Lula
3: Como combater o desgaste?
Leituras
da pesquisa Quaest. Houve melhora econômica, mas desaprovação entre os mais
empobrecidos sobe. Inflação e segurança pública são preocupações. Mas há algo
mais: desejo frustrado por mudanças estruturais. Sem contorná-lo, 2026 pode ser
trágico.
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Governo Lula 3: avanços econômicos, desafios políticos e um eleitorado em
transformação
A
última pesquisa Quaest, divulgada em 4 de junho, oferece um panorama complexo e
dinâmico do cenário político atual. O levantamento confirma que o governo Lula
3 mantém uma base estável entre seus próprios eleitores no campo da esquerda e
entre os mais pobres, ainda que tenha perdido apoio em ambos segmentos,
sobretudo desde o início de 2025. Além disso, e essa nos parece ser a principal
informação da pesquisa, o governo começa a recuperar posições na classe média
baixa, setor mais denso da amostra, com 42% dos entrevistados. O quadro que
emerge é o de um governo operando em um ambiente polarizado e socialmente
fragmentado, onde avanços econômicos importantes convivem com a dificuldade do
governo em fazer chegar no eleitorado a percepção subjetiva de que tais avanços
estão associados com políticas públicas levadas a cabo a partir do Estado,
tendo em vista o crescimento da adesão popular à narrativas que enfatizam o
mérito individual e a graça de deus.
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Base consolidada e recomposição na classe média
Entre
os eleitores de Lula no segundo turno de 2022, a aprovação segue robusta e até
cresceu levemente, alcançando 74%. No campo da esquerda mais ampla, chega a
77%. Esses números indicam que o governo mantém coesão em seu campo político,
condição indispensável para qualquer estratégia de viabilidade eleitoral
futura.
A
novidade positiva da pesquisa está na recuperação do governo na classe média.
Entre eleitores com renda de 2 a 5 salários mínimos — o maior grupo social do
país — a aprovação subiu de 36% para 43%, acompanhada de uma queda
correspondente da rejeição. Também houve melhora entre eleitores com renda
acima de 5 salários mínimos. Essa dinâmica sugere que a recuperação da renda
real e a melhora das expectativas econômicas já começam a ser percebidas nesses
segmentos.
Dados
recentes sobre a evolução da renda familiar reforçam essa leitura. A renda
domiciliar per capita vem crescendo de forma consistente acima da inflação,
inclusive da inflação de alimentos. Em 2024, enquanto os preços dos alimentos
subiram 8%, a renda das famílias aumentou 10%, com crescimento ainda mais
expressivo entre os mais pobres (19%). Essa evolução ajuda a explicar a melhora
no humor de parte da classe média, mais sensível às condições econômicas.
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Pressões e expectativas entre os mais pobres
O ponto
de maior atenção para o governo continua sendo o comportamento do eleitorado de
baixa renda (até 2 salários mínimos). Nesse grupo, tradicionalmente associado à
base do lulismo, a desaprovação segue em trajetória ascendente. Embora Lula
ainda mantenha apoio majoritário (50%), a tendência é de desgaste.
Esse
movimento não se explica por deterioração material imediata — pelo contrário, a
renda real melhorou, o consumo de alimentos se manteve, e os indicadores de
segurança alimentar mostram avanços importantes. Mas há, claramente, uma
dimensão de expectativa não atendida, associada tanto a demandas de mobilidade
social quanto a questões mais concretas, como segurança pública, que emergem
como preocupação central da população.
Esse
dado sinaliza que parte da desaprovação expressa nessas pesquisas deve ser
interpretada como um instrumento de cobrança: um recado de que, para além das
políticas de redistribuição de curto prazo, há um desejo por mudanças
estruturais mais profundas.
É
importante destacar a predominância dos evangélicos nessa faixa de renda, ainda
que sua influência tenha se expandido para outros estratos sociais.
Historicamente, esse grupo concentra-se nas camadas de menor renda e, como se
sabe, é o que apresenta maior rejeição ao governo Lula e ao PT (66% desaprovam
contra 30% que aprovam). No entanto, é preciso considerar a distorção nos
números frequentemente citados: enquanto muitos institutos de pesquisa
estimavam os evangélicos em cerca de 30% da população, os dados do IBGE mostram
que eles representam pouco mais de 25%, o que pode inflar sua percepção de peso
político e social.
Apesar
de não ter experimentado o crescimento demográfico projetado por certos
setores, o eleitorado evangélico permanece um ator político relevante, cuja
sintonia com pautas conservadoras – especialmente aquelas de caráter
identitário – exige atenção estratégica por parte do governo. A dissonância
entre as políticas públicas implementadas (muitas das quais afetam diretamente
esse segmento) e a percepção que este possui delas revela um desafio de
legitimação que precisa ser enfrentado.
Do
ponto de vista ideológico, esse grupo demonstra maior adesão a discursos de
ordem conservadores, notadamente em temas como segurança pública e saúde,
frequentemente em tensão com as bandeiras tradicionais do bloco histórico
petista. Além disso, sua assimilação do imaginário neoliberal – particularmente
a valorização do self-made man e da autoempreendedorização –
atua como um filtro cultural que dificulta a percepção da eficácia de políticas
redistributivas. Essa dupla inclinação (conservadorismo moral e economicismo
individualista baseado na graça) configura um obstáculo singular para a
construção de hegemonia progressista nesse estrato social.
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Segurança pública e o desafio das respostas estruturais
Entre
os temas que mais preocupam hoje a população, a segurança pública assume papel
central. Enquanto outras preocupações — como inflação e corrupção — perdem
peso, a violência se consolida como principal foco de ansiedade social.
Esse é
um desafio delicado para o governo federal. Embora as atribuições
institucionais sobre segurança sejam majoritariamente estaduais, a expectativa
da população é por uma atuação mais incisiva da União. Construir uma agenda
crível e eficaz nessa área será fundamental não apenas para ampliar o apoio
eleitoral, mas para reforçar a imagem de um governo responsivo às demandas
sociais emergentes.
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Um cenário em disputa
Os
dados da Quaest indicam um eleitorado ideologicamente dividido, com um governo
bem ancorado em seu campo e uma sociedade que expressa de forma clara suas
demandas e frustrações. O desafio central do governo Lula 3 será o de
consolidar a recuperação econômica, estruturar respostas efetivas em áreas
sensíveis como segurança pública, e construir uma narrativa capaz de dialogar
com expectativas de futuro, especialmente entre os mais pobres e os eleitores
não alinhados.
O
cenário que se delineia é desafiador, mas não fechado. A consolidação de
avanços econômicos, a qualificação das respostas em áreas como segurança
pública e a capacidade de manter o diálogo com um eleitorado em transformação
serão elementos centrais para o governo ampliar seu apoio. As condições
objetivas para essa reconstrução existem. Restará ao governo combinar escuta
ativa, coordenação política e clareza de projeto para transformar expectativas
sociais em adesão política renovada.
O
governo Lula 3 está sendo marcado por uma relação difícil no congresso. Apesar
de algumas conquistas importantes como reajuste da tabela do imposto de renda e
uma aguardada reforma tributária, o governo tem encontrado dificuldade de ter
suas prioridades pautando o legislativo. A partir dessa dificuldade, é comum
interpretações de que esse mandato sofre por dois fatores:
(i)
ausência
de um planejamento a longo prazo;
(ii)
(ii)
dificuldade na comunicação. Esses dois problemas afetariam conjuntamente também
a aprovação do governo, que atualmente estaria a beira de inviabilizar uma
reeleição, mas como realmente está o quadro do governo?
Na
última pesquisa Quaest, divulgada dia 4 de junho, a desaprovação chegou ao
patamar mais alto desse mandato, batendo 57% dos entrevistados. Analisando os
estratos de renda, é possível observar que apenas no estrato mais pobre, até 2
SM, a desaprovação seguiu piorando nesta pesquisa, em todos os demais estratos
houve uma melhora na aprovação do governo. No 2-5 SM a desaprovação teve uma
grande queda, saindo de 61 para 56, já no estrato mais alto, mais de 5 SM,
também foi registrada um declínio na desaprovação, saindo de 64 para 61%.
Esse
resultado mostra que o leve aumento da desaprovação do governo nessa última
pesquisa se deu por uma queda no grupo em que tem sua base eleitoral, tendo
apresentado melhorias em todos os outros estratos, especialmente no
intermediário de 2-5 SM. Outro dado que chama atenção é que a aprovação do
governo teve alta entre seus eleitores e declínio entre os que votaram
branco/nulo ou não foram votar nas eleições passadas, esses dados reforçam que
o desempenho do governo no intervalo das últimas pesquisas caminhou junto com o
seu eleitorado – ainda que o segmento mais popular, característico por um grupo
fiel ao PT, siga piorando sua avaliação.
Mas
quais fatores são os principais determinantes do quadro atual? Os temas caso
INSS, corrupção e aumento dos preços estão no topo das notícias ruins ouvidas,
angariando 30% das respostas totais e 50% das respostas excluindo não sei, não
respondeu ou não ouvi nenhuma notícia negativa. Isso mostra que o caso do INSS
foi um fator de desgaste no período, ainda mais se unir o tema corrupção que
acabam se sobrepondo, a inflação dos alimentos por outro lado, continua sendo
um problema de destaque. Essa última questão parece ser uma notícia boa para o
governo, houve uma melhora das respostas nos casos da expectativa para
economia, preços dos alimentos, preços da gasolina, mostrando que esse problema
pode estar em vias de melhora.
A
melhora econômica é um caminho mais viável para o governo reverter o quadro de
queda e recuperar o apoio dos seus eleitores de 2022. Com a previsão de uma
eleição bastante acirrada em 2026, garantir uma votação similar no segundo
turno parece um primeiro objetivo eleitoral do PT e dos partidos que desejam
estar em sua frente eleitoral. Os motivos dessa ampliação passam pela
concretização de promessas de campanhas importantes, como a diminuição dos
preços dos alimentos, da gasolina e, em especial, com a reforma do imposto de
renda isentando aqueles que ganham até 5 salários mínimos.
Por
fim, a violência é a maior preocupação dos entrevistados atualmente. Esse tema
segue sendo um problema para o governo que patina em tomar atitudes mais
estruturais contra o tema. Ironicamente, essa parece ser a área que clama por
um projeto estrutural de longo prazo vindo do executivo federal, ainda que as
atribuições dessa área sejam majoritariamente de responsabilidade do governo
estadual. O governo Lula 3 tem encontrado dificuldades em promover projetos de
longo prazo, algo que pode ser em parte responsabilidade do próprio governo,
mas que também é influenciado pelo ambiente de disputas acirradas e
extremamente ideologizadas, dificultando o diálogo e a mobilização de forças
políticas não aliadas em prol de mudanças para o Brasil.
Nesta
configuração do poder político, situada no que Deleuze diagnosticou como a era
da “oni-crise”, caracteriza-se por uma fragmentação radical que inviabiliza a
atuação por meio de grandes blocos hegemônicos. Nesse cenário de dispersão
institucional e liquefação das estruturas tradicionais, a ação política é
obrigada a operar de forma casuística, negociando cada movimento em meio a um
campo de forças descentrado. Essa dinâmica torna impossível a implementação
linear de um projeto de governo coeso, nos moldes clássicos da racionalidade
estatal. O poder, em sua forma contemporânea, não se consolida em
macroestruturas, mas pulveriza-se em microdispositivos que exigem estratégias
pontuais e adaptativas – uma governança do fragmento.
No
atual governo Lula, ainda que com importantes medidas estruturais já feitas, as
realizações são voltados ao combate de desigualdades através de subsídios como
o Desenrola, aumento do bolsa família, isenções na conta de
luz, Pé de meia, entre outros. Essa atuação tem vários méritos, mas
o governo, em algum momento, vai precisar propor mudanças mais estruturais no
contexto nacional se quiser expandir seu eleitorado.
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Um mundo em transição e um país em transe. Por Luís
Nassif
Há um
mundo em transição, com o fim gradativo das diversas formas de articulação do
poder da potência maior: os Estados Unidos. O Brasil entra no jogo com inúmeras
possibilidades e enormes riscos, já que é uma Nação fraturada.
De um
lado, tem-se o governo Lula, empenhado na reconstrução institucional do país,
mas com as bolas de ferro do orçamento loteado e das políticas monetária e
fiscal impedindo qualquer vôo maior. E sem um projeto claro do novo país a ser
desenhado.
De
outro, tem-se uma elite e uma mídia que perderam completamente a noção de país.
Até os anos 90 era possível encontrar empresários com o objetivo de serem
grandes em um país grande. A financeirização da economia e internacionalização
do capital transformaram a acumulação financeira em objetivo maior. É um jogo
no qual as empresas – especialmente as estratégicas, privatizadas – são
tratadas como vacas leiteiras, com a única função de gerar mais e mais
dividendos, à custa do sacrifício dos investimentos em inovação, segurança e
crescimento. E deixando de lado qualquer preocupação em relação à sua função
estratégica. Agora, são investidores do mundo.
Há um
esforço individual do MDIC-BNDES, da Fazenda, do Planejamento, do MCTI em
montar alguma forma de articulação do desenvolvimento.
Mas,
por trás de tudo, há o fantasma das metas inflacionárias, uma excrescência que subordinou
totalmente o país aos movimentos do dólar.
Celebra-se,
no Banco Central, a política bem sucedida de domar os movimentos especulativos
do dólar. Os resultados estão na desaceleração pontual da inflação, dos bens de
consumo aos índices de preços no atacado e do consumidor, uma vitória de Pirro,
que dará alguns meses a mais de oxigênio à política econômica, mas não resolve
a questão central do desenvolvimento.
O
modelo de metas inflacionárias e o livre fluxo de capitais amarraram
totalmente a possibilidade de um projeto de desenvolvimento.
Deixa-se
o câmbio livre, pressionam-se os preços e vende-se a ideia de que apenas
elevação de juros segura a inflação.
A
elevação de juros aumenta a relação dívida/PIB, com reações das agências de
rating, obrigando a mais elevação de juros. É mais do que a maldição de Sísifo,
porque cada rodada amplia o sufoco orçamentário e a transferência de renda para
o investimento financeiro.
Ao
contrário de outros tempos, o aumento dos lucros não leva ao aumento de
investimentos. É mera acumulação de riquezas utilizada para arbitragem de taxas
e de ativos. Toda a cobertura midiática insiste em não diferenciar o capital
financeiro do capital produtivo. E toda a lógica cambial tem como foco
exclusivamente o capital financeiro.
O
resultado é trágico, porque essa máquina de gerar lucros estéreis tem como
epicentro o financiamento da dívida pública. E as soluções de sempre são jogar
com o terrorismo fiscal para investir contra Fundeb, Benefícios de Prestação
Continuada e outros programas sociais, que tornam minimamente palatável um
modelo de capitalismo predatório.
Qualquer
tentativa de distribuir migalhas do orçamento para os mais vulneráveis – ou
para políticas estruturantes, como educação, saúde – é taxada de “populismo
eleitoral” por uma mídia parcial e terrivelmente ignorante.
Com
esse jogo do dólar, em vez de investir na ampliação da produção, multinacionais
trocam investimento direto por empréstimos matriz-filial, para jogar
exclusivamente com arbitragem de taxas de juros e câmbio. A volatilidade do
câmbio impede qualquer aumento expressivo do investimento externo na produção,
pela dificuldade em estimar a taxa de retorno – já que cada solavanco no câmbio
impacta mais os resultados do que a rentabilidade do negócio, em reais. E o
lucro das empresas nacionais, em vez de buscar o investimento, busca os ganhos
de tesouraria.
Por
outro lado, é um enorme desafio mudar o modelo.
A
estratégia atual consistiria em administrar as limitações do modelo
monetário-fiscal, enquanto se prepara o novo tempo, de transição para uma nova
ordem mundial, para moedas alternativas ao dólar e para parcerias produtivas
com novas potências.
.O
desafio consiste em responder às seguintes questões:
- Como estabelecer
limites ao livre fluxo de capitais?
- Como
desestimular a distribuição alucinada de dividendos, induzindo as empresas
a aplicar os lucros na produção.
- Como reduzir a
influência deletéria da volatilidade do dólar nos preços e nas decisões de
investimento.
Por
outro lado, há pontos essenciais para se chegar aos novos tempos:
- Quais serão as
condições de parceria com a China, já que o aprofundamento das relações
comerciais poderá levar à destruição do que resta de indústrias no país?
- Como aproveitar
o potencial de terras raras e de minérios, para beneficiamento interno e
criação de linhas de industrialização internas e fugir da sina de ser mero
exportador de commodities?
- Quais as
exigências para as multinacionais que irão transferir suas empresas para o
país, aproveitando o potencial de energia verde? Quais as garantias de que
haverá transferência de tecnologia, joint-ventures com capital nacional,
criação de redes de fornecedores nacionais, definição de conteúdo
nacional?
Enfim,
o país terá que se envolver em uma grande discussão, com os centros de
inteligência do governo, da academia, das associações privadas e dos movimentos
sociais, para responder ao grande desafio: este país ainda há de cumprir seu
ideal, ou se conformará em ser apenas a reprodução digital de um grande
cafezal?
Fonte:
Por Mayra Goulart, Paulo Gracino Junior e Raul Paiva, em Outras Palavras/Jornal
GGN

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