Paulo Silveira: Psicoterapia Corporal
em Grupo
1.
Psicoterapia a Dois e Psicoterapia em Grupo
"Minha reivindicação é a de que, se existe
necessidade desse enunciado duplo, há também a de um triplo: a terceira parte
da vida de um ser humano, parte que não podemos ignorar, constitui uma área
intermediária de experimentação, para a qual contribuem tanto a realidade
interna quanto a vida externa. Trata-se de uma área que não é disputada, porque
nenhuma reivindicação é feita em seu nome, exceto que ela exista como lugar de
repouso para o indivíduo empenhado na perpétua tarefa humana de manter as
realidades interna e externa separadas, ainda que inter-relacionadas." ( )
Com frequência, quando pensamos em psicoterapia, a
associamos à prática a dois. Por vários motivos, criou-se uma mítica de que a
psicoterapia em grupo seria menos produtiva, por ser superficial.
Nesse momento especial que estamos saindo da
pandemia da COVID 19, dezembro de 2023, e com isso tomando cada vez mais
consciência do quanto é FUNDAMENTAL o convívio com o que noscerca, acredito que
repensar os nossos processos de autoconhecimento é imprescindível.
Existem inúmeras técnicas de psicoterapia e,
obviamente, cada uma tem seus princípios e metodologias que as distinguem umas
das outras, fazendo com que sejam mais eficazes de acordo com as
características e os momentos vividos tanto do psicoterapeuta como a dos
pacientes (suas origens, sua cultura, sua procura, seu caráter, o momento que é
vivido etc).
Nesse sentido, a psicoterapia corporal em grupo não
é o remédio para todos os males assim como nenhuma outra o é.
O que devemos fazer é observar as potências de cada
uma das ferramentas que essas técnicas nos oferecem e escolher aquela que
melhor se adequa ao nosso momento.
Em minha atuação como psicoterapeuta, vivencio
junto com meus pacientes resultados estimulantes muito estimulantes, onde
mesclamos sessões de terapia em grupo com a dois.
Para mim, a maior diferença entre essas duas forma
de trabalho, era que enquanto na individual o outro é simbólico, na em grupo
ele é real, se transformando em símbolos no decorrer do trabalho de acordo com
o desenrolar do processo da transferência, mas sempre tendo a possibilidade de
ser diferenciado o simbólico do real. É exatamente através desse processo que
cada um vai podendo perceber o quanto sua vida está contaminada por símbolos
pertinentes a outras vivências de suas vidas, possibilitando assim, se libertarem
deles, passando a ter uma vida mais livre e, consequentemente, mais feliz.
2. Quanto ao Público
Conforme coloquei anteriormente, cada caso é um
caso, e assim deve ser tratado. Não acredito em fórmulas prontas para se lidar
com absolutamente nada, principalmente com o que tem vida própria, como o ser
humano. É necessário que se estabeleça a relação, para que possamos compreender
o desejo do outro, e, a partir daí, saibamos como melhor ajudá-lo a realizá-lo.
Salvo psicóticos em surto, não vejo nenhuma contraindicação para o trabalho em
grupo.
Seja qual for a idade, opção sexual ou patologia,
acredito que o trabalho em grupo tem muito a contribuir, desde que o terapeuta
avalie caso a caso e escolha qual o melhor método para o seu paciente naquele
momento de suas vidas.
Tive a oportunidade de acompanhar dois
adolescentes, que fizeram terapia individual durante um tempo e depois passaram
para grupo. O trabalho, bem administrado pelos terapeutas, foi muito útil para
ambos.
Quanto a mim, realizava esse trabalho com pessoas
com as mais diferentes características e o resultado tem sido bastante
satisfatório.
Acho necessário que se inicie o processo
terapêutico com a terapia a dois para que se construa o vínculo entre o
terapeuta e o paciente e o terapeuta possa conhecer melhor o seu paciente,
esperando o momento mais adequado para o ingresso em um grupo. Através desse
conhecimento adquirido, o terapeuta poderá escolher o grupo mais adequado para
o ingresso dessa pessoa.
Raros são os que se predispõem a fazer terapia em
grupo. Normalmente existe uma resistência enorme. Mas quem consegue ultrapassar
os seis primeiros meses da terapia em grupo, têm preferido a ela do que a
terapia a dois.
"A vitória da escola sobre o professor
particular é uma história muito antiga e já hoje muito definida. Costumo dizer
que até a rainha da Inglaterra manda seus filhos para o colégio. Educação é uma
atividade grupal e coletiva. E não vejo por que não se deva pensar assim em
termos de psicanálise. Considero que quando uma pessoa me procura, interessada
em fazer psicanálise, a questão é: haverá algum motivo para que essa pessoa não
possa participar de um grupo psicanalítico? Entendo que algumas pessoas precisam
ser "curadas" das dificuldades que porventura tenham, para poderem
entrar num grupo. Neste sentido, entrar num grupo torna-se um dos objetivos da
análise individual. " ( )
3. Consciência: Teoria e Prática
Na psicoterapia a dois o paciente adquiri
consciência a seu respeito. A questão está, em como administrar essa
consciência adquirida.
Frequentemente, tenho recebido pacientes capazes de
discursar horas seguidas a seu respeito, dando todas as explicações
"corretas" do porquê de suas dificuldades. São phd de si mesmos, mas
infelizes.
Discordo de quem pensa que uma vez que tenhamos
compreendido algo, o passo seguinte é a sua realização. Não é por se conhecer a
teoria de como andar de bicicleta, que podemos subir em uma e sair pedalando. É
necessário que exista uma etapa intermediária onde possamos aprender a
realizar.
Muitos argumentam que o espaço psicoterapêutico
teria como finalidade exclusiva o de conscientizar o indivíduo. Concordo que
essa é a finalidade, mas não a única. De que vale a consciência (caminhar com a
ciência, com a sabedoria) se não é possível exercê-la?
E será que existe uma sabedoria de fato que não se
precise da própria vida para apreendê-la?
"Amar só se aprende amando." Nos chama
atenção nosso poeta Carlos Drumond de Andrade( ).
A prática do convívio em grupos, que era tão comum
aos nossos antepassados, se tornou distante no nosso dia a dia. Essa ausência
nos trouxe a solidão e a dificuldade em estabelecermos limites quando estamos
em grupo, seja para nós mesmos, seja para terceiros, contribuindo para o
conflito entre desejo e medo, resultando na criação de neuroses, o que irá
dificultar ainda mais a vivência do prazer.
A possibilidade de fazermos psicoterapia em grupo,
nos permite resgatar o convívio tribal, da horda, nos levando com isso para
mais perto de nossa realidade da vida. Nesse tipo de terapia, na medida em que
o indivíduo vai conquistando consciência a seu respeito, ele vai também podendo
praticá-la.
Não é necessário nada além do fato de
estarmos em grupo para que essa prática ocorra. Quando estamos em grupo,
estamos nos expondo durante todo tempo, até mesmo com o nosso silêncio, para
pessoas que não têm outro compromisso conosco que não o psicoterapêutico, o que
as permite expressar-se livremente.
4. A VIVÊNCIA TERAPÊUTICA
Enquanto na terapia individual o material a ser
trabalhado são vivências externas a terapia, salvo as decorrente do processo de
transferência com o terapeuta, na terapia em grupo temos a possibilidade de
trabalhar vivencias decorrentes da relação com o restante do grupo. Não estou
nem me referindo a transferência, do que trataremos mais tarde. Falo de
situações vivenciais e comportamentais mesmo.
Numa terapia em grupo fica fácil percebermos como
procedemos quando estamos tristes, ou alegres, ou com raiva, ou nos sentindo
fracos, ou seja, podemos nos perceber em diferentes situações de vida, uma vez
que no grupo cria-se uma microssociedade.
Um exemplo clássico foi o de um homem com quarenta
anos, divorciado, pai de uma adolescente, com dois metros de altura e bastante
forte, com mãos grandes e fortes também, embora extremamente doce e carinhoso.
Sua queixa era que as mulheres não suportavam seus carinhos.
Durante o nosso trabalho individual pude perceber
que o seu contato com seu corpo era mínimo, a ponto de se definir como um homem
grande, porém fraco! Devido a sua rigidez corporal, para fazer massagens nele,
tinha que usar meus pés e dependendo da região de seu corpo, era necessário
fazer muita força com meus calcanhares. Cada vez que tentava alertá-lo para a
questão do seu contato corporal, ele reagia violentamente falando a seguinte
frase: "Lá vem você com o psicologes".
Depois de algum tempo de trabalho individual, ele
se interessou em participar de um grupo. Logo, em uma das suas primeiras
sessões em grupo, uma mulher que estava sentada ao seu lado começou a chorar
compulsivamente e ele, na tentativa de consolá-la, começou a fazer
"carinho" com a mão em uma das pernas da mulher, repetindo a seguinte
frase: "Não chora, não." De repente a mulher fez um gesto brusco com
a perna, mudando-a de posição e olhando para ele, perguntou-lhe com uma enorme
agressividade: "Porque você está me batendo." Antes que qualquer um
pudesse esboçar uma reação, ela levantou suas saias e mostrou a placa vermelha
que existia no lugar onde estava sendo feito o suposto carinho. O espanto do
homem foi tanto que ele ficou petrificado por uns instantes. A partir daquele
dia pudemos nos aprofundar a respeito da falta de contato corporal, pois a
questão da aceitação de seu carinho ficou "resolvida".
5. OS "CO-TERAPEUTAS"
Existe uma forte tendência dos integrantes do grupo
quererem atuar, eventualmente, como psicoterapeutas dos outros integrantes.
Essa atuação pode ser motivada pelo lícito desejo de ajudar ao outro, ou por
uma questão de disputa de poder ou para poder se esconder, ou mesmo uma mistura
de mais de um desses fatores. É preciso saber diferenciar cada uma delas.
Antes de mais nada, é importante que todos no grupo
tenham a consciência que estão ali para atender a uma necessidade deles
próprios e, portanto, o compromisso principal de cada um deles é se
cuidar.
Até por não acreditar, não levo em consideração o
fato de alguém querer fazer algo visando somente o bem-estar alheio, sem ter
nenhum interesse no que acontece. Assim, sempre que acontecia uma atitude de
alguém em prol do outro que merecesse destaque, eu retornava, ao final de tudo,
ao agente realizador e trabalhava com ele como tinha se sentido, o que havia
conquistado naquela vivência, etc.
Essa foi uma das maneiras que encontrei para
denunciar a questão dos “co-terapeutas”, destinando a essa característica da
terapia em grupo um espaço condizente com a sua importância momentânea.
Uma outra questão importante nesse tipo de atuação
é que na maioria das vezes, essa ação é feita ou na transferência ou na
identificação entre os participantes dos grupos.
Caso o psicoterapeuta fique atento, observará o
surgimento de um enorme material a ser trabalhado. Costumo resumir essas
situações com um provérbio:
"A gente ensina melhor aquilo que mais quer
aprender."
É necessário, que no momento em que o
psicoterapeuta for apontar e trabalhar essa situação transferencial, o faça com
o maior cuidado. Primeiro para não invalidar o que foi dito e vivido, pois
embora exista a transferência, não foi dito nem vivido à toa. Segundo, porque
essa troca de experiências é riquíssima, e se não se tiver muito cuidado,
pode-se inibi-la. Terceiro, para que o psicoterapeuta não fique na posição de
"eu sei e o resto do grupo não sabe". Lembrem-se que esse é um espaço
psicoterapêutico e os conceitos de "certo e errado" são o que menos
importam!
Com muito cuidado e no momento certo poderemos
resgatar essa passagem, trazendo à tona um material riquíssimo para ser
trabalhado. Muitas vezes já me utilizei do recurso do psicodrama, onde inverto
a situação dos pacientes em relação a vivência anterior ou solicito a dois
outros integrantes para ocuparem os respectivos lugares.
Essas situações têm possibilitado belos trabalhos,
especialmente um dos mais bonitos que vivenciei.
Em um grupo formado por atores de teatro, onde
haviam dois homens e duas mulheres, sendo todos eles com idades em torno dos
trinta anos, bonitos fisicamente, muito inteligentes e criativos.
Durante o processo terapêutico, os integrantes do
grupo foram percebendo que expressavam suas emoções, de uma forma dissimulada,
através de seus personagens, quando estavam trabalhando. Resolveram fazer a
experiência inversa, ou seja, a de montar os personagens a partir de suas
vivências reais.
A cada situação ali experimentada, trabalhávamo-la
em pequenos psicodramas. A partir daí o processo ficou extremamente rico, com
todos no grupo de surpreendendo com suas próprias descobertas.
Esse trabalho foi tão forte, que dali surgiram uma
peça de teatro encenada em espaço público, a construção de uma proposta de
trabalho teatral (depois premiada em um festival) e um work shop com outros
pacientes meus, onde dois integrantes desse grupo atuaram como coterapeutas,
intencionalmente.
Esse work shop aconteceu em um fim de semana e só
não se repetiu porque os meus “coterapeutas” perceberam que não queriam atuar
como psicoterapeutas.
6. O SOFRIMENTO ALHEIO
A permanente exposição do paciente no grupo, nos
traz uma questão séria e que não tem solução. É o fato de um paciente ver outro
paciente sendo trabalhado e, muitas vezes, tendo como decorrência a exposição
de um sofrimento. Isso cria uma série de fantasias nos outros participantes do
grupo, o que só contribue para aumentar o medo em prosseguir com o seu processo
terapêutico ou, algumas vezes, o trabalho em grupo.
Realmente, é imensamente desagradável para qualquer
um ver o outro sofrer, principalmente, quando é possível se transportar para o
lugar de quem está sofrendo e não se pode fazer nada além de observar. Se para
mim já é muito desagradável, para outro integrante do grupo, então, nem se
fala. Posso afirmar que uma das maiores dificuldades que encontro em participar
de um grupo terapêutico como paciente, é exatamente essa.
Em vista disso, quando eu via que algum integrante
de um grupo tinha uma demanda por uma atenção mais especial, e que o motivo que
o mobilizava não dizia respeito, diretamente, a uma vivência no grupo,
marcávamos uma sessão individual, onde podíamos aprofundar a questão com mais
intimidade, propriedade e liberdade. É lógico que na maioria das vezes isso não
era possível e os momentos dessas vivências mais intensas tinham que ser
vividos coletivamente. De qualquer maneira, eu procurava sempre trabalhar o que
tinha eclodido, com os outros pacientes, de tal maneira que todos tivessem um
ganho.
Por fim, algo que pude observar, é que quando se
trata de terapia em grupo, na medida que o processo avança, os outros
integrantes do grupo vão se familiarizando com a situação e o aspecto
desagradável dessas vivências vai se dissolvendo.
Fonte: Brasil 247

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