sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Os vaivéns da América Latina

A América Latina se tornou o epicentro dos maiores embates do mundo contemporâneo. Primeiro, na última década do século passado, como a região onde mais proliferaram governos neoliberais, tendo no Chile de Pinochet seu marco inicial.

Por essa razão, foi na América Latina, na década seguinte, a primeira deste século, que surgiram os governos anti-neoliberais e os líderes desses processos. Desde que o capitalismo assumiu o neoliberalismo como seu modelo predominante, foi em torno da vigência ou da superação desse modelo que se deram os maiores enfrentamentos contemporâneos.

De tal forma que os mais importantes líderes políticos atuais surgiram dessas lutas. Hugo Chávez, Lula, Nestor e Cristina Kirchner, Tabaré Vázquez e Pepe Mujica, Evo Morales, Rafael Correa, foram os primeiros líderes da resistência ao neoliberalismo.

Ao longo das duas décadas seguintes, esses governos sofreram golpes – como nos casos do Brasil e da Bolívia -, que eles reverteram. Sofreram derrotas eleitorais – como nos casos da Argentina, do Uruguai e do Equador. Se expandiram em um segundo momento para o México, para a Colômbia, para Honduras, com novos líderes, como López Obrador, Gustavo Petro, Xiomara Castro,

Mais recentemente, governos de extrema direita se instalaram no Equador e na Argentina. Enquanto que governos anti-neoliberais sobrevivem no México, na Colômbia, no Brasil, na Bolívia e na Venezuela.

As características destes governos são as que apresentaram desde o seu surgimento. Priorizam as políticas sociais ao invés dos ajustes fiscais. Os processos de integração regional no lugar dos Tratados de Livre Comércio com os Estados Unidos. O resgate do papel ativo do Estado, ao invés do Estado mínimo e da centralidade do mercado.

Hoje está instalado um enfrentamento agudo na Argentina, desde que foi vitorioso Javier Milei, um presidente de extrema direita. Seu discurso se apropria da palavra liberdade e da palavra câmbio.

O discurso é o de que todos aceitam que é necessária uma mudança, transformação. E que essa transformação não pode ser feita com os políticos de sempre. Se projeta assim a necessidade de uma força nova, alternativa, que expresse o câmbio indispensável. Se consolida assim a crítica à velha política e aos velhos líderes políticos, um dos mais fortes argumentos da extrema direita.

No plano econômico, a hiperinflação herdada permite ao governo de extrema direita impor um duríssimo ajuste fiscal, a começar pelo não pagamento do 13º salário, colocando as responsabilidades nas costas do governo anterior.

A promessa de assim terminar com a inflação supostamente em 18 ou 24 meses joga o problema para frente e justifica o ajuste fiscal. Se promete estagflação durante esse período.

Enquanto isso se volta a negociar com o FMI um empréstimo de longo prazo, que reforçará a dependência do país com o capital financeiro internacional. Se consolida assim a dependência do país com o FMI.

A disputa na Argentina entre o governo de extrema-direita e a capacidade de resistência do movimento popular e das forças políticas de esquerda é das mais importantes na América Latina contemporânea. Do sucesso ou do fracasso do governo de Milei depende a perspectiva da extrema direita ou a possibilidade de recuperação da esquerda na Argentina, com projeções para toda a região.

Por outro lado, a possibilidade de consolidação dos governos mais sólidos atualmente na America Latina – os do México, do Brasil e da Colômbia -, supõe a reeleição de Lula e a eleição da sucessora já definida por López Obrador. O caso de Petro é mais complicado, a derrota nas eleições municipais demonstrou que ele não dispõe de uma estrutura partidária, como são os casos de Moreno no México e do PT no Brasil.

Outro caso pendente é a Bolívia, pela disputa entre o presidente atual, Luis Arce, e o ex-presidente, Evo Morales. A vitória de um dos dois significará a continuidade do programa anti-neoliberal. Salvo que essa divisão abra espaço para a vitória de algum candidato da direita, que não aparece hoje como a possibilidade mais viável.

A terceira década deste século, que se havia iniciado com a predominância de governos anti-neoliberais, vive um misto de governos de esquerda e de direita. O que resta da década será marcado pela disputa entre governos neoliberais e anti-neoliberais, a marca destacada de tudo o que já se viveu neste século.

 

Ø  O fascismo atual e o mito do “outsider” em política. Por Jair de Souza

 

Nos últimos anos, tem sido muito comum que os políticos mais reacionários da extrema direita se apresentem em público como se fossem verdadeiros outsiders (ou seja, elementos provenientes de fora da política tradicional). Este fenômeno ganhou muita força a partir do final do século passado com a ascensão do magnata midiático italiano Silvio Berlusconi.

Aqui no Brasil, mais ou menos no mesmo período, tivemos nossa própria versão com o lançamento do oligarca alagoano Fernando Collor para disputar a presidência da nação.

E, evidentemente, o exemplo mais cristalino em nosso país se efetivou com a unificação de todas as forças do grande capital em torno da candidatura do ex-militar nazi-fascista Jair Bolsonaro.

Todos esses nomes ganharam musculatura política com a propagação de suas imagens como sendo fortemente contrários a toda a podridão política imperante em nossas sociedades. Isto, apesar de eles estarem umbilicalmente ligados aos interesses dos grupos econômicos que sempre impulsaram e se beneficiaram dos sistemas políticos de exclusão das maiorias para favorecimento dos grandes capitalistas.

Uma vez mais, agora na Argentina, o processo volta a ser empregado. E, com base nisso, o ultra-reacionário Javier Milei veio à tona para garantir que nenhum avanço social pudesse ser consolidado de modo a garantir que os privilégios das eternas oligarquias argentinas e seus mentores do exterior não sofressem nenhum abalo.

Porém, para alcançar os votos necessários para ser eleito, não foi com base na defesa aberta dos interesses imperialistas-oligarcas que Javier Milei se apresentou em campanha. Nada disso! Para o grande público, ele se mostrou como um feroz inimigo do sistema, um verdadeiro "outsider" em política, aquele que queria pôr fim a tudo o que estava consolidado, o homem do "Que se vayan todos".

Na verdade, como sabemos dos casos Berlusconi, Collor de Mello e Bolsonaro, o que se busca em todas essas situações é "que se preservem todos os privilégios dos eternos apaniguados". Se para tal for necessário se dizer um inimigo visceral desse mesmo sistema que se está procurando manter, aí estão as figuras dos tais "outsiders" para desempenhar este papel. No fundo, eles não passam de verdadeiros "insiders", ou seja, os politiqueiros de sempre, mas com nova embalagem.

 

Ø  Javier Milei pode se preparar para o pior. Por Moisés Mendes

 

Os argentinos já derrubaram um presidente eleito, sem interferência dos militares, sem golpe, sem intromissão americana. E criaram uma situação em que, depois dele, ninguém queria ou conseguia ser presidente.

Foi no final de 2001, quando Fernando de la Rúa, da União Cívica Radical, renunciou depois de dois anos de desgoverno.

Todas as abordagens sobre as causas da queda apontam para o desespero da falta de dólares, do desabastecimento, dos saques a supermercados, do empobrecimento e da desesperança.

O corralito, com o começo do fim da dolarização, havia retido o resto de dinheiro dos argentinos nos bancos. Não havia dólares para todos, nem comida.

As ações de rua que levaram à renúncia do presidente tiveram participação decisiva do ativismo peronista. De la Rúa havia sido deputado, senador e chefe de governo de Buenos Aires. Tinha história como político e o suporte do mais antigo partido argentino, a UCR.

Havia sido eleito para consertar o fim de 10 anos da dolarização de Domingo Cavallo e Carlos Menem. E fracassou por não ter saídas, afogado nas expectativas que havia criado.

Até o estado de sítio De la Rúa mandou baixar. Foi no final do seu governo que os protestos propagaram pela América Latina os panelaços argentinos. Renunciou e fugiu da Casa Rosada de helicóptero.

Seu sucessor, depois de três escolhas indiretas do Congresso, todas frustradas, foi o peronista Eduardo Duhalde, que havia sido vice de Menem e perdera a eleição para o próprio De la Rúa em 1999.

Muitos jovens que votaram agora em Javier Milei estavam nascendo quando a tensão na Argentina, com saques e repressão, deixou mais de 40 mortos.

Os argentinos invadiam de mercadinhos a supermercados para ter o que comer e faziam filas nos bancos para sacar dólares e pesos em conta gotas. Os sindicatos peronistas declararam guerra ao governo.

Mesmo depois da queda de De la Rúa, eles continuavam protestando em Buenos Aires. A aposentada Rosa Ferreiro, então com 67 anos, liderava um grupo que saía com panelas e martelos pelo centro histórico.

Rosa levava a panela e o martelo numa bolsa. Batia panela e desferia martelaços na fachada de ferro que revestia a parede de alguns bancos. E invadia agências que por descuido ficassem abertas.

Um dia invadiu com sua turma o Banco Galicia. Atacaram mesas, afugentaram funcionários e espalharam papéis pelo chão. Dona Rosa ria do que fazia. Sei porque acompanhei a invasão, em abril de 2002, como repórter de Zero Hora.

Eduardo Duhalde levou o mandato até o fim e em 2003 a Argentina elegeu Nestor Kirchner. O novo peronismo chegava da Patagônia à Casa Rosada. A esquerda argentina se reinventava e acabaria ficando 13 anos no poder.

E agora, Javier Milei? Agora é preciso pensar que pode acontecer de novo o que aconteceu há 20 anos, mesmo que o amigo de Bolsonaro decida correr para o centro, como sugere que fará.

Fernando de la Rúa era da ala de centro-direita dos radicais, que seriam originalmente a social-democracia argentina, o partido de Raúl Alfonsin, o presidente que ajudou a sepultar o militarismo derrotado na guerra das Malvinas.

De la Rúa era considerado sensato. Tinha lastro político orgânico. A UCR, criada no final do século 19, tinha uma base sólida. Mas, naquelas circunstâncias, com aquela urgência, ele não tinha mais nem o apoio da UCR e não sabia o que fazer. Os argentinos exigiam pressa.

Já o lastro político de Milei é a coalizão da nova extrema direita do Liberdade Avança, inventada por ele há pouco mais de dois anos e reforçada agora pela velha direita de Mauricio Macri e Patricia Bullrich.

Milei e Macri estão cercados de peronistas. A província de Buenos Aires é peronista, mesmo que tenha assegurado maioria estreita pró-Sergio Massa no segundo turno da eleição.

A província com alma peronista, governada pelo peronista Axel Kicillof, cerca Buenos Aires, a capital, a cidade autônoma que sempre vota na direita. Mas essa Buenos Aires não é mileinista. É a base territorial de Macri e de Patricia.

A cidade de Buenos Aires, com 2,5 milhões de habitantes, tem 7% dos eleitores da Argentina. A província tem uma população de 19 milhões e 37% dos eleitores.

Milei pode correr para o centro, pode ficar moderado e pode adiar o fechamento do Banco Central e desistir da dolarização.

Pode até passar a amar todos os que considerava comunistas. Mas nada disso irá lhe assegurar governabilidade para enfrentar quem pede soluções já.

De La Rúa era político. Tinha partido, base eleitoral histórica e aliados fortes na elite econômica. Milei é um picareta alucinado sem a confiança do empresariado. Dependerá de quase cem deputados e mais de 20 senadores macristas, ou não governa.

Vai depender mesmo da paciência do povo, e não só dos peronistas-kirchneristas, mas de todos os agrupamentos de esquerda, como os que saíram às ruas e bloquearam o trânsito na terça-feira em Buenos Aires.

A manifestação da chamada izquierda piquetera, organizada em torno do pequeno mas furioso Partido Obrero, foi o primeiro aviso a Milei.

Os piqueteiros esquerdistas apitaram para os peronistas avisando que podem contar com eles para o que importa, que é cercar Milei e Macri. Não é adivinhação pensar que talvez o fascista não aguente o tranco.

 

Fonte: Por Emir Sader, em Brasil 247

 

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