segunda-feira, 23 de junho de 2025

Cian Barbosa: A estetização da guerra na era digital

Com o avanço das tecnologias digitais sobre todas as esferas da vida, as abstrações algorítmicas passam a integrar desde as órbitas de satélites artificiais que servem de infraestrutura para a rede de informação global, passando pelos cálculos de tecnologias de defesa para interceptação de ataques aéreos, chegando até à curadoria de conteúdos que nos alcançam em nossas telas de bolso, integradas na grande rede global. Vale notar: cada vez mais as dimensões abstratas e concretas que dão forma à digitalização passam a integrar desde a vida cotidiana até os próprios conflitos bélicos. 

Quando consideramos a situação atual, com a guerra imposta pelo regime sionista em sua ocupação da Palestina e, mais recentemente, seus ataques ao Irã – que parecem ter a finalidade de forçar um envolvimento direto dos EUA no conflito –, vemos um exemplo central da convergência digital entre diversas esferas sociais, culturais e políticas. O que há de comum entre o chamado “Domo de Ferro” e a nova propaganda de guerra é o seguinte: se o primeiro representa a automação na defesa do espaço aéreo de Israel, a nova propaganda de guerra também é automatizada – agora pela curadoria digital de informações e conteúdos, tratando usuários como alvos individualizados de textos, imagens e sons, o que acaba gerando uma espécie de segmentação informacional inédita que é, paradoxalmente, personalizada e massificada, direcionada e homogeneizante, levando ao que corriqueiramente se descreve como a dinâmica de “bolhas digitais”.

No contexto das informações, conteúdos e propagandas de guerra, percebemos a tendência de segmentação dos discursos desde as famosas “caixas de comentário”. Vale ressaltar que a noção de propaganda de guerra precisa ser reconsiderada quando pensamos nas mídias digitais: primeiro, porque a propaganda de guerra hoje não é exatamente a mesma que a do século passado, apesar de haver muitas semelhanças e continuidades; além disso, é fundamental termos em mente que a linguagem da propaganda dominou todo o conteúdo das mídias digitais. Isso não quer dizer que tudo se resume na organização desses espaços para a propaganda de mercadorias estritamente – ainda que este seja um aspecto fundamental. Afirmar que ‘tudo é propaganda’ não significa um sentido literal, mas quer dizer que, direta ou indiretamente, que tudo se articula pela linguagem do marketing

Essa linguagem estrutura todo um universo simbólico e imaginário a partir das mídias que hoje, cada vez mais, funcionam e apresentam uma nova temporalidade das notícias e informações em geral – temporalidade essa que corresponde à aceleração da economia política, expressando-se cada vez mais em uma cultura do tempo real. Não é diferente quando se tratam de conflitos bélicos: entramos na era da transmissão em tempo real das guerras desde as mídias digitais, onde a devastação e a violência destruidora das incursões militares se refletem em conteúdos praticamente instantâneos, até mesmo transmitidos ao vivo, que por muitas vezes desafiam as narrativas hegemônicas, mas são também frequentemente boicotados de diversas formas, na medida em que circulam através de plataformas controladas mundialmente por oligopólios (por exemplo, com o chamado shadowban, quando usuários ou postagens têm seu alcance reduzido sem qualquer notificação). 

Outra forma de boicote ou censura que ocorre, de modo mais sutil – poderíamos considerá-la inclusive sistêmica, estrutural ou formativa – é aquela que condiciona e induz o tipo de conteúdo (e sua forma) a ser produzido e entregue nas mídias digitais (os formatos de postagem que geram engajamento, com seus jargões, estímulos e apelos padronizados, etc). A produção dessa estereotipia implica na redução das complexidades e no abuso de maniqueísmos: perdem-se nuances e minúcias, detalhes e pormenores. Conflitos militares tornam-se assuntos extremamente explorados pelo seu potencial de engajamento, na medida em que servem para reproduzir as dinâmicas de ‘nós VS eles’, ou seja, uma visão maniqueísta e redutiva da realidade que acaba por retroalimentar uma percepção moralizante dos debates. Foi assim, por exemplo, no caso entre Rússia e Ucrânia; também é com Israel e Irã. Se Walter Benjamin alertava para os perigos de uma estetização da política, com as mídias digitais nós temos não apenas uma aceleração desse processo, como uma automatização do mesmo; além disso, encontramos agora uma estetização das guerras em tempo real. 

Os múltiplos vídeos dos bombardeios iniciados por Israel contra o Irã e as respostas iranianas subsequentes inundaram as redes sociais e, junto das constantes postagens abordando o tema, feitas por especialistas ou pseudo-especialistas sobre o assunto, foram acompanhadas por comentários que, com alguma frequência, ou comemoram as ações de algum dos lados, buscando uma espécie de justiça ou redenção poética; ou pedem de forma abstrata por uma benção e ajuda divina. Na medida em que acompanhamos a estetização do genocídio palestino nas redes, agora vemos a estetização da guerra que espetaculariza o contra-ataque iraniano enquanto explora o potencial de engajamento viral do conflito. 

Para a propaganda sionista, isso serve à chamada “teoria do dia seguinte”, onde, por um passe de mágica, o conflito tem início sempre em um marco conveniente para a narrativa de Israel: seja no contra-ataque iraniano, seja no 7 de outubro de 2023, a narrativa é construída como se os colonos israelenses estivessem lá desde sempre. Evidentemente, soma-se a isso a postura conveniente e covarde de Estados como a Alemanha, os EUA e, obviamente, tantos outros europeus, que corroboram com suas posturas e declarações as ações de Israel – de modo coerente com os seus apoios políticos, econômicos e militares. 

Nos espaços virtuais, especificamente aqueles chamados de “redes sociais”, o alcance das informações é condicionado, como já dissemos, pelo seu potencial viral. Esse potencial é mediado pela estetização que ganha forma em memes, jargões, estereotipias e fórmulas fáceis que seguem as tendências em voga na economia informacional das mídias digitais. Se a guerra é a política por outros meios, e a estruturação do fascismo perpassa pela estetização da política, hoje encontramos de forma radical a estetização das guerras pelas mídias digitais como uma forma fundamental da antipolítica fascista. Isso se estende desde as incursões do Estado brasileiro nas favelas e periferias do país, até os conflitos no Oriente Médio, especificamente aqueles protagonizados pelo Estado colonial sionista. 

A estetização da política – e da guerra – como efeito da digitalização irremediavelmente surte a intensificação de dinâmicas identitárias, levando à retroalimentação do racismo, seja ele islamofóbico ou antisionista. A grande questão que enfrenta-se agora é em que medida o campo progressista, especialmente aquele à esquerda, conseguirá se posicionar em uma desambiguação entre anti-sionismo e antissemitismo, ao mesmo tempo em que não manifeste-se de maneira ingênua frente às dinâmicas de rede que se apresentam cada vez mais naturalizadas, de modo opaco, ditando os modos de expressão e disputa pelo engajamento reativo. O desafio aqui é justamente não se encantar nem se precipitar no tipo de “disputa” que a digitalização impõe: é fundamental receber – e perceber – de forma crítica e não imediatista aquilo que se apresenta como se fosse incontornável, enquanto forma e conteúdo, no discurso digital. 

¨      Jovens iranianos contra o regime estão divididos sobre conflito com Israel

Durante os últimos dias, Israel lançou uma série de ataques aéreos massivos contra o Irã, o que levou o governo de Teerã a retaliar com mísseis e drones.

Em uma mensagem de vídeo, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu disse ao povo iraniano que, além de acabar com o programa nuclear iraniano, a operação tinha como objetivo abrir caminho "para alcançar a liberdade".

Alguns setores da oposição fragmentada do Irã se uniram ao apelo de Netanyahu. Outros desconfiam das intenções do governo israelense.

Não há grupos oficiais de oposição dentro do Irã, onde as autoridades há muito tempo reprimem qualquer dissidência, o que inclui uma onda de execuções e prisões em massa a partir da década de 1980.

Desde então, a maioria dos grupos de oposição estão no exterior, como dois dos grupos antirregime mais organizados: aqueles que apoiam a volta da monarquia com Reza Pahlavi, o filho do último xá do Irã, e a Organização Mojahedin-e Khalq (MEK/MKO).

Também ficou cada vez mais difícil para jornalistas entrarem em contato com pessoas dentro do Irã, por causa das restrições de acesso à internet e às redes sociais impostas pelas autoridades.

No entanto, nos últimos dias, a BBC conseguiu falar com vários jovens iranianos que se opõem ao regime do aiatolá — e que protestaram contra o governo no passado.

Os nomes dos entrevistados foram alterados por uma questão segurança, já que as autoridades iranianas frequentemente prendem opositores na tentativa de reprimir qualquer voz contrária.

<><> 'O inimigo é a República Islâmica'

Tara, de 26 anos, disse à BBC que, quando Israel emite alertas de evacuação antes dos ataques, as autoridades cortam o acesso à internet "para que as pessoas não descubram e o número de mortos aumente".

Postos de controle e pedágios também são instalados, diz Tara. Ela acusa as autoridades de criarem trânsito "deliberadamente", o que "incentiva as pessoas a permanecerem em áreas que são alvo".

"Falar sobre patriotismo, unidade e resistência ao inimigo é absurdo. O inimigo vem nos matando lentamente há décadas. E o inimigo é a República Islâmica", diz ela.

O exército israelense tem emitido alertas de evacuação pelo aplicativos de mensagens Telegram e pelo X (antigo Twitter), ambos proibidos no Irã.

Somado ao acesso limitado à internet, isso significa que é difícil para os iranianos receberem os avisos.

Sima, de 27 anos, contou à BBC que não se importa mais com isso.

"Gostaria que Israel terminasse o trabalho o mais rápido possível. Estou exausta. Embora eu ainda não seja fã de Israel ou do que o país está fazendo, espero que eles terminem o que começaram."

"Isso é uma ilusão, eu sei. Mas eu quero que eles nos livrem da ameaça do IRGC [Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã], [do aiatolá Ali] Khamenei e dos aiatolás como um todo."

Khamenei, o líder supremo do Irã, é o comandante-chefe das Forças Armadas, que inclui o poderoso IRGC, grupo com a tarefa de defender o sistema islâmico e supervisionar os mísseis balísticos do país.

Os recentes ataques israelenses mataram muitas figuras importantes do IRGC, como Hossein Salami, o comandante dessa força.

<><> 'Eles nos mataram nas ruas'

Algumas pessoas que falaram com a BBC foram ainda mais enfáticas no apoio aos ataques de Israel.

Amir, de 23 anos, disse que os apoiava "100%". Questionado sobre o motivo, ele disse acreditar que ninguém mais estava preparado para enfrentar o regime iraniano.

"Nem a Organização das Nações Unidas, nem a Europa, nem mesmo nós. Nós tentamos, lembra? E eles nos mataram nas ruas. Fico feliz quando as pessoas que destruíram nossas vidas finalmente sentem o gosto do medo. Nós merecemos isso."

Amir está se referindo aos protestos generalizados no Irã após a morte de Masha Amini.

A jovem de 22 anos morreu sob custódia policial em 2022, após ser presa por supostamente violar as regras que exigem o uso de véu por mulheres.

O grupo Iran Human Rights (Direitos Humanos no Irã, em tradução livre), sediado na Noruega, relatou que 537 manifestantes foram mortos pelas forças de segurança do Estado durante os protestos realizados há cerca de três anos.

A versão oficial do governo é que "as forças de segurança agiram com responsabilidade", e a culpa pelas mortes foi de manifestantes violentos ou agitadores estrangeiros.

O lema dos protestos de 2022 — "mulher, vida, liberdade" — foi repetido por Netanyahu recentemente, tanto em inglês quanto em persa, ao instar os iranianos a "se levantarem e fazerem com que suas vozes sejam ouvidas".

O Irã não respondeu oficialmente aos apelos do primeiro-ministro israelense, mas alguns radicais e figuras da mídia zombaram e menosprezaram as declarações dele.

Enquanto isso, representantes do governo alertaram contra o compartilhamento de campanhas e declarações de autoridades israelenses e americanas sobre o Irã.

<><> 'Eu vi o que Netanyahu fez com Gaza'

No entanto, alguns opositores da República Islâmica desconfiam das intenções de Netanyahu.

"Participei dos protestos [em 2022] porque tinha esperança de uma mudança de regime naquela época. Simplesmente não vejo como o regime poderia ser derrubado no atual conflito sem que o próprio Irã fosse destruído no processo", avalia Navid, um ativista de 25 anos que foi brevemente preso durante os protestos.

"Israel também está matando pessoas comuns. Em algum momento, todos começarão a ficar do lado da República Islâmica", acrescenta ele.

Para Darya, de 26 anos, "o fato de as pessoas não saírem para protestar já é uma resposta clara" ao apelo de Netanyahu.

"Eu não iria, mesmo que Israel bombardeasse minha casa. Netanyahu se esconde atrás de slogans nacionalistas iranianos e finge que ajuda os iranianos a alcançar a liberdade enquanto mira áreas residenciais. Levaremmos anos para reconstruir o país."

Já Arezou, de 22 anos, não sabia o que pensar sobre os últimos desdobramentos.

"Odeio o regime e odeio o que ele fez conosco. Mas quando vejo as bombas caindo, penso na minha avó, na minha priminha. E eu vi o que Netanyahu fez com Gaza. Você acha mesmo que ele se importa com os iranianos? Não se trata de nós, trata-se da política [israelense]", pondera ela.

"Sinto que tenho uma escolha entre dois males, e não consigo. Só quero meu povo seguro. Quero respirar sem medo."

Mina, de 27 anos, quer "que este regime acabe mais do que qualquer outra coisa, mas não desse jeito".

"Não com mais bombas, com mais mortes."

"Israel não é nossa salvação. Quando pessoas inocentes morrem, não damos um passo em direção à liberdade. Essa é só mais uma forma de injustiça. Não quero trocar um tipo de terror por outro. Sou contra este regime e também contra esta guerra. Merecemos uma saída melhor do que esta", conclui ela.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

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