sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Com COP28 esvaziada, acordo frustra ambientalistas

Na adolescência, o sonho do jovem deputado federal Amom Mandel (Cidadania-AM), hoje um campeão de votos aos 22 anos (foi eleito por 288.555 eleitores), era participar de uma Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), a COP. Por isso, ser um dos parlamentares que representaram o Congresso brasileiro na COP28, em Dubai, parecia ser a realização desse grande objetivo para quem é um ativista ambiental desde os 12 anos.

Idealizador do Projeto Galho Forte, com objetivo de transformar Manaus numa cidade verde e sustentável, Amom dedica parte dos fins de semana às comunidades ribeirinhas, limpeza de rios e plantio de árvores frutíferas, com a distribuição de mudas cuja meta é chegar a uma árvore por voto que recebeu. Como vereador, em dois anos de mandato, plantou 7.537 arvores, equivalentes à sua votação em 2020, quando fora eleito.

O jovem parlamentar voltou de Dubai muito decepcionado. "Fiz questão de percorrer todas as salas. A maioria reunia meia dúzia de pessoas, entre as quais o orador com a palavra e aquele que o sucederia, embora os temas fossem muito importantes", disse.

O Brasil levou uma grande delegação, com inédita participação de representantes indígenas. Mas "a discussão de fundo ficou restrita aos representantes oficiais dos países e não enfrentou, como deveria, a questão dos combustíveis fosseis". Esse desfecho explica os sentimentos de Amom, que denuncia sistematicamente a gravidade do impacto do aquecimento global, do desmatamento e das queimadas no Amazonas, que transformou Manaus numa das cidades mais poluídas do mundo.

O acordo final da 28ª conferência do clima da Organização das Nações Unidas é considerado apenas um pequeno avanço em relação à questão central do clima: a redução gradual do uso de combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural) para diminuir a emissão de gases de efeito estufa, responsáveis pelas mudanças climáticas, que têm impactado o planeta e alteram o clima na Amazonia, tanto quanto o desmatamento.

O texto não define como será a transição energética, quais recursos financeiros serão utilizados e, principalmente, não fala em eliminar totalmente os combustíveis fósseis. A necessidade de reduções profundas, rápidas e sustentadas da emissão de carbono, caso a humanidade queira limitar o aumento da temperatura global em 1,5°C, é uma constatação cientificamente comprovada, mas não foram levadas em devida conta pelos representantes de 195 nações.

Cientistas e ambientalistas de todas as nacionalidades estão frustrados com isso. Encerrada ontem, a COP28 foi convocada para estabelecer o fim do uso dos combustíveis fósseis na produção de energia. O documento final até aponta, pela primeira vez, a necessidade de uma transição energética, mas não leva em conta a meta da ONU de extinguir o uso desses poluentes até 2050.

•        Carvão e gás

O acordo determina que os países devem se "afastar dos combustíveis fósseis nos sistemas energéticos", sem determinar como isso deve acontecer. Responsável pela geração de 37% da eletricidade no mundo, o carvão é responsável por 30% do efeito estufa, mas, sobre isso, a resolução retrocede em relação à COP26.

Os combustíveis de transição podem desempenhar um papel importante para a transição energética, garantindo segurança, mas foram tratados genericamente. O acordo afirma apenas que os países devem acelerar o uso de sistemas de energia com emissões zero ou baixas, utilizando tecnologias renováveis, nucleares e de captura e armazenamento de carbono. Ou seja, abre a brecha para o gás natural, que produz dióxido de carbono (CO²). Quem mais ganha com isso é a Rússia.

Na questão da captura de carbono, houve avanço ao defender tecnologias com zero ou baixa emissão de carbono para fazer a transição energética. A captura pode minimizar o impacto dos gases do efeito estufa. Empresas e países têm desenvolvido diferentes tecnologias para reter, armazenar e transformar o carbono retirado da atmosfera em outras substâncias, como o bicarbonato de sódio.

Os ambientalistas criticam a falta de investimentos dos países desenvolvidos nesse setor. A responsabilidade está sendo transferida para os países com grandes extensões de florestas (sumidouros naturais de carbono), que podem mitigar a poluição produzida principalmente no Hemisfério Norte. Mas precisam de investimentos dos países mais ricos e poluidores.

 

       Petrobras avança em áreas no Sul do país em paralelo a acordo da COP28

 

No momento em que, pela primeira vez, uma conferência do clima das Nações Unidas aprova um acordo para reduzir o uso de combustíveis fósseis e acelerar a transição energética, o Brasil amplia a área de produção de petróleo no país. Depois do leilão promovido pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), ontem, no Rio de Janeiro, a exploração vai se estender por toda a costa brasileira, com a perspectiva de abertura de poços no Sul do país. Das 602 áreas ofertadas, foram arrematadas 192, com arrecadação de R$ 421,7 milhões aos cofres do Tesouro.

A novidade foi o alto interesse dos investidores pela Bacia de Pelotas, que abrange o litoral do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Em consórcio com outras petroleiras, a Petrobras arrematou a maioria dos blocos ofertados. Ficou com 29, enquanto a norte-americana Chevron arrematou 15.

O presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, comentou, após o leilão, que a estatal inaugura "uma área nova, com menos perspectivas de problemas ambientais e de demoras (nos processos de licenciamento)". "É uma área parecida com as bacias de Campos e de Santos", comparou.

Para a Petrobras, a exploração de óleo e gás no Sul do país, além de abrir uma nova fronteira de produção, também vai ajudar a estatal a implantar sistemas de geração eólica de energia nas plataformas offshore (no mar), mitigando os efeitos da carbonização provocada pelos combustíveis fósseis.

•        Contradição

Na abertura do certame, o diretor-geral da ANP, Rodolfo Saboia, rebateu as críticas de que o país estaria sendo contraditório ao estimular o aumento da produção de combustíveis fósseis em um momento em que o mundo discute como reduzir emissões de gases de efeito estufa para frear o aquecimento global. Aos investidores, disse que "a contratação de novas áreas para exploração significa um passo muito importante para evitar a queda da nossa produção a partir do início da próxima década".

A contradição, para Saboia, "é apenas aparente", pois uma "eventual paralisação da atividade petrolífera no Brasil não contribuiria para a redução da dependência do petróleo, nem para a mitigação das mudanças climáticas".

"Apenas nos tornaria mais pobres, mais dependentes de outros países, que continuarão produzindo com pegadas de carbono mais intensas do que a nossa. (E nos tornaria) menos capazes de investirmos em tecnologias verdes", salientou.

A ANP também ofertou quatro blocos terrestres na região de Manaus, arrematados pela Atem. Em um deles, em consórcio com a Eneva, pagou R$ 7,8 milhões pela licença, um ágio de 360% sobre os preços mínimos. As áreas de exploração estão situadas na Floresta Amazônica, nos municípios de São Sebastião do Uatumã e Urucará, a pouco mais de 200km de Manaus.

A organização ambientalista não governamental Arayara chegou a apresentar à ANP um estudo em que alerta para os riscos da exploração em relação aos povos originários. Segundo a ONG, há ameaça direta a 23 terras indígenas, que estão sob a zona de influência de 15 dos blocos ofertados ontem, com impactos para cerca de 22 mil representantes dos nativos. O Ministério Público Federal (MPF) também está questionando a agência reguladora a explicar melhor os impactos da exploração na região.

A ANP também ofereceu aos investidores, ontem, áreas de exploração na Bacia Potiguar, que faz parte da chamada Margem Equatorial, considerada a mais promissora do país, mas que enfrenta fortes reações por parte de ambientalistas por se estender até a foz do Rio Amazonas.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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