domingo, 24 de dezembro de 2023

O futuro de Lula depende da comunicação

O futuro do governo Lula pode estar condicionado a uma estratégia de comunicação preocupada em incentivar uma nova percepção do papel da informação no dia a dia das pessoas, especialmente nos segmentos sociais de média e baixa renda. Trata-se de uma mudança provocada também pelo surgimento de uma nova relação entre os Três Poderes da República, com a predominância da negociação e da busca de apoio junto à população.

O presidencialismo já não tem mais a capacidade de se apresentar como o grande polo de poder na tomada de decisões e com isto sua relação com a opinião pública passou a ter que ser feita em bases diferentes da pura divulgação de resultados. Uma nova estratégia de comunicação passa a ser fundamental para que o presidente evite o risco de ficar isolado na opinião pública nacional e com isto vulnerável a ações paralegais como a que derrubou a ex-presidente Dilma Roussef, em 2016.

O governo Lula tem duas estratégias de comunicação em curso. A estabelecida pela Secretaria de Comunicação centrada nas realizações da atual gestão federal e a outra baseada no carisma e capacidade do presidente Lula de transmitir empatia e emoções ao público. A linha inicial da SECOM, focada na farta apresentação de números, estatísticas e fatos, parece estar sendo alterada com a introdução de um novo modelo como o revelado na mensagem natalina sobre vacinação e a que vincula o PAC à felicidade familiar pela via de novos empregos.

A estratégia da SECOM seguida até agora, obedece aos cânones tradicionais da comunicação política que se tornaram anacrônicos e ineficientes diante do avassalador efeito da interação personalizada nas redes sociais virtuais. Já Lula usa o seu instinto e sua experiência política para se comunicar. Temos uma comunicação burocratizada com baixo índice de resposta popular, paralelamente a uma comunicação humanizada e concentrada numa única pessoa.

É uma situação instável e complexa porque, caso não haja mudança completa na estratégia de comunicação da SECOM, a sobrevivência do governo Lula tende a depender basicamente da popularidade do presidente, já que ele não tem o controle do Poder Legislativo, não conta com a adesão do empresariado privado e nem pode considerar os militares como aliados incondicionais.

•        Os riscos do efeito Dilma

Além disso, a estratégia editorial combinada dos três maiores conglomerados jornalísticos do país visa desgastar gradual e progressivamente a imagem do governo por meio da ampliação sistemática de divergências e dificuldades da administração Lula. É o que popularmente se conhece como “comer pelas beiradas”. É uma estratégia, sempre sutil, que já deu certo contra Dilma Roussef e que está sendo novamente posta em prática agora como o reforço de uma oposição de extrema direita muito mais forte e ousada.

Do ponto de vista da comunicação pública, Lula está cercado e tem como única saída o desenvolvimento de uma comunicação institucional baseada no apelo a valores emocionais como o adotado atualmente nas campanhas publicitárias das grandes empresas multinacionais. Não se trata mais de vender ou promover um produto ou serviço, bem como alardear resultados e estatísticas, mas de associar estes mesmos produtos e realizações a emoções e comportamentos que todos nós vivemos no dia a dia. É a melhor maneira de criar empatia e identidade entre uma empresa ou governo e seu respectivo público.

Lula tem conseguido minimizar os danos do cerco da grande imprensa à sua imagem pública com ações de impacto como o retorno dos brasileiros e seus parentes que estavam na zona de guerra na Palestina. Ele ganhou espaços generosos na mídia, da mesma forma que suas ações no campo das políticas sociais como gênero, raça e direitos humanos conseguem furar o bloqueio informativo das principais redes de TV. Elas, hoje, apostam tudo na conquista de “corações e mentes” dos segmentos de baixa e média renda na tentativa de reduzir a acentuada queda de audiências na classe média branca e urbana que migrou para Facebook, Instagram, Twitter e You Tube.

Mas é uma batalha desigual porque o poder de comunicação ainda está concentrado nos grandes conglomerados, cuja estratégia é “aguentar” Lula enquanto o prestígio popular do presidente ainda for forte. A percepção dos usuários de redes sociais virtuais sobre o governo Lula ainda está fortemente influenciada pela agenda pública proposta pela Folha de S.Paulo, O Globo e O Estado de S.Paulo.

A comunicação será inevitavelmente o principal campo de batalha que decidirá o futuro do governo Lula, especialmente no ano eleitoral de 2024 e na ressaca política de 2025. Não importa o que o governo faça ou prometa. O que conta é a forma como as pessoas perceberão as condutas e realizações da equipe de Lula, e isto será condicionado basicamente pelo tipo de informação que as pessoas receberão através dos meios de comunicação. Não adianta lamentar que a opinião pública esteja sendo condicionada por dados e fatos descontextualizados, meias verdades, fake news e desinformação.

•        A realidade fluída

A confrontação destas distorções informativas exige estratégias próprias e cuja origem precisa estar na pesquisa, a mais detalhada possível, do estado de espírito da opinião pública, sem ideias e teorias preconcebidas. O sociólogo britânico Nick Couldy, um especialista em fluxos informativos afirma que hoje é fundamental saber o que as pessoas fazem nas redes sociais, o que elas dizem sobre o que é publicado e quais as ferramentas que usam para navegar pelo Facebook, Twitter, Instagram e Whatsapp.

Campanhas publicitárias e marqueteiros políticos bem-sucedidos no passado não são mais garantia de resultados positivos porque a realidade social entrou num período de extrema fluidez, onde o único parâmetro minimamente seguro é o estudo da conjuntura. Não há mais fórmulas mágicas e nem soluções infalíveis, o que pode ser perturbador, mas é uma situação com um grande potencial de criatividade e inovação.

Esta realidade é uma consequência direta do fato de que a comunicação e a informação deixaram de ser apenas ferramentas para se transformarem em itens essenciais à existência de comunidades sociais. Itens tão importantes como educação, emprego, saúde e segurança porque sem a comunicação e informação as pessoas não conseguem, na era digital, tomar decisões adequadas às suas necessidades e desejos. Cabe aos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) evitar que os fluxos de informação sejam distorcidos por interesses políticos, ideológicos e empresariais.

 

       A multifacetada diplomacia “Brahma” do presidente brasileiro Lula neste final de ano. Por Jean-Jacques Kourliandsky

 

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, sem dúvida voltou cheio de propósito e razão de sua última viagem ao Oriente Médio e à Europa, que o levou de Brasília a Dubai e depois a Berlim. Ainda mais porque, em 1º de dezembro, ele assumiu a presidência rotativa do G20 de seu parceiro indiano no grupo BRICS, Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia desde 2014.

O grupo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) foi criado em 2009. Lula, que já era presidente do Brasil, tem uma longa experiência com líderes indianos. No BRICS, no G20, mas também, desde 2003, na OMC – Organização Mundial de Comércio, por meio da coalizão IBAS (Índia-Brasil-África do Sul). Portanto, não é de se surpreender que a diplomacia multifacetada do Brasil em 2023 pareça ser inspirada em Brahma, o deus indiano com quatro cabeças, voltadas para o norte, sul, leste e oeste, cada uma com um braço articulado.

Nenhuma parte do mundo foi esquecida por Lula desde que ele foi eleito presidente. Alemanha, Angola, Argentina, Bélgica, China, Colômbia, Egito, Espanha, Estados Unidos, França, Índia, Itália, Japão, Portugal, São Tomé e Príncipe, África do Sul, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido, Uruguai, Cidade do Vaticano. Luiz Inácio Lula da Silva, Presidente do Brasil, visitou vinte países ao redor do mundo desde sua eleição em 28 de outubro de 2022.

Essas visitas contaram com dois formatos. Foram encontros bilaterais, por exemplo, com a Espanha, Itália, Estados Unidos e Reino Unido, entre outros, mas, sobretudo, multilaterais, como na Assembleia Geral da ONU, nas cúpulas do BRICS, na COP27 e na COP28, na CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), no encontro do G7 e do G20, no encontro do MERCOSUL, da CELAC e da União Europeia, também na Cúpula de Paris quando se tratou de um Novo Pacto Financeiro Internacional, sem mencionar as reuniões organizadas no Brasil, como a conferência da OTCA (Organização do Tratado de Cooperação Amazônica) e a Cúpula Sul-Americana.

A pergunta agora é simples: “Por que tudo isso?”, já que não é preciso dizer que não se tratou de um desejo de entrar para o Guinness Book de viagens presidenciais, ainda que Lula tenha terminado o ano como ganhador da disputa. Por outro lado, não há nada de surpreendente no fato de o Brasil, depois de quatro anos de abstinência internacional, estar tentando “recuperar o tempo perdido”. Lula, como Brahma, multiplicou o número de cabeças e seus arquivos, em contato com o maior número possível de países e organizações. Mas será que ele conseguirá a bela Satarupa – a primeira mulher criada por Brahma – ou seja, um lugar de destaque no concerto das nações?

Parafraseando o argumento de venda de um famoso dicionário, não há como negar que a rede multifacetada lançada pelo chefe de Estado brasileiro “jogou a rede de pesca em todas as direções”, tanto no lado do chamado extremo sul quanto no lado do “Primeiro mundo”. Essa pesca, embora frutífera, tem um lado desconcertante. A vida diplomática dos últimos dias lança alguma luz sobre esse mistério. A caminho de Dubai para defender a necessidade urgente de “esverdear” a economia global, o presidente brasileiro convidou os países da COP28 a participarem da COP30 em Belém, em 2025. Já é hora, disse ele à plateia, de “descarbonizar o planeta e trabalhar para uma economia menos dependente de combustíveis fósseis”. Paradoxalmente, ele voltou ao Planalto com uma passagem para se juntar ao grupo OPEP+. No mesmo dia, 1º de dezembro, o presidente da Petrobras anunciou a criação de uma subsidiária nos países do Golfo, a “Petrobras Arábia”. “Os combustíveis fósseis”, comentou Lula, quando perguntado sobre esse anúncio em Dubai, “serão necessários para a economia mundial por muito tempo”.

Também sabemos que, em Dubai, ele usou sua força silenciosa para convencer, ou tentar fazer com que seu colega francês, Emmanuel Macron, entendesse, com a benevolência premente do chanceler alemão, Olaf Scholz, que já era hora de apitar o fim das negociações iniciadas em 1999 entre a União Europeia e o Mercado Comum do Sul. O francês agarrou-se à cortina amazônica rasgada pela agroindústria para adiar os prazos, enquanto a dupla brasilo-alemã empurrou os agroexportadores brasileiros e os industriais alemães para a linha de frente para forçar as linhas defensivas ecológicas dos gauleses. No final, o acordo permaneceu na mesa de negociações.

A França obteve ganho de causa, ao custo de entrar para uma lista negra coletiva, de Brasília a Buenos Aires, Montevidéu, Berlim e Madri. A Alemanha e o Brasil aproveitaram a oportunidade para confirmar seu produtivo casamento de conveniência, selado por inúmeras visitas cruzadas nos últimos meses pelos dois presidentes, pelo chanceler e por vários ministros. Em 2 de dezembro, em Berlim, simultaneamente, em um fórum empresarial, os dois governos assinaram 19 acordos sobre economia sustentável e proteção ambiental.

Sem dúvida, é inútil buscar coerência em uma diplomacia que é deliberadamente multifacetada. No melhor dos casos do Brasil, os desvios são acompanhados de gestos, visitas e iniciativas – sempre amigáveis – para contorná-los. Embora claramente apontado como o vilão do cenário Europa-Mercosul, Emmanuel Macron está repleto de boas intenções. É verdade que a França não tem feito muito esforço nos últimos anos para elevar seu perfil de país aberto e amigável, dialogando no mais alto nível com os governantes da periferia internacional.

Além disso, desde janeiro de 2023, o Brasil tem feito uma série de gestos e iniciativas que lhe deram a imagem de uma nação que oferece soluções para todos os tipos de conflitos, desde a Rússia e a Ucrânia até a disputa entre a oposição e o governo venezuelano e as negociações de paz entre os guerrilheiros do ELN e o Estado colombiano. Tudo isso consolida o caminho de Brahma dado pelo presidente Lula aos diplomatas do Itamaraty. Para bom entendedor…

 

Fonte: Por Carlos Castilho, no Observatório da Imprensa

 

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