Como os terreiros enfrentaram a ditadura?
Análise do
jogo duplo do regime. No Nordeste, a umbanda era perseguida. Templos,
invadidos. E adeptos, torturados. Até um grupo de extermínio foi criado para
reprimi-la. Mas, no eixo Rio-SP, ela era celebrada como expressão da
“democracia racial”
Muito já foi escrito
sobre o papel de destaque da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) na luta
contra a repressão e defesa dos direitos humanos no enfrentamento à ditadura
civil-militar, que teve relação direta com as mudanças nas diretrizes pastorais
e teológicas internas e o progressivo endurecimento da ordem política e social
após 1964. A proeminência do tema está diretamente relacionada ao seu
protagonismo nacional à época.
Ao contrário do senso
comum, que afirma que religião e política não se discutem, gostaríamos de
observar que este tema sempre esteve presente no cotidiano e na vida pública.
Nossa proposta é tratá-lo a partir de um tema que sempre ficou fora do debate
público: a perseguição aos terreiros durante a ditadura civil-militar no
Brasil.
Nosso objetivo é
discutir como se produziu, no eixo Rio-São Paulo, um imaginário do crescimento
e do fortalecimento da Umbanda nesse período (Ortiz, 1999; Souza, 2016), em
contraste com as narrativas de perseguição aos povos de terreiro do Nordeste.
O relatório da
Comissão da Memória e Verdade (CMV) da ALEPE é nosso ponto de partida,
pois revela haver subnotificação dos casos de perseguição aos terreiros. O
relatório final produzido pela Comissão no Rio de Janeiro aponta que:
a
violência do Estado ditatorial contra territórios negros como, por exemplo, os
quilombos, os terreiros das religiões de matriz africana, as escolas de samba,
dentre outros, não pôde ser analisada. Isto porque a CEV-Rio não logrou colher
depoimentos nem identificar documentos que abordassem essas violações
específicas, mas entende a urgência de que estes temas sejam explorados em
futuras pesquisas (CEV-Rio, 2015: 133).
Em nossas pesquisas
realizadas nos estados de Alagoas, Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e
Sergipe, pudemos ouvir diversos relatos das lideranças dos terreiros, que
narraram o período da ditadura civil-militar quando ainda eram crianças ou
adolescentes.
Ainda que fossem
crianças e adolescentes, as vivências do período da ditadura foram marcantes o
suficiente e hoje fazem parte do que elas são enquanto lideranças. As invasões
policiais, interrupção de festas religiosas e o exercício de um modo de agir do
próprio policial tinham como foco a destruição de instrumentos ritualísticos
dos terreiros, bem como humilhar os religiosos, obrigando-os a desfilarem pelas
ruas com seus objetos e trajes rituais até a delegacia, onde eram presos.
Maria Rita de Cassia
Oliveira (2014) analisou como, no Rio Grande do Norte, durante as décadas de
1960-1970, os terreiros de Jurema Sagrada e de Umbanda foram alvo de intensa
perseguição, marcada por invasões durante celebrações religiosas e espancamentos
e torturas de adeptos. A pesquisadora relata ainda que, neste período, surgiu
um grupo de extermínio conhecido como “Mão Branca”, inicialmente formado por
“membros intolerantes” às religiões afro-ameríndias, que posteriormente se
integraram às forças policiais e formaram o maior grupo de extermínio do
estado, executando não apenas praticantes dessas religiões, mas qualquer
“desafeto” dos dirigentes locais.
Leonardo Vieira Silva
(2020) descreve como a comunidade religiosa “Filhos de Obá”, na cidade de
Laranjeira (SE), enfrentou o processo de perseguição à liderança da casa, Pai
Alexandre, que precisou sair da cidade para não ser preso, pois pesava sobre
ele as acusações de realizar “feitiços”. Pai Alexandre buscou refúgio em
Salvador entre o final dos anos 1960 e início dos anos 1970, tendo retornado
posteriormente a Laranjeiras.
Os militares exerceram
grande controle sobre os terreiros, regulando seus registros e atividades, além
de imporem restrições, como a proibição da presença de crianças nos cultos. A
repressão estatal levou à reconfiguração dos terreiros, que implicou tanto
mudanças para regiões periféricas como até mesmo a adoção de um modo de vida
pautado na discrição. Os símbolos que remetessem a religiosidade dos terreiros
foram ocultados das fachadas discretas para evitarem a perseguição. Em alguns
casos, houve fusão de práticas religiosas, como a integração de sacerdotes da
Jurema Sagrada à Umbanda, tendo em vista que a Umbanda neste contexto possuía
um reconhecimento e legitimidade junto a sociedade. Esse é apenas um dos
impactos que a perseguição aos terreiros teve na organização dos cultos
afro-brasileiros no Nordeste.
Neste contexto, a
elaboração e reelaboração de estratégias de resistência passou a fazer parte do
cotidiano dos terreiros. Como foi o caso do sítio de Pai Adão, que, segundo Mãe
Elza de Yemonja (Olinda-PE), precisou construir uma capela católica no terreiro
como forma de evitar perseguições, o que evidencia a imposição de vestígios
cristãos nos terreiros. Ela destaca também que os terreiros e suas redes de
proteção tiveram papel importante, pois nas casas de algumas pessoas eram
guardadas imagens sagradas para evitarem autuações policiais e protegerem as
crianças da inspeção policial.
Esse cenário contrasta
com a visibilidade que os templos umbandistas alcançaram durante a ditadura
civil-militar no eixo Rio-São Paulo. O crescimento das federações, muitas vezes
lideradas por militares ou policiais, praticantes da religião, fez com que ela
se destacasse nos meios de comunicação, como rádio, jornais e revistas, além da
produção audiovisual. O interesse público crescente pelo tema foi evidenciado
pelo aumento na tiragem de publicações sobre Umbanda e Candomblé. Filmes
como O Amuleto de Ogum e Tenda dos Milagres exploraram
a identidade étnico-racial brasileira, promovendo a ideia de uma democracia
racial e a Umbanda como uma religião nacional. Artistas como Clara Nunes também
contribuíram para a divulgação das religiões afro-brasileiras através de suas
expressões artísticas. A Umbanda foi consagrada como uma religião brasileira
por seu caráter nacional, que ajudava o país a valorizar o mito da fusão das
três raças e negar a existência de racismo no Brasil.
O estudo sobre a
perseguição e repressão aos terreiros de matriz africana é parte de uma
pesquisa mais ampla sobre os conflitos que afetam contemporaneamente as
tradições afro-brasileiras e afro-ameríndias. As intersecções entre religião e
Estado, evidentes nas instituições e relações sociais, mostram estratégias de
controle e regulamentação das práticas religiosas afro-brasileiras, buscando
conter sua expansão. Isso inclui a proibição da presença de crianças nos
cultos, visando impedir a reprodução dos ritos. Essas práticas contrastam com a
retórica do governo militar, que negava problemas raciais no Brasil e promovia
uma imagem de país sem conflitos raciais.
A internalização, em
1969, da Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de
Discriminação Racial não resultou em mudanças significativas na política
pública ou promoção de justiça. A condecoração de Yalorixá Olga de Alaketu pelo
Presidente Geisel, em 1977, não significou o reconhecimento das religiões
afro-brasileiras como símbolos nacionais, mas sim uma tentativa de aparentar
respeito à diversidade religiosa. Além da repressão enfrentada pelos movimentos
opositores ao regime, houve opressão dirigida às articulações da comunidade
negra, afetando até mesmo manifestações artísticas, como os Maracatus de
Pernambuco e o Ilê Aiyê na Bahia. A incorporação de uma estrutura burocrática
conferiu “civilidade” a Umbanda, que perpassa também pelo embranquecimento
progressivo da religiosidade. A reafricanização do Candomblé é uma das
respostas a essas políticas, mobilizando a luta por reconhecimento e respeito
às tradições afro-brasileiras. A Carta Signatária assinada pelas mães-de-santo
da Bahia em 1983 preconizava a dessincretização da religião dos orixás com
outras religiões, abrindo caminhos para a reinvenção do Candomblé em diálogo
com o Movimento Negro e na luta por direitos sociais e territoriais.
O autoritarismo e a
violação aos terreiros são anteriores à ditadura civil-militar, tendo seu
apogeu associado ao Estado Novo, mas o que vemos na atualidade nos permite
afirmar que estamos diante de uma longa duração de perseguições e repressões,
que constantemente se atualizam sob o argumento dos “casos isolados”.
Os afrorreligiosos há
séculos têm desenvolvido estratégias diversas para lutarem por garantias de
seus direitos, mas é urgente que não sejam mais apagadas as evidências de uma
memória que segue fora da história oficial.
Fonte: Por Ana Paula Mendes de Miranda e Leonardo Vieira Silva, em Outras Palavras

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