O
que é a verdade diante da inteligência artificial?
A
pergunta feita por Pôncio Pilatos a Jesus atravessa os séculos. Hoje, ela
retorna com força em meio à enxurrada de conteúdos gerados por inteligência
artificial. Imagens hiper-realistas, vozes clonadas e deepfakes colocam em
xeque aquilo que nossos sentidos sempre tomaram como certo. O que vemos é
realmente confiável?
Em maio
deste ano, o Google lançou o Veo 3, sistema que gera vídeos tão realistas que
se tornam quase indistinguíveis da realidade. Essa tecnologia não somente é um
simulacro de imagens e sons, mas redefine o que entendemos como verdade visual.
O irreal produz poder de convencimento por seus próprios meios. Seria isso um
prelúdio da quebra da confiança nas imagens digitais?
Se
antes tínhamos certezas, agora o que vemos e ouvimos pode ser inteiramente
fabricado, e mais, com uma aparência quase inquestionável. Não se trata apenas
de separar a verdade da mentira, mas também de reconhecer os efeitos de
verdade. Nesse contexto, o metaverso, como espaço onde tudo pode ser fabricado,
é ao mesmo tempo um risco e um sintoma. Ele não apaga a verdade, mas expõe o
seu esvaziamento de sentido. O metaverso revela um mundo em que a verdade se
dissolve entre aparências bem-feitas, entre identidades modeladas e
experiências hiperestéticas.
Imersos
no emaranhado da pós-verdade, em que as emoções e crenças têm mais peso que os
fatos objetivos, como analisa o semioticista Eric Landowski, a experiência da
verdade mudou de natureza. São metamorfoses: ela é hoje uma experiência
sensível, mais do que um dado fixo. Vivemos um tempo em que a verdade “se
acredita por contágio”. Assim, desfazer a ideia de verdade pode parecer
sedutor, especialmente em tempos em que toda afirmação é instável e toda imagem
pode ser forjada. Mas talvez o mais interessante não seja abandonar a ideia de
verdade, e sim reconfigurá-la: não como posse, mas como processo; não como
certeza, mas como abertura; não como um dado, mas como ato relacional e ético.
A
comunicação digital empobrece as relações humanas porque elimina aquilo que há
de mais fundamental no encontro com o outro: o toque, o olhar, o silêncio entre
as palavras. No lugar disso, temos vozes sem presença e rostos filtrados, em
uma espécie de ilusão interativa que simula proximidade, mas reforça o
isolamento. Falta à comunicação digital a intensidade que só a presença é capaz
de proporcionar. O excesso de barulho impede uma escuta contratual com o outro.
Eleva-se o efeito da solidão, numa engrenagem central desse mundo onde o outro
só existe enquanto reflexo do meu desejo de ser visto. Todos falam, ninguém
escuta; todos se produzem como marca, imersos na lógica da autopromoção e do
marketing, falta a presença. A internet não é espaço de vínculo, mas de
performance. A tecnologia redefine o que chamamos de humano, e talvez o que
estejamos perdendo não seja a comunicação, mas a própria experiência de estar
com o outro de verdade.
A
inteligência artificial não tem coração. O pensar com o coração avalia e sente
espaços antes de operar conceitos. A tonalidade afetiva da confiança no alcance
do momento está na emoção, no começo do pensamento. A IA é apática. Ela
calcula. Ela não tem acesso a horizontes. Ela processa dados constantes,
previsíveis e controláveis ao toque na tela. Será que não estamos querendo
fugir de nossas realidades, para adentrarmos a um mundo imaginário?
Agora,
como criar uma agenda positiva em relação à verdade? Talvez o desafio esteja
menos em resgatar uma ideia fixa de verdade e mais em propor práticas sensíveis
que reabilitem a confiança simbólica. Uma agenda positiva exige um novo
compromisso com o acontecimento da verdade como encontro. A era da curadoria
nos exige saber o que realmente importa. Orquestrar a informação, filtrando
ruídos e concentrando nossa atenção no essencial, é um pensamento inaugural
para a sobrevivência da confiança na comunicação contemporânea.
A IA
não atinge nível profundo e conceitual do saber. Ela não conceitua os
resultados que calcula. O cálculo é diferente do pensamento porque não forma
conceitos e não avança de uma conclusão para outra. A IA aprende com o passado.
O futuro calculado não é verdadeiro no sentido completo da palavra. Ela carece
da negatividade da ruptura, que deixa surgir o novo no sentido enfático.
Em meio
a esse cenário de crise da verdade, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em
sua obra A Salvação do Belo, nos alerta para um fenômeno atual: o belo, na
contemporaneidade, perdeu sua profundidade e foi reduzido ao que é simplesmente
agradável e prático: a curtida, o like. Mas, para Han, o verdadeiro belo é
aquilo que provoca, inquieta, que tira da zona de conforto aquilo que toca o
cerne da emotividade.
Esse
olhar nos convida a valorizar a alteridade, a presença real do outro, que
reconhecemos em sua diferença e legitimidade como sujeito no mundo. É na
alteridade que talvez resida uma das saídas para reabilitar o credível na era
da pós-verdade.
O
pensamento humano é mais que cálculo e resolução de problemas, é uma ponte
entre a subjetividade e a objetividade, o abstrato e o concreto, a
sensibilidade e o raciocínio, o imaginável e o sensível, a dor e a beleza da
condição humana. A questão da presença é que o pensamento humano não está
apenas no mundo, mas se envolve com ele de forma plena e sensível, enquanto a
máquina apenas calcula sobre ele.
Num
tempo em que tudo está disponível e alcançável, nenhuma atenção profunda é
formada. O foco se dispersa. O olhar para o belo não se detém, ele vagueia como
um caçador. Somente as coisas tornam o mundo visível. Elas possuem
visibilidade, enquanto o intangível as apaga.
Como
sugeria o educador Anísio Teixeira em sua defesa da educação integral, pode-se
dizer que a inteligência verdadeira só existe quando pensamento, ação e emoção
caminham juntos, algo que uma máquina, por mais sofisticada que seja, não
alcança, não vive. Apenas simula. A tecnologia não é indício de progresso moral
da humanidade. Ética não é algo que uma máquina pode simular é um compromisso
humano, que exige acautelar-se constantemente diante dos desafios e riscos
éticos que as novas tecnologias apresentam.
Essa
dinâmica do contágio simbólico amplifica a circulação de notícias falsas, dos
simulacros políticos, das realidades fabricadas. A confiança está em crise
porque os sentidos: visão e audição já não são garantias sólidas de verdade. É
urgente reencantar os sentidos para compreender as complexidades da condição
humana.
Logo,
precisa-se buscar novos critérios para a verdade, que ultrapassem o que é
imediatamente percebido. Para além de uma checagem rigorosa, responsabilidade
figurativa é essencial para redefinir pactos de confiança. A confiança foi
capturada pelos afetos e os sentidos estão em crise. Espaço privilegiado para a
dúvida como veridicção.
E, por
fim… Diante do desafio contemporâneo imposto pela tecnologia e pela
pós-verdade, retoma-se a pergunta de Pilatos: O que é a verdade? É provável que
a verdade não seja uma resposta fixa, mas sim um convite a exercitar nossa
sensibilidade crítica para navegar entre o real e o irreal.
A
pergunta de Pilatos precisa ser atualizada: O que ainda pode fazer sentido como
verdade? A resposta, certamente, está em reeducar nossa sensibilidade,
reconhecer os limites da percepção, mas também assumir a responsabilidade de
reconstruir novos pactos de confiança simbólica. Afinal, a sociedade não se
transforma por novas máquinas, mas por novas formas de comportamento.
• IA, vídeos ultrarrealistas e o colapso
do real; Por Maria Eduarda Soares de Oliveira
A humanidade, desde sempre, se apoiou em
marcos de referência para distinguir o real do ilusório. O avanço das
tecnologias de inteligência artificial — especialmente a criação de vídeos
ultrarrealistas e falsificações hiper precisas de vozes e rostos — está
corroendo esse alicerce com velocidade inédita. A ameaça que isso representa
não é apenas tecnológica, mas profundamente política: em um mundo onde até o
olhar mais treinado não sabe mais o que é real, a confiança pública, os
processos democráticos e a administração da justiça entram em colapso
simbólico.
A
emergência dos chamados deepfakes e simulações hiper-realistas — agora
produzidas em questão de minutos por plataformas abertas — inaugura uma era em
que a dúvida precede qualquer evidência. Ainda que as tecnologias de
falsificação já existissem, o diferencial contemporâneo é sua acessibilidade e
escalabilidade. A barreira que antes separava a manipulação profissional da
brincadeira amadora se dissolveu. Hoje, qualquer cidadão conectado pode
fabricar uma versão convincente de um acontecimento que jamais existiu — e
espalhá-la com a força viral de um clique, a partir da IA.
Esse
cenário não é mera especulação distópica. Em 2023, um áudio falso da voz do
presidente dos EUA, criado por IA, chegou a interferir momentaneamente em
campanhas eleitorais. No Brasil, vídeos adulterados têm circulado com potencial
de dano real, não apenas à imagem de figuras públicas, mas à própria estrutura
do debate público. Como aponta o filósofo Byung-Chul Han, a crise contemporânea
já não é da informação, mas da confiança: “quanto mais se sabe, menos se
acredita”.
A
consequência mais perigosa desse colapso da distinção entre verdadeiro e falso
é a erosão da possibilidade de julgamento ético, jurídico e político. Em um
sistema de justiça baseado em provas, como confiar em registros audiovisuais?
Como sustentar o testemunho digital em uma era onde “ver” já não é suficiente?
O risco não está apenas na manipulação, mas na generalização da suspeita. O
vídeo falso se espalha, mas o desmentido nunca o alcança com igual intensidade.
Mesmo
as gerações que cresceram imersas na internet, acostumadas ao conteúdo viral e
aos filtros de realidade, começam a expressar perplexidade diante da
impossibilidade de distinguir ficção e fato. Trata-se de uma crise epistêmica,
mas também geracional. O que significa formar cidadãos quando já não há terreno
sólido sobre o qual edificar certezas?
Diante
desse cenário, o desafio ético-político urgente não é apenas o de regulamentar
tecnologias, mas o de recuperar critérios de verdade em uma sociedade saturada
de simulacros. É preciso mais do que leis; é necessário um novo pacto de
confiança coletiva, que reafirme a importância da mediação crítica, do
jornalismo ético e da investigação técnica como bússolas democráticas.
Em
tempos de mentira automatizada, dizer a verdade se torna um ato radical — e
acreditar nela, um gesto de resistência.
• CPI das Bets foi marcada por espetáculo
nas redes, dominado por perfis de fofoca e da direita
A
repercussão da CPI das Bets nas redes sociais, especialmente após a convocação
dos influenciadores Virginia Fonseca e Rico Melquíades, revelou um cenário
marcado pela sociedade do espetáculo e pela ausência de vozes progressistas.
Segundo
análise do Manchetômetro, páginas de entretenimento e perfis ligados à direita
lideraram com folga as interações tanto no Facebook quanto no Instagram,
enquanto a esquerda não figurou entre os principais agentes do debate digital.
“Isso
pode ser um sinal de que o debate da CPI das Bets foi capturado por um foco nas
celebridades envolvidas, em vez de um debate mais substancial sobre como as
apostas online afetam os direitos difusos de famílias brasileiras”, afirma o
relatório produzido no âmbito do projeto Política nas Redes, do IESP-UERJ.
A
análise reuniu postagens públicas feitas entre os dias 12 e 15 de maio de 2025,
identificadas por meio da plataforma SOMAR, com os termos “Vírginia”, “Rico
Melquíades” e “CPI das Bets”. Foram analisadas mais de 7.400 publicações, que
geraram 5,3 milhões de interações nas duas redes.
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Direita mobilizada, esquerda ausente
No
Facebook, entre os 20 perfis com maior número de interações, nove eram de
direita, com destaque para páginas como Unidos com Bolsonaro. No Instagram, a
presença da direita também se destacou com três perfis, enquanto nenhuma página
de esquerda apareceu entre os principais.
“Ao
observarmos a cobertura, notamos que a direita conquistou o maior número de
páginas e de reações às publicações, enquanto a esquerda não apareceu para o
debate. Foram nove perfis de direita. Em relação a reações, foram 82.167
interações nas páginas de direita, atrás apenas dos perfis de Fofoca”.
O campo
progressista, portanto, foi eclipsado do debate, mesmo diante de uma pauta com
implicações éticas e sociais sérias, como a atuação de influenciadores na
promoção de jogos de azar e seus impactos sobre o público jovem.
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Entre a crítica e o espetáculo
A
análise semântica das postagens mais populares identificou dois grandes blocos
narrativos. O Cluster 0 reúne textos mais críticos, com desconfiança em relação
à atuação de Virginia Fonseca, e destaque para vozes que cobram
responsabilidade social dos influenciadores, como a ex-nadadora Joanna
Maranhão.
Já o
Cluster 1 adota um tom mais simpático e emocional, valorizando momentos de
“humor”, como o pedido de selfie feito pelo senador Cleitinho Azevedo
(Republicanos-MG), isso enquanto no mesmo espaço, uma ministra de Estado é
desrespeitada e silenciada.
No
geral, cerca de 81% dos comentários estiveram concentrados em apenas 10% das
postagens, o que evidencia que o debate foi guiado por poucas vozes com grande
capacidade de alcance, sobretudo páginas como Alfinetei e Leo Dias, que
lideraram no Instagram.
Páginas
jornalísticas como G1, Folha de S.Paulo, Estadão e BBC também estiveram
presentes entre as mais comentadas, mas com bem menos força de engajamento. O
relatório sugere que esse dado reforça a ideia de que o debate foi capturado
por uma lógica de espetáculo, em detrimento de uma discussão mais profunda
sobre o papel das apostas online e sua regulação.
Nesta
terça-feira, A CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) das Bets sugeriu o
indiciamento da influenciadora Virgínia Fonseca e outros 14 influenciadores
pelos crimes de publicidade enganosa e estelionato.
Fonte:
Por Mauri Oliveira, em Le Monde/Jornal GGN

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