Médicos em Gaza acusam Exército de Israel de destruir corpos e atirar em
civis em hospitais
Soldados israelenses que
invadiram um hospital no norte de
Gaza destruíram os corpos de pacientes mortos com escavadeiras,
deixaram um cão militar atacar um homem em uma cadeira de rodas e atiraram em
vários médicos, mesmo depois de verificarem se eles tinham ligações
terroristas, de acordo com alegações de funcionários e pacientes.
As alegações referem-se a uma operação de oito dias
feita pelas Forças de Defesa de Israel (FDI) no Hospital Kamal Adwan na semana
passada, que os militares alegam estar sendo usado como centro de comando e
controle do Hamas.
A CNN conversou com dois funcionários
médicos seniores, outro médico e um paciente do hospital, que
forneceram depoimentos que corroboram com o ocorrido. A CNN também
analisou evidências de vídeo para algumas das alegações.
Eles pintam um quadro perturbador de como as FDI
realizaram a operação, enquanto os médicos eram interrogados por suas conexões
com o Hamas e a equipe lutava para tratar os pacientes presos lá dentro.
As FDI afirmam que o Hamas esconde infraestruturas
terroristas dentro e em volta de instituições civis em Gaza, tais como
hospitais, e que atingi-las é essencial, uma vez que trabalha para eliminar o
Hamas da Faixa de Gaza. Mas as suas operações são controversas, com
organizações humanitárias dizendo que as instalações médicas em Gaza estão
incapacitadas de fornecer serviços básicos.
Entre as alegações mais graves relacionadas com as
operações das FDI em Kamal Adwan está a de que, quando as tropas saíam do
complexo hospitalar, usaram escavadoras para desenterrar corpos que tinham sido
recentemente enterrados em cemitérios improvisados no pátio do hospital.
“Os soldados desenterraram as sepulturas esta manhã
e arrastaram os corpos com escavadoras, depois esmagaram os corpos com as
escavadoras”, disse o chefe dos serviços pediátricos do hospital, Hossam Abu
Safiya, em entrevista por telefone no sábado (23). “Eu nunca vi tal coisa
antes.”
Vídeos e imagens que ele compartilhou com
a CNN mostram restos humanos em decomposição espalhados pelas
dependências do hospital.
A alegação foi apoiada pelo chefe de enfermagem do
hospital, Eid Sabbah, e outra enfermeira, Asmaa Tanteesh. “Os corpos lá fora,
no pátio, foram arados diante dos nossos olhos”, disse Tanteesh à CNN. “O
tempo todo, estávamos gritando e berrando com eles, mas nossos gritos chegavam
em ouvidos surdos.”
Imagens de satélite tiradas em 15 de dezembro –
pouco antes da retirada das FDI da área hospitalar – mostram terrenos arrasados
fora do complexo hospitalar.
As FDI não abordaram as alegações diretamente,
quando procuradas pela CNN para comentar, mas reconheceram que havia
realizado uma operação no hospital. “As tropas detiveram 80 terroristas, alguns
dos quais participaram do atroz massacre de 7 de outubro”, afirmaram em nota.
No início desta semana, as FDI divulgaram um vídeo
do interrogatório do diretor do hospital e publicaram uma declaração anexa
dizendo que ele admitiu que o local estava sendo usado para fins militares. Não
ficou claro se a declaração foi obtida sob coação.
Abu Safiya, o diretor de pediatria, e Sabbah, a
enfermeira-chefe, responderam que o hospital apenas fornecia serviços médicos e
que os presos eram civis e profissionais da área médica.
·
O que sabemos sobre a operação em Kamal Adwan
O foco dos militares israelenses no Hospital Kamal
Adwan, no norte de Gaza, parece ter começado há mais de uma semana, com ataques
e bombardeios na área do hospital, cuja página no Facebook diz estar sob a
administração do Ministério do Interior, que em Gaza é dirigido pelo Hamas.
Desde o início da guerra
Israel-Hamas, o hospital também abrigou e tratou civis feridos e deslocados de Gaza,
de acordo com suas páginas nas redes sociais e testemunhas oculares.
A operação intensificou-se na segunda-feira, 11 de
dezembro, no mesmo dia em que o diretor do hospital, Dr. Ahmed Al Kahlot, disse
à CNN que o hospital havia sido cercado pelas forças israelenses.
No dia seguinte, as forças israelenses demoliram o
muro ocidental do complexo hospitalar, segundo Abu Safiya, que disse que os
soldados se dirigiram ao hospital com alto-falantes, instruindo todos os homens
que se abrigavam no interior a saírem.
O que aconteceu depois disso foi “além dos
pesadelos” para aqueles que permaneceram no hospital, disse ele.
De acordo com Abu Safiya, ele e outros quatro
médicos foram autorizados a permanecer e cuidar de 62 pessoas no hospital,
incluindo vários bebês. Ao descrever a semana, ele se apressou em falar,
temendo que o sinal do celular pudesse cair, como costuma acontecer em Gaza
atualmente.
Cercado por tropas israelenses e com partes do
complexo gravemente danificadas pelos bombardeios, não havia nenhum cuidado que
ele pudesse oferecer, disse ele. O hospital estava sem comida, água,
eletricidade e leite para as crianças e quase não tinha mais remédios para
fornecer.
Tanteesh, a enfermeira, se lembra de ter implorado
por água sem sucesso, disse ela. As tropas israelenses estavam “a meio metro de
nós e nos cercaram no pátio”. “Não tínhamos água, nossas gargantas estavam
secas e estávamos com sede, e pedíamos apenas um copo de água desde de manhã
até noite”, disse ela.
Algumas crianças morreram durante a operação
israelense no hospital, disse ela, acrescentando que as enfermeiras tentaram
diluir o leite com uma solução salina para tentar alimentar mais os pacientes
mais jovens do hospital.
O Ministério da Saúde controlado pelo Hamas em Gaza
exigiu que as organizações de direitos humanos abrissem urgentemente uma
investigação sobre o que chamou de “massacre do Hospital Kamal Adwan, onde
crianças foram sitiadas sem água, comida e eletricidade durante longos
períodos”.
O chefe da Organização Mundial da Saúde, Tedros
Adhanom Ghebreyesus, alegou no domingo (17) que a “destruição efetiva” de Kamal
Adwan pelas forças israelenses nos últimos dias causou a morte de pelo menos
oito pacientes, incluindo uma criança de 9 anos.
·
Por que Israel realiza operações em hospitais
Israel concentrou enorme atenção nos hospitais de
Gaza desde que iniciou a sua ofensiva terrestre no final de outubro.
Para justificar, procurou apresentar o que afirma
ser uma prova da utilização pelo Hamas de instalações médicas como centros
militares e convidou os meios de comunicação social a filmar túneis com salas
subterrâneas localizadas por baixo do maior hospital de Gaza, Shifa. Também
mostrou aos jornalistas armas que afirma terem sido encontradas em outros
hospitais.
As evidências de atividade militante encontradas em
Kamal Adwan, de acordo com as FDI, incluíam “numerosas armas, como AK-47, RPGs,
dispositivos explosivos, equipamento militar Nukhba (comando do Hamas),
equipamento tecnológico e documentos de inteligência do Hamas”.
Na terça-feira (19), as FDI e o serviço de
segurança de Israel divulgaram um vídeo editado do interrogatório do diretor de
Kamal Adwan, Al Kahlot, sob custódia israelense.
Um comunicado que acompanha o vídeo diz que Al
Kahlot admitiu que o Hamas usa hospitais para fins militares e para fazer parte
da organização. No entanto, não está claro como as autoridades israelenses
obtiveram a declaração de Al Kahlot, e se foi verdadeira ou feita sob coação.
O Comitê Internacional da Cruz Vermelha considera
geralmente a divulgação de imagens de interrogatórios de prisioneiros de guerra
uma violação do estatuto da Convenção de Genebra sobre a proteção dos
prisioneiros de guerra da “curiosidade pública”.
As FDI também divulgaram na semana passada fotos e
vídeos mostrando jovens segurando armas no ar – militantes entregando armas
após sua rendição do hospital Kamal Adwan, alegaram as forças. Mas os
funcionários entrevistados pela CNN disseram que os homens eram, na
verdade, civis abrigados no hospital depois de terem sido deslocados de outras
partes de Gaza.
“Dissemos a eles que não havia nenhum combatente da
resistência no hospital e ninguém nos ouviu”, disse Tanteesh.
As armas com as quais foram fotografados pertenciam
a guardas de segurança do hospital, segundo Abu Safiya e Sabbah. “Vi com meus
próprios olhos que o Exército pediu aos jovens civis deslocados e à equipe
médica que carregassem as armas dos seguranças que foram deixadas na sala da
guarda do hospital e tiraram fotos deles na minha frente”, disse Abu Safiya.
·
Eles atiraram em mim e riram”
Abu Safiya também descreveu vários incidentes em
que ele alega que as tropas israelenses atormentaram deliberadamente pessoas
que sabiam não serem suspeitas.
Um colega médico, Dr. Ayman Rajab, foi liberado
pelos soldados após interrogatório e depois baleado no peito enquanto tentava
voltar para o hospital, disse Abu Safiya à CNN. Ele sobreviveu ao tiroteio
e voltou para sua família, deslocada.
Outro médico foi baleado na perna e o próprio filho
de Abu Safiya foi baleado no abdômen, disse ele. O Ministério da Saúde de Gaza
repetiu a alegação, dizendo que pelo menos cinco detidos foram baleados por
tropas das FDI depois de serem instruídos a regressar ao hospital.
Preso dentro de Kamal Adwan, Abu Safiya diz que viu
os dois colegas feridos e seu filho rastejarem pela rua até que uma ambulância
chegou até eles e os levou para um hospital diferente, disse ele.
Em outro caso, Abu Safiya alega que ele próprio se
tornou um alvo depois de os soldados terem telefonado nas primeiras horas da
manhã de sexta-feira para verificar se havia algum movimento fora do hospital.
Seguindo suas ordens, ele encontrou um idoso ferido
caído no chão em frente ao prédio. Mas quando Abu Safiya tentou aproximar-se do
homem, diz ele, os soldados que observavam começaram a disparar. “Eles atiraram
em mim, riram e zombaram”, disse ele.
“Eu escapei dos tiros, mas eles me ligaram
novamente e me pediram para levá-lo para dentro de novo”, disse. Ele finalmente
trouxe o homem para dentro, mas já era tarde demais. O homem não pôde ser
tratado no hospital devido à falta de recursos médicos e mais tarde morreu
devido aos ferimentos, disse Abu Safiya.
Em outro incidente, cães militares israelenses com
câmaras foram enviados ao hospital para reconhecimento, segundo Abu Safiya. Um
dos cães “atacou e feriu” um idoso em uma cadeira de rodas antes de ser
retirado, disse ele.
“O homem gritou de dor. Crianças e mulheres
choraram de horror da cena. Eu não pude ajudar ninguém. Essa cena foi além dos
pesadelos”, disse ele. “Um dos soldados veio buscar o cachorro e estava rindo
do idoso e do que o cachorro fez com ele.”
·
Hospitais no norte de Gaza
Uma criança no hospital, que estava recebendo
tratamento para uma perna quebrada, também se lembrou de cães entrando no
hospital e atacando um idoso.
“Os israelenses deixaram os cães virem e nos
atacarem. Eles nos torturaram. Eles estavam atirando em nossa direção. As
noites eram horríveis, não dormimos desde que viemos para cá”, disse ele
à CNN. “Eles deixaram cães atacarem um velho; ele continuou mordendo o
homem.”
As FDI não abordaram essas alegações na sua nota,
mas disse que a sua operação em torno do hospital tinha como alvo o Hamas.
·
Mais um hospital sitiado
Embora os hospitais, enquanto categoria, sejam
protegidos pelo direito internacional, podem ser vistos como alvos militares
legítimos se for descoberto que abrigam combatentes fisicamente aptos e armas.
Mas mesmo quando for esse o caso, os soldados têm
restrições éticas e legais no tratamento dos civis. A presença de armas ou de
combatentes feridos em um hospital não o torna necessariamente um alvo militar
legal.
O Artigo 19 da Convenção de Genebra afirma que “o
fato de membros doentes ou feridos das Forças Armadas serem tratados nesses
hospitais, ou a presença de armas ligeiras e munições retiradas de tais
combatentes que ainda não tenham sido entregues ao serviço adequado, não
deverão não ser considerados atos prejudiciais ao inimigo”.
Em sua nota, as FDI disseram que questionaram os
trabalhadores do hospital. “Os trabalhadores confessaram que as armas estavam
escondidas em incubadoras da UTIN, incubadoras que deveriam ser utilizadas para
tratar bebês prematuros. Após o interrogatório, as tropas das FDI localizaram
armas, documentos confidenciais e equipamento de comunicações táticas”.
À medida que prossegue a repetida ação militar de
Israel dentro e ao redor dos hospitais em Gaza, o país enfrenta críticas cada
vez mais ferozes, com profissionais médicos e ONGs alertando que os ataques
põem em perigo os pacientes e deixam os hospitais inoperantes.
“O sistema de saúde de Gaza já estava de joelhos e
a perda de outro hospital, mesmo que minimamente funcional, é um duro golpe. Os
ataques a hospitais, profissionais de saúde e pacientes devem acabar”, disse
Ghebreyesus, chefe da OMS, sobre o hospital Kamal Adwan.
Apesar das crescentes críticas internacionais de
alguns dos mais leais aliados de Israel sobre o crescente número de vítimas
civis nos hospitais e em qualquer outro lugar em Gaza, Israel não mudou o rumo
na sua perseguição militar ao Hamas.
Na terça-feira, a instituição de ajuda médica
Médicos Sem Fronteiras disse que outro hospital no norte de Gaza, Al-Awda,
estava sitiado por tropas israelenses com pacientes ainda dentro.
·
Médicos Sem Fronteiras diz que resolução da ONU não atende às
necessidades em Gaza
A resolução aprovada pelo Conselho de Segurança da
Organização das Nações Unidas (ONU) na sexta-feira (22) “fica dolorosamente
aquém” das necessidades da crise na Faixa de Gaza, disse a chefe de Médicos Sem
Fronteiras dos Estados Unidos.
“A resolução de hoje do Conselho de Segurança fica
dolorosamente aquém do que é necessário para resolver a crise em Gaza: um
cessar-fogo imediato e sustentado. Esta resolução foi diluída a tal ponto que o
seu impacto nas vidas dos civis em Gaza será quase nulo”, avaliou a
diretora-executiva Avril Benoit.
A forma como Israel conduz a guerra está “causando
mortes e sofrimento em massa entre os civis palestinos e é inconsistente com as
normas e leis internacionais”, adicionou.
“Garantir o rápido fluxo de ajuda humanitária para
Gaza e a entrega segura e sem entraves de assistência dentro de Gaza” é algo
que deveria ter sido estabelecido desde o início da crise e não deveria ter
demorado tanto tempo, segundo Benoit.
A diretora apelou ao Conselho de Segurança e ao
governo dos EUA para “concentrarem a sua atenção no estabelecimento de um
cessar-fogo e garantirem que o direito humanitário internacional não se torne
uma mera reflexão tardia neste conflito”.
O Conselho de Segurança da ONU aprovou na
sexta-feira uma resolução que apela a pausas nos combates entre Israel e o
Hamas para permitir a entrada de mais ajuda humanitária em Gaza.
O texto pede por “pausas e corredores humanitários
urgentes e alargados em toda a Faixa de Gaza durante um número suficiente de
dias para permitir o acesso humanitário completo, rápido, seguro e
desimpedido”, embora não tenha requisitado um cessar-fogo como a proposta
vetada no início deste mês.
Os Estados Unidos, que vetaram projetos de resolução
anteriores, abstiveram-se de votar desta vez. A Rússia também se absteve.
Ø Netanyahu
nega influência dos EUA e diz que Israel é responsável por suas decisões na
guerra em Gaza
O
primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, rejeitou
relatos de que os Estados
Unidos convenceram Israel a não expandir suas atividades militares
durante uma reunião semanal do gabinete neste domingo (24).
“Vi publicações falsas afirmando que os EUA nos
impediram e estão nos impedindo de realizar operações na região”, disse
Netanyahu, sem dar detalhes sobre os relatos.
“Isso não é verdade. Israel é um estado soberano.
Nossas decisões na guerra são baseadas em nossas considerações operacionais, e
não vou me aprofundar nisso”, completou.
O jornal norte-americano The Wall Street
Journal informou no último sábado (23) que Netanyahu foi persuadido
pelo presidente
dos EUA, Joe Biden, a não atacar o grupo Hezbollah no
Líbano com receio de que lançasse um ataque contra Israel, semelhante ao ataque
de 7 de outubro pelo grupo radical
islâmico Hamas na região da
Faixa de Gaza nas comunidades do sul de Israel. Netanyahu insistiu no domingo
que as ações de Israel “não são ditadas por pressões externas”.
“A decisão sobre como usar nossas forças é uma
decisão independente das Forças de Defesa de Israel e de
mais ninguém”, disse o premiê.
Fonte: CNN Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário