quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Bahia tem potencial para liderar produção de mel

A produção de mel em terras baianas, que garante a sobrevivência de mais de 20 mil apicultores da agricultura familiar, vem batendo recordes e chegou a cinco mil toneladas por ano. De acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Bahia é o quarto maior estado produtor de mel do Brasil e o que tem o maior crescimento em números absolutos. Por ano, são gerados R$ 64,8 milhões para os meliponicultores e apicultores baianos, com predominância da agricultura familiar.

O mel tem transformado a realidade em diversas regiões do estado, proporcionando fonte de renda às famílias e impulsionando o desenvolvimento. De acordo com o produtor de mel e diretor-presidente da Cooperativa Agropecuária dos Agricultores e Apicultores do Médio São Francisco (Coopamesf), Rafael Farias, a produção de mel tem realizado os sonhos de muitos pequenos apicultores, que hoje podem comprar uma casa e um carro. “A apicultura mudou a vida de muitas famílias”, enfatizou. Ele produz oito toneladas de mel por ano, o que é muito para um agricultor familiar.

Farias conta que trabalhava com o pai desde os 9 anos de idade cuidando de abelhas na região de Brotas de Macaúbas, onde todo mundo era apicultor amador: colhiam o mel, beneficiavam de forma rústica, mas não comercializavam. Até que foi fundada a Associação dos Apicultores do Vale do Riacho Grande, da qual ele é o tesoureiro, e três anos depois, nasceu a cooperativa, cuja sede fica em Ibotirama, com a finalidade de escoar o produto para a venda. São 200 cooperados, com atendimento a 450 famílias em capacitações sobre inovação e maquinário.

“No início, produzíamos 60 toneladas de mel fracionado por ano. Hoje, a cooperativa produz 700 toneladas por ano, sendo que 90% é exportado para a América do Norte e 10% é envasado no entreposto de Ibotirama para comercialização no estado”, contou. Farias afirma que o brasileiro tem o costume de ver o mel como remédio, e não como um alimento 100% natural e muito nutritivo.

O apicultor explica que as abelhas com que eles trabalham na região são a apis africanizada, com ferrão, e a melipônia, que é sem ferrão e pode ser criada dentro de casa. ”Depois que você faz a captura das abelhas na natureza, uma única colmeia pode chegar a ter 80 mil abelhas operárias. Daí é só ir dividindo o enxame para ir multiplicando”, ensina.

No Médio São Francisco, entre 16 municípios, dez produzem mel a partir das árvores nativas da caatinga, como juazeiro, angico de bezerro, unha de gato, marmeleiro e aroeira - espécies que só existem no sertão e conferem ao produto um sabor diferenciado. “Já ganhamos duas competições de mel na categoria qualidade. Temos o melhor mel da Bahia, que é o Velho Chico”, comemorou, acrescentando que os cursos de boas práticas do Sebrae e diversas outras capacitações com especialistas de todo o país trouxeram muito conhecimento para os apicultores. O Serviço Nacional de Assistência Rural (Senar) tem formado turmas com assistência técnica e quer atrair mais pessoas para o setor melífero.

O mel da cooperativa passa por análise com frequência e tem o Selo de Inspeção Federal (SIF), do Ministério da Agricultura. O que atrapalha, segundo Farias, são os meleiros que vendem sem rótulo nas estradas. “Eles jogam fogo no enxame, matam as abelhas, espremem na mão o mel sem nenhum cuidado, colocam em qualquer recipiente e vendem barato na garrafa pet, podendo contaminar as pessoas. Tinha que haver punição para o atravessador. Nunca comprem mel sem rótulo, verifique sempre a procedência”, alerta.

•        Troféu Abelha de Ouro

No litoral norte baiano, o produtor e gestor de comunicação da Associação dos Jovens Remanescentes Quilombolas da Bahia (Ajarquiba), Elício Neves, realizou a segunda edição de um dos maiores seminários de apicultura e meliponicultura na Bahia, em outubro, em Esplanada - o Bahia Golden Bee, em que ocorreram exposição de produtos, equipamentos e tecnologia, além de capacitações.

O evento foi realizado com o apoio de Sebrae, Senar e Bracell Social, e reuniu 610 apicultores e meliponicultores de 15 municípios baianos e de outros estados, além de diversas associações de apicultores, meliponicultores e agricultura familiar, com o objetivo de fomentar a cadeia produtiva do mel no território, mobilizar e empoderar os produtores. Foi idelizada uma premiação para incentivar a criação de abelhas, diminuir a sua mortandade e estreitar o relacionamento entre apicultores e meliponicultores, segundo Elício Neves. A primeira edição do Troféu Abelha de Ouro da Bahia premiou dez empreendimentos no litoral norte baiano e empresas parceiras.

A associação Ajarquiba realizou também a primeira feira de exposições de produtos derivados das abelhas, como a cerveja de mel Flores da Mata, o biscoito de chocolate amargo com mel e outros 23 produtos derivados do mel e do pólen. A qualidade do produto é propícia à fabricação de cerveja e de outras bebidas, com tons cítricos, produzido a partir do néctar das flores do bioma Mata Atlântica, o que favorece a formação de um blend dentro da colmeia, com dois ou três tipos de mel, sendo o mais claro de todos o de pau-pombo, que se usa para adoçar o café porque não altera o sabor; o de ingá, que deixa uma essência aromatizada no final; e o da rabuge, que é mais escuro e oferece um leve amargor ao paladar.

Mas há mais de 13 espécies de flores no bioma, todas diferentes uma das outras, o que ocasiona o mel de florada silvestre, que pode conter mel do cipó uva, ingá uçu, cipó de fogo, murici, dentre outras. “O mel baiano tem características de sabor e coloração diferenciadas porque a vegetação da caatinga é bastante rica, e tem também a mistura com o mel de eucalipto”, explica a coordenadora de Negócios do Sebrae, Adriana Moura.

Para Neves, a apicultura e a meliponicultura são atividades ainda pouco exploradas e com muito potencial de crescimento, principalmente na região de Mata Atlântica,  que tem vegetação e água em abundância, com o clima propício a muitas floradas o ano inteiro. Ao contrário da caatinga, que só produz mel quando chove, o que faz com que os apicultores tenham que buscar alimento para as abelhas não morreram durante a seca, que predomina por oito meses do ano. “A apicultura dá espaço para todo mundo trabalhar e transformar o mel em produtos, agregando valor à cadeia produtiva”, disse ele, acrescentando que a produção atual da cooperativa é de 1.200 quilos por ano de abelhas nativas, que têm um manejo integrado humanizado.

O produtor de mel e fabricante de caixas de abelhas Lamarque Almeida, diretor da Associação de Desenvolvimento da Apicultura e Meliponicultura de Seabra (Adamel), com 60 produtores, está no ramo há 18 anos e disse que o investimento para se iniciar na atividade é barato, com florações imensas na Chapada Diamantina. Segundo ele, é a saída para muitos agricultores que acabam se apaixonando pelas abelhas e vivendo melhor. O seu pai, Rosival de Melo, de 71 anos, passou a vida criando gado e plantando café  e agora virou apicultor, dizendo que é uma atividade muito melhor de se trabalhar em todos os sentidos. As floradas silvestres originam mel da candeia, tingui, pau pombo, cipó uva, assapeixe, entre outras.

•        Projeto Polinizadores treina associados para promover  inseminação de abelhas rainhas

Os 120 associados da Ajarquiba receberam treinamento de inseminação de abelhas rainhas fecundadas através do projeto Polinizadores, que a Bracell desenvolve nas suas florestas de eucalipto. A empresa autoriza a instalação de caixas e o manejo dos apiários em áreas da operação florestal, permitindo o acesso às floradas da vegetação nativa para a produção do mel e produtos derivados do manejo de abelhas.

No ano passado, o projeto contribuiu para a geração de renda total de R$ 1.061.960 para os apicultores parceiros. “Investimos fortemente em formação e assistência técnica voltada aos pequenos produtores que têm se destacado na atividade, contribuindo para dinamizar a atividade apícola no território, com foco no aprimoramento das técnicas e na diversificação da produção na região”, declarou Milena Oliveira, especialista em responsabilidade social da Bracell Bahia.

A empresa ganhou, neste mês, o prêmio Sustentabilidade da Federação das Indústrias da Bahia (Fieb) com o projeto de apoio à criação de abelhas e empoderamento de negócios quilombolas.

A Suzano cede o pasto apícola em suas áreas de reserva legal e eucalipto para nove associações em quatro municípios, atendendo mais de 250 apicultores, com cinco mil caixas de abelha espalhadas pelas áreas, contribuindo assim para promover o fortalecimento da cadeia apícola nas regiões de atuação da empresa.

A Veracel também apoia, há 18 anos, a cadeia produtiva do mel em seu território de atuação por meio de parcerias com associações de apicultores locais. Em 2022, 131 famílias foram beneficiadas, e 31 mil quilos de mel foram produzidos na região.

A empresa doa materiais, insumos, tecnologia e vestimentas adequadas, além de oferecer diversas capacitações técnicas dos apicultores, que implantam as suas caixas apícolas em suas florestas plantadas de eucalipto. Eles também receberam uma área e apoio para a construção do seu entreposto de mel, inaugurado em 2021.

De acordo com a Associação Brasileira de Florestas (Abaf), o setor florestal investe mais de R$ 26 milhões por ano em projetos socioambientais, como a apicultura e o empreendedorismo, beneficiando mais de 600 mil pessoas em 211 municípios, e 28 associações que detém mais de dez mil colmeias espalhadas em 22 cidades. Esses apicultores apoiados produzem, em média, 300 mil quilos de mel por ano, o que gera uma renda anual em torno de R$ 2 milhões.

 

Fonte: A Tarde

 

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