Uso de maconha aumenta riscos de saúde
na gravidez
Nos últimos dez anos, países como Chile, Argentina,
Uruguai, Canadá e Suíça, além de 40 estados norte-americanos, aprovaram a
legalização da maconha para distintos usos, especificando cada caso, inclusive
medicinal e recreativo. Só nos Estados Unidos (EUA), estima-se que o consumo da
substância mais do que duplicou a partir de 2010. Apesar de o uso prevalente
ser terapêutico, os efeitos da cannabis na saúde permanecem desconhecidos, por
exemplo, nas grávidas. Estudo da Universidade de Utah, nos EUA, indica que a
exposição à droga está associada a um risco 1,5 vez maior de problemas
gestacionais.
Pesquisa com mais de 9.000 grávidas dos Estados
Unidos e, segundo os pesquisadores, mediu com precisão a exposição à maconha, o
que permitiu distinguir os efeitos específicos da substância daqueles causados
por condições de saúde das gestantes. O trabalho foi publicado na revista Jama,
da Associação Norte-Americana de Medicina.
"O uso de cannabis não é seguro para
grávidas", diz Robert Silver, professor de obstetrícia e ginecologia na
Universidade de Utah e um dos autores do estudo. "Aumenta o risco de
complicações na gravidez. Se possível, você não deve usar cannabis nesse
período", recomenda.
Segundo os pesquisadores, as respostas sobre
impactos do consumo da substância na saúde são contraditórios. "Há muita
informação por aí –— canais de discussão, mídia social e sites da internet —
sobre o uso de cannabis e gravidez", destaca Torri Metz, vice-presidente
de pesquisa de obstetrícia e ginecologia da Universidade de Utah e principal
autora da pesquisa. "Acho que é difícil para os pacientes entenderem com o
que deveriam se preocupar, se é que deveriam se preocupar."
• Precisão
Estudos anteriores sobre o tema não encontraram
associação alguma entre o consumo de cannabis e as eventuais complicações na
gravidez. Um obstáculo enfrentado por essa pesquisa, diz Metz, é que existem
muitas diferenças entre as características básicas das pessoas que usam e não
usam cannabis na gestação. "Existem diferentes taxas de ansiedade e
depressão", exemplifica. Como são condições que também podem impactar nos
riscos, é mais difícil compreender as consequências relacionadas especificamente
com o uso da droga.
A grande população do estudo, incluindo
participantes de oito centros médicos nos Estados Unidos, permitiu que os
pesquisadores abordassem a questão. Os cientistas descobriram que a cannabis
estava associada a um aumento de 1,5 vez nos riscos: 26% das grávidas que
utilizaram a substância sofreram algum problema de saúde, contra 17% das que
não usaram maconha. Quanto maior o nível de exposição, mais elevada a
probabilidade de intercorrências.
Uma característica do estudo foi como os
pesquisadores mediram a exposição à cannabis. Trabalhos anteriores basearam-se
no autorrelato, o que subestimou a taxa real de consumo entre duas e três
vezes. Para evitar esse problema, agora os cientistas mediram os níveis de um
subproduto metabólico da substância nas amostras de urina das participantes, o
que forneceu medições mais precisas.
Para avaliar os impactos na gravidez, os
investigadores analisaram uma medida agregada de resultados negativos para a
saúde, incluindo baixo peso ao nascer, hipertensão arterial relacionada à
gestação, natimortos e parto prematuro por indicação médica. A cannabis
associou-se particularmente com o baixo peso.
Embora esse tipo de estudo não consiga determinar
por que a cannabis está associada a resultados negativos na gravidez, pesquisas
anteriores em primatas não humanos descobriram que a exposição prolongada à
substância pode interferir no fornecimento de sangue à placenta. Este órgão,
que se forma na gestação, leva oxigênio e nutrientes ao feto.
• Concentração
Robert Silver acrescenta que o maior risco
observado em níveis mais elevados de exposição é especialmente preocupante dada
a abundância de THC encontrado em produtos de cannabis que chegaram ao mercado
entre 2010 e 2014, quando os dados do estudo foram coletados. Os impactos na
saúde desses itens mais concentrados permanecem desconhecidos.
Os pesquisadores incentivam as pessoas que pensam
em usar cannabis durante a gravidez para terem uma conversa aberta com seu
médico. Embora as gestantes possam recorrer à substância para aliviar náuseas
ou ansiedade, outros remédios provaram ser seguros. "Há muitas razões
pelas quais as pessoas usam cannabis", diz Silver. "Mas pode haver
terapias alternativas que ajudam a mitigar os sintomas."
O pesquisador Silver enfatiza que é
"urgentemente necessária" uma investigação contínua sobre os impactos
da cannabis na saúde, para que os pacientes possam tomar decisões
bem-informados. "Enquanto os seres humanos estiverem interessados em
utilizar esse produto, devemos avaliar os efeitos para a saúde, tanto bons como
maus, com a maior precisão possível, e fornecer essa informação às
pessoas".
Fonte: Correio Braziliense

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