segunda-feira, 6 de maio de 2024

Estudo aponta fatores de risco para demência precoce que vão além da genética

Um novo estudo europeu identificou uma série de fatores de risco que podem estar associados ao aparecimento precoce das diferentes formas de demência, e também outras circunstâncias que parecem diminuir o risco desses problemas neurológicos. Trata-se de um dos primeiros trabalhos a ir além das predisposições genéticas para entender elementos não hereditários que contribuem para a demência precoce.

O trabalho acaba de sair na revista especializada Jama Neurology. Coordenado por Stevie Hendriks, do Departamento de Psiquiatria e Neuropsicologia da Universidade de Maastricht (Holanda), o estudo também teve participação da Universidade de Oxford e outras instituições britânicas.

É por isso, aliás, que os dados que embasam as conclusões da pesquisa são do Reino Unido. Eles vêm do UK Biobank, um enorme arcabouço de informações médicas sobre mais de 500 mil moradores do território britânico, que foram recrutadas para participar de um acompanhamento de longo prazo entre 2006 e 2010.

Os participantes do UK Biobank têm entre 37 anos e 73 anos, mas os pesquisadores estavam interessados principalmente nos pacientes com 65 anos ou menos. Essa idade marca a definição do que seria demência precoce, quando o diagnóstico é feito antes do 65º aniversário.

Para os propósitos do estudo, não foi feita diferenciação entre a presença do mal de Alzheimer (uma das formas mais conhecidas de demência) e os vários outros tipos de problemas neurológicos que integram essa categoria. A equipe incluiu na sua análise pessoas que, no momento da inclusão no banco de dados, ainda não tinham sido diagnosticadas com essas doenças, mas que poderiam desenvolvê-las nos anos seguintes, sendo rastreadas por seus prontuários médicos ou certidões de óbito, por exemplo.

Calcula-se a demência precoce afete pouco menos de 4 milhões de pessoas no mundo hoje. Embora, em termos absolutos, seja muita gente, ainda se trata de um problema relativamente raro calcula-se que só o mal de Alzheimer afeta 50 milhões de pacientes. No novo estudo, 485 pacientes acompanhados no âmbito do UK Biobank acabaram desenvolvendo demência precoce.

O que o trabalho fez foi passar um pente-fino estatístico nas pessoas que têm o problema e as que não o têm, levando em conta todas as informações médicas sobre elas presentes no banco de dados, para verificar quais fatores estão associados à presença ou ausência dessas doenças. Nem todos os fatores necessariamente implicarão algum tipo de causalidade ou seja, a probabilidade de que um deles esteja contribuindo diretamente para causar demência ou para evitá-la. Para saber se esse é o caso, é preciso realizar análises mais específicas.

Além da presença de variantes genéticas já tradicionalmente associadas às formas mais comuns de demência, como o mal de Alzheimer em idosos, o trabalho mostrou 14 outros fatores que parecem ter uma associação estatisticamente significativa com o aparecimento da doença precoce. Entre os mais importantes estão uma condição socioeconômica ruim, menos educação formal, deficiência de vitamina D, diabetes, doenças do coração, depressão e isolamento (definido como uma situação na qual a pessoa não tem contato com parentes e amigos ao menos uma vez por mês).

Por outro lado, um nível educacional mais alto e uma condição física melhor (medida por meio da força do movimento de agarrar da pessoa, avaliada no consultório) estão entre os fatores que parecem minimizar o risco de demência precoce.

Os problemas de metabolismo, como diabetes e doenças do coração, tendem a afetar a circulação do sangue, inclusive a do cérebro, o que aumentaria o risco desses problemas. Já os níveis educacionais influenciam as atividades cognitivas, o que pode ter um efeito protetor se elas forem mais desafiadoras.

A grande controvérsia dos resultados envolve o consumo de álcool, o qual, em nível moderado, está associado a um risco mais baixo de demência, enquanto nenhum consumo de bebidas alcoólicas seria um fator de risco. Os autores do estudo dizem que pode estar havendo alguma confusão estatística: pessoas mais saudáveis por outros fatores também conseguiriam continuar consumindo álcool, mas não é a bebida que ajudaria na manutenção de capacidades cognitivas saudáveis.

•        Situações de estresse na meia-idade elevam risco de Alzheimer, diz estudo

Experiências de grande estresse vividas na meia-idade podem deixar marcas mais duradouras do que se pensa. Um novo estudo publicado na revista científica Annals of Neurology mostra que esses eventos podem estar associados ao risco elevado de surgimento de Alzheimer e outras demências no fim da vida.

Segundo Paulo Caramelli, professor de neurologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), as evidências são especialmente alarmantes para o Brasil. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o país é o 2º com maior nível de estresse no mundo, e o primeiro em termos de ansiedade.

Na pesquisa, conduzida em Barcelona, os especialistas entrevistaram mais de mil participantes para avaliar o número de eventos estressantes vividos por eles. Além disso, foram realizados exames para identificar biomarcadores relacionados à ocorrência de Alzheimer, como a inflamação cerebral (também chamada neuroinflamação).

Um desafio do estudo foi avaliar de forma objetiva experiências que são vividas de maneira subjetiva. Para contornar esse problema, os autores usaram uma lista prévia com 18 possíveis eventos capazes de provocar mudanças na vida das pessoas de forma geral.

Caramelli explica que existem eventos estressores maiores universalmente reconhecidos, como crise financeira, perda de emprego, separação conjugal ou morte de familiar próximo. Com base em experiências assim, e não no nível geral de estresse do indivíduo, que o estudo foi feito.

Já a neuroinflamação e o acúmulo de betamiloide são fatores chave no desenvolvimento de diversas demências, como o Alzheimer. Típicas da velhice, cada vez mais evidências apontam que as raízes dessas doenças podem estar presentes também nos primeiros anos de vida.

Na pesquisa, a hipótese principal dos pesquisadores não foi confirmada. Eles acreditavam que os eventos estressores em geral poderiam favorecer a neuroinflamação, mas os dados não comprovam essa suposição. Entretanto, quando foi feito um recorte pela fase da vida, se viu que esses eventos podem ter efeitos neurodegenerativos em um determinado período da vida adulta: a meia-idade.

Os resultados revelam que a concentração de eventos na meia-idade está associada ao aumento de acúmulo da proteína betamiloide no cérebro, além da infância, que também é uma fase sensível. Além disso, mulheres e pessoas com doenças neurológicas se mostraram mais vulneráveis aos efeitos.

Orestes Forlenza, professor titular de psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo), explica que a relação direta entre estresse e doenças neurodegenerativas é muito observada na prática clínica, mas ainda pouco explorada cientificamente.

Por outro lado, está bem estabelecido que eventos estressantes nessa fase da vida são capazes de desencadear outras condições, como a depressão, que estão diretamente ligadas à demência.

O estudo, contudo, ainda é preliminar. "O trabalho associa alterações inflamatórias que aparecem no Alzheimer com eventos estressores ao longo da vida. Há uma sugestão, porém não há uma confirmação", afirma Caramelli. Ele ressalta que estudos mais robustos são necessários para confirmar as evidências, mas reconhece que os dados são informativos e consistentes com o que os pesquisadores já sabiam.

A deficiência de saúde mental do brasileiro traz efeitos nefastos para o físico que já são conhecidos há muito tempo. Já em 2004, com a publicação do estudo Interheart conduzido em 52 diferentes países, o Brasil foi onde o estresse teve o maior impacto associado ao infarto do miocárdio.

"Temos que olhar para a sociedade brasileira considerando o estresse um dos gatilhos preditores de adoecimento com consequências graves para a saúde da população", afirma Caramelli.

Em 2023, a depressão foi apontada como um preditor importante de demência precoce em um estudo publicado na revista científica Jama Neurology. No trabalho, os especialistas analisaram os dados do UK Biobank, um banco genético com informações de mais de 350 mil pacientes do Reino Unido.

Embora a genética seja responsável por alguns dos 14 preditores apontados pelo estudo, as evidências apontam cada vez mais que mudanças de estilo de vida podem reduzir os riscos de demência e Alzheimer.

Se combinado com estresse crônico, o potencial de risco da depressão chega a quase dobrar. Uma pesquisa realizada na Suécia com dados de mais de um milhão de pacientes mostra que os diagnósticos de problemas psiquiátricos são especialmente danosos para os casos de Alzheimer.

Para Caramelli, cuidar da saúde mental não traz apenas benefícios imediatos, mas também favorece a neuroproteção. O especialista afirma que o gerenciamento do estresse pode ser feito através de atividade física, suporte social, meditação e atenção plena, terapia e análise, com uso de medicamentos em alguns casos e até mesmo buscando mais conexão com a espiritualidade, independente da matriz religiosa.

 

Fonte: FolhaPress

 

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