segunda-feira, 23 de junho de 2025

Como Israel consegue manter tantas frentes de guerra pelo mundo

GazaLíbanoSíriaIêmen — e agora Irã.

Israel mantém nada menos que cinco frentes de guerra abertas ao mesmo tempo pelo mundo, com enormes custos militares, econômicos e sociais.

Desde que o Hamas atacou o sul de Israel a partir de Gaza em 7 de outubro de 2023, e a resposta do governo liderado por Benjamin Netanyahu levou a uma guerra no território palestino que continua até hoje, o Exército israelense tem esticado seus recursos com novos conflitos na região.

Primeiro, respondeu aos ataques lançados pela milícia libanesa Hezbollah contra o norte de Israel em retaliação aos ataques em Gaza. Em pouco tempo, a resposta israelense se transformou em uma guerra aberta que enfraqueceu o grupo islâmico.

O país também respondeu aos ataques realizados pelos houthis do Iêmen desde o início da ofensiva israelense em Gaza. As Forças de Defesa de Israel (FDI) bombardearam portos, cidades e instalações no território desta milícia xiita, que controla um terço do país.

Com a queda do regime de Bashar al-Assad na Síria, Israel também viu uma oportunidade de tomar parte do território sírio para expandir seu controle sobre as Colinas de Golã. Também aproveitou a chance para minar a infraestrutura militar síria bombardeando instalações do Exército. Desde então, tem realizado ataques periódicos em áreas no sul do país onde operam milícias afiliadas ao Hamas.

Mas para Israel, o Hamas, o Hezbollah, os houthis e as milícias sírias são ramificações do que eles consideram sua verdadeira ameaça, o verdadeiro inimigo a ser derrotado: o Irã.

Após anos de escaramuças, operações clandestinas e assassinatos seletivos que culminaram em bombardeios mútuos pela primeira vez no ano passado, os dois lados se enfrentam desde 13 de junho em um conflito aberto com desfecho incerto.

Mas como Israel consegue manter tantas frentes de combate abertas? E por quanto tempo essa intensa pressão militar pode continuar?

"Bem, eu não diria indefinidamente, mas por um longo tempo", responde o ex-oficial de inteligência britânica Frank Ledwidge, professor de direito e estratégia na Universidade de Portsmouth, no Reino Unido.

Israel conta com "Forças Armadas formidáveis", disse Ledwidge à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC. "E, combinando os aspectos políticos, militares e econômicos, Israel é um país muito resistente. Já provou isso muitas vezes no passado. A questão agora é: será esse o caso do Irã?"

Além disso, apesar do enorme custo econômico desse esforço de guerra, o governo Netanyahu desfruta de enorme apoio político e social para sua campanha contra o Irã.

Oitenta e três por cento dos judeus israelenses apoiam o bombardeio do país persa, um percentual que mostra que o programa nuclear iraniano e o governo de Teerã, que muitos em Israel consideram uma ameaça existencial, agem como um elemento de unificação social.

"Não sabemos o que poderia acontecer se houvesse muito mais vítimas ou se houvesse um ataque iraniano muito maior. Mas, no momento, há um enorme apoio político e social ao governo", diz à BBC News Mundo Avraham Diskin, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, que realizou a última pesquisa de opinião sobre a campanha contra o Irã.

<><> Efetivo militar e armamento

Israel conta com um dos exércitos mais sofisticados do mundo e, sem dúvida, o mais bem equipado e treinado do Oriente Médio.

Em 2024, o orçamento militar israelense aumentou 65%, chegando a US$ 46,5 bilhões, o maior aumento desde a guerra de 1967. Cerca de 8,8% do Produto Interno Bruto (PIB) do país foi destinado ao esforço militar, o segundo maior do mundo, atrás apenas da Ucrânia, de acordo com o Instituto Internacional de Estudos da Paz de Estocolmo.

Sua Força Aérea é a mais poderosa da região, com caças F-15 de longo alcance, F-35 (aeronaves "furtivas" que podem escapar do radar) e helicópteros de ataque rápido.

Isso permitiu enfraquecer significativamente as defesas aéreas do Irã, e bombardear instalações militares, nucleares e estratégicas no país persa.

Além disso, Israel possui um sofisticado sistema de defesa em múltiplas camadas, composto pelo escudo antimísseis Domo de Ferro, que permite interceptar mísseis de curto alcance, como os lançados de Gaza e do Líbano; o Estilingue de David, para combater mísseis de médio alcance; e o programa de antimísseis balísticos Arrow, que permite se defender contra projéteis vindos de locais mais distantes, como o Irã ou o Iêmen.

O sistema é altamente eficaz, conforme comprovado por seu uso ao longo dos anos. O Domo de Ferro, por exemplo, tem uma eficácia de mais de 90%, de acordo com Israel.

Mas, nos últimos dias, os mísseis iranianos conseguiram atingir alvos em Israel, escapando das defesas e matando mais de 20 pessoas.

O sistema, como o próprio Exército israelense reconhece, não é infalível, mas oferece ao país uma vantagem significativa sobre seus agressores.

Por quanto tempo, no entanto, essa operação pode ser mantida?

Para Frank Ledwidge, do ponto de vista militar, dois fatores podem acabar prejudicando a capacidade de Israel de sustentar tantas frentes abertas: efetivo militar e munição.

Nesse sentido, o especialista ressalta que grande parte do sistema de mísseis israelense depende de importações dos Estados Unidos, seja de componentes ou de munição completa.

"Mas o problema é que o Exército dos EUA está sobrecarregado com suas entregas de armas e munições para a Ucrânia, e essa (a do Irã) vai ser uma guerra bastante intensa em termos de recursos, mesmo que Washington não se envolva", avalia Ledwidge.

Especialistas em logística dos EUA "estão ficando muito preocupados com a já reduzida capacidade dos EUA de sustentar um conflito com a China, que é o desafio que define o ritmo e a prioridade máxima do sistema industrial de defesa americano", de acordo com o professor da Universidade de Portsmouth.

O desgaste do efetivo militar também pode ser uma desvantagem que impeça Israel de avançar.

"Não é possível manter o mesmo ritmo de operação que os israelenses estão adotando indefinidamente", diz o especialista, ressaltando que as equipes aéreas e terrestres da Força Aérea israelense precisam do descanso necessário.

O cansaço acumulado de outras campanhas, ele ressalta, "afeta a eficácia e a eficiência, causa erros e, por fim, perdas".

Talvez seja por isso que vimos Israel diminuir o ritmo de suas operações contra o Irã, "sem esquecer que também há operações em Gaza, e eles precisam cobrir o componente de defesa aérea de suas operações, além de ter capacidade para lidar com eventos imprevistos".

<><> Desgaste de reservistas

As Forças de Defesa de Israel contam com aproximadamente 178 mil soldados em serviço, além de aproximadamente 460 mil militares na reserva. O serviço militar é obrigatório no país para homens e mulheres maiores de 18 anos, com algumas exceções, e eles permanecem como reservistas até os 51 anos.

Desde 7 de outubro passado, Israel vem mobilizando centenas de milhares de reservistas. No fim de maio, o governo autorizou a convocação de até 450 mil militares da reserva ao longo dos três meses seguintes, o maior número na história de Israel.

A mobilização contínua "prejudicou a economia e a saúde mental, os relacionamentos familiares e as carreiras dos reservistas, enquanto as isenções mantêm os ultraortodoxos fora das linhas de frente de combate", diz uma reportagem do jornal The Times of Israel.

O governo quer que os ultraortodoxos, que são isentos do serviço militar obrigatório se se dedicarem a estudos religiosos, possam ser convocados como todos os outros israelenses. Com o desgaste de quase 20 meses de guerra contínua, o descontentamento se espalhou entre muitos israelenses, que gostariam de ver o esforço de guerra compartilhado entre todos.

Mas Netanyahu precisa dos pequenos partidos ultraortodoxos para a sobrevivência do seu governo, por isso a lei que os obrigaria a se alistar tem sido postergada.

Na semana passada, o governo sobreviveu por pouco a uma tentativa da oposição de dissolver o Parlamento e derrubar o Poder Executivo, e só foi salvo por negociações de última hora com os partidos ultraortodoxos sobre a controversa lei.

<><> Apoio social e político

Apesar desse desgaste dos reservistas e da sociedade em geral após tantos meses de guerra, Netanyahu "não tem, por enquanto, problemas no front político interno, nem com os eleitores nem com os líderes", observa Avraham Diskin.

Várias figuras políticas da oposição, como o ex-primeiro-ministro Yair Lapid, líder do partido centrista Yesh Atid, e o ex-primeiro-ministro suplente Benny Gantz, líder da coalizão Kajo Lavan, demonstraram seu apoio a Netanyahu em sua campanha contra o Irã nos últimos dias.

"Todo o resto foi relegado a segundo plano. Não é que seja menos importante, mas as pessoas não falam mais sobre isso", diz o professor de ciência política.

Se "algum desastre" ocorrer ou a guerra se arrastar por muito tempo, "não sabemos, mas por enquanto o apoio está garantido", explica.

Além disso, as críticas ao governo de Netanyahu pela forma como está conduzindo a guerra em Gaza e por como, segundo os críticos, ele não priorizou a libertação de reféns ainda mantidos pelo Hamas foram um tanto abafadas.

Algo semelhante aconteceu com a diplomacia internacional.

Apesar das fortes críticas dos países europeus, por exemplo, às ações de Israel em Gaza, que eles desaprovam por motivos humanitários (mais de 50 mil pessoas morreram no território palestino), "os ataques contra a capacidade nuclear do Irã não receberam críticas significativas", afirmou Ksenia Svetlova, pesquisadora do Programa para o Oriente Médio e Norte da África da Chatham House, em um artigo recente.

<><> Os custos da guerra

Uma guerra prolongada também tem um custo adicional: é extremamente cara.

Cada um dos mísseis Tamir usados ​​pelo Domo de Ferro custa US$ 50 mil. Os Stunner usados ​​pelo Estilingue de David custam US$ 1 milhão por unidade, enquanto os Arrow-3s usados ​​para interceptar mísseis balísticos lançados pelo Irã custam US$ 3 milhões cada.

Um ex-consultor financeiro do Chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel estima que a guerra com o Irã está custando a Israel cerca de US$ 750 milhões por dia, conforme ele revelou em entrevista ao veículo israelense Ynet News. E isso sem contar os danos causados ​​no país pelos bombardeios iranianos.

Além disso, o custo acumulado da guerra em Gaza chegou a US$ 67,5 bilhões, de acordo com estimativas do jornal israelense Calcalist.

Será que Israel consegue manter esse nível de gastos?

Para Avraham Diskin, a resposta é sim. Por enquanto.

"Israel não escolheu quando entrar na guerra em Gaza, mas chegou em um momento ideal economicamente, porque Israel tem uma renda per capita muito maior do que muitos países europeus", diz o cientista político.

No longo prazo, acrescenta Frank Ledwidge, a economia, é claro, vai sofrer.

"Mas isso é uma preocupação secundária no momento. Se você está sob o que considera uma ameaça existencial, então não importa quanto tempo ou dinheiro você está investindo, porque a alternativa é a eliminação ou a morte."

¨      Israel tem bomba atômica? Por que país não assinou tratado contra proliferação de armas nucleares

escalada do conflito entre Israel e Irã nos últimos dias voltou a chamar a atenção para o programa nuclear israelense.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahujustificou os ataques como uma ação para impedir que Teerã construa armas nucleares.

"Se não for impedido, o Irã poderá produzir uma arma nuclear em muito pouco tempo", disse Netanyahu.

O Irã nega que esteja buscando desenvolver armas nucleares. Segundo as autoridades iranianas, seu programa de enriquecimento de urânio — que é visto com desconfiança e preocupação por Israel, Estados Unidos e outros países — tem fins pacíficos, como o uso em energia, medicina ou agricultura.

O governo israelense, por sua vez, adota historicamente uma política de não confirmar nem negar que tenha armas nucleares.

"Israel nunca assumiu uma posição oficial", diz à BBC News Brasil o diretor sênior de políticas do Centro para o Controle de Armas e Não Proliferação, John Erath.

"Eles sempre se apoiaram na ambiguidade: nunca declararam ter capacidade de armas nucleares, mas também nunca declararam que não a possuíam", ressalta Erath, cuja organização reúne análises e pesquisas sobre controle de armas e não proliferação.

No entanto, Israel é amplamente considerado um dos nove países do mundo que têm armas nucleares atualmente — ao lado de EUA, Rússia, China, França, Reino Unido, Paquistão, Índia e Coreia do Norte.

"Estima-se que Israel possua cerca de 90 armas nucleares", diz a Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares (ICAN, na sigla em inglês), coalizão global com sede na Suíça, que foi agraciada com o Prêmio Nobel da Paz em 2017.

Esse cálculo é semelhante ao de várias outras organizações, incluindo a Federação de Cientistas Americanos (FAS), fundada em 1945 e que tem o objetivo declarado de "minimizar os riscos de ameaças globais significativas, decorrentes de armas nucleares, agentes biológicos e químicos e mudanças climáticas".

Além disso, estima-se que Israel tenha estoque de material físsil (que pode passar por fissão nuclear) suficiente para cerca de 200 armas. No entanto, o sigilo torna difícil traçar um retrato mais preciso do programa nuclear israelense.

"Como Israel se recusa a confirmar ou negar a existência dessas armas, pouco se sabe sobre seu arsenal, mas especialistas acreditam que pode lançar armas nucleares por meio de mísseis, submarinos e aeronaves", diz a ICAN.

<><> Na origem, 'lembrança do Holocausto'

O número estimado de 90 armas nucleares em Israel é o segundo menor entre os nove países citados, depois da Coreia do Norte.

Segundo estimativas da FAS, esses nove países têm um total de cerca de 12.300 ogivas nucleares, quase 90% das quais pertencentes aos EUA ou à Rússia.

"O número exato de armas nucleares em posse de cada país é um segredo nacional guardado a sete chaves, portanto, as estimativas contêm uma incerteza significativa", escreveram membros do Projeto de Informação Nuclear da FAS, em comentário sobre o status global de armas nucleares.

"Contudo, apesar dessas limitações, informações publicamente disponíveis, análise cuidadosa de registros históricos e vazamentos ocasionais tornam possível fazer as melhores estimativas sobre o tamanho e a composição dos estoques."

Apesar de o programa israelense estar envolto em segredo, investigações históricas e uma série de documentos vazados ou desclassificados ao longo das décadas dão uma ideia de seu desenvolvimento.

Acredita-se que o programa tenha suas origens na década de 1950, e que a primeira arma nuclear operacional tenha sido construída na década de 1960.

"[Os líderes israelenses] viam o projeto nuclear como um compromisso para assegurar o futuro do país — uma promessa de 'nunca mais', forjada pela lembrança do Holocausto", escreveram em fevereiro, na revista Foreign Policy, dois especialistas no programa nuclear israelense, Avner Cohen e William Burr.

Cohen é autor de vários livros sobre o assunto e professor do Instituto Middlebury de Estudos Internacionais, na Califórnia.

Burr é diretor do Projeto de Documentação Nuclear no Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington.

"Audácia, artimanhas e dissimulação foram elementos cruciais na execução incansável do percurso nuclear de Israel", disseram os autores, ao comentar a divulgação de novos documentos históricos desclassificados e o fato de que os EUA inicialmente não tinham conhecimento sobre a extensão do projeto.

Nos últimos anos, declarações de algumas autoridades israelenses também foram interpretadas como indícios de que o país tem armas nucleares.

Em 2023, em meio ao conflito em Gaza, o ministro do Patrimônio, Amichai Eliyahu, sugeriu em entrevista à imprensa local lançar uma bomba atômica no território palestino.

<><> Países fora do Tratado de Não Proliferação

As estimativas sobre os estoques de armas nucleares no mundo indicam uma redução significativa desde o período da Guerra Fria (1947-1991), quando os arsenais chegaram a cerca de 70 mil ogivas, segundo a ICAN.

No entanto, a velocidade das reduções tem diminuído, e a expectativa da ICAN, da FAS e de outras organizações é a de que os arsenais devem aumentar ao longo da próxima década.

Acredita-se que, enquanto alguns países estão reduzindo seus números, outros estão aumentando.

O governo israelense é um dos poucos que não assinaram o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), acordo internacional que entrou em vigor em 1970 e tem adesão de 190 países.

Os signatários se comprometem em prevenir a proliferação dessas armas e promover o uso de energia nuclear para fins pacíficos.

Segundo a Associação de Controle de Armas, organização com sede nos EUA, "o TNP tem a mais ampla adesão de qualquer acordo de controle de armas, com apenas Sudão do Sul, Índia, Israel e Paquistão permanecendo fora do tratado".

Além desses quatro países, que nunca assinaram o acordo, a Coreia do Norte, que era signatária, retirou-se formalmente em 2003.

O TNP classifica os países em duas categorias: os Estados com armas nucleares, que incluem EUA, Rússia, China, França e Reino Unido, e os que não possuem essas armas.

Quando o tratado foi negociado, os cinco já eram potências nucleares, e o objetivo era impedir que esse rol se expandisse.

O TNP considera Estados com armas nucleares apenas aqueles que "fabricaram e detonaram uma arma nuclear ou outro dispositivo nuclear explosivo antes de 1º de janeiro de 1967".

Assim, caso Israel, Índia ou Paquistão decidissem aderir, precisariam fazê-lo como "Estados não possuidores de armas nucleares".

Com isso, teriam de desmantelar suas armas nucleares e colocar seus materiais nucleares sob salvaguardas internacionais, como fez a África do Sul ao aderir ao TNP, em 1991.

Documentos da década de 1960 compilados pelo Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington indicam que, inicialmente, os EUA esperavam que Israel fosse aderir ao TNP. Mas o governo israelense decidiu não assinar o tratado.

"No início, Israel via seu programa nuclear como uma apólice de seguro que protegeria a sobrevivência da nação em circunstâncias extremas", diz à BBC News Brasil o especialista em proliferação nuclear Nicholas Miller, professor da Dartmouth College, universidade no Estado de New Hampshire.

"A adesão ao TNP removeria a dissuasão que os líderes israelenses acreditam que suas capacidades nucleares proporcionam", destaca.

"Agora que Israel tem superioridade em forças convencionais sobre todos os seus rivais, os líderes israelenses provavelmente veem seu programa nuclear como uma salvaguarda contra riscos futuros — por exemplo, a possibilidade de um de seus rivais adquirir armas nucleares", observa Miller.

Erath, do Centro para o Controle de Armas e Não Proliferação, lembra que Israel está "cercado por países que lhe são hostis".

"Portanto, Israel sente que as armas nucleares são essenciais como uma garantia de sua contínua existência", afirma Erath.

<><> Desconfiança na região

Em um relatório no ano passado, a ICAN ressaltou que "os EUA adotaram uma política de não pressionar Israel a aderir ao TNP" — uma visão compartilhada por várias outras organizações.

"Eles não sofreram muita pressão dos EUA, em parte devido à forte relação entre Israel e Washington, e em parte porque Israel manteve suas capacidades nucleares ambíguas e não desafiou abertamente o regime de não proliferação", afirma Miller.

O professor ressalta, porém, que rivais de Israel há muito defendem uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio, como forma de pressionar diplomaticamente o governo israelense sobre seu programa nuclear.

A postura de Israel e dos EUA atrai críticas de que poderia comprometer esforços de não proliferação e desestabilizar a região.

Também há críticas pela falta de transparência e pelo que é percebido por alguns como hipocrisia — já que Israel tem um histórico de esforços diplomáticos e militares para impedir que outros países da região adquiram armas nucleares.

"A posse de armas nucleares por Israel, e a aceitação pública tácita dos EUA e de muitos governos ocidentais, representam um claro risco de proliferação e podem ter encorajado outros governos na região a considerar o desenvolvimento nuclear no passado", diz o relatório da ICAN.

Para Miller, "não há dúvida de que o programa nuclear de Israel estimulou outros países na região a iniciar seus próprios programas de armas nucleares, o que tem gerado tensão no regime de não proliferação".

"Em épocas diferentes, Iraque, Irã, Líbia e Síria buscaram armas nucleares, e cada um deles foi motivado, ao menos em parte, pelo desejo de igualar a capacidade nuclear de Israel", afirma o professor.

Miller lembra também que, dentro de Israel, o sigilo em torno do programa "é criticado por inibir o debate democrático sobre a política nuclear" do país.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

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