Agreste:
Viagem ao berço da farinha de mandioca
A
rotina de Gabriel Souza, que vive na zona rural da cidade de Jupi, no Agreste
meridional pernambucano, é acordar todas as manhãs por volta de 5 horas para
produzir farinha. Na semana em que o visitei, ele precisava produzir 50 quilos
para dali a alguns dias.
A casa
de alpendre onde Gabriel, 42, mora junto da esposa, Marta Souza, 39, e das duas
filhas, Lúcia, 6, e Ana Luiza, 8, fica na parte alta do terreno. Tem um pé de
jamelão de uns 10 metros de altura plantado ao lado e uma amendoeira na frente.
Da janela lateral da cozinha, é possível ver a região: as plantações, as
montanhas cobertas de vegetação e árvores. Gabriel diz que sempre é o primeiro
a acordar, e que nessas primeiras horas
do dia, o café lhe acompanha.
Cheguei
de surpresa à propriedade da família. Até minutos antes do nosso encontro, eu
não sabia da sua existência. Nem ele da minha. Eu conversava com seu Pedro da
Silva, 71, produtor de farinha, quando
ele me contou que o vizinho Gabriel também produzia farinha. Os dois e Marluce
Ferreira, 53, moradora da Vila Colônia, na zona rural de Jupi, são exemplos do
motivo da cidade ser chamada de “berço da farinha”. Também são exemplos do
porquê a produção de alimentos agroecológicos está no topo da lista das estratégias
de combate ao colapso climático.
O nome
Jupi, do tupi-guarani, significa espinho agudo. A cidade pernambucana tem 15
mil habitantes e fica a 206 km de Recife. Tem um hospital, uma agência
bancária, uma pousada, algumas praças, um mercado municipal que foi
transformado em prédio administrativo, uma feira livre que acontece às sextas.
Ruas enladeiradas, bairros de classe média, cinco casas de farinha em atividade na área urbana
– São José, Santa Quitéria, Tradição, Produto Jupi e a GGA – e diversas outras
na zona rural. Jupi também é a cidade onde nasci.
Essas
cinco casas produzem em grande escala. Em média, nas cinco casas, por dia, são
feitos 90 sacos de farinha de 50 quilos cada. A farinha não fica na cidade e
nem na região, é vendida para outros estados, como o Pará. A mandioca é
comprada de grandes produtores, como as de São João, cidade vizinha a Jupi ou
de Marcolândia, no Piauí, a quase 500 km de distância de Jupi. Todo esse
esforço é para manter a produção funcionando.
O ritmo
acelerado exige mão de obra. Em média, 100 pessoas trabalham de maneira fixa em
cada um dos cinco estabelecimentos. O contrato de trabalho é informal e o
pagamento acontece semanalmente e funciona assim: 100 quilos de mandioca
raspada valem R$6 reais e para cada saco de farinha produzido, R$0,60 centavos
é adicionado ao pagamento. Eu descrevi a rotina desses trabalhadores em outro
momento, e agora me volto para a produção de farinha feita por pequenos
agricultores, na zona rural da cidade.
Os
motivos para a existência dessa quantidade de casas de farinha na cidade são
discutidos no artigo: Produção de farinha da mandioca no agreste pernambucano
de Antônio Pacheco de Barros Júnior, Werônica Meira de Souza e Maria do Socorro
Bezerra de Araújo, pela Revista Equador, da Universidade Federal do Piauí
(UFPI). Começa por Jupi ficar no Planalto da Borborema, nas bacias
hidrográficas dos rios Mundaú e Una, a uma altitude de 808 metros.
Uma
publicação da Embrapa relata que altitudes de até 600 a 800 metros são as
mais favoráveis para o bom desenvolvimento da planta. Diz, também, que a
temperatura ideal para o desenvolvimento é por volta dos 30 graus e que o
volume de chuva mais adequado está entre 1.000 a 1.500 milímetros por ano.
Segundo o Climatempo, as temperaturas na cidade de Jupi variam entre 17 e 29
graus e, segundo a APAC – Agência Pernambucana de Águas e Clima, o volume de
chuva é de 652 milímetros. Jupi tem o clima e as condições do solo ideais para
a plantação da mandioca.
Ainda
segundo o artigo da UFPI, na metade do século 20, os agricultores da região
viram a necessidade de dar um destino para a grande quantidade de mandioca
produzida, e a transformação em farinha foi a solução encontrada. Por isso, nos
municípios de Jupi, Lajedo, Jucati, Calçado, São João e Garanhuns, é fácil
encontrar casas de farinha.
• Milho, mandioca, manga
Do
centro de Jupi até a propriedade do seu Pedro, no sítio Lacre, são 20 minutos
de carro. As estreitas estradas esburacadas de terra obrigam o carro não
fabricado para essas condições, como era o caso do carro do meu irmão, a seguir
devagar. Quando chegamos, por volta de 14h30, seu Pedro estava sentado numa cadeira de balanço azul,
na sombra do pé de siriguela. Sua esposa, Maria do Rosário, 71, lavava os
pratos do almoço.
O sítio
é cercado por plantações de milho,
mandioca, cana de açúcar, pés de manga, abacate, pitomba e acerola. A casa onde
criou os 4 filhos, hoje moram ele e a esposa. Maurício da Silva, o único filho
que permaneceu, mora a 30 metros. Assim como Gabriel, seu Pedro também acorda
por volta das 5 da manhã, faz café, come cuscuz, às vezes batata doce e queijo
no café da manhã. Em seguida, espera o filho trazer a mandioca para começar o
trabalho na casa de farinha da família, construída há mais de 20 anos.
Em
1950, as cidades vizinhas – Jupi, Jucati, Lajedo, Calçado e São João – eram uma
coisa só e seu pai, Antônio, falecido, trabalhava fazendo de tudo, inclusive
farinha. “Eu já acompanhava meu pai com 5, 6 anos, mas só atrapalhava. Depois,
fui pegando o jeito”. Foi nesse ritmo que seu Pedro aprendeu a lidar com a
terra, saber qual tipo de buraco para cada tipo de grão, o tempo de descanso
necessário antes de plantar novamente, como usar enxada sem penetrá-la no pé e
a transformar a mandioca em farinha.
“A
gente tinha a nossa plantação, mas era pouca coisa, só dava pra gente comer”,
lembra. “Mas meu pai começou a plantar mandioca pra fazer farinha, porque ele
via que vendia bem no mercado de Garanhuns”. E foi assim que a produção de
farinha entrou de vez na vida dele.
O
trabalho garantiu que seu Pedro e sua família tivessem melhora na qualidade de
vida. A casa de farinha dele já chegou a produzir mais de 20 sacos por mês. O
dinheiro conquistado ao longo dos anos foi sendo usado em reformas na casa, nos
estudos dos filhos e na garantia da alimentação.
• “Melhor que trabalhar para os outros”
Foi com
o pai que Gabriel também aprendeu o ofício, no quintal da casa do sítio Lacre,
em Jupi. O trabalho com a terra: plantar, cuidar de animais, colher e repetir
todo esse processo vez após vez, sempre foi função do filho. A produção de
farinha começou a ser o foco, quando seu pai, Geraldo, passou a não aguentar o
ritmo da rotina. “É trabalhoso, mas é muito melhor do que trabalhar pros
outros”, reflete Gabriel.
À
medida que o tempo passou e o trabalho recompensar, equipamentos foram
comprados para facilitar o dia a dia. Gabriel assumiu o comando do local de
trabalho do pai, junto de sua esposa, Marta, da irmã, Cláudia Souza, do irmão
José Souza e da cunhada Lúcia Souza.
A casa
de farinha da família de Gabriel é um galpão de 20 metros quadrados, tem um
forno, prensa, cochos, peneira elétrica e triturador, equipamentos básicos para
a transformação da raiz em farinha. Já a
de seu Pedro pode ser descrita da mesma forma, adicionando apenas duas
janelas para ventilação. A mandioca fica guardada em um quarto ao lado, mas é
indicado que tenha sido arrancada no mesmo dia. Diariamente, depois de checar o
roçado, capinar ervas, dar comida para a vaca Estrela, para as galinhas e bodes,
Gabriel enche caçuás com mandioca e as posiciona no meio da casa de farinha,
deixando prontas para serem raspadas.
Por
volta de 15h30, havia sol e devia fazer uns 30 graus, mas dentro da casa de
farinha estava fresco. Um celular tocava a música Me Usa, da banda Magníficos.
É
quando Marta, Cláudia e Lúcia entram em ação para raspar as pequenas mandiocas,
indicativo da ausência de fertilizantes no plantio. Esse é um serviço
desempenhado por mulheres. “Não tenho do que reclamar, não escuto grito, não
tem ninguém me cobrando e às vezes não tenho nem horário”, diz Marta, enquanto
trabalha.
Os 10
hectares de terra da família de Gabriel são usados para plantar feijão,
melancia, abacaxi, maracujá e principalmente mandioca. “A gente acabou de
colher cinco toneladas”, conta, apontando para uma área descampada, ao lado da
sua casa. A mandioca arrancada foi plantada, maniva a maniva, em setembro do
ano passado, sem adição de agrotóxicos ou fertilizantes. As ervas daninhas
foram ceifadas uma vez por semana. “Não usamos agrotóxicos porque encarece a
produção, exige outro manejo e a gente não tá preparado”, diz Gabriel.
De onde
estávamos conversando, debaixo do alpendre da casa de farinha, dava para ver um homem de chapéu de palha agachado no
meio da plantação. Era José, irmão de Gabriel. Há um mês, plantaram uma nova
leva de mandioca, que será colhida em setembro deste ano. As plantas estavam na
altura do joelho. A manipueira, líquido extraído a partir da prensa da raiz, é
o fertilizante utilizado. Diluído em água, é “um adubo de primeira”, diz a
Embrapa. A família armazena o líquido de cheiro forte e cor amarelada em tonéis
abertos e utiliza sempre no preparo do solo, antes da plantação.
• Autonomia para plantar
Marluce
Ferreira mora na vila Colônia, a 12 quilômetros do centro de Jupi, e trabalha
em uma área de cinco hectares. Ela conta que seu avô, Agripino Ferreira, foi um
dos primeiros a montar uma casa de farinha no município, nos anos 70. Hoje, ela
trabalha com o filho Daniel e o tio, Lúcio. Após ouvir o motivo da solicitação
de entrevista, Marluce me diz, por telefone: “Acho que você devia conversar com
quem produz muita farinha, aqui a gente faz pouco”, referindo-se às casas de
farinha da cidade.
Por
semana, a produção de Marluce é de, em média, dois sacos de farinha de 50
quilos cada, mas a quantidade aumenta dependendo da disponibilidade da
colheita. Lúcio planta em diferentes momentos do ano, por isso, sempre tem
mandioca. Ser responsável pelo próprio horário, das decisões que toma ao longo
do dia, ter autonomia para plantar, cuidar, colher e ainda ser de onde o
sustento da família se origina, são motivos que mantêm Marluce produzindo
farinha.
“Esse
ano não tem chovido como deveria”, conta Marluce. “A gente já sabe que não vai
colher bem na próxima”, continua ela. Quando conversamos, era início de maio, e
segundo um prognóstico emitido pela APAC, os primeiros meses de 2025 seriam de
pouca chuva.
Pernambuco
entrou em estado de alerta em função da escassez de chuva. Especialistas
apontam para o El Niño como motivo – fenômeno que causa o aquecimento das águas
superficiais do oceano Pacífico, afetando os ventos e a chuva – também para as
mudanças climáticas provocadas pelo homem, que intensificam os efeitos desse
aquecimento.
A chuva
também é um fator decisivo na produção de Gabriel, que, às vezes, produz dez e
às vezes dois sacos de farinha por semana. É a água que garante o bom
desenvolvimento da planta. No manejo praticado pelos produtores desta
reportagem, o sistema de irrigação é a chuva.
É a
falta de chuva e o cansaço do corpo que têm forçado seu Pedro, de 71 anos, a
diminuir a produção. Ele conta que há mais de 20 anos trabalha na sua própria
casa de farinha, e que nunca antes produziu tão pouco como hoje. Isso porque o
agricultor não tem plantado mais muita mandioca e, diferentemente dos grandes
produtores, que têm sistema de irrigação, ele depende só da chuva.
Maurício,
o filho de seu Pedro, tem focado na plantação de milho, já que o São João, no
mês de junho, se aproxima. Por isso, o agricultor tem precisado comprar
mandioca dos vizinhos para dar conta das encomendas: a sua irmã mais nova e
três vizinhos compram por mês 10 quilos cada. E, por conta das limitações
físicas, ele tem precisado contratar pessoal: “o dia trabalhado é R$100 reais”.
Nas
últimas duas semanas, dois sacos de farinha de 50 quilos cada foram produzidos
por seu Pedro, com auxílio de um jovem contratado para operar os maquinários e
da nora, Bete, na raspagem. Ele me mostra os sacos de ráfia costurados à mão.
Seu Pedro e dona Maria do Rosário têm a aposentadoria como a principal fonte de
renda hoje em dia, fruto do trabalho como agricultores.
Além de
ter clientes fixos, seu Pedro vende os 100 quilos de farinha que faz no mercado público de Lajedo, cidade vizinha.
O prédio concentra a variedade da produção local, incluindo de carnes, queijos, manteiga, artigos de
couro e farinha. É lá que as farinhas feitas por Gabriel, seu Pedro e Marluce
se encontram.
Seu
Pedro vende o saco por R$ 200 e o quilo, R$ 5, Marluce também vende pelos
mesmos valores, já Gabriel vende o saco a R$ 150 reais e o quilo, R$ 5. Gabriel
ainda vende sua farinha em mercearias do Neves, o distrito pertence ao
município de Jucati, a 15 quilômetros de Jupi. Uma vez por semana, Gabriel
carrega seu carro e vai fazer as entregas. Quando chegamos lá de surpresa, ele
tinha feito as entregas naquela manhã. Já Marluce vende o “quebrado”, ou quilo,
no comércio local da vila Colônia.
A venda
na feira livre de Jupi deixou de ser uma opção quando a procura deixou de
existir. Seu Pedro lista motivos para a diminuição das vendas na feira: “as
novas gerações não gostam de farinha”, diz, o poder de compra caiu; aumento da
preferência pelas farofas “de mercado” e pelos “novos alimentos”, os
ultraprocessados. Estudos mostram que seu Pedro tem certa razão.
Segundo
a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), quando comparados os dados das
pesquisas de 2008 a 2018, nota-se uma diminuição de quase 6% no consumo da
farinha de mandioca por nordestinos. “À medida que essas famílias ascendem
socialmente”, explica a professora do departamento de nutrição da Universidade
Federal de Pernambuco (UFPE) Nathália Souza, alguns alimentos tendem a fazer
parte da dieta e outros a sair. ”A farinha é um dos que tendem a sair”. afirma
ela.
A
farinha tem deixado de ser o acompanhamento do feijão em algumas casas e passou
a ser substituída pelo macarrão, como descreve Maria Zênia Tavares da Silva, em
sua tese de doutorado. A farinha de mandioca está na lista dos alimentos
considerados de “pobre”.
Apesar
disso, o Nordeste é a segunda região brasileira que mais consome farinha de
mandioca, ficando atrás apenas do Norte. A produção de mandioca em Jupi,
segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), segue em
crescimento: em 2004, foram produzidas 1.800 toneladas de mandioca, em 2015,
2.000 toneladas e em 2023, 3.000 toneladas. A produção de farinha das empresas,
como das casas de farinha já citadas, é o principal motivo do aumento dessa
produção. Estive na secretaria de agricultura de Jupi para levantar números
sobre a produção de farinha de pequenos agricultores. Lá, me disseram que a
secretaria não tem informação exata de quantos são os produtores, o que e o
quanto produzem.
• A origem da mandioca
No
Brasil, a produção e o consumo da farinha de mandioca é anterior à chegada das
caravelas portuguesas. Este é um conhecimento desenvolvido pelos povos
indígenas. Pinturas rupestres datadas de 12 mil anos encontradas na Lapa do
Caboclo, no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, em Januária, Minas Gerais, são
uma prova disso. No livro Uma História da Vida Rural no Brasil, Mary Del Priore
e Renato Pinto Venâncio contam essa história.
Uma das
versões da origem da mandioca, segundo o mito tupi, diz que a guardiã do Pomar
Amazônico apareceu grávida e deu à luz uma criança muito branca, seu nome era
Mani. Porém, o bebê morreu. Da sua sepultura, nasceu uma planta. Intrigada, a
mãe de Mani abriu a terra e avistou que a raiz parecia da cor do seu filho. A
sepultura passou a ser chamada de Mani-oca, casa de Mani, daí o nome do
tubérculo. Antes da invasão lusa, os tupis ocupavam a região que hoje está
Jupi.
Não se
sabe ao certo por quantos anos os povos que aqui habitavam conviveram
consumindo a mandioca, mas é sabido que a maneira como lidavam com a terra, as
plantas e animais durante mais de 10 mil anos, não causou o colapso que
causamos nos últimos cem.
No
livro Capitalismo e Colapso Ambiental, Luiz Marques explica como o agronegócio
colabora diretamente com a emissão de gases do efeito estufa, alterando de
maneira cada vez mais aguda o clima e atingindo produções como a dessas
famílias, que são realizadas sem agredir o ambiente. O modelo de produção do
agronegócio, baseado em monocultura, uso de agrotóxicos e não respeito ao
trabalhador, tem ligação direta com as mudanças climáticas.
O
manejo adotado por Gabriel, seu Pedro e Marluce, não é uma escolha entendida
por eles como estratégia para combater o colapso, é uma herança familiar,
aprendida com o pai, que aprendeu com o avô, bisavô e assim regressivamente.
Fonte:
O Joio e o Trigo

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