90
anos dos levantes antifascistas de 1935
Tornou-se
um truísmo dizer que os levantes armados de novembro de 1935 resultaram de
ordens expedidas de Moscou, ou seja, de decisões tomadas pela Internacional
Comunista (IC). Após a dissolução da União Soviética, com a abertura dos
arquivos de Moscou, surgiram novas possibilidades de esclarecimento do que
efetivamente foi discutido e aprovado lá com relação aos acontecimentos de 1935
no Brasil. Dispomos hoje de cópias digitalizadas de documentos da IC
relacionados às atividades dos comunistas no país, dentre os quais as Atas
taquigráficas da 3ª Conferência dos Partidos Comunistas da América do Sul
e do Caribe, realizada em Moscou, entre os dias 16 e 28 de outubro de 1934. Os delegados latino-americanos nessa
conferência viajaram a Moscou, com o objetivo de participar do VII Congresso da
IC, que acabou sendo transferido para o ano seguinte. Diante disso, decidiu-se
aproveitar sua presença em Moscou para a realização da 3ª Conferência dos
Partidos Comunistas dessa região. A delegação brasileira fora escolhida
na I Conferência Nacional do PCB, realizada pouco antes no Brasil, composta por
Antônio Maciel Bonfim (codinome Miranda ou Queiroz), secretário-geral do PCB, e
mais quatro dirigentes do partido. Luiz Carlos Prestes (codinome Fernandez),
que vivia e trabalhava em Moscou, recém-aceito no PCB, embora não fizesse parte
da direção, participou dos chamados “encontros de Moscou”, assim como Octávio
Brandão, ex-dirigente do PCB exilado nessa cidade desde o início dos anos 1930.
Nas
Atas taquigráficas da Conferência, chamam atenção os informes de Queiroz
(Miranda) pelo seu caráter fantasioso e triunfalista: afirmações de que havia
uma “profunda crise revolucionária no Brasil”, exagerando o diapasão das lutas
camponesas “pelo país todo”, assim como das lutas do proletariado. Dizia que
existia uma crise “terrível” no país e que os cangaceiros “conclamam à luta,
unificam todos os miseráveis, que lutam por pão, pela vida”. Os cangaceiros
possuíam uma base de massas que já estaria disposta a seguir Luiz Carlos
Prestes — por isso, os comunistas deveriam utilizar o prestígio dessa liderança
—, acrescentando que “os camponeses querem lutar de armas nas mãos” e que a
autoridade do PC no campo era indiscutível. Os demais membros da
delegação brasileira também valorizavam o papel do cangaço, sendo que Prestes
dizia nessa Conferência que “só o PC seria capaz de dirigir os cangaceiros”.
O
secretário-geral do PCB exagerava as proporções dos movimentos grevistas
urbanos e a influência dos comunistas, dizendo que “a autoridade do PC é
colossal”, “nós dirigimos todas as greves” e “no Rio de Janeiro, a maioria das
greves é dirigida pelo partido”. Afirmava ainda que o PCB estava organizado
praticamente em todas as empresas e que todos os membros do partido e da
direção atuavam de forma permanente nas organizações de base — embora
reconhecesse que o baixo nível ideológico fosse a principal debilidade dos
comunistas brasileiros. Sentenciava que se marchava “agora” para a “unificação
de todo o país em torno do PC”. No que se refere às Forças Armadas,
Queiroz (Miranda) dizia que o Exército estava “em decomposição de cima abaixo”,
que era uma corporação com grandes tradições de luta, na qual o partido possuía
bases na maioria dos corpos, sendo que as tropas simpatizavam com os sovietes.
Inúmeras outras invencionices foram apresentadas na ocasião pelo
secretário-geral do PCB.
A
situação de Prestes era especial: encontrava-se no exílio desde fevereiro de
1927, quando à frente da Coluna Prestes emigrara para a Bolívia. Durante a
Marcha, percorrera o interior do país, ficando distante da vida política
nacional que, dada a precariedade dos meios de comunicação da época,
transcorria fundamentalmente nas grandes cidades. Recém-aceito no PCB, Prestes
não estava em condições de questionar a maior parte das informações fantasiosas
apresentadas pelos dirigentes do partido na 3ª Conferência. Desde 1929 tanto os
dirigentes do PCB quanto os da IC haviam definido a situação no Brasil
como revolucionária, acreditando que estavam criadas as condições
para a realização, nesse país, da primeira etapa da revolução socialista,
denominada de “democrático-burguesa”, ou, em outras palavras, da “revolução
agrária e anti-imperialista”. Partindo da definição de uma situação
revolucionária no Brasil e da suposição de que seria possível promover
uma insurreição das massas trabalhadoras, o PCB e a IC apelavam abertamente à
luta armada e à criação de um “governo operário e camponês baseado nos
Sovietes, isto é, nos Conselhos de Operários e Camponeses, Soldados e
Marinheiros”. Tinha-se em vista a primeira etapa da revolução. Não se
tratava de implantar de imediato o socialismo ou o comunismo no Brasil, como a
“direita” sempre propalou.
Durante
a conferência e nos encontros dos delegados brasileiros com Dimitri Manuilski e
outros dirigentes da IC, a questão da virada tática do sectarismo da política
adotada a partir do seu VI Congresso, realizado em 1928, para a tentativa de
formar “frentes populares”, foi um dos pontos importantes
discutidos. Nessa ocasião revelaram-se as sérias contradições
existentes ente os dirigentes da IC; em particular, as divergências a respeito
da política de alianças a ser adotada pelos partidos comunistas diante do
avanço do fascismo em escala mundial. A partir da vitória alcançada, no final
de 1933, com a libertação de Jorge Dimitrov da prisão na Alemanha nazista, após
o rumoroso Processo de Leipzig, a tática do VI Congresso passaria a ser
questionada não só pelo próprio Dimitrov, cujo prestígio se tornara enorme junto
aos comunistas e à opinião pública democrática mundial, como também por setores
importantes da IC. Os trabalhos da 3ª Conferência se realizaram nesse ambiente.
Tratava-se, então, de os comunistas investirem na formação de amplas “frentes
populares” destinadas a somar forças sociais heterogêneas contra a ameaça
fascista, como se alcançou no Brasil, com a criação da ANL (Aliança Nacional
Libertadora) em 1935, na França, em 1936, e no Chile, em 1938.
No
início dos anos 1950, o peruano Eudócio Ravines, um ex-comunista arrependido —
quadro destacado da Internacional Comunista no passado —, que se tornou um
renegado do movimento e colaborador da direita nos EUA, lançou um livro de
memórias em que afirmava, sem comprovação alguma, que “enquanto Dimitrov
planejava sua tática de ‘Frente Popular em todo o mundo’, como meio de fazer
frente ao fascismo, Manuilsky propugnava a aplicação de táticas insurrecionais,
ali onde era factível pegar em armas”. A seguir, divulgava a falsa versão de
que na 3ª Conferência dos partidos comunistas latino-americanos teria se
decidido que, no Chile, se faria uma experiência de frente ampla, enquanto no
Brasil se desencadearia a luta armada. Ravines escreveu, em La gran
estafa, que os “russos” ordenaram os levantes de novembro no Brasil. Essa falsa versão, lançada por Eudocio
Ravines, tornou-se conveniente para a propaganda anticomunista e no Brasil foi
adotada, consciente ou inconscientemente, por inúmeros intelectuais, muitos dos
quais acreditando sinceramente na sua veracidade.
Nos
documentos da 3ª Conferência, que foram preservados nos arquivos da IC, não
constam supostas diretivas do Komintern para o desencadeamento de uma
insurreição armada no Brasil. Tratava-se de dar continuidade à orientação
política anteriormente aprovada pela direção do PCB e que já vinha sendo posta
em prática no país: levar adiante a luta de massas, fazer a luta contra o
fascismo, intensificar o trabalho nas Forças Armadas, melhorar o movimento
sindical. Atendendo à solicitação feita por Queiroz, a IC enviaria um
grupo reduzido, de cerca de dez pessoas, para assessorar a direção do PCB na
formação de quadros e ajudar na montagem de alguns elementos logísticos — uma
equipe excessivamente reduzida, se houvesse a intenção da IC de desencadear e
dirigir uma insurreição no país. Na 3ª Conferência não houve nenhuma
decisão sobre a volta de Prestes ao Brasil. Seu regresso foi por vontade
própria, com a concordância dos dirigentes do PCB presentes em Moscou na
ocasião, na qualidade de “livre atirador, como membro do partido”, segundo suas
palavras, sem que lhe fosse dada alguma tarefa especial.
·
O avanço do fascismo e do integralismo, a fundação da
Aliança Nacional Libertadora (ANL) (março de 1935) e os levantes antifascistas
de novembro de 1935
Com o
avanço dos movimentos fascistas em escala mundial e do integralismo no Brasil
(a criação em 1932 da Ação Integralista Brasileira (AIB), liderada por Plínio
Salgado), assim como da ofensiva reacionária do Governo Vargas, que iniciara
entendimentos para o envio ao Congresso Nacional do projeto de Lei de Segurança
Nacional, apelidado de “Lei Monstro”, acelerou-se o processo de aglutinação de
amplas forças populares e democráticas que levou à fundação da Aliança Nacional
Libertadora (ANL), em março de 1935, ocasião em que L. C. Prestes foi aclamado
seu presidente de honra. Embora não se
saiba exatamente de quem foi a iniciativa de fundação da ANL, é inegável a
influência das teses defendidas pelo PCB. Mas, na fase inicial de sua
existência, a ANL não definia qual seria o governo que deveria executar as
propostas consubstanciadas no lema “Pão, Terra e Liberdade”. Entre os
dirigentes da entidade existia a tendência legalista de considerar possível
levar adiante as mudanças almejadas “dentro da ordem e da lei”, posição
criticada desde o início pelos comunistas.
Mantendo-se
fiel à orientação política aprovada em sua I Conferência Nacional, de julho de
1934, o PCB continuava a crer na existência, no Brasil, de uma suposta
“situação revolucionária” e convocava os trabalhadores a “pegar em armas desde
já”, a multiplicar as guerrilhas no campo” e a lutar pela instalação de um
“governo operário e camponês, na base de conselhos de operários, camponeses,
soldados e marinheiros (sovietes)”. Embora a ANL tivesse adotado o programa
anti-imperialista, antilatifundiário e democrático proposto pelo PCB e
amplamente aceito pela opinião pública, devido à influência decisiva de Prestes
naquele momento, os caminhos para atingir esses objetivos eram vistos de
maneiras distintas e contraditórias. Fator que provocaria reservas em relação à
ANL de parte da direção do PCB. Na realidade, havia uma contradição entre a
linha política do PCB, voltada para a instalação imediata dos sovietes, e a
nova orientação, acertada nos “encontros de Moscou”, de outubro de 1934, e
trazida pelos dirigentes do partido em seu regresso ao Brasil, a qual pregava a
criação de “frentes populares”.
Em
abril de 1935, após chegar ao Brasil, Prestes, redigiu sua carta de adesão à
ANL, dirigida ao presidente da entidade, Hercolino Cascardo. Por motivos de
segurança, sua presença não foi revelada, e a carta foi datada de Barcelona e
tornada pública em 13 de maio, em grande ato público convocado pela ANL. Nesse
documento, Prestes, por sugestão da IC, com a qual concordara inteiramente,
adotava a palavra de ordem de “Governo Popular Nacional Revolucionário” (GPNR),
substituindo a de “Governo Soviético” até então empregada pelo PCB. Dessa
forma, levantava-se, pela primeira vez, a questão do poder, que
deveria realizar o programa aliancista e a frente proposta seria muito mais
ampla e mais adequada à nova orientação de criar “frentes populares”. A partir
de então, a consigna de GPNR foi adotada oficialmente pela ANL e ganhou as
ruas. Somente em maio de 1935, a direção do PCB aprovou a nova orientação
proposta pela IC e consagrada em seu VII Congresso, realizado em agosto de
1935.
A
influência crescente de Prestes sobre a ANL fica evidenciada no documento
lançado pela entidade, intitulado “O Governo Popular Nacional Revolucionário e
seu programa”, em que se afirmava que o GPNR não era o “governo soviético” nem
“a ditadura democrática de operários, camponeses, soldados e marinheiros”, numa
linguagem típica dos comunistas. Dizia-se ainda nesse documento que a ANL
proclamava “a necessidade de um governo surgido realmente do povo em
armas”, esclarecendo a seguir que “o GPNR não significará a liquidação da
propriedade privada sobre os meios de produção nem tomará sob seu controle as
fábricas e empresas nacionais”.
Surgia
assim nos documentos da ANL a proposta da luta armada como
meio de chegar ao GPNR, coincidente com a concepção insurrecional adotada pelo
PCB e pela IC. Nem todos os dirigentes da ANL estariam de acordo com essa
proposta. Hercolino Cascardo, presidente da ANL, comandante da Marinha e
“tenente histórico”, manter-se-ia fiel às concepções legalistas, externadas por
ele desde a criação da entidade, desmentindo a tese de que a radicalização das
posições da ANL e do PCB seria decorrência das influências tenentistas,
supostamente levadas por Prestes e os antigos “tenentes” para o
movimento. Durante os meses de maio e junho de 1935, o movimento
antifascista no Brasil, sob a direção da ANL, deu passos consideráveis. O
ambiente político tornava-se mais tenso, e era evidente que o governo se sentia
ameaçado pelo avanço do movimento antifascista e os êxitos alcançados pela ANL
e demais entidades democráticas e populares. Enquanto aumentavam a influência e
o prestígio da ANL junto aos mais diversos segmentos da opinião pública
brasileira, desde o início de abril, a IC insistia com seu Bureau
Sul-Americano e a direção do PCB para que fosse adotada a consigna de “todo o
poder à ANL”, argumentando que o GPNR deveria ser um poder constituído
pela própria ANL, o que, naquele momento, antes da reunião do Comitê Central do
PCB de maio de 1935, significava a adoção pelos comunistas de uma concepção
mais ampla da frente destinada a conquistar o poder.
A
consigna de “todo o poder à ANL” foi lançada a 5 de julho, em manifesto
assinado por L. C. Prestes. Se o Manifesto revelava a influência da IC na
política adotada pelo PCB e pela ANL, ao mesmo tempo, expressava a
radicalização que vinha se dando no país. Entretanto, os dirigentes da ANL, das
demais entidades progressistas e democráticas e do PCB não se davam conta
do nível incipiente de organização do movimento aliancista e
popular e, desta forma, não percebiam que tal movimento seria incapaz de
enfrentar com eficácia o golpe a ser desfechado pelas forças de direita, cuja
preparação se tornara evidente. A avaliação da situação política feita no Manifesto
de 5 de julho não correspondia à real correlação de forças existente,
naquele momento, no cenário nacional, mas parcela considerável e mais
radicalizada dos aliancistas não só concordava com tal avaliação, como
considerava que o apelo de Prestes deveria ser seguido.
A 11 de
julho, Vargas assinou o decreto fechando a ANL, acusada de ser um instrumento a
serviço do “comunismo internacional”. Embora o Manifesto de 5 de julho desse
pretexto para a adoção dessa medida, sua verdadeira causa residia no fato de a
ANL e as demais entidades democráticas ampliarem sua penetração junto à opinião
pública e atraírem número crescente de adeptos e simpatizantes. O movimento
aliancista adquiria caráter marcadamente unitário.
Dispondo
de uma estrutura clandestina que lhe conferia condições de assegurar a
atividade política de seus militantes nos diretórios aliancistas, o PCB assumiu
o controle da entidade que, a partir de seu fechamento também se tornara
clandestina. Reafirmando a existência de uma “situação revolucionária”, o PCB
e, sob sua influência, a ANL voltaram-se para o desencadeamento de lutas
armadas parciais, que deveriam permitir às massas populares chegarem a uma
insurreição nacional. Tal insurreição derrubaria o governo Vargas,
estabelecendo o GPNR com Prestes à frente, ou seja, o poder da ANL, que
realizaria seus objetivos programáticos. É nesse contexto que teve lugar a
atuação de L. C. Prestes, cujo regresso ao Brasil ocorrera em abril de 1935,
após um exílio de quase dez anos. Enfrentando o risco de ser preso, ele foi
obrigado a viver na clandestinidade, afastado tanto de uma efetiva militância
no PCB, de cuja direção não fazia parte, quanto do contato direto com
aliancistas e demais correligionários e amigos. Embora mantivesse
correspondência com diversos correligionários, em particular com antigos
participantes da Coluna Prestes, na prática, estava isolado e acompanhava a
situação, do movimento popular e do próprio PCB, por meio de Miranda — seu
secretário-geral, que prosseguia lhe transmitindo informações exageradas e
fantasiosas — e do Bureau Sul-Americano da IC, cujo conhecimento da real
situação do país era precário. Presidente de honra da ANL e líder máximo da
projetada insurreição nacional, Prestes foi compelido a assumir a direção de um
movimento cujo controle não lhe pertencia.
Após o
fechamento da ANL, houve a intensificação da repressão policial contra
comunistas e aliancistas, assim como das provocações dos integralistas,
contando com o beneplácito das autoridades. Davam-se também o acirramento do
clima de insatisfação generalizada no Exército (devido à redução dos efetivos
militares) e a crescente agitação nos meios operários. Nessas condições, os
comunistas insistiam na necessidade de preparar e organizar as massas para a
insurreição — uma vez que se acreditava na existência de uma “situação
revolucionária” no país, num evidente erro de avaliação política.
As
insurreições de novembro em Natal e Recife tiveram caráter precipitado,
inesperado para a direção do PCB e do Bureau Sul-Americano da IC. No Rio de
Janeiro, Prestes considerou que era necessário prestar solidariedade aos
companheiros do Nordeste, defendendo a necessidade de desencadear o levante
antifascista e democrático de 27 de novembro de 1935. A decisão foi tomada em
reunião do Bureau Sul-Americano da IC, sediado na capital da República, do qual
Prestes fazia parte, com a presença de Miranda, o secretário-geral do PCB. Não
houve “ordens de Moscou”: à consulta feita às vésperas do levante pelos
comunistas brasileiros, a IC respondeu que decidissem de acordo com as
condições locais, segundo avaliação feita por eles próprios da situação
nacional.
Se as
diretivas da IC repercutiram de alguma forma nos acontecimentos de 1935 no
Brasil, tal influência visou principalmente a ampliar o
caráter da frente popular que estava se formando no país, contribuindo para que
o PCB substituísse a consigna de “poder dos sovietes” por outra, de maior
amplitude, como o GPNR, e lutasse por um poder de todas as forças aglutinadas
na ANL. Se a orientação da IC foi inadequada às condições brasileiras, a
responsabilidade por tal situação coube fundamentalmente aos dirigentes do
próprio PCB.
Entre
as numerosas falsificações e calúnias lançadas pelas forças de direita contra
os comunistas e os aliancistas e, em particular, contra Prestes, podemos
incluir a atribuição da denominação de caráter pejorativo de “Intentona” aos
levantes antifascistas de novembro de 1935 e a acusação difamatória de que os
comunistas teriam assassinado militares que estariam dormindo durante o levante
no 3º RI no Rio de Janeiro — algo impossível, pois as tropas estavam
mobilizadas, de prontidão.
Da
mesma forma, continuar atribuindo a Vitor Allen Barron — comunista
norte-americano enviado ao Brasil pela IC para estabelecer a ligação
radiofônica dessa entidade com o seu Bureau Sul-Americano, e assassinado pela
polícia de Filinto Müller — a responsabilidade pela prisão de Prestes e Olga,
uma farsa anunciada pelo então chefe da polícia, para encobrir Rodolpho
Ghioldi, o verdadeiro responsável.
Também
pode ser lembrada a falsificação histórica de atribuir a extradição de Olga
Benario para a Alemanha nazista, em setembro de 1936, exclusivamente à decisão
do STF (Supremo Tribunal Federal), na tentativa de eximir Getúlio Vargas da
responsabilidade por esse crime, que na prática condenou a prisioneira à
morte.
Outra
falsificação muito repetida: os levantes do novembro de 1935 como suposta causa
do golpe do Estado Novo (novembro de 1937), desconsiderando o projeto de
concentração do poder (a “Doutrina Góes”) adotado pela cúpula militar a partir
de 1930 e vitorioso em 1937, com o golpe militar, que contou com o apoio e a
participação de Vargas.
<><>
À guisa de conclusão
Os
acontecimentos relacionados com a história da Aliança Nacional Libertadora e
dos levantes antifascistas de novembro de 1935 constituem um dos temas
preferidos dos ataques anticomunistas das classes dominantes no Brasil e dos
intelectuais comprometidos, consciente ou inconscientemente, com seus
interesses exclusivistas. Luiz Carlos Prestes — reconhecidamente a liderança
máxima dos setores populares naquele período — tornou-se o personagem central
das investidas anticomunistas, empregadas seja em falsificações grosseiras da
sua atuação e calúnias deliberadas, seja em invencionices sem comprovação ou em
atitudes marcadas por incompreensões de parte de alguns de seus
correligionários. O silenciamento a que Prestes seguidamente também foi
submetido, tanto nos meios de comunicação quanto na própria historiografia,
constitui uma das táticas usadas no combate ideológico travado contra os
comunistas e as esquerdas no Brasil.
Ao
registrar a inegável presença da ideologia anticomunista nos escritos
referentes aos acontecimentos de 1935 no Brasil, não estou desconsiderando os
graves erros então cometidos pelos comunistas e muitos dos seus
correligionários, inclusive por Luiz Carlos Prestes. Os equívocos revelados nas
políticas implementadas pelos setores de esquerda certamente contribuíram para
que as forças de direita deles tirassem proveito em favor de seus objetivos
espúrios.
Em
autocrítica apresentada no Informe do CC do PCB ao seu IV Congresso, realizado
em 1954, Luiz Carlos Prestes afirmava: “[…] A influência do radicalismo
pequeno-burguês na direção do Partido, sob a forma específica do chamado
golpismo “tenentista”, levou-nos a cometer o grave erro de precipitar a
insurreição quando eram ainda débeis nossas forças na classe operária e, por
falta de apoio na massa camponesa, quase inexistente a aliança
operário-camponesa. Para o triunfo da insurreição popular é indispensável
ganhar o apoio de soldados e marinheiros, mas reduzir a insurreição a uma luta
quase que só de quartéis é grave erro que teria de levar, como de fato levou, à
derrota do movimento de novembro de 1935.” Anos mais tarde, em junho de 1972,
convidado para participar de seminário dedicado à memória do revolucionário
búlgaro Jorge Dimitrov, em seu 90° aniversário natalício, Luiz Carlos Prestes
novamente referiu-se aos erros cometidos pelos comunistas brasileiros em 1935,
assinalando que, “em vez de reforçar a frente popular, anti-imperialista e
antifascista, de prosseguir acumulando forças, mediante a luta de massas, em
defesa das liberdades democráticas e contra o fascismo, nos lançamos
prematuramente à luta pelo poder”.
Os
acontecimentos de 1935 no Brasil constituem um episódio da História recente do
país revelador do papel relevante assumido pelo embate ideológico como
uma das formas mais importantes da luta de classes na atualidade. O 90º
aniversário desses acontecimentos adquire grande importância como oportunidade
privilegiada para travar o combate ideológico à História Oficial e resgatar uma
História “comprometida com as evidências”, nas palavras do grande historiador
marxista Eric Hobasbawm.
Fonte:
Por Anita Leocádio Prestes, no Blog da Boitempo

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