quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Haddad enfrenta gula do Centrão e "fogo amigo" do PT

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, enfrenta simultaneamente a gula do Centrão e o "fogo amigo" do PT. Fosse um economista como Pérsio Arida, e não um político petista "puro-sangue", calejado por administrar o terceiro maior orçamento do país como prefeito de São Paulo, já teria pegado o boné e ido embora para casa. É muito mais confortável dar aulas de ciência política ou filosofia na Universidade de São Paulo do que administrar as pressões que sofre de todos os lados da Esplanada e da Faria Lima.

A gula do Centrão é retroalimentada pela narrativa petista de que Haddad advoga um "austericídio fiscal", o mote sacado por Gleisi Hoffmann, a presidente do PT, na conferência nacional da legenda, para atacar a política econômica e responsabilizar Haddad, por antecipação, pelas dificuldades que o partido enfrentará nas eleições municipais.

"Não faz nenhum sentido, neste cenário, a pressão por arrocho fiscal exercida pelo comando do BC, rentistas e seus porta-vozes na mídia e no mercado. O Brasil precisa se libertar, urgentemente, da ditadura do BC 'independente' e do austericídio fiscal, ou não teremos como responder às necessidades do país", afirma a resolução aprovada ontem, em votação remota.

A tese não tem nada a ver com a estabilidade da economia e uma estratégia sustentável de crescimento, mas com os gastos públicos no ano eleitoral. Ou seja, o PT está contra o deficit zero porque tem expectativa de turbinar as pastas controladas pela legenda nas suas bases tradicionais nas eleições municipais.

O grande equívoco dessa estratégia é que a goela do Centrão é muito maior. É uma ilusão acreditar que a legenda, pelo mau exemplo, levará vantagem em relação aos políticos do Centrão, sem o qual o governo não tem a menor chance de aprovar suas propostas econômicas, como a reforma tributária. Ainda mais depois do ataque à política econômica e às alianças do Palácio do Planalto na resolução da conferência.

"As forças conservadoras e fisiológicas do chamado Centrão, fortalecido pela absurda norma do orçamento impositivo num regime presidencialista, exercem influência desmedida sobre o Legislativo e o Executivo, atrasando, constrangendo e até tentando deformar a agenda política vitoriosa na eleição presidencial", afirma o documento. Na votação, Gleisi e seus aliados massacraram os líderes do governo na Câmara, José Guimarães (CE), e da bancada, Zeca Dirceu (PR), por 51 votos a quatro.

·        Orçamento

O outro lado da moeda é o parecer final do relator da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2024, (PLN 4/23), deputado Danilo Forte (União-CE), que propõe a obrigatoriedade de empenho das emendas parlamentares impositivas no primeiro semestre do ano que vem. Hoje, as emendas individuais e de bancada estadual são de execução obrigatória, mas o governo é que decide quando isso é feito.

As emendas de comissões permanentes e as de bancadas estaduais deverão ser empenhadas até abril, caso o Orçamento seja sancionado no fim do ano. Ou seja, é injeção direta de recursos nas bases eleitorais. O empenho é a contratação da despesa, que deve ter recursos reservados, liquidada e paga. Pelo relatório do deputado, as transferências especiais (recursos repassados diretamente para governos de estados e municípios) para a área de saúde terão de ser pagas no primeiro semestre.

Forte explicou que a mudança é fundamental para os gestores, porque garante previsibilidade. "No primeiro semestre, a gente resolve a parte da saúde, que é a prioridade do Brasil. Com isso, você melhora a condição financeira dos entes federados. E é bom, por outro lado, porque acomoda e diminui a pressão política, que muitas vezes é condenada pelo toma lá,dá cá", disse Forte.

A saúde, como se sabe, é uma área capilarizada, com muitas instituições privadas que recebem recursos do SUS. Para distribuir "fraternamente" os eventuais contingenciamentos, um dispositivo determina que os cortes de recursos necessários à meta fiscal sejam lineares, ou seja, iguais para emendas parlamentares e demais recursos do orçamento, independentemente de prioridades.

Dispositivo proposto pelo relator determina que os cortes de recursos necessários para garantir a meta fiscal do ano sejam feitos de maneira igualitária entre emendas parlamentares e o restante das programações. "Nada melhor do que a equidade. Então, o que está colocado é que vamos ter uma condicionante. Se for fazer o contingenciamento, fazer uniforme, linear para a área de investimentos", explicou.

A emenda do senador Randolfe Rodrigues (sem partido-AP) que estabelecia um limite de contingenciamento em torno de R$ 23 bilhões para 2024, a partir de uma interpretação do novo regime fiscal (LC 200/23), foi rejeitada pelo relator. Segundo o senador, o regime assegura um crescimento mínimo das despesas de 0,6%. Segundo nota técnica da Consultoria de Orçamento da Câmara, para garantir a meta fiscal, o corte pode chegar a R$ 56 bilhões.

 

Ø  Palácio não abre mão de ordenar despesas e vai para o confronto

 

Os líderes do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (sem partido-AP), na Câmara, José Guimarães (PT-CE), descartaram, ontem, a possibilidade de aprovação de um orçamento impositivo, como proposto pelo relator do projeto da Lei das Diretrizes Orçamentárias de 2024, Danilo Forte (União-CE). Esse é um dos principais pontos de tensão no debate da LDO — que torna obrigatória a execução das emendas apresentadas pelos deputados e senadores ainda no primeiro semestre do ano.

"Não é nem a maioria do parlamento (que apoia a medida). Se for para o Legislativo ordenar a despesa, faz uma emenda parlamentarista e deixa o gabinete definir como será essa execução", desafiou Randolfe, que disse confiar que a medida não votos para ser aprovada no Congresso.

Sem utilizar o termo "orçamento impositivo", Danilo Forte quer incluiu no texto um mecanismo que condiciona a execução orçamentária ao arbítrio do Congresso — ou seja, com as emendas liberadas antes das eleições municipais do próximo ano. O Palácio do Planalto não abre mão de controlar quando liberaria e pagaria as solicitações do parlamentares e ainda que atrelá-las a projetos que fazem parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Isso não interessa aos congressistas. Afinal, sem poderem alocar os recursos onde pretendem — como forma de propagandear seus mandatos junto aos eleitores —, ainda veriam seus projetos atrelados a uma das principais marcas do governo federal, o PAC — reforçando o marketing eleitoral do Palácio do Planalto.

À saída de uma reunião, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de alinhamento para as votações estratégicas — da qual participou ainda o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA) — Randolfe e Guimarães reforçaram que a expectativa é de votar e aprovar tudo nesta e na próxima semana.

Segundo os líderes, a medida mais importante para o governo na agenda de votações no Parlamento é a Medida Provisória 1.185. "De todas as medidas que teremos nesta semana, é decisiva", disse Randolfe, que a apontou como fundamental para alcançar o deficit fiscal zero em 2024.

A medida é estratégia para o governo, pois, segundo os cálculos do Ministério da Fazenda, representará uma ampliação na arrecadação na ordem de R$ 35 bilhões aos cofres da União em 2024. O projeto exclui do cálculo dos tributos federais benefícios fiscais concedidos pelos estados.

·        Sem calote

Já o ministro de Relações Institucionais, Alexandre Padilha, afirmou, também ontem, que o governo pagará até o final do ano 100% do valor das emendas individuais de transferência especial empenhadas. Conforme disse, o orçamento deste ano prevê um total de R$ 7,6 bilhões para esse instrumento.

A garantia foi dada em resposta ao questionamento de que líderes estariam reclamando da liberação de verbas pelo Planalto, o que colocaria em risco a votação de pautas de interesse do governo. "Temos um balanço que mostra o crescimento de restos a pagar deixados no governo Bolsonaro. Em relação às emendas individuais de transferência especial, no ano passado, o governo só pagou a metade do valor. São R$ 7,6 bilhões que colocamos no Orçamento. Não vamos deixar nenhum calote", afirmou, após reunião com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

 

Fonte: Por Luiz Carlos Azedo, no Correio Braziliense/Agencia Estado

 

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