segunda-feira, 6 de maio de 2024

Desvio do SUS tem ex-prefeito, roubo de R$ 100 mil e varal de roupa, diz PF

A operação da PF deflagrada para desarticular um esquema de desvios no SUS do Pará nesta semana trouxe detalhes sobre como a organização criminosa atuava no estado. A decisão judicial que embasou a ação, obtida pelo UOL, mostra que os investigadores se depararam com um escritório de fachada com varal de roupas, descobriram que um dos suspeitos foi alvo de roubo de R$ 100 mil em uma "saidinha de banco" - mas preferiu não denunciar -, além de apontarem a participação de um ex-senador da República.

•        Laranjas e roupa estendida

# Como o esquema funcionava

- A Polícia Federal apura um esquema de falsidade ideológica, crimes licitatórios e lavagem de capitais, envolvendo uma rede de empresas de fachada e laranjas. A Terraplena, empresa que atua com limpeza urbana, construção de estradas e redes de água e esgoto, teria repassado valores a empresas de fachada ligadas direta ou indiretamente ao ex-senador e ex-prefeito de Belém, Duciomar Costa, segundo a investigação. Os repasses e saques investigados ocorreram entre 2018 e 2022.

# Mulheres laranjas

- Quatro mulheres estariam por trás de empresas de fachada para lavar dinheiro do esquema. Uma delas atuava como contadora do grupo e já havia sido investigada pela PF em outra ação. Os investigadores foram aos escritórios onde seriam as supostas sedes das empresas e constataram que, na verdade, eram as suas residências.

# Escritórios de fachada

- Sobre um dos imóveis, os investigadores afirmam que o local era "incondizente com funcionamento de pessoa jurídica, lá se encontrando até mesmo roupas estendidas em varal, a demonstrar a inexistência de funcionamento de empreendimento no recinto". Outro, foi classificado como "despretensioso domicílio".

# Lavagem de dinheiro.

- "As modestas casas das supostas administradoras", dizem os investigadores, "não as impediram de receber vultuosa movimentação milionária". Sobre essas empresas, os investigadores dizem: “Sua criação jurídica teve objetivo apenas de lavagem de capitais e futura distribuição de valores para destinatários certos.” - trecho da decisão judicial que embasou a operação da PF.

# Movimentação milionária

- Uma das empresas movimentou mais de R$ 132 mil no dia imediatamente posterior à sua abertura com cheque depositado pela Terraplena; outra movimentou R$ 200 mil "na sua primeira semana de existência no mundo jurídico". Uma terceira recebeu, sozinha, cerca de R$ 27 milhões da Terraplena para fornecimento de seixo, mesmo sem seus responsáveis terem "capacidade econômico-financeira para movimentar esses recursos".

# Alianças políticas

- Na decisão, o juiz da 4ª Vara Federal do Pará, Carlos Gustavo Chada Chaves, anota que "é desafiar a lógica" pressupor que "não tenha a alta administração da Terraplena conhecimento e participação" no esquema.

“O caso aqui parece não ser saber se existe ou não participação dos sócios na prática dos crimes investigados, mas sim o nível a que chegou a corrupção no meio políticos e de servidores públicos, a quantidade e o nome de pessoas envolvidas e, por fim, as quantias desviadas do contribuinte e o montante do 'capital lavado'.” - Carlos Gustavo Chada Chaves, juiz federal do Pará.

# Bens bloqueados

-O juiz autorizou o sequestro de veículos e embarcações dos investigados. No rol de bens, estão caminhões e automóveis como Mercedes-Benz, Volvo e até Kombis.

# Conexões políticas

- Em diversas passagens do relatório enviado ao juiz, a PF afirma que o esquema não se daria sem a participação de políticos locais. O principal alvo desse braço do grupo é o ex-senador e ex-prefeito de Belém, Duciomar Costa. A PF mostra as conexões entre as mulheres apontadas como laranjas e pessoas ligadas a Duciomar, incluindo assessores que trabalharam em seu gabinete em Brasília.

# Material de campanha e foto de família

- Os investigadores mostram que as laranjas trabalharam como assessoras de Duciomar: uma tinha cartazes de de campanha política em favor de candidato apoiado por Duciomar; outra, tirou fotos de seu pai com ele.

# Pai, irmão e sobrinho

- O pai da assessora abriu uma empresa com outro ex-assessor de Duciomar, cuja companhia participou de ao menos três licitações vencidas pela Terraplena. O irmão dela é apontado como testa-de-ferro de outra prestadora de serviços, que pertence ao sobrinho de Duciomar.

# Empresas prestavam serviços para Terraplena

- As empresas de fachada emitiam notas fiscais para a Terraplena, "reforçando a interconexão entre as pessoas físicas e jurídicas mencionadas até o momento", dizem os investigadores, que veem indícios de que o grupo montou um esquema de lavagem de dinheiro.

•        Quem é Duciomar?

Duciomar foi senador entre 2003 e 2004 e deixou o cargo para assumir a prefeitura de Belém, em janeiro de 2005. Foi reeleito em 2008 e permaneceu à frente da prefeitura até dezembro de 2012. Antes, foi deputado estadual e vereador, passando por cinco partidos diferentes (PDS, PP, PSD, PTB e PRD, sua legenda atual).

<<<< Preso em 2017

Duciomar chegou a ficar preso por cinco dias em 2017, suspeito de comandar uma organização criminosa que teria causado danos de R$ 400 milhões à administração municipal enquanto estava à frente da prefeitura de Belém. Em um dos processos derivados desta investigação, o ex-prefeito foi condenado em 2023 a restituir R$ 7 milhões aos cofres públicos.

•        Saidinha de banco

# Casa humilde

- Administrador de uma das empresas com movimentações milionárias, o irmão da assessora mora em uma "residência simples, apesar de sacar rotineiramente quantias elevadas de dinheiro", segundo a investigação.

# Assalto milionário

- Ele deixou de comunicar às autoridades o roubo de R$ 100 mil ao sair de um banco, "tudo levando a crer que os assaltantes sabiam do saque de altos valores", afirmam os investigadores. Eles destacam que este comportamento "foge às máximas de experiência comum" e que a única explicação lógica seria o desejo de não chamar a atenção para a origem do valor ou para a lavagem do dinheiro.

•        O que a PF e a CGU investigam

# Recursos Federais

- A CGU identificou que licitações e contratos ligados à Terraplena foram financiados com recursos federais. O órgão suspeita de potencial restrição da competitividade e de habilitação irregular da empresa em certames dos quais a empresa participou. O dinheiro desviado deveria ter sido aplicado em saúde, saneamento e limpeza urbana.

# Desvios e lavagem de dinheiro

- Os investigadores afirmam que a Terraplena movimentou R$ 1,7 bilhão de forma atípica entre 2017 a 2022 e, por isso, suspeitam de lavagem de dinheiro. A empresa teria desviado ao menos R$ 220 milhões dos cofres públicos.

# Mega-ação

- A operação desta semana reuniu mais de 150 policiais federais, servidores da CGU e da Receita para cumprirem 46 mandados de busca e apreensão em 33 endereços de 42 alvos. A PF esteve nas cidades de Belém, Benevides, Parauapebas, Ananindeua, Santa Maria do Pará e São Miguel do Guamá, todas no Pará, e em Barueri (SP).

<> Outro lado

A Terraplena informou ao UOL que só vai se manifestar após ter acesso aos autos do processo.

A defesa do ex-prefeito Duciomar Costa também informou que não vai comentar, pois não teve acesso à integralidade dos autos.

 

Fonte: UOL

 

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