Extrato de bagaço de maracujá pode retardar evolução de câncer
Atrasar ou prevenir o desenvolvimento de cânceres é
algo almejado pela comunidade científica, que realiza pesquisas há décadas
sobre essa temática. A nutricionista Andressa Mara Baseggio descobriu na ação
do extrato do bagaço do maracujá esse potencial: retardar o câncer de próstata.
Em sua tese de doutorado, desenvolvida na Faculdade de Engenharia de Alimentos
(FEA) da Unicamp, Baseggio não apenas identificou e quantificou o piceatannol
(composto bioativo fenólico majoritário no maracujá e com composição química
análoga ao resveratrol, muito conhecido por sua presença no vinho), como
estudou os mecanismos biológicos que promove. A pesquisadora provou que a
terapia quimiopreventiva feita com o extrato do bagaço do maracujá é capaz de
atrasar a ocorrência de casos de câncer de próstata. Para chegar a esse
resultado, a nutricionista lançou mão de outras duas pesquisas realizadas
anteriormente na Unicamp.
“Trata-se de um importante avanço científico. Nós
verificamos um atraso no desenvolvimento do câncer em animais”, afirma o
professor da FEA Mário Roberto Maróstica Júnior, que coorientou Baseggio em sua
tese, intitulada “Câncer de próstata e extrato de bagaço de maracujá: efeitos
sistêmicos e propriedades quimiopreventivas frente à progressão tumoral em
modelo Tramp”. A coorientadora do estudo, Valéria Helena Alves Cagnon Quitete,
do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, utiliza há cerca de dez anos o modelo
biológico Tramp (sigla em inglês para modelo biológico camundongo transgênico
para adenocarcinoma de próstata), de que lançou mão Baseggio.
Importado do The Jackson Laboratory, uma
instituição de pesquisa norte-americana, o modelo Tramp foi reproduzido na
Unicamp com o apoio do Centro Multidisciplinar para Investigação Biológica na
Área da Ciência em Animais de Laboratório (Cemib). Os camundongos têm uma
condição específica que faz com que desenvolvam lesões prostáticas de
maneira progressiva. Essa característica tem permitido a realização, ao longo
da última década, de estudos sobre o impacto de extratos naturais no câncer de
próstata, muitos dos quais conduzidos pela professora Quitete.
Pelo modelo Tramp, o animal mimetiza o ser humano
quanto ao desenvolvimento das lesões prostásticas. “Eu consegui observar que um
animal que recebeu doses do extrato com 18 semanas da doença apresenta um
perfil de lesões igual ao de um animal com 12 semanas sem o uso do extrato.
Isso significa que houve um atraso no desenvolvimento do câncer”, explica
Baseggio. De forma regular, foram administrados nos animais doses de 10 mg de
piceatannol por quilo de peso.
·
Biodiversidade
A nutricionista pontua que não se trata da cura da
doença, mas da identificação de uma forma de prevenção e também de conseguir um
atraso no desenvolvimento do câncer de próstata por meio de uma terapia
denominada quimiopreventiva. Utilizou-se na pesquisa o maracujá amarelo azedo,
de maior interesse comercial. Na indústria, 76% do fruto, em grande parte casca
e semente, são descartados ou transforma dos em subprodutos. O Brasil
exporta os derivados do maracujá na forma de polpa para a indústria de alimentos,
que a utiliza, por exemplo, na saborização de sorvetes e sucos.
Segundo Baseggio, existem 150 espécies de maracujá
no país, entre as quais algumas nativas. Em termos de biodiversidade do
maracujá, perdemos apenas para a Colômbia, que conta com 170 variedades da
planta. A nutricionista explica que o maracujá é uma fruta tropical totalmente
adaptada ao clima brasileiro, de fácil cultivo e de grande produtividade.
A técnica utilizada para a obtenção do extrato do
bagaço do maracujá rico em piceatannol foi desenvolvida na Unicamp, sob
orientação do professor Julian Martinez, da FEA, e patenteada pela
Universidade. Estudos com o extrato para a produção de cosméticos (uso tópico)
vêm sendo realizados por uma empresa parceira da Unicamp. Com o uso de
diferentes graus de temperatura e pressão e de diferentes combinações de um
solvente, é possível concentrar e separar o composto piceatannol. “Utilizamos o
extrato bruto, no qual identificamos outros compostos fenólicos”, diz a
pesquisadora.
A semente de maracujá já é alvo de estudo há muito
tempo por conta de sua ação rejuvenescedora, como por exemplo da pele,
devido ao seu potencial antioxidante, diz Baseggio. “Nós avaliamos isso por um
ângulo novo, que é o extrato do bagaço do maracujá, sobre o qual não havia
quase nada de pesquisa em termos de consumo via oral. Queríamos avaliar se o
efeito nos animais aconteceria de maneira sistêmica e após o processo de
digestão.” Além da avaliação sobre os efeitos em todo o corpo do animal, a pesquisadora
também estudou o efeito dele no caso do tumor de próstata. “Esse extrato tem um
potencial antioxidante que é muito estudado para alimentos funcionais. O meu
grande interesse era o piceatannol, que ainda é pouco pesquisado se compararmos
com os estudos sobre o resveratrol, conhecido por suas propriedades
biológicas.”
·
Métodos biológicos
Em sua análise, a pesquisadora investigou dois
mecanismos de ação do piceatannol. O primeiro foi a autofagia, um mecanismo de
“reciclagem” celular que tem despertado grande interesse na área da biologia e
nos estudos sobre o câncer como uma resposta adaptativa. A importância desse
processo foi reconhecido no ano de 2016, quando o biólogo japonês Yoshinori
Ohsumi recebeu o Nobel de Medicina por conta de sua pesquisa sobre a autofagia
em fungos.
O segundo mecanismo observado por Baseggio diz
respeito à resposta antioxidante, já estudada há muitos anos por Maróstica na
FEA. “Avaliamos os efeitos do extrato em animais em diferentes estágios de
desenvolvimento do câncer para estudar o papel desses mecanismos”, diz a
pesquisadora, que não identificou nenhum efeito tóxico do extrato.
Embora os resultados obtidos com os animais sejam
promissores, é preciso ter cautela ao transpô-los para os seres humanos.
Segundo Baseggio, a diferença em estudos com animais está no controle das
condições e na baixa variação genética interindividual. “Sobre as condições
ambientais, uma delas é a dieta controlada, por meio da qual o animal vai comer
somente o que dermos a ele. Mas isso não acontece com os seres humanos, que
apresentam inúmeras variáveis.”
Fonte: Por Adriana Vilar de Menezes, no Jornal da
Unicamp

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