segunda-feira, 6 de maio de 2024

João Filho: Para ser considerada democrática, a direita não pode ser bolsonarista

ENQUANTO PARTE DA IMPRENSA está à procura de bolsonaristas moderados, Eduardo Bolsonaro foi à Alemanha se encontrar com uma liderança de um partido neonazista, o Alternativa para a Alemanha, AfD na sigla em alemão, que é neta de um ministro de Hitler.

Quantos candidatos a ‘bolsonaristas moderados’ repreenderam o encontro do filho do ex-presidente com a deputada neonazista? Nenhum, claro, porque eles simplesmente não existem. É triste ter que falar uma obviedade dessas, mas vivemos tempos em que o óbvio precisa ser dito.

O bolsonarismo é antidemocrático, golpista e fascistoide por essência. Para fazer parte dessa gangue ideológica é necessário que se esteja de acordo com essas características fundamentais. Para fazer parte da extrema direita bolsonarista deve-se necessariamente abraçar o combo completo.

Nunca se viu um bolsonarista se colocar contra as ameaças golpistas do mito, até porque ele nem existiria se não fosse o golpismo. Bolsonaro é filho do golpe de 64 e ganhou fama atacando a democracia e defendendo o regime militar.

Como alguém que cultua sua figura e se alinha politicamente a ele poderia apresentar algum traço democrático? É ingênuo, para não dizer ridículo, que alguém nutra essa esperança.

Pelo o que se vê na imprensa, Tarcísio é o principal candidato ao cargo fictício de bolsonarista moderado. Ele seria um homem de perfil técnico, pragmático e não ideológico. Sim, essa figura obscura que integrou um governo que passou os quatro anos ameaçando de forma permanente a democracia.

Jamais se viu uma fala contrária de Tarcísio às movimentações golpistas do presidente. Tarcísio assistiu, caladinho, aos ataques contra as urnas eletrônicas, ao negacionismo assassino durante a pandemia, às Forças Armadas protegendo golpistas nos quartéis e a uma infinidade de atrocidades cometidas contra a democracia.

Apesar de não ter atuado na linha de frente do golpismo, este bolsonarista moderado sempre esteve junto e dando apoio moral para todos os absurdos. Depois de eleito governador do estado mais rico do país, continuou sendo um dos bolsonaristas mais fiéis a Bolsonaro e faz questão de deixar isso claro a todo momento.

Na última manifestação convocada por Bolsonaro em São Paulo para intimidar o Supremo Tribunal Federal, o governador fez questão de discursar e animar os golpistas: ‘Eu tenho certeza que vocês estavam com saudades de vestir verde e amarelo. Quem estava com saudades aí?’.

Este bolsonarista moderado não é apenas um animador de festa da manada golpista, mas um governador que aplaude a carnificina criminosa liderada pela Polícia Militar nas periferias do estado. Eis o homem de perfil técnico e moderado. Para ser um bolsonarista é preciso cultuar a figura de Bolsonaro. E isso Tarcísio faz com louvor, já que é ele quem o sustenta eleitoralmente.

É verdade que o bolsonarismo hoje é uma das principais forças políticas e populares do país e está legitimada dentro da democracia brasileira, por mais que isso soe contraditório. Não se discute com as urnas.

Não há nada o que os democratas possam fazer além de esperar que o golpismo dos bolsonaristas legitimamente eleitos seja enquadrado pela lei. Os democratas temos de aceitar essa nova configuração da democracia brasileira. Mas não sejamos ingênuos: não há a menor possibilidade do bolsonarismo parir políticos moderados e democráticos.

A força eleitoral da chamada direita moderada foi quase que completamente herdada pelo bolsonarismo. Hoje, os principais políticos de direita que não foram cooptados pelo bolsonarismo fazem parte do governo Lula.

Goste-se ou não, o atual governo é fruto de uma frente ampla composta por gente de esquerda, centro-esquerda, direita e centro-direita. Essa coalizão foi formada para barrar a continuidade do bolsonarismo no poder. A direita democrática e antibolsonarista é composta por políticos como Geraldo Alckmin e Simone Tebet.

Se o que se busca são novos nomes que representem uma direita civilizada e democrática, é dentro desse grupo que deve-se procurar. Acreditar na possibilidade de um bolsonarismo light, zero açúcar ou glúten free revela uma incompreensão de conceitos políticos básicos ou, na melhor das hipóteses, uma ingenuidade que beira o ridículo depois de tudo o que passamos nos últimos anos.

Mas deixemos um pouco o delírio do bolsonarismo moderado e voltemos à realidade: o intercâmbio entre bolsonaristas e os neonazistas da Alemanha. Sim, a AfD, liderada pela amiga da família Bolsonaro, é um partido neonazista.

Não se trata de opinião, mas de mera constatação dos fatos. O partido não se classifica como neonazista porque isso é crime na Alemanha, mas eles são os legítimos herdeiros do regime de Hitler. Apesar de estarem escamoteados, não há qualquer dúvida sobre isso entre os alemães.

A AfD está sendo investigada por associação ao nazismo depois que uma reportagem revelou uma reunião secreta entre suas lideranças e grupos neonazistas na Alemanha. No encontro, o líder neonazista Martin Sellner apresentou um plano de deportação de milhões de refugiados políticos, cidadãos estrangeiros com visto de residência e cidadãos alemães descendentes de imigrantes.

Entenderam o tamanho do buraco? Os aliados políticos do bolsonarismo planejaram expulsar do país cidadãos alemães que não são arianos. O plano era enviar essas pessoas para a África, remontando à ideia do regime nazista de enviar judeus para Madagascar. É com esse tipo de gente que o bosonarismo mantém relações políticas.

Assim como o bolsonarismo, a AfD cresceu vertiginosamente nos últimos anos e se consolidou como força política da Alemanha. Hoje, o partido conta com 13% dos assentos no parlamento e lidera as pesquisas de intenção de voto para as eleições estaduais deste ano.

Mas, diferente do Brasil, lá não se discute a necessidade de se encontrar ‘neonazistas moderados’. Não, o que tem se debatido por lá é a extinção do partido para a preservação da democracia.

 

Ø  Deputadas de direita querem impedir fiscalização da Lei da Igualdade Salarial. Por Rosely Rocha

 

A deputada federal Adriana Ventura (Novo-SP), apresentou um Projeto de Decreto Legislativo (PDL), que susta a aplicação da regulamentação da Lei da Igualdade Salarial ( nº 14.611/2023),  entre homens e mulheres, proposta pelo governo Lula (PT).

Parte superior do formulário

Parte inferior do formulário

Adriana Ventura quer impedir que as empresas apresentem os relatórios de transparência, considerados fundamentais para que elas possam ser fiscalizadas e cumpram a lei. A proposta é subscrita pelas deputadas de oposição e de partidos alinhados à direita: Bia Kicis (PL-DF), Rosangela Moro (União Brasil-SP) e Any Ortiz (Cidadania-RS). 

A secretária da Mulher Trabalhadora da CUT Nacional, Amanda Corcino, critica a proposta das deputadas que, segundo ela, estão agindo em defesa de setores conservadores patronais, já que para que a lei seja cumprida de fato, é preciso receber esses dados, analisá-los para saber quais as empresas que estão cumprindo e as que e não estão cumprindo a Lei da Igualdade Salarial.

“Com esse projeto de decreto legislativo essas deputadas de oposição estão servindo de instrumentos do patriarcado, contra os interesses das mulheres, porque essa lei é um marco no combate à desigualdade”, diz

A desigualdade salarial gera outras diversas desigualdades, inclusive, aumenta a dificuldade dessas mulheres de darem uma alimentação adequada aos seus filhos- Amanda Corcino

A dirigente cutista espera que o projeto que impede o relatório de transparência não seja aprovado, mas é preciso que as entidades sindicais fiquem atentas e façam um enfrentamento, divulgando essa proposta absurda das deputadas porque o país tem um Congresso Nacional conservador, formado em sua maioria por empresários e ruralistas.

“Eu acho que é um pouco difícil para eles assumirem publicamente essa posição em um ano eleitoral, mas a gente está fazendo o nosso trabalho, mobilizando sindicatos, as federações e as confederações, no sentido de denunciar que têm deputadas querendo esse retrocesso. Então, nós temos que divulgar isso ao máximo, para que elas entendam o mal que estão fazendo para todas as mulheres trabalhadoras desse país. Queremos salário igual para trabalho igual”, afirma Amanda.

·        Tentativas de impedir a aplicação da lei

Esta não é a primeira vez que tentam impedir a fiscalização e cumprimento da lei de igualdade salarial. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), entraram em conjunto com uma Ação Direita de Inconstitucionalidade (ADI), no Supremo Tribunal Federal (STF), para impedir seja cumprida.

Segundo o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, 208 empresas se recusaram a fornecer o relatório, mas que apesar de terem conseguido que a justiça suspendesse a entrega, o ministério vai fiscalizar, sim.

“É inaceitável que a gente tenha o preconceito, assédio e abuso do mercado de trabalho. Portanto, está em nossas mãos, nas mãos dos sindicatos, na mão das centrais, na mão da classe trabalhadora, esse processo de conquista. Nós estamos inteiramente à disposição de vocês”, disse Marinho durante o ato de comemoração do 1º de Maio.

Por outro lado, segundo o ministro, cerca de 10 mil empresas que não precisariam entregar o relatório porque não têm em seu quadro funcional mais do que 100 trabalhadores, ainda assim, deliberadamente, o fizeram.

Para a secretária da Mulher Trabalhadora é uma boa surpresa o número de empresas que enviaram o relatório sem terem obrigação para isso. A lei determina que apenas empresas com mais de 100 funcionários precisam entregar o relatório da transparência.

“Eu acho que surpreende essa mudança que a gente está tendo em relação à mulher na sociedade, de não aceitar diferenças, de não aceitar nenhum tipo de violência, mas eu acho que essas empresas estão querendo demonstrar, que estão buscando participar dessa mudança, dessa valorização das mulheres. Isso é muito positivo”, comemora Amanda.

·        Emprego e renda das mulheres

O último dado da Pesquisa Nacional de Amostragem por Domicílio (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referente ao quarto trimestre de 2023, mostra que a taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho está em torno de 52,7%. Ou seja, para cada 100 pessoas em idade ativa, acima de 14 anos, tem 52,7 mulheres no mercado de trabalho, enquanto que entre os homens o percentual é de 72,3%. A diferença é de quase 20%.

A taxa de desemprego para as mulheres está em torno de 9,2%, enquanto que para os homens a taxa é 6.0%, a diferença é de praticamente um terço a mais de desemprego entre as mulheres na comparação com os homens. No caso das mulheres negras é ainda maior, de 11,1%. O rendimento médio mensal das mulheres (R$ 2.562) no 4º trimestre de 2023 foi 22,3% menor do que o recebido pelos homens (R$ 3.323).

 

Fonte: The Intercept/Jornal GGN

 

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