segunda-feira, 6 de maio de 2024

Luís Nassif: Haddad dá pistas sobre seu modelo fiscal

Em sua conta no X, o Ministro da Fazenda Fernando Haddad recomendou a leitura do artigo “A mudança das metas e o desafio da sustentabilidade fiscal brasileira”, de Braulio Borges, publicado no Observatório de Política Fiscal, da FGV IBRE (Instituto Brasileiro de Economia).

Bráulio inicia seu artigo colocando em dúvida a viabilidade das metas fiscais que constam do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO), de acordo com as normas aprovadas do Novo Arcabouço Fiscal.

Sua métrica é a estabilização da dívida em relação ao PIB. Não explica qual a taxa Selic utilizada nas suas simulações nem o desempenho do PIB. Mas sustenta que apenas em 2028 a meta fiscal se aproximaria do resultado primário necessário para estabilizar a dívida.

Bráulio defende que ajustes sejam compostos de parcelas relativamente iguais de redução de gastos e aumento de carga (em % do PIB).

•        Deterioração fiscal

Segundo seu trabalho grande parte da deterioração fiscal estrutural brasileiro, observada na década passada, veio de uma redução da carga bruta federal da ordem de 1,9 pontos percentuais entre 2008 e 2019, revertendo quase 40% de aumento do período 1999-2004.

Foram os seguintes motivos:

1. O Congresso, indo contra o Executivo, não prorrogou a vigência da CPMF até 2011. O tributo arrecadava cerca de 1,3% do PIB por ano desde 2.000.

2. Inicialmente esse buraco foi tapado pelo boom das commodities. Mas, a partir de 2009, as receitas administradas caíram de 15,1% do período 2005-2008 para 13,9% do PIB no período 2009-2011.

3. A exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS/Cofins, julgada em 2017. Mas que exigiu dispêndios compensatórios pesados.

O aumento da carga tributária é defendido, também, pelo desenho do novo Bolsa-Família, que passou de 0,9% do PIB até 2019 para 1,5% de 2023 em diante.

•        As sugestões perigosas

Segundo seus cálculos, pouco mais de 75% do aumento da despesa primária total da União entre 1986-88 e 2016 se deveu ao aumento do gasto com o Regime Geral da Previdência Social (RGPS). Bráulio descobriu que, na democracia, há mais cuidados com políticas sociais.

Excluindo esses gastos com o RGPS, a despesa da União em 2024 está em menos de 11% do PIB, contra 10% do período 1986-1988.

Excluindo o RGPS e o Bolsa Família, a despesa primária da União ficaria ema 9,5% do PIB, abaixo dos 10% de 1986-1988 e em nível semelhante a 2005-2007.

Não incluiu em suas contas – mas poderia ter incluído – os gastos com o Sistema Único da Saúde, com as universidades públicas, com o ensino médio. Ai suas contas rebrilhariam como um por-do-sol no Ártico.

Segundo ele, as despesas com pessoal (ativos e inativos) correspondem a 40% dos 9,5% de gastos da União, o menor nível de 1987. Está sob controle, o que – suponho eu – fortalece a proposta do quinquênio para o poder Judiciário, defendido pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco.

Depois de todos esses números, Bráulio assesta seu canhão no alvo central: o Regime Geral da Previdência Social, através das seguintes medidas:

1. Desvinculação do piso-previdenciário (e de outros benefícios assistenciais, como o BPC) do salário mínimo nacional. E corrigir apenas pela inflação.

2. O salário mínimo seria utilizado apenas para regular o mercado de trabalho.

3. Definir novos valores de idade mínima de aposentadoria e tempo mínimo de contribuição que não fossem fixos ao longo do tempo, acompanhando a evolução da expectativa de sobrevida da população brasileira.

4. Reduzir os subsídios (renúncias de receitas) associados ao MEI e ao Simples Nacional (que beneficiam apenas pequenas empresas).

5. Promover uma redução horizontal nas contribuições previdenciárias da folha de pagamentos. Segundo ele, ampliando a redução horizontal da folha, a queda da informalidade compensaria a queda de arrecadação.

6. Desatrelar das receitas os mínimos constitucionais de Saúde e Educação, passando a ter uma vinculação a pisos reais de gasto per capita.

7. Reduzir alguns subsídios explícitos para o setor agropecuário, como a equalização de juros do Plano Safra.

Com o artigo de Bráulio desfaz-se o mistério sobre o modelo fiscal pretendido pelo governo.

Insisto: se o governo Lula não apresentar o contraponto de um plano concreto de desenvolvimento, fundado no setor produtivo, na organização das pequenas e médias empresas e no apoio às grandes, o próximo 1º de maio será realizado em alguma academia de dança de salão.

<><><> O que a Neoindustrialização poderia aprender com o Plano de Metas

Uma leitura de trabalhos sobre o GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automobilística) e do Plano de Metas de Juscelino Kubitscheck poderia ajudar o projeto de Neoindustrialização do governo Lula. Me baseei no trabalho de Marcos Lopez Rego e José Ernesto Mattoso Faillace Junior.

No início dos anos 50, o Brasil não tinha número suficiente de gestores, nem de trabalhadores especializados, vivia uma crise cambial persistente. Logo após a guerra, foi montado o plano SALTE (sigla para Saúde, Alimentação, Transporte e Energia), que deveria ser uma parceria entre o Brasil e os Estados Unidos.

Não saiu do lugar. Logo em seguida explodiu a guerra da Coréia, que serviu de álibi para os EUA suspenderem qualquer ajuda econômica. Essas informações obtive em entrevistas com o ex-embaixador brasileiro em Washington, Walther Moreira Salles

Mas o plano deixou algumas heranças relevantes. Primeiro, a identificação dos projetos estratégicos para o país – especialmente nos setores de infraestrutura. Depois, a fundação do BNDE (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico), para ser a contrapartida dos recursos públicos nacionais, fugindo da complexidade das negociações com o Congresso.

Mais relevante foi o desenvolvimento da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina) e, em seguida, o Grupo Misto Cepal-BNDE, cujos estudos seviram de base para o Conselho de Desenvolvimento Industrial, criado em 1951 por Getúlio Vargas.

•        A técnica do planejamento

A Cepal foi a primeira a desenvolver técnicas de planejamento, com metodologia para um plano de desenvolvimento, o primeiro plano de metas sério montado na América Latina.

Na época, o máximo que se tinha no país, no campo automobilístico, eram pequenas linhas de produção de veículos CKD, sigla para Completely Knocked Down, era um veículo desmontado em suas partes e enviado para outro país para ser montado lá.

No fim do governo Vargas foi criada o CDI, que contava com uma subcomissão de jipes, caminhões, tratores e automóveis.

Presidida pelo almirante Lúcio Meira, o CDI montou um plano pensando nos setores de autopeças, revendas e fábricas, o  Comissão do Desenvolvimento Industrial (CDI), que contava com a Subcomissão de Jipes, Caminhões, Tratores e Automóveis.

O CDI precisou enfrentar três problemas:

1. Necessidade de mobilização de capital.

2. Enfrentar os interesses contrariados dos importadores de veículos.

3. Enfrentar os interesses dos exportadores estrangeiros.

Em 25 de junho de 1954, o decreto 35.729 criou a Comissão Executiva da Indústria de Material Automobilístico, embrião do GEIA (Grupo Executivo da Indústria Automotiva).

A morte de Vargas interrompeu o processo. Mas a eleição de JK o reabilitou. Foi quando os jovens treinados por Celso Furtado avançaram com sua proposta de construir uma base de infraestrutura. Aliás, o deslanche da economia brasileira se deveu à infraestrutura de energia e transportes.

Ao mesmo tempo, técnicos como Ignácio Rangel introduziam a técnica do projetamento – projetos visando um objetivo final.

•        Os estudos iniciais

Em 27 de abril de 1956 foi encaminhado ao Conselho de Desenvolvimento o pedido para a formação de um grupo de estudos sobre a indústria automobilística. Foi dado um prazo de 30 dias para o grupo apresentar um plano completo. A meta inicial era a produção de cem mil veículos automotores em 1960, com 95% de nacionalização. Em 1960 foram produzidos 133.0541 com 93% de nacionalização, em peso, e 87% em valor.

Os objetivos eram claros:

1.       a criar linhas de produção no país com nacionalização em peso de 90% a 95%;

2.       confiar ao setor privado a incumbência de produzir os veículos;

3.       permitir a constituição de empresas com capitais brasileiros, estrangeiros e mistos;

4.       reservar ao Estado a função de promotor e coordenador, na fase de implantação da indústria (1956 a 1960);

5.       dar ênfase à produção local de veículos de importância econômica (caminhões), em detrimento dos veículos de transporte individual (automóveis).

Calculou-se, também, o mercado potencial. Com base no custo médio de veículos nos Estados Unidos e o custo de manutenção, chegou-se a um mercado aproximado de US$ 400 milhões, suficiente para viabilizar a implantação da indústria.

Um dos estímulos públicos mais relevantes foi a questão cambial: foram oferecidas taxas cambiais favoráveis, e linhas de financiamento para importação de equipamentos – algo, aliás, que o Ministro da Fazenda Fernando Haddad, está preparando.

Os financiamentos do BNDE acabaram sendo pequenos perto do que foi investido. Mas ajudaram a definir regras de contrapartida por parte das montadoras:

(1) aprovação dos projetos por todos os membros do GEIA;

(2) apresentação de pelo menos um projeto industrial com produção do motor do veículo em instalações próprias;

(3) cumprir seus programas industriais conforme porcentuais fixados nos planos nacionais automobilísticos; e

(4) produzir, no todo ou em grande parte, peças específicas para automóveis.

# O método PERT

Com o tempo, a técnica dos projetos foi se sofisticando, a ponto de adotar o método PERT ((Program Evaluation and Review Technique). Também conhecido como Técnica de Avaliação e Revisão de Programas, é uma ferramenta de gerenciamento de projetos utilizada para estimar a duração total de um projeto e identificar as tarefas críticas que podem impactar o cronograma), desenvolvido pelo setor de defesa norte-americano.

1.       1 Decomposição do projeto em tarefas: O primeiro passo é dividir o projeto em tarefas menores e bem definidas, organizadas em uma sequência lógica.

2.       Estimativa de tempo para cada tarefa: Para cada tarefa, três estimativas de tempo são feitas:

o        ◦ Tempo otimista (to): O menor tempo possível para concluir a tarefa, considerando tudo perfeito.

o        ◦ Tempo pessimista (tp): O maior tempo possível para concluir a tarefa, considerando todos os imprevistos.

o        ◦ Tempo mais provável ™: O tempo mais provável para concluir a tarefa, considerando um cenário realista.

3.       Cálculo da duração média: A duração média de cada tarefa é calculada pela fórmula:

Duração média = (to + 4tm + tp) / 6

4.       Criação do Diagrama de Rede: As tarefas e suas durações médias são representadas em um diagrama de rede, onde as tarefas são representadas por caixas e as dependências entre elas por setas.

5.       Cálculo do Caminho Crítico: O caminho crítico é a sequência de tarefas com a maior duração total, determinando o tempo mínimo para concluir o projeto.

Como conclui o trabalho:

Os três elementos básicos que caracterizam um projeto estavam formalizados: havia um prazo, estabelecido pelo Plano de Metas, havia um escopo, posto que foram definidas as metas de produção, e havia um custo planejado, por meio de renúncias fiscais. O projeto possuía uma estrutura de coordenação, semelhante a um escritório do projeto, que era o próprio GEIA.

É interessante a análise dos stakeholders do projeto, elaborado pelo trabalho de Marcos Lopez Rego e José Ernesto Mattoso Faillace Junior.

O Ministro da Economia José Maria Alckmin era opositor maior devido à carência de divisas. E a mídia também, por ser apoiadora da UDN, o grande partido de oposição na época.

•        A neoindustrialização

Hoje em dia o país tem abundância da oferta de gestores, a própria administração pública consagrou diversas carreiras de gestores. Mas a relutância de Lula em montar grupos de trabalho para as tais “missões” da Neoindustrialização vai comprometer seu desenvolvimento.

Há um sem-número de novos setores que poderão surgir. E inúmeras ferramentas que o governo poderá dispor para atrair o capital financeiro nacional e grupos empresariais que hoje vivem de taxa Selic e de financeirização até de estacionamentos.

A transição energética tem uma cadeia produtiva enorme.

Todos esses setores necessitariam estar englobados em um plano de metas, com um grupo de trabalho discutindo cada área e definindo estratégias para atrair investidores nacionais, fornecedores estrangeiros.

Mas, aparentemente, o Brasil semi-agrário dos anos 50 tinha mais visão de futuro que o país pós-Bolsonaro dos anos 2020.

 

Fonte: Jornal GGN

 

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