Bahia tem potencial para liderar
produção de mel
A produção de mel em terras baianas, que garante a
sobrevivência de mais de 20 mil apicultores da agricultura familiar, vem
batendo recordes e chegou a cinco mil toneladas por ano. De acordo com pesquisa
do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Bahia é o quarto maior
estado produtor de mel do Brasil e o que tem o maior crescimento em números
absolutos. Por ano, são gerados R$ 64,8 milhões para os meliponicultores e
apicultores baianos, com predominância da agricultura familiar.
O mel tem transformado a realidade em diversas
regiões do estado, proporcionando fonte de renda às famílias e impulsionando o
desenvolvimento. De acordo com o produtor de mel e diretor-presidente da
Cooperativa Agropecuária dos Agricultores e Apicultores do Médio São Francisco
(Coopamesf), Rafael Farias, a produção de mel tem realizado os sonhos de muitos
pequenos apicultores, que hoje podem comprar uma casa e um carro. “A apicultura
mudou a vida de muitas famílias”, enfatizou. Ele produz oito toneladas de mel
por ano, o que é muito para um agricultor familiar.
Farias conta que trabalhava com o pai desde os 9
anos de idade cuidando de abelhas na região de Brotas de Macaúbas, onde todo
mundo era apicultor amador: colhiam o mel, beneficiavam de forma rústica, mas
não comercializavam. Até que foi fundada a Associação dos Apicultores do Vale
do Riacho Grande, da qual ele é o tesoureiro, e três anos depois, nasceu a
cooperativa, cuja sede fica em Ibotirama, com a finalidade de escoar o produto
para a venda. São 200 cooperados, com atendimento a 450 famílias em capacitações
sobre inovação e maquinário.
“No início, produzíamos 60 toneladas de mel
fracionado por ano. Hoje, a cooperativa produz 700 toneladas por ano, sendo que
90% é exportado para a América do Norte e 10% é envasado no entreposto de
Ibotirama para comercialização no estado”, contou. Farias afirma que o
brasileiro tem o costume de ver o mel como remédio, e não como um alimento 100%
natural e muito nutritivo.
O apicultor explica que as abelhas com que eles
trabalham na região são a apis africanizada, com ferrão, e a melipônia, que é
sem ferrão e pode ser criada dentro de casa. ”Depois que você faz a captura das
abelhas na natureza, uma única colmeia pode chegar a ter 80 mil abelhas
operárias. Daí é só ir dividindo o enxame para ir multiplicando”, ensina.
No Médio São Francisco, entre 16 municípios, dez
produzem mel a partir das árvores nativas da caatinga, como juazeiro, angico de
bezerro, unha de gato, marmeleiro e aroeira - espécies que só existem no sertão
e conferem ao produto um sabor diferenciado. “Já ganhamos duas competições de
mel na categoria qualidade. Temos o melhor mel da Bahia, que é o Velho Chico”,
comemorou, acrescentando que os cursos de boas práticas do Sebrae e diversas
outras capacitações com especialistas de todo o país trouxeram muito conhecimento
para os apicultores. O Serviço Nacional de Assistência Rural (Senar) tem
formado turmas com assistência técnica e quer atrair mais pessoas para o setor
melífero.
O mel da cooperativa passa por análise com
frequência e tem o Selo de Inspeção Federal (SIF), do Ministério da
Agricultura. O que atrapalha, segundo Farias, são os meleiros que vendem sem
rótulo nas estradas. “Eles jogam fogo no enxame, matam as abelhas, espremem na
mão o mel sem nenhum cuidado, colocam em qualquer recipiente e vendem barato na
garrafa pet, podendo contaminar as pessoas. Tinha que haver punição para o
atravessador. Nunca comprem mel sem rótulo, verifique sempre a procedência”,
alerta.
• Troféu
Abelha de Ouro
No litoral norte baiano, o produtor e gestor de
comunicação da Associação dos Jovens Remanescentes Quilombolas da Bahia
(Ajarquiba), Elício Neves, realizou a segunda edição de um dos maiores
seminários de apicultura e meliponicultura na Bahia, em outubro, em Esplanada -
o Bahia Golden Bee, em que ocorreram exposição de produtos, equipamentos e
tecnologia, além de capacitações.
O evento foi realizado com o apoio de Sebrae, Senar
e Bracell Social, e reuniu 610 apicultores e meliponicultores de 15 municípios
baianos e de outros estados, além de diversas associações de apicultores,
meliponicultores e agricultura familiar, com o objetivo de fomentar a cadeia
produtiva do mel no território, mobilizar e empoderar os produtores. Foi
idelizada uma premiação para incentivar a criação de abelhas, diminuir a sua
mortandade e estreitar o relacionamento entre apicultores e meliponicultores,
segundo Elício Neves. A primeira edição do Troféu Abelha de Ouro da Bahia
premiou dez empreendimentos no litoral norte baiano e empresas parceiras.
A associação Ajarquiba realizou também a primeira
feira de exposições de produtos derivados das abelhas, como a cerveja de mel
Flores da Mata, o biscoito de chocolate amargo com mel e outros 23 produtos
derivados do mel e do pólen. A qualidade do produto é propícia à fabricação de
cerveja e de outras bebidas, com tons cítricos, produzido a partir do néctar
das flores do bioma Mata Atlântica, o que favorece a formação de um blend
dentro da colmeia, com dois ou três tipos de mel, sendo o mais claro de todos o
de pau-pombo, que se usa para adoçar o café porque não altera o sabor; o de
ingá, que deixa uma essência aromatizada no final; e o da rabuge, que é mais
escuro e oferece um leve amargor ao paladar.
Mas há mais de 13 espécies de flores no bioma,
todas diferentes uma das outras, o que ocasiona o mel de florada silvestre, que
pode conter mel do cipó uva, ingá uçu, cipó de fogo, murici, dentre outras. “O
mel baiano tem características de sabor e coloração diferenciadas porque a
vegetação da caatinga é bastante rica, e tem também a mistura com o mel de
eucalipto”, explica a coordenadora de Negócios do Sebrae, Adriana Moura.
Para Neves, a apicultura e a meliponicultura são
atividades ainda pouco exploradas e com muito potencial de crescimento,
principalmente na região de Mata Atlântica,
que tem vegetação e água em abundância, com o clima propício a muitas
floradas o ano inteiro. Ao contrário da caatinga, que só produz mel quando
chove, o que faz com que os apicultores tenham que buscar alimento para as
abelhas não morreram durante a seca, que predomina por oito meses do ano. “A
apicultura dá espaço para todo mundo trabalhar e transformar o mel em produtos,
agregando valor à cadeia produtiva”, disse ele, acrescentando que a produção
atual da cooperativa é de 1.200 quilos por ano de abelhas nativas, que têm um
manejo integrado humanizado.
O produtor de mel e fabricante de caixas de abelhas
Lamarque Almeida, diretor da Associação de Desenvolvimento da Apicultura e
Meliponicultura de Seabra (Adamel), com 60 produtores, está no ramo há 18 anos
e disse que o investimento para se iniciar na atividade é barato, com florações
imensas na Chapada Diamantina. Segundo ele, é a saída para muitos agricultores
que acabam se apaixonando pelas abelhas e vivendo melhor. O seu pai, Rosival de
Melo, de 71 anos, passou a vida criando gado e plantando café e agora virou apicultor, dizendo que é uma
atividade muito melhor de se trabalhar em todos os sentidos. As floradas
silvestres originam mel da candeia, tingui, pau pombo, cipó uva, assapeixe,
entre outras.
• Projeto
Polinizadores treina associados para promover
inseminação de abelhas rainhas
Os 120 associados da Ajarquiba receberam
treinamento de inseminação de abelhas rainhas fecundadas através do projeto
Polinizadores, que a Bracell desenvolve nas suas florestas de eucalipto. A
empresa autoriza a instalação de caixas e o manejo dos apiários em áreas da
operação florestal, permitindo o acesso às floradas da vegetação nativa para a
produção do mel e produtos derivados do manejo de abelhas.
No ano passado, o projeto contribuiu para a geração
de renda total de R$ 1.061.960 para os apicultores parceiros. “Investimos
fortemente em formação e assistência técnica voltada aos pequenos produtores
que têm se destacado na atividade, contribuindo para dinamizar a atividade
apícola no território, com foco no aprimoramento das técnicas e na
diversificação da produção na região”, declarou Milena Oliveira, especialista
em responsabilidade social da Bracell Bahia.
A empresa ganhou, neste mês, o prêmio
Sustentabilidade da Federação das Indústrias da Bahia (Fieb) com o projeto de
apoio à criação de abelhas e empoderamento de negócios quilombolas.
A Suzano cede o pasto apícola em suas áreas de
reserva legal e eucalipto para nove associações em quatro municípios, atendendo
mais de 250 apicultores, com cinco mil caixas de abelha espalhadas pelas áreas,
contribuindo assim para promover o fortalecimento da cadeia apícola nas regiões
de atuação da empresa.
A Veracel também apoia, há 18 anos, a cadeia
produtiva do mel em seu território de atuação por meio de parcerias com
associações de apicultores locais. Em 2022, 131 famílias foram beneficiadas, e
31 mil quilos de mel foram produzidos na região.
A empresa doa materiais, insumos, tecnologia e
vestimentas adequadas, além de oferecer diversas capacitações técnicas dos
apicultores, que implantam as suas caixas apícolas em suas florestas plantadas
de eucalipto. Eles também receberam uma área e apoio para a construção do seu
entreposto de mel, inaugurado em 2021.
De acordo com a Associação Brasileira de Florestas
(Abaf), o setor florestal investe mais de R$ 26 milhões por ano em projetos
socioambientais, como a apicultura e o empreendedorismo, beneficiando mais de
600 mil pessoas em 211 municípios, e 28 associações que detém mais de dez mil
colmeias espalhadas em 22 cidades. Esses apicultores apoiados produzem, em
média, 300 mil quilos de mel por ano, o que gera uma renda anual em torno de R$
2 milhões.
Fonte: A Tarde

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