domingo, 17 de dezembro de 2023

Cientistas podem ter achado a resposta para o TDAH em genes únicos

Embora o entendimento sobre o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) tenha aumentado nos últimos anos — levando à melhora na identificação e diagnóstico —, ainda há muito que não sabemos sobre essa neurodivergência, especialmente os mecanismos biológicos por trás da sua ocorrência e da diferença nas percepções humanas. Um desses aspectos é o papel dos genes, já que não sabemos quais são responsáveis por essa hereditariedade.

Um novo estudo, no entanto, veio para mudar a percepção da ciência sobre essa herança: até agora, devido à complexidade do TDAH, se acreditava que ele teria de ser explicado por uma série de mutações nos genes, mas a inovadora pesquisa sugere que metade dos casos herdados venha de variações genéticas únicas, ou seja, em apenas um gene — e com fatores ambientais, ou epigenéticos.

·        Genética e o TDAH

A questão sobre os genes múltiplos, embora muitas cientistas considerem essa hipótese "óbvia", é que eles não conseguem explicar toda a herança genética do TDAH. Estudos analisando como os genes ligados ao transtorno são passados à frente só observaram cerca de 30% deles sendo herdados. Ao mesmo tempo, os sintomas físicos e comportamentais, quando observados nas linhagens familiares, têm cerca de 80% de herdabilidade. A conta não bate.

Para investigar a fundo, uma equipe liderada pela psicóloga Anne Arnett, da Universidade de Harvard, estudou o genoma completo de 77 crianças americanas com TDAH e suas famílias. Embora seja uma amostra pequena e o foco seja nos infantes, a teoria proposta explicaria as variações nas heranças únicas e múltiplas.

A chave está na metilação atípica. A metilação do DNA é um controle do corpo para mudar os níveis de expressão genética em diferentes células, acontecendo por conta de influências externas (ou seja, epigenéticas). Assim, fatores ambientais como estresse, atividades físicas, a dieta que um ascendente (como a avó, por exemplo) teve ou a poluição podem mudar os estados de metilação em vários genes diferentes. Isso causa um efeito dominó no corpo que pode, entre outras coisas, gerar o TDAH.

Isso pode explicar como agentes externos contribuem para diferenças no desenvolvimento do cérebro e na expressão de sintomas de neurodivergência — níveis parecidos de variação genética já foram identificados no Transtorno do Espectro Autista (TEA), por exemplo. Já se suspeitava que ambas essas neurodivergências tinham alguma relação, já que até 70% dos indivíduos que apresentam uma delas também apresenta a outra, ou ao menos aparecem na mesma família.

Embora alguns dos traços desses transtornos sejam opostos, muitos são compartilhados, levando alguns cientistas a propor que seriam partes diferentes de um mesmo contínuo. Caso a teoria epigenética esteja correta, isso explicaria como tantos sintomas diferentes poderiam ocorrer.

 

Ø  Entenda o transtorno de déficit de atenção que também pode afetar adultos

 

Um dos transtornos psicológicos mais conhecidos pela população é o TDAH, sigla para Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade, que aflige mais de duas milhões de pessoas por ano no Brasil. A condição pode surgir, principalmente, durante a infância, mas isso não deixa os adultos imunes aos seus sintomas e desenvolvimento.

Pessoas que sofrem de TDAH em algum momento da vida apresentam sintomas como distração, pouco controle de impulsos, irritabilidade, hiperatividade (inquietação) e esquecimento. Esses efeitos podem acabar prejudicando os estudos e trabalho, além das relações pessoais, com diversos desentendimentos. Para entender melhor do que se trata o TDAH e como é possível fazer o tratamento, o Canaltech conversou com duas especialistas no assunto, que explicaram o transtorno e por que devemos prestar atenção nos sintomas.

·        O TDAH e os sintomas

Gabriela Luxo, psicóloga, mestre e doutora em distúrbios de desenvolvimento, conta que nem todos os pacientes que sofrem de déficit de atenção sofrem também de hiperatividade. Luxo diz que o transtorno é  neurobiológico, muitas vezes consequência de um fator genético, mas que fatores biopsicossociais podem interferir no desenvolvimento da condição, melhorando ou piorando cada quadro. A especialista diz ainda que o TDAH, geralmente, surge na infância e pode acompanhar um paciente ao longo de sua vida, e que é possível perceber a diferença de comportamento de uma criança com TDAH de outra que não tem o transtorno a partir dos sete anos de idade.

Cris Correia, psicóloga clínica, mestre em psicologia social e especialista em terapia cognitivo-comportamental, nos contou que o TDAH na infância costuma ser confundido, no dialeto popular, com "manha", ou ainda com adultos dizendo que essas crianças são "terríveis", já que os sintomas incluem agitação, inquietação, fala muito rápida, com crianças interferindo na fala dos adultos. Correia conta também que crianças com TDAH, normalmente, são bastante inteligentes e criativas na escola, por exemplo, mas acabam tendo notas baixas por não conseguirem se concentrar como deveriam. Professores costumam dizer aos pais que essas crianças não conseguem ficar quietas e se distraem muito fácil.

Luxo também diz que, quando isso acontece, os pais buscam encontrar um diagnóstico médico para o que está acontecendo, descobrindo então o transtorno, mas que existe o oposto. "Também existem aquelas pessoas que acabam deixando os sintomas passarem por despercebidos e vão levando com a vida, e descobrem um quadro de TDAH apenas na adolescência ou na vida adulta", conta a psicóloga. Então, é preciso ficar alerta em relação ao comportamento de uma criança na escola, principalmente quando o aprendizado começa a ficar mais pesado.

Correia diz que é possível ainda que um adulto desenvolva o TDAH mesmo sem ter sofrido do transtorno na infância, e que normalmente os sintomas podem ser confundidos com ansiedade, quando se fala na hiperatividade. "São pessoas difíceis de se lidar no trabalho, pois elas têm muita alteração e você percebe que são pessoas que não conseguem ficar muito sentadas, em reunião, e têm uma necessidade muito grande de ficar circulando", conta a psicóloga, destacando ainda sintomas de irritabilidade, quando o indivíduo se estressa muito fácil, e também na dificuldade de finalizar tarefas, como a leitura de um livro, por exemplo.

·        Cuidado com o autodiagnóstico de TDAH

Gabriela Luxo diz que é preciso tomar cuidado com o autodiagnóstico de TDAH em adultos, ou ainda com o diagnóstico de pais com seus filhos, que acabam classificando qualquer dificuldade de atenção como sendo o transtorno. "Tem que ter muito cuidado com isso, orientamos uma avaliação médica, pode ser com psiquiatra ou neurologista, mas também recomendamos uma avaliação neuropsicológica, quando são aplicados testes por psicólogos para avaliar os níveis de atenção e das habilidades cognitivas envolvidas. Nós fazemos um mapeamento geral das habilidades para verificar se há, então, um diagnóstico de déficit de atenção com hiperatividade", explica.

Luxo reforça a questão do autodiagnóstico, uma vez que o termo TDAH se tornou popular, ainda que a conscientização seja necessária. A psicóloga diz que, aos primeiros sintomas, um indivíduo não pode se rotular e dizer sofrer do transtorno, mas sim buscar a ajuda adequada para que seja feito o diagnóstico e, então, o tratamento. "Os testes feitos por psicólogos são padrão Ouro aqui no Brasil, fazendo um rastreio. Vamos avaliar a inteligência verbal e não-verbal, planejamento, atenção, memória, leitura, escrita e aritmética, entre todas as nossas habilidades principais, para obter um mapeamento geral desse paciente. Com o relatório feito, encaminhamos a um médico, que finalmente fecha o diagnóstico", completa.

Correia também indica uma avaliação do transtorno através da terapia cognitivo-comportamental (TCC), além da neuropsicológica, que também é bastante apropriada para a condição. "Uma pessoa pode passar primeiro por um psicólogo, ou um psicólogo clínico, ou até mesmo procurar um neurologista ou psiquiatra para isso", reforça. A psicóloga ainda ressalta a importância de um diagnóstico adequado, assim como o tratamento, pois o TDAH pode desencadear uma ansiedade e depressão, por exemplo, mas que tudo depende de cada caso. 

Gabriela conta que crianças já são mais agitadas de forma natural, e que, com o avanço da tecnologia, a agitação fica ainda maior. Isso não significa, necessariamente, que ela sofra de TDAH. "As crianças de hoje são muito mais agitadas mesmo, os dias que vivemos hoje, com A COVID-19, também deixam o ambiente mais agitado, com uma carga de ansiedade maior", pontua a psicóloga. "Elas têm muita informação com a tecnologia, com todo o uso de celulares e computadores, então elas são mais ativas, e por causa disso quase todos os pais dizem que elas têm TDAH. É preciso tomar cuidado com esses termos e não banalizar o transtorno", completa.

·        Tratando o TDAH

Correia diz que o momento de buscar ajuda acaba ficando mais claro quando o transtorno começa a prejudicar a vida da pessoa. "Crianças, por exemplo, podem ter dificuldades na aprendizagem. Já o adolescente, que está na fase de transição, pode se tornar uma pessoa muito confusa e agressiva. E o adulto pode acabar não se estabilizando em emprego nenhum, pode começar um projeto e nunca terminar. Ou ainda sente dificuldade de se relacionar com as pessoas. Depende muito da pessoa, da situação, do histórico familiar", pontua.

A psicóloga Gabriela Luxo conta que, após o diagnóstico correto, é feito um plano de intervenção para o tratamento do TDAH, seja o paciente criança, adolescente ou adulto. Um dos primeiros passos também é o uso de medicamentos, que podem ser receitados por psiquiatras ou neurologistas, o que vai ajudar na agitação, ou seja, os sintomas da hiperatividade. "Existem também outras medicações que vão atuar para tratar a atenção. Muitas vezes, esses pacientes precisam ser medicados para atenuar o quadro, os sintomas e, então, iniciamos o plano de intervenção com psicólogos ou psicopedagogos", explica a especialista.

A especialista completa: "É preciso buscar ajuda logo para que os sintomas não se enraízem muito e se torne a cada vez mais difícil sair dessa situação. É importante encontrar ajuda qualificada com profissionais que atuem na área, que saibam trabalhar com o nicho de TDAH para que, então, os pacientes sejam auxiliados para ter mais qualidade de vida", relata Luxo, dizendo que o transtorno não incapacita uma pessoa e que ela pode fazer tudo através de ajustes e organização.

 

Fonte: Journal of Attention Disorders, Adolescent Mental Health, JAMA Child & Adolescent Psychiatry, Nature Genetics, Research on Child and Adolescent Psychopathology, Genetic Disorders/Canaltech

 

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