos tão realistas que se tornam quase indistinguíveis da realidade. Essa tecnologia não somente é um simulacro de imagens e sons, mas redefine o que entendemos como verdade visual. O irreal produz poder de convencimento por seus próprios meios. Seria isso um prelúdio da quebra da confiança nas imagens digitais?

Se antes tínhamos certezas, agora o que vemos e ouvimos pode ser inteiramente fabricado, e mais, com uma aparência quase inquestionável. Não se trata apenas de separar a verdade da mentira, mas também de reconhecer os efeitos de verdade. Nesse contexto, o metaverso, como espaço onde tudo pode ser fabricado, é ao mesmo tempo um risco e um sintoma. Ele não apaga a verdade, mas expõe o seu esvaziamento de sentido. O metaverso revela um mundo em que a verdade se dissolve entre aparências bem-feitas, entre identidades modeladas e experiências hiperestéticas.

Imersos no emaranhado da pós-verdade, em que as emoções e crenças têm mais peso que os fatos objetivos, como analisa o semioticista Eric Landowski, a experiência da verdade mudou de natureza. São metamorfoses: ela é hoje uma experiência sensível, mais do que um dado fixo. Vivemos um tempo em que a verdade “se acredita por contágio”. Assim, desfazer a ideia de verdade pode parecer sedutor, especialmente em tempos em que toda afirmação é instável e toda imagem pode ser forjada. Mas talvez o mais interessante não seja abandonar a ideia de verdade, e sim reconfigurá-la: não como posse, mas como processo; não como certeza, mas como abertura; não como um dado, mas como ato relacional e ético.

A comunicação digital empobrece as relações humanas porque elimina aquilo que há de mais fundamental no encontro com o outro: o toque, o olhar, o silêncio entre as palavras. No lugar disso, temos vozes sem presença e rostos filtrados, em uma espécie de ilusão interativa que simula proximidade, mas reforça o isolamento. Falta à comunicação digital a intensidade que só a presença é capaz de proporcionar. O excesso de barulho impede uma escuta contratual com o outro. Eleva-se o efeito da solidão, numa engrenagem central desse mundo onde o outro só existe enquanto reflexo do meu desejo de ser visto. Todos falam, ninguém escuta; todos se produzem como marca, imersos na lógica da autopromoção e do marketing, falta a presença. A internet não é espaço de vínculo, mas de performance. A tecnologia redefine o que chamamos de humano, e talvez o que estejamos perdendo não seja a comunicação, mas a própria experiência de estar com o outro de verdade.

A inteligência artificial não tem coração. O pensar com o coração avalia e sente espaços antes de operar conceitos. A tonalidade afetiva da confiança no alcance do momento está na emoção, no começo do pensamento. A IA é apática. Ela calcula. Ela não tem acesso a horizontes. Ela processa dados constantes, previsíveis e controláveis ao toque na tela. Será que não estamos querendo fugir de nossas realidades, para adentrarmos a um mundo imaginário?

Agora, como criar uma agenda positiva em relação à verdade? Talvez o desafio esteja menos em resgatar uma ideia fixa de verdade e mais em propor práticas sensíveis que reabilitem a confiança simbólica. Uma agenda positiva exige um novo compromisso com o acontecimento da verdade como encontro. A era da curadoria nos exige saber o que realmente importa. Orquestrar a informação, filtrando ruídos e concentrando nossa atenção no essencial, é um pensamento inaugural para a sobrevivência da confiança na comunicação contemporânea.

A IA não atinge nível profundo e conceitual do saber. Ela não conceitua os resultados que calcula. O cálculo é diferente do pensamento porque não forma conceitos e não avança de uma conclusão para outra. A IA aprende com o passado. O futuro calculado não é verdadeiro no sentido completo da palavra. Ela carece da negatividade da ruptura, que deixa surgir o novo no sentido enfático.

Em meio a esse cenário de crise da verdade, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em sua obra A Salvação do Belo, nos alerta para um fenômeno atual: o belo, na contemporaneidade, perdeu sua profundidade e foi reduzido ao que é simplesmente agradável e prático: a curtida, o like. Mas, para Han, o verdadeiro belo é aquilo que provoca, inquieta, que tira da zona de conforto aquilo que toca o cerne da emotividade.

Esse olhar nos convida a valorizar a alteridade, a presença real do outro, que reconhecemos em sua diferença e legitimidade como sujeito no mundo. É na alteridade que talvez resida uma das saídas para reabilitar o credível na era da pós-verdade.

O pensamento humano é mais que cálculo e resolução de problemas, é uma ponte entre a subjetividade e a objetividade, o abstrato e o concreto, a sensibilidade e o raciocínio, o imaginável e o sensível, a dor e a beleza da condição humana. A questão da presença é que o pensamento humano não está apenas no mundo, mas se envolve com ele de forma plena e sensível, enquanto a máquina apenas calcula sobre ele.

Num tempo em que tudo está disponível e alcançável, nenhuma atenção profunda é formada. O foco se dispersa. O olhar para o belo não se detém, ele vagueia como um caçador. Somente as coisas tornam o mundo visível. Elas possuem visibilidade, enquanto o intangível as apaga.

Como sugeria o educador Anísio Teixeira em sua defesa da educação integral, pode-se dizer que a inteligência verdadeira só existe quando pensamento, ação e emoção caminham juntos, algo que uma máquina, por mais sofisticada que seja, não alcança, não vive. Apenas simula. A tecnologia não é indício de progresso moral da humanidade. Ética não é algo que uma máquina pode simular é um compromisso humano, que exige acautelar-se constantemente diante dos desafios e riscos éticos que as novas tecnologias apresentam.

Essa dinâmica do contágio simbólico amplifica a circulação de notícias falsas, dos simulacros políticos, das realidades fabricadas. A confiança está em crise porque os sentidos: visão e audição já não são garantias sólidas de verdade. É urgente reencantar os sentidos para compreender as complexidades da condição humana.

Logo, precisa-se buscar novos critérios para a verdade, que ultrapassem o que é imediatamente percebido. Para além de uma checagem rigorosa, responsabilidade figurativa é essencial para redefinir pactos de confiança. A confiança foi capturada pelos afetos e os sentidos estão em crise. Espaço privilegiado para a dúvida como veridicção.

E, por fim… Diante do desafio contemporâneo imposto pela tecnologia e pela pós-verdade, retoma-se a pergunta de Pilatos: O que é a verdade? É provável que a verdade não seja uma resposta fixa, mas sim um convite a exercitar nossa sensibilidade crítica para navegar entre o real e o irreal.

A pergunta de Pilatos precisa ser atualizada: O que ainda pode fazer sentido como verdade? A resposta, certamente, está em reeducar nossa sensibilidade, reconhecer os limites da percepção, mas também assumir a responsabilidade de reconstruir novos pactos de confiança simbólica. Afinal, a sociedade não se transforma por novas máquinas, mas por novas formas de comportamento.

•        IA, vídeos ultrarrealistas e o colapso do real; Por Maria Eduarda Soares de Oliveira

 A humanidade, desde sempre, se apoiou em marcos de referência para distinguir o real do ilusório. O avanço das tecnologias de inteligência artificial — especialmente a criação de vídeos ultrarrealistas e falsificações hiper precisas de vozes e rostos — está corroendo esse alicerce com velocidade inédita. A ameaça que isso representa não é apenas tecnológica, mas profundamente política: em um mundo onde até o olhar mais treinado não sabe mais o que é real, a confiança pública, os processos democráticos e a administração da justiça entram em colapso simbólico.

A emergência dos chamados deepfakes e simulações hiper-realistas — agora produzidas em questão de minutos por plataformas abertas — inaugura uma era em que a dúvida precede qualquer evidência. Ainda que as tecnologias de falsificação já existissem, o diferencial contemporâneo é sua acessibilidade e escalabilidade. A barreira que antes separava a manipulação profissional da brincadeira amadora se dissolveu. Hoje, qualquer cidadão conectado pode fabricar uma versão convincente de um acontecimento que jamais existiu — e espalhá-la com a força viral de um clique, a partir da IA.

Esse cenário não é mera especulação distópica. Em 2023, um áudio falso da voz do presidente dos EUA, criado por IA, chegou a interferir momentaneamente em campanhas eleitorais. No Brasil, vídeos adulterados têm circulado com potencial de dano real, não apenas à imagem de figuras públicas, mas à própria estrutura do debate público. Como aponta o filósofo Byung-Chul Han, a crise contemporânea já não é da informação, mas da confiança: “quanto mais se sabe, menos se acredita”.

A consequência mais perigosa desse colapso da distinção entre verdadeiro e falso é a erosão da possibilidade de julgamento ético, jurídico e político. Em um sistema de justiça baseado em provas, como confiar em registros audiovisuais? Como sustentar o testemunho digital em uma era onde “ver” já não é suficiente? O risco não está apenas na manipulação, mas na generalização da suspeita. O vídeo falso se espalha, mas o desmentido nunca o alcança com igual intensidade.

Mesmo as gerações que cresceram imersas na internet, acostumadas ao conteúdo viral e aos filtros de realidade, começam a expressar perplexidade diante da impossibilidade de distinguir ficção e fato. Trata-se de uma crise epistêmica, mas também geracional. O que significa formar cidadãos quando já não há terreno sólido sobre o qual edificar certezas?

Diante desse cenário, o desafio ético-político urgente não é apenas o de regulamentar tecnologias, mas o de recuperar critérios de verdade em uma sociedade saturada de simulacros. É preciso mais do que leis; é necessário um novo pacto de confiança coletiva, que reafirme a importância da mediação crítica, do jornalismo ético e da investigação técnica como bússolas democráticas.

Em tempos de mentira automatizada, dizer a verdade se torna um ato radical — e acreditar nela, um gesto de resistência.

•        CPI das Bets foi marcada por espetáculo nas redes, dominado por perfis de fofoca e da direita

A repercussão da CPI das Bets nas redes sociais, especialmente após a convocação dos influenciadores Virginia Fonseca e Rico Melquíades, revelou um cenário marcado pela sociedade do espetáculo e pela ausência de vozes progressistas.

Segundo análise do Manchetômetro, páginas de entretenimento e perfis ligados à direita lideraram com folga as interações tanto no Facebook quanto no Instagram, enquanto a esquerda não figurou entre os principais agentes do debate digital.

“Isso pode ser um sinal de que o debate da CPI das Bets foi capturado por um foco nas celebridades envolvidas, em vez de um debate mais substancial sobre como as apostas online afetam os direitos difusos de famílias brasileiras”, afirma o relatório produzido no âmbito do projeto Política nas Redes, do IESP-UERJ.

A análise reuniu postagens públicas feitas entre os dias 12 e 15 de maio de 2025, identificadas por meio da plataforma SOMAR, com os termos “Vírginia”, “Rico Melquíades” e “CPI das Bets”. Foram analisadas mais de 7.400 publicações, que geraram 5,3 milhões de interações nas duas redes.

<><> Direita mobilizada, esquerda ausente

No Facebook, entre os 20 perfis com maior número de interações, nove eram de direita, com destaque para páginas como Unidos com Bolsonaro. No Instagram, a presença da direita também se destacou com três perfis, enquanto nenhuma página de esquerda apareceu entre os principais.

“Ao observarmos a cobertura, notamos que a direita conquistou o maior número de páginas e de reações às publicações, enquanto a esquerda não apareceu para o debate. Foram nove perfis de direita. Em relação a reações, foram 82.167 interações nas páginas de direita, atrás apenas dos perfis de Fofoca”.

O campo progressista, portanto, foi eclipsado do debate, mesmo diante de uma pauta com implicações éticas e sociais sérias, como a atuação de influenciadores na promoção de jogos de azar e seus impactos sobre o público jovem.

<><> Entre a crítica e o espetáculo

A análise semântica das postagens mais populares identificou dois grandes blocos narrativos. O Cluster 0 reúne textos mais críticos, com desconfiança em relação à atuação de Virginia Fonseca, e destaque para vozes que cobram responsabilidade social dos influenciadores, como a ex-nadadora Joanna Maranhão.

Já o Cluster 1 adota um tom mais simpático e emocional, valorizando momentos de “humor”, como o pedido de selfie feito pelo senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), isso enquanto no mesmo espaço, uma ministra de Estado é desrespeitada e silenciada.

No geral, cerca de 81% dos comentários estiveram concentrados em apenas 10% das postagens, o que evidencia que o debate foi guiado por poucas vozes com grande capacidade de alcance, sobretudo páginas como Alfinetei e Leo Dias, que lideraram no Instagram.

Páginas jornalísticas como G1, Folha de S.Paulo, Estadão e BBC também estiveram presentes entre as mais comentadas, mas com bem menos força de engajamento. O relatório sugere que esse dado reforça a ideia de que o debate foi capturado por uma lógica de espetáculo, em detrimento de uma discussão mais profunda sobre o papel das apostas online e sua regulação.

Nesta terça-feira, A CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) das Bets sugeriu o indiciamento da influenciadora Virgínia Fonseca e outros 14 influenciadores pelos crimes de publicidade enganosa e estelionato.

 

Fonte: Por Mauri Oliveira, em Le Monde/Jornal GGN 

 

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