Congressistas dos EUA e Brasil articulam
frente contra extrema-direita
Uma carta compromisso
em defesa da democracia e contrária aos movimentos de contestação dos processos
eleitorais está em construção entre deputados e senadores brasileiros e
estadunidenses. Os envolvidos esperam expandir esse compromisso para
congressistas e organizações sociais de outros países da América Latina e
Europa, criando uma frente internacional contra movimentos da extrema-direita
mundial.
Essa frente
internacional deve enfrentar os ataques aos processos eleitorais, a exemplo do
que ocorreu no Brasil, com o 8 de janeiro de 2023 e nos Estados Unidos, com a
invasão do Capitólio, o congresso norte-americano, em 6 de janeiro de 2021.
Esse foi o compromisso
firmado entre a comitiva de seis parlamentares do Brasil, liderada pela
senadora Eliziane Gama (PSD-MA), e congressistas dos Estados Unidos, em
Washington, como o democrata Jamie Raskin, um dos principais nomes da Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou a invasão do Capitólio.
“A gente percebe que
ataques à democracia estão acontecendo no mundo todo. A gente tem visto mais
recentemente, agora na Argentina, tem células [de extrema-direita] no Chile, aí
vai Colômbia, agora inclusive tem processo de julgamento de tentativas de ataque
ao processo democrático na Alemanha. A gente quer costurar um alinhamento
internacional de forma que a gente possa ter uma frente ampla internacional em
defesa da democracia”, explicou a senadora Eliziane Gama, relatora da Comissão
Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investigou o 8 de janeiro.
A senadora, que
atualmente preside a Comissão de Defesa da Democracia do Senado, explicou que a
ideia é usar essa comissão para articular apoio em outros países, começando
pela Argentina, priorizando a América Latina, mas envolvendo também os países
europeus.
A comitiva brasileira
que foi aos EUA nesta semana também se reuniu com o senador independente Bernie
Sanders, que tentou disputar a presidência dos Estado Unidos em 2016 e 2020, e
com outros quatro deputados democratas Jim McGovern, Greg Casar, Chuy Garcia e
Delia Ramirez.
“A carta [que deve ser
assinada entre os parlamentares] vai ter como questão central a defesa da
democracia e a responsabilidade desses parlamentares em acompanhar os
movimentos antidemocráticos e, sobretudo, fazer uma defesa firme da democracia,
que sejam reconhecidos os processos eleitorais, que sejam reconhecido os
tribunais eleitorais e as juntas eletrônicas, e que toque de uma forma muito
importante sobre o problema da desinformação das plataformas”, disse o diretor
executivo do Instituto Vladimir Herzog, Rogério Sottili, que ajudou a articular
esse encontro entre os congressistas de ambos os países.
Sottili acrescentou
que a carta compromisso deve ser publicada nos próximos dias. Para o
representante do Instituto Vladimir Herzog, a extrema-direita mundial é uma
ameaça às democracias.
“O que esses
movimentos que estão acontecendo na Europa agora, com reuniões da extrema
direita autoritária e antidemocrática, é para destruir as democracias e o
processo eleitoral”, avalia, acrescentando que “o mundo está ameaçado por esses
movimentos autoritários antidemocráticos, e isso não pode existir. Isso é crime
e tem que ser tratado como criminoso”, afirma.
Em uma rede social, o
senador Humberto Costa (PT-PE) informou que as reuniões com os congressistas
estadunidenses discutiram os “ataques à democracia perpetrados pela
extrema-direita e a necessidade de fortalecer mecanismos para defendê-la, que
nos renderão muitos frutos em ações no nosso país”.
De acordo com a
deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), os congressistas discutiram com Bernie
Sanders a preocupação com a articulação da extrema-direita mundial, e a
necessidade de uma defesa coordenada da democracia em todo o mundo. “O senador
se colocou à disposição para ajudar a construir este movimento internacional”,
disse.
Também participaram da
comitiva brasileira os deputados Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ), Rogério
Correia (PT-MG) e Rafael Brito (MDB-AL), todos membros da CPMI do 8 de janeiro,
que pediu o indiciamento, por tentativa de Golpe de Estado, do ex-presidente
Jair Bolsonaro e outras 60 pessoas, incluindo militares de altas patentes.
Partidos políticos,
organizações da sociedade civil e movimentos sociais do Brasil têm denunciado
ataques à democracia organizados no Brasil pelos apoiadores do ex-presidente
Jair Bolsonaro, a exemplo dos ataques, sem provas, às urnas eletrônicas, que justificaram
os bloqueios de estradas, os acampamentos em frente aos quartéis e a invasão
das sedes dos Três Poderes, em Brasília, no dia 8 de janeiro, pedindo um golpe
militar no Brasil.
Políticos e
parlamentares identificados com o ex-presidente Bolsonaro, por outro lado, têm
denunciado no Brasil, e também nos Estados Unidos, que o país estaria
caminhando para uma ditadura, com suposta censura às redes sociais.
Recentemente, esse grupo recebeu apoio do multibilionário Elon Musk, dono da
plataforma X.
No início de março,
uma comitiva de parlamentares brasileiros liderados pelo deputado Eduardo
Bolsonaro (PL-SP) foi aos Estados Unidos denunciar suposto cerceamento à
liberdade de expressão no Brasil. No dia 17 de abril, o Comitê de Assuntos
Jurídicos da Câmara dos Deputados dos EUA, controlado por parlamentares aliados
do ex-presidente Donald Trump, divulgou um relatório defendendo a tese de
censura à liberdade de expressão no Brasil.
A iniciativa do comitê
dos EUA foi classificada pela organização não governamental Washington Brazil
Office (WBO), com sede nos Estados Unidos, como uma distorção da realidade e
das leis brasileiras promovida pela extrema-direita do Brasil e dos Estados Unidos,
com objetivo de confundir a opinião pública estrangeira de que o Brasil está
sob um regime de censura e, com isso, dificultar as investigações sobre o 8 de
janeiro.
A senadora Eliziane
Gama destacou que é preciso fazer um movimento internacional que se contraponha
a esses movimentos da extrema-direita.
“Eles vivem nos
Estados Unidos e dizem que o Brasil está caminhando como uma ditadura. E a
gente sabe que toda a tentativa de obstrução democrática foi feita por eles no
governo anterior. Então, é por isso que eu acho que não dá para deixá-los
prosseguirem sem fazer um contraponto”, defende.
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Aliança entre bolsonaristas e trumpistas preocupa, mas não surpreende, diz
deputado americano
A aproximação entre
aliados dos ex-presidentes Jair Bolsonaro (PL) e Donald Trump nos Congressos
brasileiro e americano gera preocupação, mas não surpreende, afirmou o deputado
Jamie Raskin, um dos integrantes da comissão que investigou a invasão do Capitólio
e líder da acusação no segundo processo de impeachment contra o empresário.
O democrata participou
nesta quinta-feira (2) de uma reunião com uma comitiva brasileira liderada pela
senadora Eliziane Gama (PSD-MA), que foi relatora da CPI do 8 de janeiro. O
objetivo do encontro foi trocar experiências sobre a resposta dada por cada
país aos ataques à democracia que sofreram e unir esforços para evitar que
episódios do tipo se repitam.
A visita, que vinha
sendo organizada desde o final do ano passado, acontece na semana em que
republicanos conseguiram ressuscitar uma audiência no Congresso articulada com
bolsonaristas sobre uma suposta perseguição e censura no Brasil atual.
Inicialmente marcado
para março na Comissão de Direitos Humanos, o evento foi barrado por
democratas. Agora, vai ocorrer na terça (7) em um subcomitê da Comissão de
Relações Exteriores presidido pelo republicano Chris Smith, com quem Eduardo
Bolsonaro (PL-SP) teve reuniões em Washington junto com aliados do Congresso.
Pela manhã, a comitiva
liderada por Eliziane se encontrou com assessores da deputada Susan Wild, a
principal democrata no subcomitê que fará a audiência. Segundo o deputado
Rogério Correia (PT-MG), o objetivo foi subsidiar os americanos de informações
para rebater a narrativa bolsonarista.
"O que vai
acontecer aqui semana que vem é apenas uma encenação, uma reunião fake de
alguns republicanos com bolsonaristas. É claro que esta reunião contará com os
democratas que vão dizer a verdade, que Bolsonaro tentou dar um golpe no Brasil
e é por isso que ele está inelegível e provavelmente será preso", afirmou.
Correia e o senador
Humberto Costa (PT-PE), que também integra a comitiva, devem fazer mais uma
reunião com democratas antes da audiência no dia 7.
Até agora, foram
anunciadas três testemunhas na audiência: o ativista e jornalista americano
Michael Shellenberger, que divulgou os arquivos do Twitter relacionados ao
Brasil, o CEO da rede conservadora Rumble, Chris Pavlovski, e o ativista
brasileiro Paulo Figueiredo Filho, alinhado ao bolsonarismo.
Um quarto nome,
indicado pela minoria democrata do subcomitê, ainda deve ser anunciado. Uma
rede de organizações brasileiras em Washington discute uma sugestão.
Questionado pela Folha
de S.Paulo sobre a audiência, Raskin respondeu que "no manual autoritário
em todo o mundo, uma das estratégias-chave dos aspirantes a autocratas e
ditadores é se fazerem de vítimas".
Apesar das semelhanças
na história recente dos dois países, o democrata apontou que o Brasil tipifica
o crime de golpe de Estado. "Não temos [nos EUA] um crime específico para
isso. Os crimes pelos quais o ex-presidente Donald Trump foi acusado são variados",
afirma ele.
No processo criminal
que trata da invasão ao Congresso em 6 de janeiro de 2021, o republicano foi
acusado de conspirar contra os EUA e contra direitos, mas não há uma denúncia
específica sobre golpe de Estado.
"Uma coisa que
poderíamos considerar é tipificar um crime muito específico para acusar as
pessoas no que se refere à tentativa de derrubar o Estado democrático de
Direito", afirmou Raskin.
O democrata recebeu
uma cópia do relatório da CPI do 8 de Janeiro. O deputado Rafael Brito (MDB-AL)
afirmou que o americano chegou a usar a palavra "inveja" ao se
referir ao processo brasileiro.
Nos EUA, Trump
sobreviveu a dois processos de impeachment. Além disso, embora seja alvo de
quatro processos criminais, apenas um deve ser concluído antes da eleição de
novembro --o que é apontado como o mais leve de todos, em que ele é acusado de
fraudar registros empresariais para encobrir pagamentos à atriz pornô Stormy
Daniels durante a campanha de 2016.
E mesmo que Trump seja
condenado, a legislação americana não impede que ele concorra à Presidência. Na
média das pesquisas de intenção de voto, ele lidera a corrida contra Joe Biden
por uma margem apertada.
A articulação para a
visita da comitiva aos EUA vinha sendo feita desde o final do ano passado pelo
Instituto Vladimir Herzog, que organiza a viagem, motivada pela ideia de trocar
experiências tendo em vista os desafios semelhantes à democracia em ambos os
países.
Fonte: Agencia
Brasil/FolhaPress

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