quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

RJ enfrenta círculo vicioso em sua segurança com políticas baseadas em achismos, apontam analistas

Um levantamento divulgado pelo Instituto Fogo Cruzado reafirma uma realidade conhecida dos moradores do Rio de Janeiro sobre a segurança pública da cidade. Sua força policial é uma das que mais mata no Brasil, mas, ao mesmo tempo, é uma das que mais morre.

O tema foi debatido no episódio desta quarta-feira (13) do Jabuticaba Sem Caroço, podcast da Sputnik Brasil apresentado pelos jornalistas Thaiana de Oliveira e Maurício Bastos.

Nos últimos sete anos, aponta Maria Isabel Couto, diretora de dados e transparência do Instituto Fogo Cruzado, foram registradas 283 chacinas policiais no Rio, que resultaram em 1.137 mortos. "Estamos falando de três cachinas policiais por semana. Não dá pra dizer que isso é a exceção, isso é cotidiano, faz parte da política pública de segurança do Rio de Janeiro", afirmou.

Ao mesmo tempo, os dados do Instituto apontam que os policiais também são grandes vítimas dessa política de segurança pública. No mesmo período de sete anos, houve um total de 1.690 agentes de segurança baleados, sendo 646 mortos, uma média de um a cada quatro dias. Destes, 137 foram mortos em serviços. "Esse é um dos efeitos da lógica do confronto adotada pelo estado do Rio de Janeiro", afirmou.

"Só que 80% deles estão mortos fora de serviço e não em serviço. Nesse ponto, a gente percebe que a lógica de vitimização policial não é uma lógica do serviço policial necessariamente em si."

·        Repensando a segurança pública do Rio

"É claro que ninguém, nenhuma sociedade, deveria tolerar esse tipo, esses níveis de violência", afirma Robson Rodrigues, antropólogo, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e coronel da reserva da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.

Para o especialista, o problema da segurança pública do Rio de Janeiro existe por um acúmulo de fatores, que vão desde problemas econômicos, sociais, a erros na mentalidade do sistema de segurança pública e justiça criminal.

"Você tem uma série de questões que vão alimentar uma criminalidade e você vai ter uma incapacidade do Estado controlar de uma forma inteligente, racional, esse tipo de criminalidade."

Para Rodrigues, é preciso analisar tudo isso em conjunto, para só então "propor políticas mais acertadas respeitando os direitos humanos e qualificando".

É preciso entender "que o policial não é uma máquina, embora muitas vezes a própria polícia vai maquinizar o homem dentro de um etos militar, de um etos guerreiro, que em outras palavras é a brutalização do seu próprio integrante."

"Então é uma tragédia social, dadas essas características, todas essas complexidades e dada também a incapacidade do governo propor políticas mais saudáveis do ponto de vista não só físico, material, psicológico, mas também mais saudáveis socialmente falando, e mais eficientes."

Nesse sentido, de propor melhores políticas de combate ao crime, Couto ressalta a importância dos dados colhidos pelo Instituto Fogo Cruzado. "Se a gente não tem informação, a gente faz uma política pública no escuro, a gente faz uma política pública baseada em achismos, baseada em negacionismos", afirmou.

A diretora de dados e transparência criticou o governo do estado do Rio de Janeiro por não reconhecer esses dados e, por isso "não conversa com as várias organizações da sociedade civil que estão produzindo dados de qualidade no Rio de Janeiro para pensar em como qualificar a sua própria produção de dados para fazer política baseada em evidências e tirar as pessoas da linha de tiro".

"É preciso cobrar das nossas instituições, dos nossos governantes, para que proponham políticas mais criativas, mais acertadas", resumiu Rodrigues.

Nesse sentido, Paulo Storani, mestre em antropologia social pela Universidade Federal Fluminense e capitão veterano do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, destaca o retorno da Secretaria de Segurança Pública como uma boa notícia, uma vez que ela representa uma coordenação entre as forças policiais Civil e Militar do Rio de Janeiro.

O capitão, no entanto, ressalta que esse é apenas o primeiro passo para uma maior coordenação na segurança pública fluminense.

"Essa integração depende muito da forma como o secretário de Polícia Militar e de Polícia Civil conversam entre si, começa lá em cima e com os órgãos ali abaixo deles, nós estamos falando de comandos intermediários, de comandos de unidade, quer seja uma delegacia, quer seja um batalhão, de como eles interagem entre si para atender a população."

"Quando você integra, você tem ali um nível de gestão, no caso, um secretário, para gerenciar também esses conflitos", diz Storani.

 

Ø  Lula promulga nova lei nacional das polícias militares e corpos de bombeiros

 

Na terça-feira (12) foi promulgada a Lei nº 14.751, que estabelece novas diretrizes para as polícias militares e os corpos de bombeiros militares dos estados brasileiros. O texto padroniza a legislação relativa às corporações, definindo as competências de cada uma.

Entre os seus dispositivos, mantém tais órgãos subordinados aos governadores e determina que a organização desses órgãos deve ser fixada em lei de iniciativa privativa do governo, observadas as normas gerais das Forças Armadas.

Entre os principais pontos está o estabelecimento da participação social e a transparência, por meio de diálogo com a sociedade e da nomeação de representantes.

Além disso, a lei traz 31 garantias aos ocupantes dos cargos da ativa, da reserva remunerada e aos reformados (aposentados).

Entre elas o uso privativo de uniformes, insígnias e distintivos das respectivas instituições; o livre porte de arma na ativa, na reserva remunerada e na reforma; a prisão criminal ou civil em unidade prisional militar, antes de decisão com trânsito em julgado e enquanto não perder o posto e a patente ou graduação; a assistência médica, psicológica, odontológica e social, para o militar e dependentes; e a estabilidade dos militares de carreira após três anos de serviço.

Outro ponto é que para ingressar nas corporações o candidato não pode ter antecedentes penais dolosos incompatíveis com a atividade, conforme legislação de cada ente. Também não pode ter tatuagens que façam alusão a suásticas, obscenidades e ideologias terroristas ou que façam apologia à violência, às drogas ilícitas ou à discriminação de raça, credo, sexo ou origem.

Segundo a lei, agentes de segurança pública devem fazer uso comedido e proporcional da força, pautada nos documentos internacionais de proteção aos direitos humanos de que o Brasil seja signatário.

A lei estabelece ainda que as armas de fogo institucionais das polícias militares e dos corpos de bombeiros militares, bem como as armas particulares de seus integrantes, serão cadastradas no Sistema de Gerenciamento Militar de Armas (Sigma).

Além disso, haverá adoção do requisito de escolaridade para ingresso na instituição militar, a ser processada em até seis anos.

A lei também prevê a realização de coleta, busca e análise de dados sobre a criminalidade e infrações administrativas, destinadas a orientar o planejamento e a execução das atribuições das polícias militares e dos corpos de bombeiros.

Por fim, a instituição poderá optar por formar o militar em curso de formação de educação superior, concedendo-lhe o requisito para ingresso previsto na lei.

 

Ø  PF investiga produtor musical de conteúdo nazista após ataque hacker à conta de Janja

 

Uma operação da Polícia Federal (PF) tem como alvo suspeitos de invadirem a conta da primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, no X, e um dos envolvidos é um produtor musical de conteúdo de viés nazista, misógino e racista.

Morador de Ribeirão das Neves (MG), João Vítor Corrêa Ferreira, de 25 anos, produz conteúdo on-line sob a alcunha de "Maníaco" em plataformas como YouTube, Deezer e Facebook (a última é proibida na Rússia por extremismo).

No Spotify, é classificado como "artista verificado", com 4,4 mil ouvintes mensais e quatro álbuns, que contêm letras que defendem ideais nazistas, racistas e violentos.

Um dos álbuns apresenta o lema de separatistas da região Sul, defendendo a pureza da raça ariana, seguindo a mesma linha ideológica que embasou as políticas de Adolf Hitler na Alemanha nazista.

O conteúdo faz apologia à violência de gênero, ataca minorias étnicas e associa religiões de matriz africana, nordestinos, negros e a África à pobreza.

A conta no Spotify, que possuía músicas como "Mulher gosta de porrada" e "Macumba", todas de teor ofensivo, foi removida, conforme publicou o jornal O Globo nesta quarta-feira (13).

A empresa anunciou que suas regras de plataforma não permitem conteúdo que promova extremismo violento, violência ou ódio contra grupos de pessoas com base no sexo.

·        Ataque hacker a Janja

O perfil de Janja no X foi invadido na noite da segunda-feira (11), com a primeira-dama tendo sido alvo de xingamentos e ofensas. O anúncio do ataque foi feito publicamente às 21h37. Embora a PF tenha agido e a plataforma também tenha sido acionada, as mensagens ofensivas foram deletadas cerca de uma hora depois.

A corporação conduziu quatro mandados de busca e apreensão na terça-feira (12) para investigar o caso, sendo um deles na residência de João Vítor Corrêa Ferreira.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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