Por que muitos dizem ser impossível "eliminar" o Hamas
Israel já
deixou claro seu objetivo. O grupo fundamentalista islâmicoHamas deve ser
"eliminado", segundo afirmaram vários membros do alto escalonamento
do governo, inclusive o primeiro-ministro do país, . Benjamin
Netanyahu
Slogans como "juntos venceremos" são
exibidos com regularidade em algumas emissoras israelenses. Mas, seria mesmo
possível eliminar o Hamas e
"vencer" em uma situação como essa? A resposta que vem sendo repetida
pelos especialistas é bastante simples e direta: não.
Israel vem bombardeando a Faixa de
Gaza, onde vivem mais de dois milhões de pessoas, desde os ataques do
Hamas em 7 de outubro em solo israelense. O grupo é considerado uma organização
terrorista por Israel, pela União
Europeia (UE), Estados Unidos, Alemanha e vários outros países.
Os israelenses também realizaram uma ofensiva
terrestre em Gaza e impõem um bloqueio<
a i=4> ao fornecido de alimentos, água e energia elétrica ao enclave.
Mas, apesar de tudo isso, os analistas dizem que
será impossível erradicar o Hamas como um todo. A razão principal disso é o
fato do Hamas ser mais do que apenas uma organização militante.
·
Hamas como movimento social
O grupo possui entre 20 mil e 30 mil combatentes,
afirmou à DW Guido Steinberg, especialista em Oriente Médio do Instituto Alemão
de Assuntos Internacionais e de Segurança (Stiftung Wissenschaft und Politik,
ou SWP, em alemão). Ele, no entanto, acrescentou que a organização “é também um
movimento social com apoio massivo na Faixa de
Gaza. Esse é o problema no longo prazo".
O Hamas controla Gaza desde 2007. Como parte do seu
movimento social, há uma rede de bem-estar social conhecida como Dawah.
Estima-se que essa rede civil tenha entre 80 mil e 90 mil integrantes.
O termo Dawah significa
"chamado" ou "convite", e se define historicamente como um
meio de chamar ou convidar um número maior de adeptos para a sua fé através da
assistência social, segundo o Dicionário
de Oxford para o Islã (link em inglês).
Israel "adoraria erradicar o Hamas como
instituição, como estrutura religiosa, cultural e militar", afirmou Rashid
Khalidi, professor de estudos árabes modernos na Universidade de Columbia, nos
Estados Unidos, ao jornal espanhol < a i=1>El País, em entrevista
recente.
"Não acho que conseguirão atingir as duas
primeiras coisas", avaliou. "Mesmo se matarem todos os líderes, se
matarem todos os militantes armados, o Hamas continuará sendo uma força
política, independentemente de os israelenses ocuparem Gaza ou se saírem.
Nesse contexto, destruir o Hamas como instituição política, destruir o Hamas
como ideia, é impossível."
O Hamas não autoriza o Estado de Israel. O grupo
acredita que uma religião deve ser baseada em qualquer governo palestino. No
entanto, é provavelmente a sua posição autodeclarada como movimento de
resistência e oposição à ocupação israelense nos territórios
palestinos e na Faixa de Gaza que o torna mais popular.< /span>
Khalidi, porém, informou que o que os israelenses
poderão estar aptos a fazer é degradar as capacidades militares do Hamas,
"mas apenas em extensão e período limitados".
·
Destruir o potencial militar do Hamas
Israel possui uma das Forças Armadas mais poderosas
do mundo, ficando em 18º lugar entre 145 países em 2023, segundo o ranking
anual de poder militar Global Firepower. A
Alemanha, por exemplo, está na 25ª posição. O Instituto Internacional de
Pesquisa da Paz de Estocolmo (Sipri) relatou que,
no ano passado, Israel gastou 4,5% de seu orçamento nacional em defesa –
percentual superior aos Estados Unidos e Alemanha, que gastaram 3,5% e 1,4%,
respectivamente.
Ao mesmo tempo, o braço
armado do Hamas opera mais como uma guerrilha, contrabandeando a maior parte de
seus armamentos para a Faixa de Gaza.
Israel, dessa forma, possui recursos necessários
para causar danos consideráveis ao Hamas e
caçar seus líderes. Apesar de os números não poderem ser verificados de maneira independente,
o governo israelense afirmou recentemente ter matado entre 5 mil e 7 mil
combatentes do Hamas.
Se isso for verdade, pode ser considerado um
sucesso parcial, uma vez que o enfraquecimento do Hamas poderia, dessa forma,
ter sido melhor do que o esperado. "Algumas autoridades ocidentais
acreditam que uma intervenção israelense, até o momento, em combinação com o
reforço na segurança de fronteira, já assegurou que o Hamas não conseguirá
lançar outro ataque como o de 7 de outubro", escreveram na semana passada
os especialistas do Grupo de Crise Internacional (ICS).
"Assim como fez após os conflitos com Israel
em 2009, 2012, 2014 e 2021, o Hamas irá quase certamente se rearmar e
restaurar", afirma Dennis Ross, ex-enviado dos EUA ao Oriente Médio, em
artigo publicado no jornal The New York Times no final de
outubro. Ele explicou que é justamente por isso que é contra um cessar-fogo até
que o Hamas seja removido do poder.
·
Dificuldade em derrotar guerrilhas
Ao mesmo tempo, poucos Exércitos Nacionais visam
derrotar organizações guerrilheiras de maneira decisiva no passado.
Exemplos mal sucedidos incluem os esforços
americanos contra o Talibã, no Afeganistão e grupos insurgentes no Iraque. A
vitória do governo do Sri Lanka contra
o grupo separatista Tigres de Tâmil na guerra civil que assolou o país é com
frequência referida como um caso no qual um Exército conseguiu sair vencedor.
Mas, saiba-se que essa vitória custou ao país 26
anos de guerra, com vítimas entre 80 mil e 100 mil e potenciais crimes de
guerra cometidos pelos dois lados.
Na verdade, em algumas situações em que as
capacidades de um grupo insurgente foram danificadas, mas não erradicadas, esse
grupo ressurgiu na forma de organização extremista. Um exemplo disso é o
chamado “Estado Islâmico”, que surgiu a partir de remanescentes da Al Qaeda.
Israel nunca conseguiu derrotar o Hamas de maneira
conclusiva, apesar de assassinar vários de
seus líderes, incluindo dois fundadores do grupo.
·
Como assassinar uma ideia?
"O Exército [israelense] pode fazer o melhor
que conseguir. Eles bem podem eliminar os líderes; podem destruir as
instalações de lançamento de mísseis", observa Justin Crump, especialista
em terrorismo que lidera a consultoria em inteligência global e análise de
risco Sibylline Ltd. "Mas não eliminarão a ideia do Hamas."
Destruir o Hamas através de meios militares é algo
que não faz sentido, disse Crump à DW, porque “enquanto alguns cidadãos de Gaza
se voltam contra o Hamas, outros passam a simpatizar com o Hamas. Eles ficarão
ressentidos com Israel por essas ações, o que alimentará o ciclo [de violência]
como sempre ocorreu – a não ser que haja uma mudança muito grande ao final
disso tudo”.
"Depois de dois meses de intensas operações
israelenses, está claro que erradicar o Hamas, mesmo como força de combate,
será um desafio enorme, e o impulso para conseguir fazê-lo destruir o que
sobrou de Gaza", afirmou um relatório do think
tank International Crisis Group publicado em 9 de dezembro .
Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado
pelo Hamas, mais de 18 mil pessoas morreram nos ataques israelenses e mais de
49,5 mil morreram em apenas dois meses.
Estima-se que 61% das mortes sejam de civis,
segundo uma análise de Yagil Levy, professor de sociologia da Universidade
Aberta de Israel, citada pelo jornal israelense Haaretz. Ele diz
que mais da metade dos edifícios de Gaza foram destruídos, e 90% da população
está desabrigada.
"Netanyahu alega que a destruição do Hamas
permitirá a 'desradicalização' de Gaza, mas o mais provável é o contrário
disso", escreveram os especialistas do ICS. "A campanha atual e suas
consequências produzirão formas novas e talvez ainda mais ousadas de
militância."
Ø O apelo por
Estado palestino de bilionário israelense que teve filha morta em ataque do
Hamas
Danielle Waldman dançou a última dança de sua breve
vida pouco antes do amanhecer de 7 de outubro. Logo depois, ela e seus amigos
tiveram que fugir para tentar se salvar, mas nunca conseguiram voltar para
casa.
Há um registro de seus momentos finais – um breve
vídeo, gravado em um telefone. Dá apenas pistas dos horrores que estão por vir.
A jovem de 24 anos está sentada no banco de trás de
um carro com dois amigos – mechas de seu longo cabelo encaracolado escapam de
seu moletom cinza. Os três estão vestidos de forma casual.
Há sorrisos fugazes e vozes sobrepostas, e um
vislumbre de pulseiras azuis do festival de
música trance Supernova Universo Paralello ao qual acabavam de
comparecer.
Eles estão tentando manter a calma, mas estão
sendo caçados.
O namorado de Danielle, Noam Shai, está na frente,
ao volante.
"Quer que eu dirija muito, muito
rápido?", ele pergunta. "Eu sei como fazer isso."
"Correto", responde uma passageira. Um
jovem barbudo sentado ao lado de Danielle tenta tranquilizá-la. "Vamos
ficar bem", diz ele. "Está tudo bem, certo?"
A seguir, da frente, uma demanda urgente –
"esquerda ou direita?"
Então o vídeo termina.
Minutos depois, homens armados do Hamas crivaram o
carro de balas.
Noam, Danielle e seus amigos no banco de trás foram
mortos – assim como quase 360 outros israelenses que foram dançar no festival
no deserto de Negev, perto da fronteira de Gaza.
O passageiro do banco da frente foi feito refém.
Quando o sol se pôs naquele dia, 1.200 israelenses
foram massacrados – seja no festival ou em suas casas em kibutzim perto da
fronteira. Foi a pior
perda de vidas judaicas num único dia desde o Holocausto. A grande
maioria eram civis.
Desde então, Israel entrou em guerra em Gaza
"para erradicar o Hamas", e os palestinos, por sua vez, têm sido
massacrados.
Quase 18 mil pessoas já foram mortas na última
contagem, 7.300 delas crianças, de acordo com o Ministério da Saúde
administrado pelo Hamas em Gaza.
Em Gaza agora, tal como em Israel depois de 7 de
outubro, pais estão enterrando seus filhos. E para cada pai, palestino ou
israelense, a perda é irreparável.
Encontramos o pai de Danielle, Eyal, em seu
escritório repleto de arte, num andar alto em Tel Aviv.
Ele é um gigante da tecnologia – fundou a
fabricante israelense de chips Mellanox Technologies e vendeu a empresa por US$
6,8 bilhões (R$ 33,4 bilhões) em 2019.
Mas agora, é simplesmente um pai, devastado pela
dor, sentindo a ausência de sua filha mais nova.
"Ela era uma garota incrível", diz ele
com uma voz carregada de amor e tristeza.
"Adorava dançar. Amava os animais. Amava as
pessoas. Tinha muitos, muitos amigos. Adorava praticar snowboard, mergulhar,
andar de moto com Noam."
Quando soube que Danielle estava desaparecida, ele
voltou correndo de uma viagem à Indonésia – obtendo permissão para pousar em
Israel, mesmo com o espaço aéreo fechado. Três horas depois, foi procurá-la,
rastreando o relógio digital dela. Foi uma jornada por um campo de batalha.
"Estávamos perto de um confronto com sete
terroristas, criaturas, chame-os como quiser”, diz ele.
"Eles mataram três ou quatro soldados. Depois
disso, pegamos três oficiais num jipe e descemos para o sul."
Ele encontrou o carro crivado de balas, mas não
havia sinal de Danielle.
"Havia muito sangue dentro do carro", diz
ele. "Eu tinha esperança de que ela não estivesse no carro, ou que
estivesse ferida, mas tivesse conseguido escapar, ou que tivesse sido feita
refém."
Dois dias depois, o corpo dela foi encontrado.
"Tudo o que ela tocava era com um sorriso. Ela
nunca fazia nada de errado com ninguém", diz ele, sufocando as lágrimas.
"Ela adorava fazer coisas boas. E eles [o Hamas] simplesmente a
assassinaram sem motivo."
Apesar do assassinato brutal da sua filha mais
nova, Eyal Waldman ainda acredita que os palestinos deveriam ter um Estado – e
logo.
"Precisamos
mudar a liderança de ambos os lados. E então espero que dentro de
dois a quatro anos seremos capazes de fazer a paz e construir dois Estados para
os dois povos e seremos capazes de viver juntos uns ao lado dos outros",
diz ele.
Mas antes disso, ele quer outra coisa.
"Qualquer responsável, qualquer pessoa
associada ao que aconteceu em 7 de outubro de 2023, será eliminada. E nós
cuidaremos disso", afirma com firmeza.
"Sabemos exatamente quem veio, quem estuprou,
quem matou. Temos vídeos, temos seus números de celular. Sabemos quem são.
Podemos eliminá-los. E acho que podemos eliminar o Hamas."
O ex-oficial do exército israelense sabe como
travar a guerra. Ele serviu em uma unidade de elite – a Brigada Golani.
Ele também sabe como construir pontes. No passado,
abriu um centro de design em Gaza, doou US$ 360 mil (R$ 1,8 milhão) a um
hospital na região e criou empregos para palestinos tanto na Faixa de Gaza,
como na Cisjordânia.
Ele se arrepende disso agora?
"Não, não me arrependo", ele responde sem
hesitação. "Acho que precisamos fazer tudo o que pudermos para tornar este
lugar o melhor lugar para se viver."
“E precisamos parar de nos matar e encontrar uma
maneira de viver juntos. Tenho trabalhado há duas décadas e meia tentando
construir a paz."
Apenas 10 dias antes de Danielle ser morta, ela
estava conversando com o pai sobre o futuro.
"Ela disse 'sabe, pai, decidi que vou me casar
com Noam'", lembra ele. "Eles estavam juntos há seis anos, e era uma
amizade e parceria incrível. Eles iriam morar no campo, criando os filhos. Ela
queria muitos filhos e muitos cachorros e cavalos."
O jovem casal apaixonado – que nunca teve a
oportunidade de se casar – foi enterrado junto.
Fonte: Deutsche
Welle/BBC News Brasil

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