terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Odeio, logo existo: por que conteúdos neonazistas se proliferam nas redes sociais?

Transfobia, misoginia, racismo, xenofobia: quanto mais odiável, mais engajamento tem um conteúdo nas redes sociais.

Estudiosos ouvidos pela Sputnik Brasil concordam que o cerne do problema está na perda do sentimento de coletividade por parte da sociedade, substituído pelo individualismo exacerbado que vê nas minorias a causa de todos os fracassos pessoais.

"Você demoniza o outro para se autoavaliar positivamente. Logo, se não fossem essas pessoas horríveis, esses monstros morais, se não fossem os judeus, se não fossem os negros, se não fossem os gays, a gente estaria bem no mundo de hoje", comenta o professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Paulo Vaz.

O pesquisador tem se debruçado nos últimos anos sobre temas relacionados ao discurso de ódio. Ele avalia que o neonazismo na contemporaneidade atrai muita gente, pois reforça a ideia de que o indivíduo não é bem-sucedido, é fracassado, porque está sendo prejudicado por outros grupos.

Pondera ainda que, diferentemente de países como os da Europa e dos EUA, em que os imigrantes são os principais bodes expiatórios dos problemas sociais e econômicos no Brasil, os alvos são principalmente as minorias sexuais, as feministas e a população negra.

"Aqui no Brasil o que incomoda é quando o Estado age em prol de minorias, com ações afirmativas de direito e de respeito a esses grupos", defende ele.

A religião também dá uma série de respostas para fracassos individuais, pontua Vaz, na lógica da teologia da prosperidade, que se fortaleceu nos anos 1980, nos EUA, e hoje está muito presente no Brasil.

"É a fé do indivíduo que vence por si mesmo com o discurso neoliberal. A fé como forma de ascensão social, graças a Deus — e contra […], portanto, qualquer ação coletiva, [qualquer] auxílio do Estado."

Essa corrosão do sentimento coletivo tem efeitos também nas plataformas virtuais, salienta Vaz que, diferentemente das telecomunicações, não têm função pública.

"Radicalização implica engajamento. O que importa para as plataformas é ter audiência, ter engajamento, e a radicalização favorece. Então o interesse em barrar conteúdo, se tem audiência, é mínimo", explicitou Vaz.

O exemplo mais recente e notório no caso brasileiro foi o ataque à conta da primeira-dama, Janja Lula da Silva. A plataforma musical Spotify removeu a página, mas não informou como o perfil conseguiu conta verificada.

A Polícia Federal (PF) identificou que um dos responsáveis pela invasão era dono do perfil "Maníaco" e produzia músicas sobre supremacia racial e temas afins em várias plataformas, com selo de artista verificado e média mensal de mais de 4 mil ouvintes.

Janja se pronunciou na última terça-feira (19) sobre o assunto e destacou a importância de responsabilizar as plataformas, a fim de que "não sigam lucrando em cima do ódio".

Para a pesquisadora em educação midiática, desinformação, raça, gênero e tecnologia Gabriela de Almeida Pereira, a construção de um ambiente virtual seguro e democrático demanda a regulação das plataformas e dos critérios claros:

"Sobre o caso da Janja, por exemplo, o Spotify afirmou que 'as regras da plataforma deixam claro que não permitimos conteúdo que promova o extremismo violento ou conteúdo que incite à violência ou ao ódio contra um grupo'. Mas isso não é suficiente, visto que o rapaz citado tinha perfil ativo, no qual publicava conteúdos de ódio contra mulheres e negros, com uma média de 4 mil ouvintes mensais", frisa a especialista.

A censura de conteúdos pontuais, como os pró-Palestina, no atual conflito entre Israel e o grupo Hamas, também é reflexo de atividades praticadas por empresas privadas, afirma Vaz, sem compromisso com a questão pública, preocupada apenas com a imagem:

"Tem o lobby pró-Israel, muito poderoso, por exemplo, nos Estados Unidos. Antes de haver a guerra, não havia preocupação com esses discursos. Então, claramente, é uma preocupação com a imagem. Se não não for prejudicar a imagem deixa o nicho existir, deixa a audiência existir", comenta o professor da UFRJ.

·        Sem oportunidades e perspectivas, juventude é facilmente cooptada

De acordo com ambos os especialistas ouvidos, estudos revelam que os espaços de jogos on-line são ambientes férteis para atrair jovens para grupos com ideias neonazistas.

"Há desde o uso de códigos para abordar temas específicos e espalhar mensagens com conteúdos de ódio até falas mais explícitas. Para a produção de conteúdo e um consequente espelhamento dos atos fora do ambiente virtual, há, para além das músicas, a construção de jogos protagonizados por personagens extremistas e a prática posterior dessas posturas em situações reais de violência contra negros e judeus", exemplifica Pereira.

Segundo Vaz, jovens especialmente do sexo masculino têm tido dificuldade de lidar com mudanças morais e novas formas de sexualidade impulsionadas pelo feminismo e pelos movimentos LGBTQIA+. "Aí o neonazismo é prato cheio. É claro que essas pessoas vão ouvir o discurso que vai reforçar a crença delas", frisa.

·        Como tirar esse ódio do coração e das redes?

Para reverter isso, é fundamental um diálogo acolhedor com os jovens antes que escale para uma situação de violência, argumenta Gabriela, que também é diretora de Relações Institucionais da organização Redes Cordiais, que promove educação midiática, com o apoio de influenciadores digitais, para tornar o ambiente virtual menos hostil:

"Acreditamos que o canhão que esses criadores de conteúdo possuem é um meio fundamental para alcançarmos pessoas que estão consumindo informações por vias que muitas vezes as escolas, os pais, o governo e a imprensa não conseguem alcançar. Assim, buscamos afastar grupos mais vulneráveis de círculos odiosos, fortalecer a capacidade dessas pessoas de não cair em fake news e promover ambientes virtuais mais seguros e saudáveis para todas as pessoas", explica.

Produzir dados e mapear esses conteúdos é o primeiro passo para tentar reverter esse problema, segundo a pesquisadora.

"O Brasil precisa investir em pesquisas sobre esses grupos, quais caminhos levam os jovens ao radicalismo e a grupos de ódio, como são recrutados, como resolver as fragilidades emocionais que são basilares para essa aproximação, entre outros fatores importantes", destaca a especialista.

Políticas públicas de educação midiática, que promovam o diálogo, o acolhimento e a saúde mental de educadores e jovens também são necessárias e urgentes, acrescenta.

Segundo ela, uma iniciativa exitosa que deve ser replicada foi lançada no início do ano pela Secretaria de Políticas Digitais da Presidência da República, que vem produzindo materiais de combate à violência nas escolas e diretrizes sobre educação midiática em escolas de tempo integral.

"Um problema complexo como esse precisa de ações que envolvam a sociedade civil, o governo, as plataformas, os educadores, os pais e responsáveis e, claro, os jovens. Esses grupos que estão mais vulneráveis e expostos a conteúdos de ódio precisam ser ouvidos e fazer parte da construção de soluções", conclui Gabriela Pereira.

 

Ø  Bolsonaristas protestam contra apoio a Nunes e pedem 'candidatura de direita' em SP

 

Depois de que o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) apoiará Ricardo Nunes (MDB), atual prefeito da capital paulista, na disputa pela reeleição no ano que vem, núcleos bolsonaristas têm mostrado insatisfação nas redes. Um segmento dos apoiadores do ex-presidente prefere apoiar Ricardo Salles (PL-SP), ex-ministro do Meio Ambiente. Um dos expoentes do descontentamento é o deputado estadual Lucas Bove (PL).

Na rede social "X", antigo Twitter, o parlamentar citou uma frase dita pelo próprio Bolsonaro há pouco mais de uma semana, quando afirmou que o candidato deveria ser Salles. Em evento do PL no dia 12 de dezembro, o ex-presidente pediu "Salles prefeito" em conversa com jornalistas e acrescentou que "São Paulo merece realmente um nome de uma pessoa que vá fazer pelo município, e não fazer por um partido".

Foi essa frase que Bove destacou e, na sequência, disse que espera um candidato de direita para disputar o Poder Executivo da capital. "Essas foram as últimas palavras que saíram da boca do nosso líder e sempre presidente Bolsonaro sobre a Prefeitura de SP! Portanto, eu ainda acredito que teremos uma candidatura de direita. Ou vocês confiam na palavra de mais alguém que não seja o próprio presidente?", publicou para seus seguidores.

Na tarde desta sexta-feira, 22, o deputado voltou a comentar sobre o assunto. "De minha parte, a decisão final do presidente Jair Bolsonaro será respeitada e acatada, ele é nosso líder e ponto. Mas, enquanto ele não se pronuncia oficialmente, sigo acreditando, torcendo e sonhando em ter um candidato de direita na minha cidade querida", disse. Ao final da postagem, ele colocou uma hashtag em apoio a Ricardo Salles.

Ex-deputado federal e apoiador de Bolsonaro, Coronel Tadeu (PL) publicou uma live com o título: "Ricardo Salles poderá dar uma senhora rasteira em Ricardo Nunes." Ele citou que a "direita" precisa se unir em São Paulo e usou como exemplo as eleições de 2022, quando Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Marcos Pontes perderam na capital paulista, ainda que Freitas e Pontes tenham ganho no Estado.

"Na cidade de São Paulo, o Lula ganhou do Bolsonaro. O Fernando Haddad ganhou de Tarcísio. O Marcos Pontes perdeu para o Márcio França no Senado. A direita está precisando mostrar mais força na cidade de São Paulo. Ganhar a Prefeitura é muito importante. E grupo é grupo. O município de São Paulo é o maior do Brasil, tem orçamento maior que muitos Estados. É importante a direita marcar posição. Quem vai dizer quem é candidato é Jair Messias Bolsonaro", disse em trecho da live.

Apoiadores de Bolsonaro aproveitaram as publicações para comentar e mostrar sua preferência por Ricardo Salles na disputa pela Prefeitura de São Paulo no ano que vem.

Como o Estadão mostrou, depois do acordo em torno do nome de Ricardo Nunes, caberá a Jair Bolsonaro indicar o nome do vice. Isso ocorrerá em meados de fevereiro, quando Bolsonaro retorna de férias.

A disputa pela Prefeitura de São Paulo tem ainda, por ora, Guilherme Boulos (PSOL), Kim Kataguiri (União), Tabata Amaral (PSB) e Maria Helena (Novo) entre seus pré-candidatos.

 

Fonte: Por Flavia Villela, no JB/Agencia Estado

 

Nenhum comentário: