segunda-feira, 6 de maio de 2024

Incluir Zelensky na lista de procurados é oportuno, sua legitimidade está no fim, diz analista

Ex-deputado ucraniano e líder do movimento "A outra Ucrânia", Spiridon Kilinkarov diz que mandato de Zelensky encerra em 21 de maio, e que perda do cargo fará com que se torne uma pessoa de legitimidade duvidosa.

O anúncio de que Vladimir Zelensky foi incluído neste sábado (4) na lista de procurados do Ministério da Defesa da Rússia é muito oportuno, uma vez que em 21 de maio encerram seus poderes como chefe de Estado, assim como a legitimidade conferida pelo cargo. É o que declarou Spiridon Kilinkarov, ex-deputado ucraniano e integrante do movimento internacional "A outra Ucrânia", à Sputnik.

"Com relação a Zelensky, antes, isso [inclusão na lista de procurados] não fazia sentido, e agora, quando, depois de 21 de maio, ele se torna uma pessoa de legitimidade duvidosa, isso é muito correto", disse Kilinkarov.

Segundo o ex-deputado ucraniano, o Ocidente também está perdendo o interesse em Vladimir Zelensky.

"Uma coisa é que o atual presidente é legítimo, com mandato. Para o Ocidente, ele também é até certo ponto interessante. Mas uma pessoa que já prestou serviços de natureza específica relacionados com crimes em massa, na verdade, o Ocidente não estará particularmente interessado nele. Só que Zelensky tem uma certa ilusão de que as garantias do Reino Unido ou dos Estados Unidos valem alguma coisa. Elas valem a pena quando se pode prestar-lhes algum serviço no futuro", observou o ex-deputado.

Ele lembrou que muitas vezes na história os Estados Unidos se recusaram a apoiar os líderes de certos países que não eram mais necessários para eles.

"Um dia ele pode bater à porta da Embaixada dos EUA ou do Reino Unido [em busca de abrigo] e ouvir 'Desculpe, proteger a sua família é contrário aos nossos interesses nacionais'", Kilinkarov alertou.

O ex-parlamentar destacou que tudo o que diz respeito aos crimes cometidos na Ucrânia e aos responsáveis pelos mesmos "deve ser registado, deve estar no papel".

"Chegará a hora e todos esses documentos servirão. Acho que essa é uma abordagem muito correta e precisamos lidar com isso de forma muito substantiva", disse Kilinkarov.

¨      Corrupção acelerou a retirada da Ucrânia mais do que a escassez de armas

O rápido desmoronamento das defesas ucranianas, que levou à retirada militar, levanta questões sobre o fracasso de Kiev em manter a linha da frente.

As tropas russas continuam avançando ao longo de toda a linha de frente de 1.000 quilômetros de extensão e expulsando os militares ucranianos da República Popular de Donetsk (RPD) após a libertação de Avdeevka. Depois de assumir o controle de Chasov Yar e Ocheretino, as Forças Armadas russas vão ter acesso ao aglomerado urbano de Slavyansk-Kramatorsk e destruir a linha de defesa de Kiev a oeste de Avdeevka.

O presidente ucraniano, Vladimir Zelensky, tem criticado consistentemente o Ocidente por hesitar em fornecer sistemas de defesa antiaérea, armas e munições, citando isso como a principal razão para os fracassos dos seus militares. No entanto, foi revelado que a escassez de munições não tem sido o principal problema do Exército ucraniano.

Kiev alocou anteriormente quase 38 bilhões de grívnias (US$ 960 milhões ou R$ 4,8 bilhões) para construir uma rede de fortificações em várias camadas; no entanto, as tropas ucranianas testemunham que as linhas de defesa quase não existem, conforme citado pela Associated Press. Os militares ucranianos afirmam que estas obras deveriam ter sido concluídas no ano passado durante uma pausa operacional temporária, e não durante uma retirada.

"Podemos supor que há um ano, quando o orçamento foi planejado, os ucranianos não acreditavam que a contraofensiva iria falhar. Em geral, a estratégia era atacar e estabelecer posições defensivas em territórios recém-adquiridos. Ou seja, as fortificações foram feitas para o ataque e não para a defesa", disse Vadim Kozyulin, chefe do Instituto de Estudos Internacionais Contemporâneos da Academia Diplomática do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, à Sputnik.

"Mas a situação mudou. Além disso, vemos que tudo aconteceu rapidamente e, muito provavelmente, de forma inesperada. Os ucranianos provavelmente perceberam ao que isso estava levando, mas não podiam admitir isso abertamente, porque temiam que pudesse ter impacto no financiamento. Eles tinham que manter algum tipo de otimismo entre os parceiros ocidentais, isso os decepcionou, pegando-os desprevenidos", explicou.

"A segunda questão é a corrupção. É um problema antigo da Ucrânia e não sabemos a sua extensão, visto que tudo é confidencial durante as hostilidades", continuou o especialista.

·        Onde está o dinheiro?

Os fundos atribuídos para fortalecer as defesas ucranianas foram roubados com a aprovação tácita dos funcionários do governo do país, presumiu Vadim Mingalev, especialista militar e analista político.

Ele também chamou a atenção para o fato de Andrei Yermak, produtor cinematográfico ucraniano nomeado por Zelensky como chefe de seu escritório, supervisionar o projeto. O presidente ucraniano também desempenhou um papel nesta farsa ao visitar locais que eram nada menos que "povoados de Potemkin", ou seja, uma fachada impressionante concebida para esconder uma verdade inconveniente, observou o especialista.

De acordo com Mingalev, a agitação em torno da parcela de US$ 61 bilhões (cerca de R$ 309,17 bilhões) surgiu do desejo do governo de Kiev de alocar uma parte destes fundos para os seus projetos de construção de fortificações atrasados.

"Como em qualquer negócio de construção, primeiro é preparada uma certa estimativa", disse o especialista militar, explicando como o dinheiro pode ter desaparecido. "A estimativa é então aumentada em uma vez e meia ou duas vezes. Depois, à medida que a construção avança, pode aumentar três vezes, e assim por diante. Consequentemente, uma certa quantidade de concreto, cimento e outros materiais de construção não são fornecidos para criar as linhas defensivas. O que está no papel muitas vezes difere significativamente do que é realmente entregue. Existe um esquema bastante sofisticado [para roubar fundos]."

As compras e licitações militares são atualmente confidenciais e não passam pela plataforma de compras públicas ProZorro da Ucrânia, permitindo que políticos corruptos e seus parceiros de negócios roubem discretamente, segundo Kozyulin. Além disso, acrescentou, os mesmos indivíduos que apreendem estes fundos são responsáveis pela supervisão das suas despesas.

Poderíamos perguntar por que é que as autoridades e os setores empresariais ucranianos estão dando um tiro no pé ao minar as capacidades defensivas do país.

"Os oligarcas ucranianos que apoiam Zelensky e trabalham com ele compreendem perfeitamente que o seu destino está selado e estão preparando as bases para a partida. Enquanto se preparam para escapar da Ucrânia, criam uma espécie de rede de segurança financeira para si próprios", explicou Mingalev.

·        Ecos do confronto Zelensky-Zaluzhny

Ainda existem contradições entre as autoridades civis ucranianas e o Exército, segundo interlocutores da Sputnik.

Kozyulin se pergunta o que aconteceu ao antigo comandante-chefe, general Valery Zaluzhny, que foi nomeado o novo enviado ucraniano ao Reino Unido em março, mas que permanece nas sombras desde então. O especialista não descarta que o general dissidente tenha sido preso. Em novembro passado, Zaluzhny defendeu abertamente que a Ucrânia passasse à defensiva, para desagrado de Zelensky e dos seus companheiros de partido.

"Penso que o problema da linha defensiva surgiu em parte dessas contradições. Ou seja, os políticos disseram que a Ucrânia iria avançar. Os militares responderam que não havia forças suficientes para uma ofensiva, a Ucrânia precisava de ficar na defensiva [...]. Mas para os políticos, isto significou relações prejudiciais com os doadores [ocidentais] que esperavam sucessos rápidos [no campo de batalha] em troca do seu dinheiro. Como resultado, as estruturas defensivas foram vítimas de escaramuças internas."

A situação parece sombria para o Ocidente, que recebeu garantias de Kiev sobre a construção de defesas e a capacidade das Forças Armadas ucranianas para resistir ao avanço russo, segundo interlocutores da Sputnik. Os especialistas sugeriram que "o regime de Zelensky enganou os seus apoiadores", levantando a possibilidade de políticos ocidentais também poderem estar implicados na corrupção sistêmica da Ucrânia.

•        Se Ocidente cortar fornecimento de armas, Kiev 'terá que se render', diz Borrell

O chefe das Relações Exteriores da União Europeia, Josep Borrell, reconheceu a dependência ucraniana dos suprimentos ocidentais e lamentou o que disse ser uma falta de unidade nos países ocidentais sobre o assunto.

O atraso de seis meses na ajuda dos EUA à Ucrânia pode causar a derrota de Kiev, disse na sexta-feira (3) o chefe das Relações Exteriores da UE.

"Nos EUA, a polarização política atrasou o pacote de ajuda militar por meio ano em meio à guerra. Meio ano é muito tempo, pode fazer a diferença entre ganhar ou perder a guerra", disse Josep Borrell durante uma palestra na Universidade de Oxford, Inglaterra, Reino Unido.

Se o Ocidente parasse de fornecer armas à Ucrânia, continuou Borrell, a derrota aconteceria "em algumas semanas".

"Se eu cortar o fornecimento de armas para a Ucrânia, a Ucrânia não conseguirá resistir, terá que se render", disse ele.

Borrell também lamentou que entre os países da UE não haja a unidade desejada na política em relação à Rússia, destacando que alguns membros do bloco consideram a Rússia um "bom amigo". Para o diplomata, devido à necessidade de unanimidade na tomada de decisões da UE, a política de Bruxelas em relação a Moscou está sempre sob a ameaça de veto, já que um voto contra é suficiente para bloquear qualquer decisão.

Josep Borrell também está convencido de que a Rússia "representa uma ameaça existencial à Europa".

Os países ocidentais têm apoiado Kiev com suprimentos de armas, doações, ajuda humanitária e sanções contra Moscou.

Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores da Rússia, alertou em várias ocasiões que os países ocidentais que apoiam a Ucrânia estão se tornando parte do conflito, e que qualquer envio de armas a Kiev se tornará um alvo legítimo para as Forças Armadas russas.

•        Ameaças de Macron e Cameron de inundar a Ucrânia com 'homens e armas' são sinais de fraqueza?

O presidente francês, Emmanuel Macron, e o secretário de Relações Exteriores britânico, David Cameron, fizeram declarações nesta semana prometendo novos tipos de assistência militar à Ucrânia. No entanto, especialistas veem sinais de fraqueza nos comentários dos dois líderes, já que nem Paris nem Londres podem "fazer diferença".

O ministro de Relações Exteriores, David Cameron, disse durante sua visita a Kiev que a Ucrânia "tem absolutamente o direito" de atacar o território russo usando as armas fornecidas pelo Reino Unido. "É decisão dos ucranianos como usar essas armas", disse Cameron.

As declarações de Cameron foram ainda mais agressivas do que seus aliados norte-americanos, que desaconselharam os ucranianos de fazerem ataques ao "território russo", com exceção da Crimeia.

"Não discutimos quaisquer restrições que colocamos nessas coisas. Assim como a Rússia está atacando dentro da Ucrânia, você pode entender por que a Ucrânia sente a necessidade de garantir que tenha a capacidade de contra-atacar", disse Cameron, segundo agências de notícias.

Enquanto isso, o presidente francês, Emmanuel Macron, repetiu a ideia expressa ainda no final de fevereiro de enviar tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) para a Ucrânia. No entanto, em entrevista à revista The Economist, Macron mencionou duas condições para a participação da França: caso a linha de frente do regime de Vladimir Zelensky desmorone e se a aliança for oficialmente convidada pelo país.

Paolo Raffone, diretor da CIPI Foundation, com sede em Bruxelas, lembrou à Sputnik que os líderes europeus estão mais agressivos verbalmente, à medida que seu papel secundário no conflito ucraniano — em comparação com os Estados Unidos, Rússia e o Sul Global — torna-se cada vez mais óbvio.

"Nem o Reino Unido, nem a França ou a Alemanha podem fazer diferença na Ucrânia […]. Os europeus seguem o caminho dos EUA, e os EUA definem o tom: apenas mantenham a Ucrânia sobrevivendo até as eleições [estadunidenses]", disse o especialista.

•        'Londres deve se preparar'

Em resposta à declaração de Cameron sobre o envio de mísseis de longo alcance para a Ucrânia, a representante oficial do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, disse que "Londres deve se preparar" para um dia sofrer ataques de seu cliente — o regime nacionalista ucraniano. Zakharova deu como exemplo o que ocorreu com Washington no passado, que durante o infame ataque terrorista em 2001 foi vítima dos mesmos islamitas que os EUA criaram e armaram no Afeganistão nos anos 1980.

Em resposta à ideia de Macron de enviar tropas da OTAN a convite de Kiev, Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, chamou as declarações do francês de "perigosas". "Levantar a mera possibilidade de envolvimento da França [na crise ucraniana] é perigoso", disse Peskov.

O porta-voz lembrou que a Rússia não está sozinha em avaliar que o envio das tropas da aliança ao país é um "caminho para o inferno", levando a uma guerra direta.

Giuseppe Conte, ex-primeiro-ministro da Itália e líder do movimento de oposição Movimento 5 Estrelas, disse que Macron comete "um grande erro" e se pronunciou contra o envio de mais armas para o regime de Zelensky em uma entrevista ao canal de televisão LA7, dizendo que tal política apenas adia as tão esperadas negociações entre Moscou e Kiev.

O primeiro-ministro da Eslováquia, Robert Fico, também reagiu de forma crítica à ideia de Macron de enviar uma força coletiva da OTAN. "Qualquer um pode nos pedir qualquer coisa, mas posso dizer que nenhum soldado eslovaco cruzará a fronteira com a Ucrânia", disse Fico, segundo a agência de notícias eslovaca TASR.

Já Macron enfatizou que ele "não excluía" a medida, porque "a Rússia também não exclui nada". No entanto, em recente entrevista em março, Vladimir Putin chamou a participação de tropas da OTAN no conflito ucraniano de "uma linha vermelha" para a Rússia.

Já Paolo Raffone viu nessa situação a fraqueza tanto do Reino Unido quanto da França, que não podem tomar decisões a respeito de como a OTAN irá proceder na Ucrânia. "Portanto, qualquer acordo de paz só pode ser negociado diretamente entre os EUA e a Rússia. Mas, nesse período eleitoral [dos EUA], isso não é possível", finalizou.

•        Exercícios da OTAN indicam séria preparação para potencial conflito com a Rússia, diz MRE russo

Os exercícios militares da OTAN perto das fronteiras da Rússia são a prova de que a aliança está se preparando para um potencial conflito com Moscou, disse a representante oficial do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova.

A OTAN deu início ao Steadfast Defender 24 em janeiro. Os jogos de guerra têm duração de quatro meses e incluem mais de 90 mil soldados de todos os 32 Estados-membros.

"Neste momento, a OTAN está a realizando o Steadfast Defender, seu maior exercício desde a Guerra Fria, perto da fronteira russa. De acordo com o cenário, utilizando todas as ferramentas, incluindo as híbridas e as armas convencionais, estão exercendo ações de coligação contra a Rússia. Os Estados Unidos estão exercendo ações de coligação contra a Rússia. Temos de admitir que os Estados da OTAN estão a se preparar seriamente para um potencial conflito conosco, sobre o qual, aliás, representantes de alto escalão da OTAN estão falando abertamente", disse Zakharova.

Ao mesmo tempo, a diplomata comentou os supostos ataques híbridos que, segundo os Estados-membros da aliança, a Rússia estaria promovendo.

A representante vê nas acusações a tentativa de enganar as populações europeias e norte-americanas, a fim de desviar a atenção do público das ações da Aliança Atlântica. Moscou considera as acusações de ataques híbridos "como desinformação", o que ajuda a aumentar a "histeria antirrussa".

"A aliança do Atlântico Norte e a liderança de alguns Estados-membros individuais estão a fazer aquilo em que são melhores: espalhar desinformação, aumentar o grau de histeria anti-Rússia, a fim de justificar níveis sem precedentes de militarização na Europa", acrescentou a representante, em um comunicado publicado pelo Ministério das Relações Exteriores russo nesse sábado (4).

Sobre os exercícios, os aliados planejam testar um cenário de conflito contra um "adversário quase igual", de acordo com o Artigo 5 do Tratado do Atlântico Norte, que afirma que um ataque a um aliado é considerado um ataque contra toda a OTAN e permite para a prestação de assistência adequada.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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