Como agroflorestas adaptadas à Caatinga
estão transformando o semiárido em comida
Tem de tudo agora na roça de dona Perpétua. “Você
tá vendo? Esse aqui é abacate, ali o mamão. Esse ano já peguei acerola. De tudo
a gente planta uma coisinha. Cenoura, beterraba. Aqui eu plantei coentro. Aqui
é pé de andu; a gente faz uma farofa muito gostosa com ele. Ali é umbuzeiro.
Essa carreira aqui é só de maracujá. Aí na carreira do maracujá a gente planta
o milho. Aqui no meio, quando chove, eu planto macaxeira. Alface não é muito —
a gente se alimenta primeiro com ele e aí, se sobrar, a gente leva pra feira.
Primeiro a gente, né?”
A mais orgulhosa produtora da comunidade de Serra
da Besta, zona rural de Uauá, vai mostrando cada planta, cada fruta, cada pé,
como se fosse troféu. Não na estante, mas a céu aberto, tudo cravado no chão,
lado a lado, como numa floresta, só que de comer. Onde antes se estendia uma
terra estéril, que a tudo que se plantasse fazia definhar, agora cresce uma
lavoura próspera e diversa num espaço de somente 30 por 40 metros. Tão rara
nestes sertões carentes de chuva que mereceu até placa na entrada: “Agrocaatinga”,
é o que diz.
Em outras palavras, uma agrofloresta adaptada à
Caatinga. “A gente pensou em soluções de agroecologia que incluíssem técnicas
de convivência com o semiárido”, explica o agrônomo Egidio Trindade,
coordenador-geral do projeto implantado pela Coopercuc (Cooperativa
Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá). O que, em essência, significa
o máximo aproveitamento da água de uma chuva que só cai de quatro a cinco meses
por ano. Em anos de seca, nem isso.
“Na semana passada, estava uma umidade relativa de
14% aqui em Uauá. Para você ter uma ideia, é a umidade relativa do Saara. Não
dá para pensar num modelo de agrofloresta que seja de área úmida”, diz Egidio.
Ainda mais numa terra como a de Perpétua Barbosa, que, antes da agrocaatinga,
era praticamente desprovida de matéria orgânica. Quase zero de carbono –
resultado da combinação de escassez de chuvas com décadas de exploração
equivocada de um solo já não muito favorável.
“A gente plantava aqui, mas não prosperava. Não
dava nada. Por quê? Porque a gente não sabia trabalhar”, diz Perpétua. Foram
anos e anos capinando e queimando a mesma terra e plantando uma única cultura,
quase sempre milho, mandioca ou feijão, até exaurir o solo. Tudo isso sem
cisterna nem barragem. Se não chovesse, era preciso comprar água de um
caminhão-pipa: 250 reais para 7 mil litros, que não duravam mais que dois
meses.
Egidio conta que, na primeira agrocaatinga que a
Coopercuc implantou, na comunidade de Caladinho, o solo era tão ácido que já
nem conseguia produzir: “Era praticamente terra morta, em processo de
degradação. Hoje tem caju, manga, feijão, milho, abóbora, macaxeira…”.
Isso numa terra em tese pobre; em áreas mais
favoráveis, ele diz, o número de espécies alimentares agora ultrapassa as 50.
Sem falar na quantidade de plantas: “Tem áreas em que a gente conseguiu botar
500 mudas”. Na de dona Perpétua, já são pelo menos 300.
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E quando os umbuzeiros acabarem?
Segundo Egidio, a ideia da agrocaatinga nasceu de
duas demandas. Uma era da L’Occitane, companhia francesa de cosméticos, que em
2018 procurou a Coopercuc – de quem já era parceira na produção de hidratantes
à base de mandacaru – na intenção de investir em um projeto social focado no
cultivo de maracujá-da-caatinga, fruta nativa do bioma. A outra era da própria
cooperativa, e, mais que uma demanda, era na verdade uma inquietação: o que
fazer quando os umbuzeiros acabarem?
A Coopercuc é
pioneira no Brasil na produção em larga escala de derivados de umbu, também
nativo, com a qual fabrica e revende pelo país doces, geleias, polpas,
cachaças, cervejas e licores. A questão, como explica Egidio, é que “não tem
mais umbuzeiros jovens na Caatinga”.
E isso é um problema porque todos os umbus que a
Coopercuc usa em seus produtos são coletados direto na natureza, dado que o
umbuzeiro (Spondias tuberosa) é uma árvore difícil de ser cultivada. “É
uma planta muito lenta. Se não tiver o ciclo de chuvas completo, ela não vai se
desenvolver”, diz Egidio, dando como exemplo umbuzeiros que a Coopercuc plantou
há 20 anos e que ainda não deram frutos.
Daí que toda a produção da cooperativa dependa
exclusivamente do extrativismo, o que envolve a concorrência com os bodes, que
têm nas folhas do umbu sua comida predileta – justo as plantas mais novas, ao
alcance de suas bocas.
Somadas as duas demandas, os técnicos da Coopercuc
pensaram em criar áreas de cultivo que tivessem como foco imediato o
maracujá-da-caatinga – que frutifica em menos de um ano –, mas com os
umbuzeiros em vista no longo prazo, cultivados em ambiente controlado. E, no
meio dos dois, o máximo de alimentos orgânicos que fosse possível plantar para
manter cheia a geladeira das famílias e lhes proporcionar uma renda extra.
Hoje já são 33 agrocaatingas espalhadas pelo norte
da Bahia. E além: uma cooperativa no Rio Grande do Norte já está implantando o
sistema por lá.
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“É como se estivessem no paraíso”
O sucesso, e o segredo, de uma agrocaatinga está na
habilidade em manter a roça sempre úmida – aquilo que Egidio chama de técnicas
de convivência com o semiárido. E esta é arte: um pacto firmado entre o engenho
humano e os tempos da mata para ali encontrar a salvação da lavoura.
A técnica básica é o plantio em curvas de nível:
fileiras (ou carreiras) paralelas de terra, que se elevam alguns centímetros
acima do terreno, onde uma mangueira goteja a água que recebeu da chuva,
regando as plantas. Essa mesma água escorre para as concavidades entre as
curvas de nível, ali se acumula e lentamente infiltra no solo. Na prática, um
microrrelevo de vales e serras que nunca deixa a roça secar.
E se ela secar, por conta da falta de chuvas,
recorre-se à chamada irrigação de salvação: toda agrocaatinga tem uma cisterna
de 36 mil litros, igualmente alimentada pelas chuvas, que garantirá a água nos
longos meses de estiagem.
“Para as plantas, é como se estivessem no paraíso”,
resume Egidio. Porque, além de nunca morrerem de sede, elas também são
continuamente nutridas por adubo orgânico. E por si mesmas: num sistema
agroflorestal, é fundamental podar as plantas para que folhas e galhos sejam
devolvidos à terra na forma de matéria orgânica – isso ajuda a fixar o carbono
e também a cobrir o solo e protegê-lo do sol do sertão.
Geralmente implantadas na forma de mutirão, as
agrocaatingas levam no máximo três dias para estarem prontas – os tamanhos
variam de 1,2 mil a 2 mil metros quadrados. Aí, em dois meses, já é possível
colher hortaliças; em três, o milho. O maracujá-da-caatinga, em seis meses. E
em um ano começam a frutificar os pés de acerola, abrindo caminho para as
goiabas e graviolas. Em dez anos, espera-se que os primeiros umbuzeiros já
estejam no ponto de ser colhidos.
Todas as plantas cultivadas juntas – as mais altas
fornecendo sombras às mais baixas e todas nutrindo umas às outras, seguindo à
risca a cartilha da agricultura sintrópica. Como explica Taiane Souza Costa,
educadora social da Coopercuc, “na natureza, você não vê duas espécies
seguidas. Dentro desses sistemas, a gente tenta fazer como na natureza.” Edigio
complementa: “A natureza gosta de diversidade”.
Isso inclui espécies não produtivas da Caatinga, em
geral árvores de grande porte como angico, imburana e aroeira. Seu papel na
agrocaatinga é ajudar na recuperação do solo, atuar como barreira contra o
vento e, sobretudo, repovoar a região com vegetação nativa – ainda mais num
bioma que vem sofrendo fortemente com o desmatamento e
a desertificação.
Não é por acaso que muitas das agrocaatingas estão
instaladas em comunidades que praticam também o >recaatingamento,
iniciativa que procura reservar áreas de vegetação nativa para deixar que a
Caatinga se recupere por si só. Na Serra da Besta, onde vive dona Perpétua, são
quase 400 hectares conservados.
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Maracujás mais próximos do céu
Nenhuma espécie endêmica, porém, é mais importante
nestas agroflorestas sertanejas que o maracujá-da-caatinga (Passiflora
cincinnata). Primeiro, por uma demanda de mercado, já que tem a compra
garantida pela L’Occitane, que com o óleo de suas sementes faz uma linha de
xampus e condicionadores. Da polpa que sobra, a Coopercuc fabrica doces,
geleias e uma cerveja, a maratinga – receita inventada ali mesmo, na Serra da
Besta, por um membro da comunidade.
Mas o chamado maracujá-do-mato tem se mostrado
também uma excelente alternativa ao clima adverso do semiárido. Parente menor,
mais doce e mais azedo que o maracujá comum, ele é também mais resistente às
pragas e, sobretudo, à seca. “Tu pode passar um trator numa roça e deixar.
Quando chove, ele nasce igual coentro. E no ano que ele dá é maracujá, viu?”,
comenta Perpétua. Além disso, é um ótimo complemento à coleta do umbu. “O
maracujá dá na safra que o umbu não dá”, diz ela.
Daí que toda roça de agrocaatinga tenha ao menos
uma fileira só para ele, os frutos todos pendentes de um arame que vai de ponta
a ponta. Se na mata o maracujá-da-caatinga cresce mais próximo do chão,
esgueirando-se entre arbustos, aqui ele foi alçado ao status de parreira,
cultivado tal qual cacho de uva, em sistema de espaldeira. Mais perto do céu,
portanto.
“O maracujá nativo dá uma renda boa”, diz Egidio.
“Tem produtores que chegam a tirar 2 ou 3 mil reais na safra.” Ele cita o caso
de um produtor da comunidade de Caladinho que bateu recorde: em dois meses,
vendeu mais de 1,2 mil reais só de maracujá-da-caatinga. “E foi 100% com água
de reúso”, acrescenta. Ou seja, uma roça inteira regada com a água usada para
tomar banho e lavar louça – um passo além no esforço de tornar o projeto ainda
mais sustentável.
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Suco de verdade
Taiane ressalta que cerca de 80% das pessoas que
produzem nas agrocaatingas são mulheres. “As roças em geral ficam perto de
casa, então é um trabalho estratégico para elas”, diz. Uma atividade que, além
de gerar renda, permite que ponham na mesa da família o alimento colhido e
escolhido por elas. Até porque, na agrocaatinga, os únicos produtos
obrigatórios são o maracujá nativo e o umbu. O que a produtora vai plantar no
meio, é ela quem decide. “Enquanto ela não está colhendo o maracujá, ela está
colhendo para o sustento.”
E é alimento orgânico e diversificado, fato inédito
numa região acostumada a uma dieta à base de arroz, feijão, farinha e carne.
“Agora você tem frutas, sucos, uma gama de verduras e legumes. Isso sem contar
que essa produção é 100% agroecológica”, diz Egidio. Tanto que, como relata o
agrônomo da Coopercuc, a agrocaatinga já está virando moda em Uauá: “Hoje a
gente já pega agricultores vizinhos fazendo curva de nível, cultivo
consorciado…”.
Agora definitivamente habituada à alimentação
saudável, dona Perpétua diz que já nem consegue consumir a comida de antes,
comprada em supermercado. “Quando eu vou pra São Paulo visitar minha filha, ela
inventa de fazer um suco lá que não tem gosto de suco, não. Quando eu chego
aqui e eu faço o suco, é outro sabor. Por quê? Porque o da gente é uma coisa
orgânica, não tem tóxico dentro.”
A segurança alimentar e nutricional proporcionada
pelas agrocaatingas impacta, inclusive, a própria população da cidade, que
agora compra os produtos da agrofloresta na feira agroecológica que acontece em
Uauá toda sexta-feira.
É para lá que, toda semana, dona Perpétua leva o
excedente da produção – em grande parte formado pela farinha de mandioca que
ela agora consegue produzir em larga escala, resultado da eficiência do sistema
agroflorestal somada à presença de uma casa de
farinha móvel, toda mecanizada, que agora circula pelas comunidades da zona rural. O
veículo é iniciativa do projeto Pró–Semiárido, do governo da Bahia.
“Dona Perpétua faz em média 300 reais na feira por
semana. Fora a fruta que ela vende para a Coopercuc. E tem a economia de
supermercado, já que ela não compra mais macaxeira, milho, feijão”, conta
Egidio. E agora, novamente, a venda para o Programa de Aquisição de Alimentos
(PAA), iniciativa de combate à fome do Governo Federal, que voltou no
primeiro ano de governo Lula depois de praticamente ser destruída
nos governos Temer e Bolsonaro.
“Quando esse outro entrou, o Bolsonaro, cortou
tudo, tudo. Agora tá voltando ao normal”, diz Perpétua. Quem confirma é Valdira
Ferreira da Silva, coordenador do PAA em Uauá: “Da Perpétua a gente agora
compra maracujá, mamão, aipim… São 17 produtos cadastrados”. Valdira diz que o
município este ano tem 457 mil reais disponíveis para comprar alimentos da
agricultura familiar e doá-los a pessoas em situação de vulnerabilidade, o que
ajuda a mover a economia local e fortalecer ainda mais o projeto das agrocaatingas.
“A agrocaatinga é o projeto mais viável e
sustentável para a nossa região”, resume Taiane. “À medida que a gente consegue
que a família produza, a gente vai ter qualidade melhor de alimento, geração de
renda e permanência das mulheres e jovens no campo. Além de tudo, vai conservar
espécies nativas da Caatinga.”
No caso de dona Perpétua, a permanência é literal,
de tanto ela diz gostar de passar o dia na roça. “Eu até esqueço de ir na casa
dos vizinhos. Minhas colegas vivem brigando comigo: ‘você não vem na minha casa
porque enricou’. É que no momento em que a gente tá lá, a gente tá se
divertindo. É bom pra saúde, pra mente. Pra mim, é cuidar do que é da gente.
Não tem felicidade maior que chegar lá, ver as plantas tristinhas, eu molhar
elas e elas se alegrarem. Pra mim esse projetinho é uma terapia que a gente faz.”
Fonte: Mongabay

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