terça-feira, 20 de maio de 2025


 

Fumar, beber e ser sedentário: quando as consequências dos maus hábitos começam a surgir?

Em que momento a vida começa a cobrar pelos hábitos que tivemos ao longo dos anos? A pergunta pode parecer profunda, mas um estudo finlandês apontou que essa conta pode chegar muito antes do que se pensava, já aos 36 anos.

De acordo com os pesquisadores, seria a partir dessa idade que o corpo passaria a sentir as consequências negativas de práticas como beber, fumar e não praticar exercícios físicos.

⚠️ Mas especialistas ponderam que é preciso colocar os dados em perspectiva e entender que, em alguns casos, os efeitos nocivos podem aparecer até antes dessa idade.

"Não é um número exato para a maioria das pessoas e não significa que pode ser interpretado como 'posso beber, fumar e ser inativo fisicamente à vontade até chegar aos 36 anos e nessa idade eu tenho que mudar, planejar o envelhecimento' ", alerta Marco Túlio Cintra, geriatra e presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).

Para os médicos, apesar das ressalvas sobre a idade extremamente específica determinada pela pesquisa (entenda mais abaixo), o estudo reforça uma mensagem importante: os hábitos na idade adulta geram consequências diretas no processo de envelhecimento.

        Fim da linha aos 36 anos?

Lúcia Sales, pneumologista e coordenadora da Comissão Científica de Epidemiologia da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), explica que a afirmação da idade vinda do estudo vem, na realidade, da metodologia utilizada.

➡️ A pesquisa, feita por um grupo de estudo finlandês, foi publicada na revista científica "Annals of Medicine" em abril de 2025. O levantamento utilizou dados coletados de voluntários em diferentes idades – 27, 36, 42, 50 e 61 anos – sobre hábitos como tabagismo, consumo de álcool e prática de atividade física.

O objetivo era entender como esses comportamentos considerados de risco se acumulam ao longo do tempo e quais são suas consequências para a saúde a longo prazo.

🚨Entre os principais impactos negativos, os pesquisadores identificaram aumento dos sintomas depressivos, redução do bem-estar psicológico, piora na autoavaliação da saúde e alta no número de fatores de risco metabólicos.

"Como observado na discussão do artigo, o assunto é complexo e multifatorial. [...] Em grande parte, os efeitos dependem da carga de exposição e do tempo de uso", explica a pneumologista.

Marco Túlio ainda lembra que a análise se trata de uma média observada de quando os efeitos negativos começam a aparecer – ou seja, essa idade pode variar muito de acordo com o comportamento de cada um ao longo da vida.

"O que acontece quando envelhecemos é um resultado do acúmulo das consequências dos maus hábitos sobre o organismo", pontua o geriatra.

Sem hora para a contar chegar

Os especialistas explicam que não existe uma idade exata em que o corpo começa a sentir as consequências dos hábitos construídos ao longo da vida.

Lúcia Sales comenta que o prazo para esses impactos acontecerem é variável, tanto para a idade como para o tipo de patologia decorrente da rotina que a pessoa tem.

"Por exemplo, na questão do tabagismo, o risco acontece a partir de um coeficiente chamado anos/maço: a partir de 10 anos/maço, maior o risco para desenvolver doença pulmonar obstrutiva crônica; a partir de 20 anos/maço, maior risco para câncer de pulmão", detalha a pneumologista.

Ela ainda afirma que, assim como o tabagismo, o etilismo e o sedentarismo são conhecidamente fatores de risco para maior mortalidade, além de comprometer a qualidade de vida das pessoas.

"Não há uma idade certa [para começar a sentir os impactos]. A mensagem é, quanto mais cedo se preocupar com hábitos saudáveis de vida, melhor", analisa o geriatra Marco Túlio Cintra.

        Quando começar a mudar os hábitos?

Ainda que não haja uma idade certa para que os efeitos negativos sejam sentidos – e que as consequências ao longo do envelhecimento vão depender diretamente do comportamento durante a vida adulta – os especialistas recomendam que algumas práticas devem ser repensadas o quanto antes.

Eles explicam que também não há uma idade certa para que o cuidado com a saúde comece e que os bons hábitos devem ser cultivados desde a juventude.

"Com relação à idade em que a pessoa deve começar a cuidar desses hábitos, a resposta é ontem. Quanto antes melhor", aconselha Cintra.

👉 Entre as medidas para se ter um envelhecimento saudável, eles destacam:

        Priorizar uma alimentação saudável, reduzindo ao máximo a ingestão de alimentos processados e evitando excessos de sal e açúcar.

        Praticar atividade física.

        Procurar dormir para realmente descansar o corpo e a mente, com noites de sono reparador.

        Não fumar.

        Para quem não tem problemas com a ingestão de álcool, ter um consumo em um nível considerado sociável, eventual.

        Manter a mente estimulada de maneira saudável, priorizando atividades como ler, conversar com amigos e praticar algum hobby, por exemplo.

De acordo com os médicos, um estilo de vida saudável contribui para a diminuição no risco de desenvolvimento de doenças crônicas, redução do estresse e manutenção da boa saúde mental.

"O autocuidado, seja na prevenção de doenças ou nos pequenos atos do dia a dia voltados para o nosso próprio corpo e mente, minimiza as consequências não desejadas na evolução natural da vida", comenta Lúcia Salles.

        Problemas de circulação, fraqueza muscular e depressão: os riscos de ficar muito tempo sentado

Dor nas costas, fraqueza, ganho de peso e ansiedade. Esses problemas podem parecer não ter nenhuma relação entre si, mas, acredite, podem ter a mesma causa: ficar muito tempo sentado.

Um hábito que se tornou muito comum, em especial com o crescimento do número de atividades que podem ser realizadas em escritórios e de opções de lazer que se utilizam de telas, a imobilidade prolongada pode causar efeitos nocivos à saúde.

O reconhecimento do excesso de tempo sentado como potencialmente prejudicial para a saúde começou a ganhar atenção a partir das últimas décadas do século XX, com estudos e pesquisas destacando as consequências negativas desse comportamento sedentário.

>>>> Os principais problemas ocasionados por longos períodos do dia sentado podem ser divididos em três grupos:

1.       Musculoesqueléticos

2.       Cardiovasculares

3.       Neuropsiquiátricos ou emocionais

1. Musculoesqueléticos

💪 Com os longos períodos sentados, a estrutura musculoesquelética do corpo tende a se enfraquecer e, aos poucos, a perder algumas importantes funções, como força, resistência, habilidade e equilíbrio.

Luiz Riani, médico do esporte e professor da Escola de Educação Física e Esporte da USP (EEFE), explica que só fortalecemos os ossos e músculos quando o corpo é exposto a algum tipo de impacto. Ao passar muito tempo sentada, a pessoa tende a ter longos períodos de imobilidade, o que contribui para o enfraquecimento dessas estruturas.

Por isso, aqueles que passam muito tempo sentados têm mais chance de ter problemas como:

        Osteoporose – doença caracterizada pela perda da massa óssea, tornando os ossos enfraquecidos e predispostos a fratura;

        Aumento no risco de quedas e fraturas – com o enfraquecimento dos ossos e dos músculos por conta dos períodos de inatividade, a pessoa fica mais suscetível a quedas e, consequentemente, fraturas;

        Dores e fraqueza muscular – uma vez que os músculos não são estimulados, pequenos esforços podem causar algum tipo de dor ou desconforto.

2. Cardiovasculares

🩸 A imobilidade prolongada, provocada por longos períodos sentados, pode afetar negativamente a circulação sanguínea, contribuindo para a piora das condições vasculares.

Com isso, há uma chance maior de desenvolvimento de problemas como:

        Varizes

Caracterizadas por serem veias dilatadas e tortuosas, muitas vezes visíveis sob a pele, o surgimento das varizes é facilitado quando há problemas de circulação.

O sedentarismo contribui para a estagnação do sangue nas extremidades inferiores, aumentando a pressão nas veias e favorecendo o desenvolvimento das varizes.

        Trombose venosa profunda

No caso da trombose venosa profunda, o risco está associado à diminuição do fluxo sanguíneo causado pelo tempo prolongado de imobilidade. A posição sentada por longos períodos pode levar à formação de coágulos nas pernas e contribuir para o desenvolvimento de uma trombose.

A trombose venosa profunda é uma condição séria, que pode resultar em complicações graves como a embolia pulmonar. — Armando Lobato, presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular Nacional

        Insuficiência cardíaca e Acidente Vascular Cerebral (AVC)

Um estudo publicado na revista científica Jama Cardiology, em 2022, mostrou que pessoas que ficam sentadas durante mais de oito horas por dia têm uma probabilidade até 20% maior de sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) ou infarto.

Os resultados também apontaram que aqueles que passam longos períodos sentados tiveram 49% mais chance de desenvolver insuficiência cardíaca.

Com o sedentarismo, há uma diminuição do fluxo sanguíneo pelo corpo, causando prejuízos à circulação do sangue. Assim, a pessoa fica mais propensa a entupimento de vasos, como no caso do AVC, e do enfraquecimento do coração, com um bombeamento insuficiente de sangue para o corpo.

3. Neuropsiquiátricos ou emocionais

🤕 Além dos problemas físicos, principalmente os já citados cardiovasculares e musculoesqueléticos, passar muito tempo sentado pode também contribuir para o desenvolvimento de doenças neuropsiquiátricas.

Se você tem dor, você começa a gerar um senso de incapacidade, uma sensação de perda de autonomia.

— Luiz Riani, professor da Escola de Educação Física e Esporte da USP (EEFE)

À medida que as dores e fragilidades causadas pelo excesso de tempo sentado vão limitando os movimentos e a realização de determinadas atividades, há uma perda de função física do corpo.

Além da perda de autonomia, a sensação de isolamento também é natural das atividades realizadas durante o tempo sentado.

"Essa condição de ficar muito tempo sentado durante o dia é imposta por uma série de fatores estruturais da nossa sociedade, desde condições de trabalho ou os meios de transporte utilizados. Além disso, muitas atividades de lazer acabam sendo em frente à tela", analisa Leandro Rezende, professor do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Outro estudo publicado na revista científica JAMA Cardiology, em 2023, observou o aumento da incidência de casos de demência em pessoas que passam muito tempo sentado. A pesquisa mostra que, para aqueles que passam 12 horas nessa posição, há um aumento de 63% na chance de desenvolver demência.

O sedentarismo também vem sendo associado a alta no número de pessoas com Alzheimer, depressão e ansiedade.

 

Fonte: g1


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