Cian
Barbosa: A estetização da guerra na era digital
Com o
avanço das tecnologias digitais sobre todas as esferas da vida, as abstrações
algorítmicas passam a integrar desde as órbitas de satélites artificiais que
servem de infraestrutura para a rede de informação global, passando pelos
cálculos de tecnologias de defesa para interceptação de ataques aéreos,
chegando até à curadoria de conteúdos que nos alcançam em nossas telas de
bolso, integradas na grande rede global. Vale notar: cada vez mais as dimensões
abstratas e concretas que dão forma à digitalização passam a integrar desde a
vida cotidiana até os próprios conflitos bélicos.
Quando
consideramos a situação atual, com a guerra imposta pelo regime sionista em sua
ocupação da Palestina e, mais recentemente, seus ataques ao Irã – que parecem
ter a finalidade de forçar um envolvimento direto dos EUA no conflito –, vemos
um exemplo central da convergência digital entre diversas esferas sociais,
culturais e políticas. O que há de comum entre o chamado “Domo de Ferro” e a
nova propaganda de guerra é o seguinte: se o primeiro representa a automação na
defesa do espaço aéreo de Israel, a nova propaganda de guerra também é
automatizada – agora pela curadoria digital de informações e conteúdos,
tratando usuários como alvos individualizados de textos, imagens e sons, o que
acaba gerando uma espécie de segmentação informacional inédita que é,
paradoxalmente, personalizada e massificada, direcionada e homogeneizante,
levando ao que corriqueiramente se descreve como a dinâmica de “bolhas digitais”.
No
contexto das informações, conteúdos e propagandas de guerra, percebemos a
tendência de segmentação dos discursos desde as famosas “caixas de comentário”.
Vale ressaltar que a noção de propaganda de guerra precisa ser reconsiderada
quando pensamos nas mídias digitais: primeiro, porque a propaganda de guerra
hoje não é exatamente a mesma que a do século passado, apesar de haver muitas
semelhanças e continuidades; além disso, é fundamental termos em mente que a
linguagem da propaganda dominou todo o conteúdo das mídias digitais. Isso não
quer dizer que tudo se resume na organização desses espaços para a propaganda
de mercadorias estritamente – ainda que este seja um aspecto fundamental.
Afirmar que ‘tudo é propaganda’ não significa um sentido literal, mas quer
dizer que, direta ou indiretamente, que tudo se articula pela linguagem
do marketing.
Essa
linguagem estrutura todo um universo simbólico e imaginário a partir das mídias
que hoje, cada vez mais, funcionam e apresentam uma nova temporalidade das
notícias e informações em geral – temporalidade essa que corresponde à
aceleração da economia política, expressando-se cada vez mais em uma cultura
do tempo real. Não é diferente quando se tratam de conflitos bélicos:
entramos na era da transmissão em tempo real das guerras desde as mídias
digitais, onde a devastação e a violência destruidora das incursões militares
se refletem em conteúdos praticamente instantâneos, até mesmo transmitidos ao
vivo, que por muitas vezes desafiam as narrativas hegemônicas, mas são também
frequentemente boicotados de diversas formas, na medida em que circulam através
de plataformas controladas mundialmente por oligopólios (por exemplo, com o
chamado shadowban, quando usuários ou postagens têm seu alcance
reduzido sem qualquer notificação).
Outra
forma de boicote ou censura que ocorre, de modo mais sutil – poderíamos
considerá-la inclusive sistêmica, estrutural ou formativa – é aquela que
condiciona e induz o tipo de conteúdo (e sua forma) a ser produzido e entregue
nas mídias digitais (os formatos de postagem que geram engajamento, com seus
jargões, estímulos e apelos padronizados, etc). A produção dessa estereotipia
implica na redução das complexidades e no abuso de maniqueísmos: perdem-se
nuances e minúcias, detalhes e pormenores. Conflitos militares tornam-se
assuntos extremamente explorados pelo seu potencial de engajamento, na medida
em que servem para reproduzir as dinâmicas de ‘nós VS eles’, ou seja, uma visão
maniqueísta e redutiva da realidade que acaba por retroalimentar uma percepção
moralizante dos debates. Foi assim, por exemplo, no caso entre Rússia e
Ucrânia; também é com Israel e Irã. Se Walter Benjamin alertava para os perigos
de uma estetização da política, com as mídias digitais nós temos não apenas uma
aceleração desse processo, como uma automatização do mesmo; além disso,
encontramos agora uma estetização das guerras em tempo real.
Os
múltiplos vídeos dos bombardeios iniciados por Israel contra o Irã e as
respostas iranianas subsequentes inundaram as redes sociais e, junto das
constantes postagens abordando o tema, feitas por especialistas ou
pseudo-especialistas sobre o assunto, foram acompanhadas por comentários que,
com alguma frequência, ou comemoram as ações de algum dos lados, buscando uma
espécie de justiça ou redenção poética; ou pedem de forma abstrata por uma
benção e ajuda divina. Na medida em que acompanhamos a estetização do genocídio
palestino nas redes, agora vemos a estetização da guerra que espetaculariza o
contra-ataque iraniano enquanto explora o potencial de engajamento viral do
conflito.
Para a
propaganda sionista, isso serve à chamada “teoria do dia seguinte”, onde, por um passe
de mágica, o conflito tem início sempre em um marco conveniente para a
narrativa de Israel: seja no contra-ataque iraniano, seja no 7 de outubro de
2023, a narrativa é construída como se os colonos israelenses
estivessem lá desde sempre. Evidentemente, soma-se a isso a postura conveniente
e covarde de Estados como a Alemanha, os EUA e, obviamente, tantos outros
europeus, que corroboram com suas posturas e declarações as ações de Israel –
de modo coerente com os seus apoios políticos, econômicos e militares.
Nos
espaços virtuais, especificamente aqueles chamados de “redes sociais”, o
alcance das informações é condicionado, como já dissemos, pelo seu potencial
viral. Esse potencial é mediado pela estetização que ganha forma em memes,
jargões, estereotipias e fórmulas fáceis que seguem as tendências em voga na
economia informacional das mídias digitais. Se a guerra é a política por outros
meios, e a estruturação do fascismo perpassa pela estetização da política, hoje
encontramos de forma radical a estetização das guerras pelas mídias digitais
como uma forma fundamental da antipolítica fascista. Isso se estende desde as
incursões do Estado brasileiro nas favelas e periferias do país, até os
conflitos no Oriente Médio, especificamente aqueles protagonizados pelo Estado
colonial sionista.
A
estetização da política – e da guerra – como efeito da digitalização
irremediavelmente surte a intensificação de dinâmicas identitárias, levando à
retroalimentação do racismo, seja ele islamofóbico ou antisionista. A grande
questão que enfrenta-se agora é em que medida o campo progressista,
especialmente aquele à esquerda, conseguirá se posicionar em uma desambiguação
entre anti-sionismo e antissemitismo, ao mesmo tempo em que não manifeste-se de
maneira ingênua frente às dinâmicas de rede que se apresentam cada vez mais
naturalizadas, de modo opaco, ditando os modos de expressão e disputa pelo
engajamento reativo. O desafio aqui é justamente não se encantar nem se
precipitar no tipo de “disputa” que a digitalização impõe: é fundamental
receber – e perceber – de forma crítica e não imediatista aquilo que se
apresenta como se fosse incontornável, enquanto forma e
conteúdo, no discurso digital.
¨
Jovens iranianos contra o regime estão divididos sobre
conflito com Israel
Durante
os últimos dias, Israel lançou uma
série de ataques aéreos massivos contra o Irã, o que levou o governo de Teerã a
retaliar com mísseis e drones.
Em uma
mensagem de vídeo, o primeiro-ministro israelense
Benjamin Netanyahu disse
ao povo iraniano que, além de acabar com o programa nuclear iraniano, a
operação tinha como objetivo abrir caminho "para alcançar a
liberdade".
Alguns
setores da oposição fragmentada do Irã se uniram ao apelo de Netanyahu. Outros
desconfiam das intenções do governo israelense.
Não há
grupos oficiais de oposição dentro do Irã, onde as autoridades há muito tempo
reprimem qualquer dissidência, o que inclui uma onda de execuções e prisões em
massa a partir da década de 1980.
Desde
então, a maioria dos grupos de oposição estão no exterior, como dois dos grupos
antirregime mais organizados: aqueles que apoiam a volta da monarquia com Reza Pahlavi, o filho do último xá do
Irã,
e a Organização Mojahedin-e Khalq (MEK/MKO).
Também
ficou cada vez mais difícil para jornalistas entrarem em contato com pessoas
dentro do Irã, por causa das restrições de acesso à internet e às redes
sociais impostas pelas autoridades.
No
entanto, nos últimos dias, a BBC conseguiu falar com vários jovens iranianos
que se opõem ao regime do aiatolá — e que protestaram contra o governo no
passado.
Os
nomes dos entrevistados foram alterados por uma questão segurança, já que as
autoridades iranianas frequentemente prendem opositores na tentativa de
reprimir qualquer voz contrária.
<><>
'O inimigo é a República Islâmica'
Tara,
de 26 anos, disse à BBC que, quando Israel emite alertas de evacuação antes dos
ataques, as autoridades cortam o acesso à internet "para que as pessoas
não descubram e o número de mortos aumente".
Postos
de controle e pedágios também são instalados, diz Tara. Ela acusa as
autoridades de criarem trânsito "deliberadamente", o que
"incentiva as pessoas a permanecerem em áreas que são alvo".
"Falar
sobre patriotismo, unidade e resistência ao inimigo é absurdo. O inimigo vem
nos matando lentamente há décadas. E o inimigo é a República Islâmica",
diz ela.
O
exército israelense tem emitido alertas de evacuação pelo aplicativos de
mensagens Telegram e pelo X (antigo Twitter), ambos proibidos no Irã.
Somado
ao acesso limitado à internet, isso significa que é difícil para os iranianos
receberem os avisos.
Sima,
de 27 anos, contou à BBC que não se importa mais com isso.
"Gostaria
que Israel terminasse o trabalho o mais rápido possível. Estou exausta. Embora
eu ainda não seja fã de Israel ou do que o país está fazendo, espero que eles
terminem o que começaram."
"Isso
é uma ilusão, eu sei. Mas eu quero que eles nos livrem da ameaça do IRGC [Corpo
da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã], [do aiatolá Ali] Khamenei e dos
aiatolás como um todo."
Khamenei,
o líder supremo do Irã, é o comandante-chefe das Forças Armadas, que inclui o
poderoso IRGC, grupo com a tarefa de defender o sistema islâmico e
supervisionar os mísseis balísticos do país.
Os
recentes ataques israelenses mataram muitas figuras importantes do IRGC, como
Hossein Salami, o comandante dessa força.
<><>
'Eles nos mataram nas ruas'
Algumas
pessoas que falaram com a BBC foram ainda mais enfáticas no apoio aos ataques
de Israel.
Amir,
de 23 anos, disse que os apoiava "100%". Questionado sobre o motivo,
ele disse acreditar que ninguém mais estava preparado para enfrentar o regime
iraniano.
"Nem
a Organização das Nações Unidas, nem a Europa, nem mesmo nós. Nós tentamos,
lembra? E eles nos mataram nas ruas. Fico feliz quando as pessoas que
destruíram nossas vidas finalmente sentem o gosto do medo. Nós merecemos
isso."
Amir
está se referindo aos protestos generalizados no Irã após a morte de Masha
Amini.
A jovem
de 22 anos morreu sob custódia policial em 2022, após ser presa por
supostamente violar as regras que exigem o uso de véu por mulheres.
O
grupo Iran Human Rights (Direitos Humanos no Irã, em tradução
livre), sediado na Noruega, relatou que 537 manifestantes foram mortos pelas
forças de segurança do Estado durante os protestos realizados há cerca de três
anos.
A
versão oficial do governo é que "as forças de segurança agiram com
responsabilidade", e a culpa pelas mortes foi de manifestantes violentos
ou agitadores estrangeiros.
O lema
dos protestos de 2022 — "mulher, vida, liberdade" — foi repetido por
Netanyahu recentemente, tanto em inglês quanto em persa, ao instar os iranianos
a "se levantarem e fazerem com que suas vozes sejam ouvidas".
O Irã
não respondeu oficialmente aos apelos do primeiro-ministro israelense, mas
alguns radicais e figuras da mídia zombaram e menosprezaram as declarações
dele.
Enquanto
isso, representantes do governo alertaram contra o compartilhamento de
campanhas e declarações de autoridades israelenses e americanas sobre o Irã.
<><>
'Eu vi o que Netanyahu fez com Gaza'
No
entanto, alguns opositores da República Islâmica desconfiam das intenções de
Netanyahu.
"Participei
dos protestos [em 2022] porque tinha esperança de uma mudança de regime naquela
época. Simplesmente não vejo como o regime poderia ser derrubado no atual
conflito sem que o próprio Irã fosse destruído no processo", avalia Navid,
um ativista de 25 anos que foi brevemente preso durante os protestos.
"Israel
também está matando pessoas comuns. Em algum momento, todos começarão a ficar
do lado da República Islâmica", acrescenta ele.
Para
Darya, de 26 anos, "o fato de as pessoas não saírem para protestar já é
uma resposta clara" ao apelo de Netanyahu.
"Eu
não iria, mesmo que Israel bombardeasse minha casa. Netanyahu se esconde atrás
de slogans nacionalistas iranianos e finge que ajuda os iranianos a alcançar a
liberdade enquanto mira áreas residenciais. Levaremmos anos para reconstruir o
país."
Já
Arezou, de 22 anos, não sabia o que pensar sobre os últimos desdobramentos.
"Odeio
o regime e odeio o que ele fez conosco. Mas quando vejo as bombas caindo, penso
na minha avó, na minha priminha. E eu vi o que Netanyahu fez com Gaza. Você
acha mesmo que ele se importa com os iranianos? Não se trata de nós, trata-se
da política [israelense]", pondera ela.
"Sinto
que tenho uma escolha entre dois males, e não consigo. Só quero meu povo
seguro. Quero respirar sem medo."
Mina,
de 27 anos, quer "que este regime acabe mais do que qualquer outra coisa,
mas não desse jeito".
"Não
com mais bombas, com mais mortes."
"Israel
não é nossa salvação. Quando pessoas inocentes morrem, não damos um passo em
direção à liberdade. Essa é só mais uma forma de injustiça. Não quero trocar um
tipo de terror por outro. Sou contra este regime e também contra esta guerra.
Merecemos uma saída melhor do que esta", conclui ela.
Fonte:
BBC News Mundo

Nenhum comentário:
Postar um comentário