1º de Maio esvaziado resulta de
individualismo e até de igrejas, diz pesquisadora
O público muito abaixo
do esperado na comemoração do 1º de Maio das centrais sindicais sinaliza a
distância da agenda dessas entidades das demandas dos trabalhadores.
Na avaliação da
cientista política Andréia Galvão, da Unicamp (Universidade Estadual de
Campinas), movimentações políticas e questões ideológicas mexeram não apenas
com o mundo do trabalho, mas com a subjetividade dos trabalhadores, e isso
interfere no que eles consideram importante --uma disputa com frequência mais
individual e menos coletiva.
Em relação ao
esvaziamento do ato, diferentemente da queixa feita pelo presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) à comunicação, Galvão diz que a questão "não é
exatamente um problema de divulgação". "Está mais ligada à
dificuldade dos sindicatos de falarem com a base, e acho que isso tem várias
razões."
"Os trabalhadores
se tornam mais refratários à organização e à ação coletiva, ficam mais
distantes do sindicato e apostam muito mais na capacidade de encontrar saídas
individuais, ou a partir de movimentos sociais organizados em torno de outras
identidades, além do apoio oferecido pelas igrejas e pela própria
família", afirma.
Ainda assim, a
pesquisadora diz considerar o 1º de Maio uma data fundamental, que precisa ser
valorizada.
LEIA A ENTREVISTA:
• O ato das centrais sindicais no 1º de
Maio deste ano foi visto como esvaziado, chegando a ser alvo de queixas do
presidente Lula. O que esse esvaziamento diz sobre a capacidade de mobilização
dos sindicatos?
ANDRÉIA GALVÃO - Ele
revela essa dificuldade de organização e de mobilização da base em torno da
luta por direitos, em torno de pautas políticas.
Os atos do 1º de Maio
estão sempre conformados em torno de questões mais gerais que as centrais
sindicais têm na agenda e negociam periodicamente com o governo. Isso indica
dificuldade muito grande de fazer com que essa agenda chegue e faça sentido aos
trabalhadores.
Não é exatamente um
problema de divulgação [como disse Lula]. Está mais ligada à dificuldade dos
sindicatos de falarem com a base, e acho que isso tem várias razões.
<<<< Na
discussão da regulamentação do trabalho mediado por aplicativos, a relação com
os sindicatos gerou certa tensão. Por que esses trabalhadores são tão
refratários ao modelo tradicional de representação? Por que além da dificuldade
de mobilização, os sindicatos também despertam essa oposição?
A. G. - Acho que tem
vários fatores que se devem a mudanças nas condições e relações de trabalho nos
últimos anos, relacionadas às formas de organização e gestão das empresas e às
novas tecnologias.
O trabalho de
plataforma é uma expressão disso, e a mudança na legislação desde a reforma
trabalhista de 2017, com a introdução de novas formas de contratação, é outra.
O aumento da
precarização dificulta a sindicalização. Ocupações precárias são muito frágeis
do ponto de vista dos seus vínculos: a rotatividade é maior, a remuneração é
menor, os níveis de qualificação são mais reduzidos, a informalidade e a
própria ausência de vínculo de emprego são indicativos dessa precariedade.
Há ainda o contexto
político e ideológico, porque vivemos um período de muita mudança política
desde pelo menos 2015, e essas mudanças todas interferem na realidade do
trabalho e na subjetividade de quem trabalha.
Outro fator a ser
considerado é o impacto do neoliberalismo entre dirigentes sindicais e
trabalhadores, porque essa ideologia desresponsabiliza o Estado da produção do
bem-estar e transfere a responsabilidade ao indivíduo, que vai provê-la da
maneira que puder.
Pode parecer estranho
dizer que os dirigentes também são afetados por isso, mas eles descuidaram da
defesa de direitos e passaram a priorizar as necessidades mais imediatas e
individuais dos trabalhadores.
E os trabalhadores se
tornam mais refratários à organização e à ação coletiva, ficam mais distantes
do sindicato e apostam muito mais na capacidade de encontrar saídas
individuais, ou a partir de movimentos sociais organizados em torno de outras
identidades, além do apoio oferecido pelas igrejas e pela própria família.
A realidade desses
trabalhadores, suas péssimas condições de trabalho e de vida, faz com que
muitos deles, como os entregadores e motoristas de aplicativos, criem
associações a partir de um movimento que vem da base, justamente porque eles
não se sentem representados pelos sindicatos.
Eles têm condições de
trabalho diferentes porque não têm vínculo de emprego nem direitos, e tendem a
achar que os sindicatos só representam os trabalhadores formais, o que não é
verdade. Não é que eles não se organizem, eles estão experimentando [outro modelo].
>>>>
Questões como uberização, pejotização, empreendedorismo de necessidade. Como a
crise dos sindicatos atravessa essas nuances do mundo do trabalho?
A. G. - A crise dos
sindicatos é atravessada por essas mudanças. O trabalho precário sempre foi
muito presente no mercado de trabalho brasileiro, que é muito desestruturado,
muito desigual. A taxa de informalidade sempre foi muito grande.
As novas modalidades
de contratação vêm sendo usadas para substituir assalariados por trabalhadores
contratados por serviço, que deixam de ter acesso a direitos e garantias que
tinham enquanto empregados.
Essas fórmulas de
contratação são muito usadas pelas empresas para burlar direitos e é uma
prática difundida, mas há também o aspecto ideológico.
Os trabalhadores
também vão se vendo nesse lugar por causa de uma propagação das vantagens de
ser autônomo, de ser independente, empreendedor. Mas também pelas experiências
que esses trabalhadores e trabalhadoras têm nos seus vínculos anteriores de
trabalho.
Eles percebem que
mesmo assalariados muitas vezes são trabalhos que não garantem todos os
direitos, que são desrespeitados pelas empresas. Ou tem uma gestão muito
despótica, rígida.
Tudo isso vai
desestimulando o trabalhador em relação ao emprego assalariado, essas
experiências que ele vai relacionar à carteira de trabalho, a ter CLT
[Consolidação das Leis do Trabalho].
>>>> Com
frequência, a questão da unicidade sindical volta a ser debatida. Na sua
avaliação, essa questão tem papel no distanciamento e na capacidade dos
sindicatos manterem representação?
A. G. - Sou bastante
crítica ao modelo sindical brasileiro. Com isso, não quero dizer que o
sindicalismo não seja necessário, não seja importante, quero deixar isso
bastante claro.
O sindicalismo
atravessa dificuldades, mas isso não significa que esteja fadado ao
desaparecimento. É uma instituição importantíssima para a democracia e para a
melhoria das condições de trabalho e de vida.
Enquanto houver
trabalho, haverá organização de resistência, por dentro e por fora dos
sindicatos.
A unicidade sindical
engessa a organização. A gente não tem liberdade de organização sindical no
Brasil, porque a lei estabelece que só pode ter um sindicato por categoria profissional
numa base territorial.
Isso faz com que os
trabalhadores se desencantem, porque percebem que não conseguem mudar essa
estrutura, não têm liberdade para se organizar da forma que poderiam.
A categoria
profissional é outro limitador. Nossa legislação estabelece uma categoria
profissional à qual aquele trabalhador tem que se vincular, ele não escolhe, e
isso dificulta a ampliação ou fusão de sindicatos que poderiam representar
categorias mais amplas.
Por exemplo, esse
projeto dos motoristas de aplicativo estabelece uma categoria que é muito
limitada. O projeto não obriga a sindicalização, e alguns estão entendendo que
o projeto está obrigando, o que ele estabelece é uma categoria profissional que
vai representar esses trabalhadores, e isso eles não podem escolher.
Essa organização na
base da unicidade e da categoria profissional é muito restritiva, limitante,
fator de insatisfação. Esse sindicatos específicos tendem a se fechar na
representação dos seus, sem conseguir se articular para além da categoria.
A gente tem um número
enorme de sindicatos no Brasil, mais de 11 mil, com muitos dirigentes e pouca
base.
Nosso modelo de
organização sindical é um modelo que favorece também esse distanciamento da
base. E a redução da faixa de sindicalização que a gente vem observando ao
longo dos últimos anos e essa dificuldade de atender ao apelo das centrais
sindicais são uma expressão disso.
>>>>
Diferentemente dos anteriores, o governo Lula é conhecido por ter boa relação
com os sindicatos. Nessa discussão dos aplicativos, poderia haver uma confusão
entre as duas figuras, a dos sindicatos e a do governo?
A. G. - É possível,
dada a proximidade entre o movimento sindical e os governos petistas. E acho
que esse afastamento dos sindicatos de suas bases também tem relação com essa
proximidade desde o primeiro mandato do Lula.
Talvez uma crença
exagerada de que um governo aliado bastaria para resolver todos os problemas
relativos ao mundo do trabalho.
Os sindicatos deixaram
a formação política sindical no segundo plano e apostaram as suas fichas nos
canais de interlocução que elas tinham com o Estado.
Com a crise, depois
com as mudanças de governo, a capacidade do sindicalismo de mobilizar os
setores amplos da classe trabalhadora em torno dessas pautas, como a defesa de
direitos sociais e trabalhistas, mas também a defesa da própria democracia, foi
se reduzindo ainda mais.
RAIO-X
# Andréia Galvão, 53
É graduada e doutora
em Ciências Sociais e mestra em Ciência Política pela Unicamp (Universidade
Estadual de Campinas), onde é professora do Departamento de Ciência Política.
Na instituição, pesquisa relações de trabalho e ação sindical
• Centrais veem 1º de Maio esvaziado como
ápice da crise do movimento sindical
Líderes sindicais
afirmam que o ato do Dia do Trabalho realizado na quarta-feira (1º) no
estacionamento da Neo Química Arena, na zona leste de São Paulo, foi um marco
histórico negativo para a organização dos trabalhadores no Brasil.
Principal atração, o
presidente Lula (PT) disse no palanque que o ato havia sido "mal
convocado" e que não havia sido feito "o esforço necessário para
levar a quantidade de gente que era preciso levar".
Sindicalistas afirmam
que o diagnóstico do petista foi acertado. "Esse 1º de Maio foi o ápice da
crise que o movimento sindical atravessa nos últimos anos. Foi um marco
histórico. Para o sindicalismo, é se reinventar ou morrer", afirma o
deputado federal Paulinho da Força (Solidariedade), presidente de honra da
Força Sindical.
"Lula colocou uma
pá de cal no 1º de Maio. Precisamos repensar o formato do evento para os
próximos anos", diz João Carlos Gonçalves, o Juruna, secretário-geral da
Força Sindical.
Em edições anteriores,
houve sorteio de carros e apartamentos e shows de artistas famosos, com a
presença de dezenas de milhares de pessoas e políticos de orientações
ideológicas variadas.
Ainda que não se
discuta a retomada desse formato nos mesmos moldes, dirigentes afirmam que o
modelo precisa ser menos engessado que o atual, em que só participam artistas
alinhados politicamente às centrais sindicais de esquerda, e menos hostil a
políticos que não façam parte do arco de alianças do PT, ao qual a CUT (Central
Única de Trabalhadores) é ligada.
"O Lula está
correto. Temos que fazer um mea culpa de nossa incapacidade de levar mais
gente", afirma Ricardo Patah, presidente da UGT (União Geral dos
Trabalhadores).
"Precisamos
repensar o 1º de Maio e debater nosso papel enquanto sindicatos. Temos
dificuldade de interlocução com jovens, que hoje mudam de emprego a cada ano e
querem mais flexibilidade. Temos que discutir e-commerce, home office. Temos
que ter mais capacidade de nos organizarmos junto a mulheres, LGBTQIA+, negros.
A quebra de paradigma agora é necessária para a nossa sobrevivência",
completa.
Presidente da CSB
(Central dos Sindicatos Brasileiros), Antonio Neto diz que faz um balanço
positivo do ato. Ele afirma que a repercussão nacional e a defesa pública das
pautas dos trabalhadores são mais importantes do que a discussão sobre a
quantidade de pessoas presentes, que ele diz considerar "um exagero".
"O ato mostrou a
classe operária unida, e isso é fundamental. Com a atual configuração do
Congresso, é mais fácil que os trabalhadores percam direitos do que ganhem ou
preservem benefícios. Já tivemos momentos em que os atos foram recheados. Hoje
estamos nas vacas magras, temos que usar as ferramentas que temos à disposição
para lutar", afirma Neto.
• Ato esvaziado no 1º de Maio reforça
possível dança das cadeiras
Somado às pesquisas
negativas ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) - que
investe centenas de milhões de reais em publicidade nos meios conservadores de
comunicação, ligados à extrema direita -, o fiasco de público na festa do Dia
do Trabalhador, em São Paulo, consolida a necessidade da mudança de cargos, no
Planalto, na tentativa de se formular uma política de Comunicação Social mais
adequada aos interesses do Partido dos Trabalhadores (PT). A constatação foi
ouvida nesta sexta-feira, nos corredores palacianos.
O ministro-chefe da
Secretaria da Presidência da República, Márcio Macedo, enfrenta desgaste no
governo© Fornecido por Correio do Brasil
O ato esvaziado,
promovido pelas centrais sindicais, reuniu não mais de 2 mil pessoas no
estacionamento da Arena Corinthians, no 1º de Maio, de acordo com cálculos da
Universidade de São Paulo (USP). O programa mal organizado causou não apenas um
mal-estar entre petistas mas, como adiantou a reportagem do Correio do Brasil,
publicada na véspera, aumentou a pressão interna por mudanças no primeiro
escalão do governo.
• Movimentos
Chamado a participar
da organização do ato, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da
República, Márcio Macêdo, foi chamado a explicar o que aconteceu para que tudo
desse tão errado. Macêdo, no entanto, diz que não cabe ao governo organizar festa
de sindicato, o que irritou segmentos do PT e, principalmente, a bancada do
partido na Câmara.
— Se tivesse sido
informado corretamente sobre a baixa expectativa de público, Lula não
precisaria ter confirmado presença — disse um dos interlocutores ouvidos pela
mídia conservadora, nesta manhã.
Márcio Macêdo (PT),
segundo especulações disseminadas por colunistas diversos, ao longo das últimas
semanas, tem sido um nome que poderia ser substituído pelo atual ministro da
Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), Paulo Pimenta.
O resultado do 1º de Maio reforça a tese de que o governo precisa melhorar sua
relação com os movimentos sociais.
• Crise sindical
A desmobilização da
classe trabalhadora, no entanto, é um sinal dos tempos que teve seu início
muito antes do ato fracassado, na capital paulista.
— Esse 1º de Maio foi
o ápice da crise que o movimento sindical atravessa nos últimos anos. Foi um
marco histórico. Para o sindicalismo, é se reinventar ou morrer — disse o
deputado Paulinho da Força (Solidariedade), presidente de honra da Força
Sindical, a jornalistas.
Na festa que não deu
certo, Lula era a atração principal e não contou com uma fração do público
esperado.
— O Lula está correto.
Temos que fazer um mea culpa de nossa incapacidade de levar mais gente —
resumiu Ricardo Patah, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT).
Fonte:
FolhaPress/Correio do Brasil

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