Banco
Santander financia grupo ligado a desmatamento no Brasil
O banco
espanhol Santander, o 14º maior do mundo, financiou indiretamente o
desmatamento de matas nativas na América do Sul, prejudicando biomas e a vida
de populações indígenas nas últimas duas décadas.
A
organização internacional de defesa do meio ambiente e dos direitos humanos
Global Witness analisou imagens de satélite e concluiu que o grupo de
agronegócio e imobiliário argentino Cresud e sua subsidiária brasileira
BrasilAgro teriam desmatado cerca de 170 mil hectares, uma área maior que a
cidade de São Paulo, desde 2001.
O
relatório aponta que o Santander destinou, juntamente com outras instituições,
um total de 1,3 bilhão de dólares (R$ 7,3 bilhões) em financiamento para o
Cresud desde 2011, sendo o banco espanhol o maior financiador, além de um dos
acionistas do grupo.
A
região mais atingida pela atividade dessas empresas foi a do Gran Chaco, uma
vasta planície de vegetação tropical seca que se estende por Argentina,
Bolívia, Paraguai e Brasil. Parte do cerrado brasileiro – bioma mais ameaçado
do país – também foi afetada. Essas florestas estão entre as mais biodiversas e
ricas em carbono do mundo e abrigam vários povos indígenas e comunidades.
O caso
não é fato isolado. Uma investigação divulgada pelo Greenpeace em dezembro
revelou diversos empréstimos e concessão de crédito feitos por bancos e
investidores, incluindo o Santander, a fazendas com ocorrência de desmatamento
e outros delitos ambientais.
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Especulação no campo
O
levantamento mostra que o apoio do banco foi fundamental para acelerar a
expansão geográfica e financeira do grupo. De 2010 a 2024, a receita da empresa
cresceu 28 vezes, chegando a 1,4 bilhão de dólares (R$ 7,9 bilhões). A gigante
do agronegócio recebeu inclusive certificações de sustentabilidade para duas de
suas fazendas, o que facilita e barateia o financiamento para produção de soja
e milho.
"O
modelo de negócios consiste em encontrar áreas para desenvolver, comprá-las a
baixo custo, desmatá-las e depois vendê-las. O Chaco é considerado terra
improdutiva a ser convertida em terra produtiva, em oposição a um ecossistema
vital e também lar de grandes quantidades de povos indígenas a serem
defendidos", afirmou Charlie Hammans, autor do relatório da Global
Witness, ao jornal britânico The Guardian.
Enquanto
o grupo Cresud esperaria a valorização das fazendas, a terra seria usada para o
cultivo de soja, trigo e girassóis, e para a criação de gado, descreve o
relatório.
Em
2005, o grupo criou a subsidiária BrasilAgro para expandir seu modelo de
negócios para o Paraguai, Bolívia e Brasil – onde se tornou uma das maiores
donas de terras.
Em
apenas três anos, de 2016 a 2018, a BrasilAgro teria desmatado 10.000 hectares
(o equivalente a 10.000 campos de futebol) em sua fazenda Chaparral, na Bahia.
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Greenwashing
Segundo
o relatório, o financiamento do Santander ao Cresud cresceu apesar de o banco
ter adotado, em 2018, uma política para "limitar" o desmatamento. A
instituição assumiu ainda, em 2021, a meta de zerar suas emissões até 2050.
Segundo
a Global Witness, o Cresud evita a palavra "desmatamento" em sua
comunicação – no lugar, usa eufemismos como "estabilizar",
"desenvolver" ou "transformar" terras para atingir seu
"potencial produtivo".
Em seu
compromisso de redução de desmatamento, o banco diz que "decidiu limitar
seu envolvimento em determinadas atividades" como as de "petróleo e
gás em áreas geográficas sensíveis, ou as atividades relacionadas à produção de
papel e celulose, óleo de palma ou soja". A política não exclui claramente
a possibilidade de investir em projetos ligados ao desmatamento.
"As
políticas vagas do Santander deixam a porta aberta para o desmatamento e as
violações dos direitos humanos ligadas ao agronegócio sul-americano. Para
demonstrar um compromisso real com o fim do desmatamento, o Santander deveria
começar exigindo explicitamente que os clientes e seus fornecedores não
contribuam para a conversão ou degradação de ecossistemas naturais", diz
Ola Janus, coordenadora da campanha Banks and Nature da ONG BankTrack, que atua
para pressionar bancos a cumprirem seus compromissos.
Em
2024, o banco emprestou mais de 600 milhões de dólares (R$ 3,4 bilhões) a
empresas diretamente envolvidas em produção de carne bovina, óleo de palma,
soja e outras atividades agrícolas que impulsionam a maior parte do
desmatamento em florestas tropicais, de acordo com dados da Forest and Finance.
Nos últimos anos, a Global Witness demonstrou os vínculos financeiros do
Santander com as principais empresas ligadas ao desmatamento, incluindo JBS,
Minerva e Cargill.
Mesmo
com esse histórico, o Cresud manifestou o desejo de acessar o mercado de
crédito de carbono para receber pagamentos pelas florestas remanescentes em
suas propriedades.
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Outro lado
Questionado
pela Global Witness se o financiamento do Cresud constituía uma violação de
suas próprias políticas, o Santander afirmou que sua "prática consistente
é não comentar sobre informações relacionadas a clientes ou transações
específicas".
Um
porta-voz do Santander também descreveu as alegações da Global Witness como
"contendo imprecisões potenciais", sem apresentar evidências.
• Lei antidesmate da UE classifica Brasil
como "risco padrão"
A União
Europeia (UE) está se preparando para começar a aplicar no dia 31 de dezembro
sua lei antidesmatamento (EUDR, na sigla em inglês), que exigirá dos
exportadores a apresentação de provas de que os produtos não provêm de áreas
desmatadas de 2021 em diante.
A norma
prevê que o rigor do controle dependerá do país onde fica o exportador, segundo
uma classificação de risco elaborada pelo bloco, aprovada nesta segunda-feira
(12/05). A lista ainda não foi oficialmente divulgada, mas vazou para a
imprensa, e coloca o Brasil como um país de risco padrão, ao lado da Indonésia
e Malásia.
Entre
os países de baixo risco, estão todos os 27 membros da UE, além dos Estados
Unidos e da China. Na outra ponta, são de risco alto países como a Rússia,
Belarus e Coreia do Norte.
A
classificação oficial será divulgada nas próximas semanas, mas já gerou reações
de entidades ambientalistas – a inclusão do Brasil no patamar de risco médio,
por exemplo, foi criticada pela ONG Global Witness, tendo em vista o
desmatamento de áreas da Amazônia.
Em
2024, o ritmo do desmatamento caiu em todos os seis biomas do país, mas ainda
equivale a cerca de 1,5 milhão de campos de futebol derrubados no ano.
Segundo
a regulamentação da UE, empresas que importam produtos como cacau, café, soja,
óleo de palma e madeira devem comprovar rastreabilidade por meio de dados de
geolocalização fornecidos pelos agricultores e complementados por imagens de
satélite.
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Entrada em vigor da norma foi adiada
A ONG
Global Witness lamentou na terça-feira que o Brasil não tenha sido classificado
como de alto risco, já que "a crise do desmatamento afeta florestas
críticas para o clima na Amazônia" – mas considerou que, apesar dos
defeitos, a lei ainda é um passo na direção certa.
A
eurodeputada francesa Marie Toussaint, do Partido Verde, também disse que ficou
"surpresa com a classificação dos Estados Unidos, Indonésia e
Brasil". "Vamos esperar para ver os critérios e se eles são
objetivos", afirmou.
A nova
regulamentação gerou forte oposição do setor do agronegócio e de vários países
africanos, asiáticos e sul-americanos, preocupados com os custos adicionais que
ela acarretará para agricultores, pecuaristas e operadores florestais.
Em
função da pressão, a União Europeia adiou em um ano a entrada em vigor da lei –
do final de 2024 para o final de 2025 – devido a pedidos do Brasil, dos Estados
Unidos e da Alemanha, entre outros.
Fonte:
DW Brasil

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