segunda-feira, 19 de maio de 2025

Banco Santander financia grupo ligado a desmatamento no Brasil

O banco espanhol Santander, o 14º maior do mundo, financiou indiretamente o desmatamento de matas nativas na América do Sul, prejudicando biomas e a vida de populações indígenas nas últimas duas décadas.

A organização internacional de defesa do meio ambiente e dos direitos humanos Global Witness analisou imagens de satélite e concluiu que o grupo de agronegócio e imobiliário argentino Cresud e sua subsidiária brasileira BrasilAgro teriam desmatado cerca de 170 mil hectares, uma área maior que a cidade de São Paulo, desde 2001.

O relatório aponta que o Santander destinou, juntamente com outras instituições, um total de 1,3 bilhão de dólares (R$ 7,3 bilhões) em financiamento para o Cresud desde 2011, sendo o banco espanhol o maior financiador, além de um dos acionistas do grupo.

A região mais atingida pela atividade dessas empresas foi a do Gran Chaco, uma vasta planície de vegetação tropical seca que se estende por Argentina, Bolívia, Paraguai e Brasil. Parte do cerrado brasileiro – bioma mais ameaçado do país – também foi afetada. Essas florestas estão entre as mais biodiversas e ricas em carbono do mundo e abrigam vários povos indígenas e comunidades.

O caso não é fato isolado. Uma investigação divulgada pelo Greenpeace em dezembro revelou diversos empréstimos e concessão de crédito feitos por bancos e investidores, incluindo o Santander, a fazendas com ocorrência de desmatamento e outros delitos ambientais.

<><> Especulação no campo

O levantamento mostra que o apoio do banco foi fundamental para acelerar a expansão geográfica e financeira do grupo. De 2010 a 2024, a receita da empresa cresceu 28 vezes, chegando a 1,4 bilhão de dólares (R$ 7,9 bilhões). A gigante do agronegócio recebeu inclusive certificações de sustentabilidade para duas de suas fazendas, o que facilita e barateia o financiamento para produção de soja e milho.

"O modelo de negócios consiste em encontrar áreas para desenvolver, comprá-las a baixo custo, desmatá-las e depois vendê-las. O Chaco é considerado terra improdutiva a ser convertida em terra produtiva, em oposição a um ecossistema vital e também lar de grandes quantidades de povos indígenas a serem defendidos", afirmou Charlie Hammans, autor do relatório da Global Witness, ao jornal britânico The Guardian.

Enquanto o grupo Cresud esperaria a valorização das fazendas, a terra seria usada para o cultivo de soja, trigo e girassóis, e para a criação de gado, descreve o relatório.

Em 2005, o grupo criou a subsidiária BrasilAgro para expandir seu modelo de negócios para o Paraguai, Bolívia e Brasil – onde se tornou uma das maiores donas de terras.

Em apenas três anos, de 2016 a 2018, a BrasilAgro teria desmatado 10.000 hectares (o equivalente a 10.000 campos de futebol) em sua fazenda Chaparral, na Bahia.

<><> Greenwashing

Segundo o relatório, o financiamento do Santander ao Cresud cresceu apesar de o banco ter adotado, em 2018, uma política para "limitar" o desmatamento. A instituição assumiu ainda, em 2021, a meta de zerar suas emissões até 2050.

Segundo a Global Witness, o Cresud evita a palavra "desmatamento" em sua comunicação – no lugar, usa eufemismos como "estabilizar", "desenvolver" ou "transformar" terras para atingir seu "potencial produtivo".

Em seu compromisso de redução de desmatamento, o banco diz que "decidiu limitar seu envolvimento em determinadas atividades" como as de "petróleo e gás em áreas geográficas sensíveis, ou as atividades relacionadas à produção de papel e celulose, óleo de palma ou soja". A política não exclui claramente a possibilidade de investir em projetos ligados ao desmatamento.

"As políticas vagas do Santander deixam a porta aberta para o desmatamento e as violações dos direitos humanos ligadas ao agronegócio sul-americano. Para demonstrar um compromisso real com o fim do desmatamento, o Santander deveria começar exigindo explicitamente que os clientes e seus fornecedores não contribuam para a conversão ou degradação de ecossistemas naturais", diz Ola Janus, coordenadora da campanha Banks and Nature da ONG BankTrack, que atua para pressionar bancos a cumprirem seus compromissos.

Em 2024, o banco emprestou mais de 600 milhões de dólares (R$ 3,4 bilhões) a empresas diretamente envolvidas em produção de carne bovina, óleo de palma, soja e outras atividades agrícolas que impulsionam a maior parte do desmatamento em florestas tropicais, de acordo com dados da Forest and Finance. Nos últimos anos, a Global Witness demonstrou os vínculos financeiros do Santander com as principais empresas ligadas ao desmatamento, incluindo JBS, Minerva e Cargill.

Mesmo com esse histórico, o Cresud manifestou o desejo de acessar o mercado de crédito de carbono para receber pagamentos pelas florestas remanescentes em suas propriedades.

<><> Outro lado

Questionado pela Global Witness se o financiamento do Cresud constituía uma violação de suas próprias políticas, o Santander afirmou que sua "prática consistente é não comentar sobre informações relacionadas a clientes ou transações específicas".

Um porta-voz do Santander também descreveu as alegações da Global Witness como "contendo imprecisões potenciais", sem apresentar evidências.

•        Lei antidesmate da UE classifica Brasil como "risco padrão"

A União Europeia (UE) está se preparando para começar a aplicar no dia 31 de dezembro sua lei antidesmatamento (EUDR, na sigla em inglês), que exigirá dos exportadores a apresentação de provas de que os produtos não provêm de áreas desmatadas de 2021 em diante.

A norma prevê que o rigor do controle dependerá do país onde fica o exportador, segundo uma classificação de risco elaborada pelo bloco, aprovada nesta segunda-feira (12/05). A lista ainda não foi oficialmente divulgada, mas vazou para a imprensa, e coloca o Brasil como um país de risco padrão, ao lado da Indonésia e Malásia.

Entre os países de baixo risco, estão todos os 27 membros da UE, além dos Estados Unidos e da China. Na outra ponta, são de risco alto países como a Rússia, Belarus e Coreia do Norte.

A classificação oficial será divulgada nas próximas semanas, mas já gerou reações de entidades ambientalistas – a inclusão do Brasil no patamar de risco médio, por exemplo, foi criticada pela ONG Global Witness, tendo em vista o desmatamento de áreas da Amazônia.

Em 2024, o ritmo do desmatamento caiu em todos os seis biomas do país, mas ainda equivale a cerca de 1,5 milhão de campos de futebol derrubados no ano.

Segundo a regulamentação da UE, empresas que importam produtos como cacau, café, soja, óleo de palma e madeira devem comprovar rastreabilidade por meio de dados de geolocalização fornecidos pelos agricultores e complementados por imagens de satélite.

<><> Entrada em vigor da norma foi adiada

A ONG Global Witness lamentou na terça-feira que o Brasil não tenha sido classificado como de alto risco, já que "a crise do desmatamento afeta florestas críticas para o clima na Amazônia" – mas considerou que, apesar dos defeitos, a lei ainda é um passo na direção certa.

A eurodeputada francesa Marie Toussaint, do Partido Verde, também disse que ficou "surpresa com a classificação dos Estados Unidos, Indonésia e Brasil". "Vamos esperar para ver os critérios e se eles são objetivos", afirmou.

A nova regulamentação gerou forte oposição do setor do agronegócio e de vários países africanos, asiáticos e sul-americanos, preocupados com os custos adicionais que ela acarretará para agricultores, pecuaristas e operadores florestais. 

Em função da pressão, a União Europeia adiou em um ano a entrada em vigor da lei – do final de 2024 para o final de 2025 – devido a pedidos do Brasil, dos Estados Unidos e da Alemanha, entre outros.

 

Fonte: DW Brasil

 

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