“A gestão dos recursos hídricos no Brasil é amadora. Isto parece nos
lembrar de que não somos um país sério”
"As enchentes são processos naturais que
ocorrem na Terra desde a sua origem", no entanto a frequência e magnitude
dos fenômenos climáticos extremos dos últimos meses podem estar
associadas às mudanças climáticas, diz o engenheiro e especialista em recursos hídricos, Carlos Tucci. "A avaliação desta diferença em termos de
temperatura foi realizada pelo IPCC com base em modelos climáticos
com todas as suas incertezas", pontua.
Nesta entrevista, concedida por e-mail
ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Tucci explica que é
o El Niño o fenômeno comum às enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul nos
últimos meses, nos anos de 1940 a 1950 e na década de 1980. "O RS tem
estas inundações em ano de El Niño, como em 1941 e 1983. O evento do El Niño
está agravado porque o Oceano Atlântico está mais quente, o que amplifica seu
impacto. Pode também ter componente de mudança climática".
A seguir, o entrevistado comenta a falta de ações
federais preventivas para lidar com os fenômenos climáticos, a falta de
investimentos nos âmbitos estadual e municipal e as dificuldades em torno
do planejamento hidrológico das cidades. "Planejamento
hidrológico é um termo genérico para diferentes projetos. No caso de gestão de
inundações, é o planejamento de obtenção de dados adequados para as medidas de
controle de inundação, principalmente as não estruturais: zoneamento de
inundação, alerta de inundação e um futuro sistema de seguros. Este
planejamento envolve seleção de locais com monitoramento para as cidades e
locais de interesse que sofrem inundação para identificar as áreas de
risco e para receber o alerta em tempo real das inundações. Sem isto
e somente com a previsão de chuva não existe alerta e gestão de
inundação", adverte.
Carlos Tucci é graduado em Engenharia Civil,
mestre em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental pela Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (UFRGS), doutor em Recursos Hídricos pela University of
Colorado. É professor do IPH e da Feevale e diretor e sócio da Rhama -
Analysis Consultoria. Foi presidente do comitê editorial da RBRH da Associação
Brasileira de Recursos Hídricos, presidente da Rede de Capacitação em Recursos
Hídricos no Brasil e presidente do comitê editorial da Revista de Gestão da
América Latina.
>>>> Confira a entrevista.
·
Em que consiste a ideia de “planejamento hidrológico” e como ela
pode se configurar como uma resposta a eventos extremos, como as cheias que
vivemos recentemente no Rio Grande do Sul?
Carlos Tucci – Planejamento hidrológico é
um termo genérico para diferentes projetos. No caso de gestão de
inundações, é o planejamento de obtenção de dados adequados para as medidas de
controle de inundação, principalmente as não estruturais: zoneamento de
inundação, alerta de inundação e um futuro sistema de seguros. Este
planejamento envolve seleção de locais com monitoramento para as cidades e
locais de interesse que sofrem inundação para identificar as áreas de risco e
para receber o alerta em tempo real das inundações. Sem isto e somente com a
previsão de chuva não existe alerta e gestão de inundação.
·
Como analisa as enchentes históricas que ocorreram no Rio Grande do Sul
recentemente?
Carlos Tucci – São eventos excepcionais que
ocorreram no passado, como em 1941, aos quais as bacias hidrográficas
estão sujeitadas. O RS tem estas inundações em ano de El Niño, como
em 1941 e 1983. O evento do El Niño está agravado porque o
Oceano Atlântico está mais quente, o que amplifica seu impacto. Pode também ter
componente de mudança climática.
·
Em que medida podemos considerar que estas enchentes são efeitos da
crise climática? Que outros fatores podem ter contribuído?
Carlos Tucci – As enchentes são processos
naturais que ocorrem na Terra desde a sua origem. O que pode estar ocorrendo é
um aumento da frequência e magnitude em função das mudanças climáticas. A
avaliação desta diferença em termos de temperatura foi realizada
pelo IPCC com base em modelos climáticos com todas as suas incertezas.
·
Quais os erros e acertos do poder público nas ações durantes as cheias
recentes nos vale do Taquari, Caí, Porto Alegre e região metropolitana?
Carlos Tucci – A Constituição e a lei n. 9433
estabelecem que eventos extremos é responsabilidade federal, mas não temos
praticamente ações preventivas de gestão de inundações no Brasil, apenas a
previsão de chuva, o que é muito pouco, pois prever a chuva é uma ajuda muito
limitada para a gestão de inundações. Em nível de cidade, o que pode ser feito
é na drenagem urbana, que é atribuição das cidades, mas praticamente
nenhuma cidade do Brasil tem este serviço, ou, quando tem o investimento, é 20%
do necessário em operação e manutenção, e praticamente nada em investimentos.
Isto decorre porque não existe recuperação de custos destes serviços e a taxa
de drenagem não é incluída porque os políticos têm receio de colocar um imposto
novo. Em fevereiro último, concluímos um plano de regulação para Agência
Nacional de Águas (ANA) para a gestão de inundação para o Brasil onde
estes aspectos foram abordados e depende agora da ANA implementar
o Plano de Ação.
Dentro da gestão estadual, são necessárias medidas
de zoneamento de inundação das cidades, o que envolve o mapa de risco e
orientação para ocupação, que é introduzido no Plano Diretor urbano da cidade.
Além disso, o alerta é muito limitado porque necessita ter a previsão de nível com antecedência para as
cidades, indicando com o mapa de inundação os locais que devem inundar. Estes
resultados ainda não existem.
·
Existem soluções definitivas para os problemas das enchentes? Por quê?
Carlos Tucci – Não existe eliminação das
enchentes, mas pode-se minimizá-las com obras estruturais ou não estruturais.
As primeiras têm custo muito alto e são viáveis economicamente somente para
grandes impactos, onde os benefícios são altos e também depende de recursos que
os municípios não possuem e dependem do governo federal. Mesmo assim, estas
medidas possuem um limite de evento para o qual dão segurança. As medidas não
estruturais são as de convivência com as inundações, as mais utilizadas em todo
o mundo.
·
Como podemos nos preparar para eventos deste tipo?
Carlos Tucci – A preparação envolve a redução
das vulnerabilidades à inundação, com a retirada ou reassentamento de
pessoas em áreas de alto risco (o que é extremamente caro), mecanismos
econômicos de incentivos, seguros (que no Brasil ainda não existem) e o
zoneamento de inundação e alerta de inundação.
·
Quais as zonas mais críticas e vulneráveis a enchentes no Rio Grande do
Sul? Como podemos compreender as características geográficas, ambientais e
populacionais destas zonas?
Carlos Tucci – As áreas mais vulneráveis
ocorrem onde o processo é muito rápido, com grande velocidade e grande
concentração de população. Praticamente todas as bacias se inserem dentro de um
ou outro fator desses no Estado, mas pode-se dizer que a Região Metropolitana de Porto Alegre tem
uma grande parte da população em área de risco (quatro milhões de pessoas no
total da região), mas tem o dique de POA que minimiza.
O Taquari, pela grande variação dos níveis e altas velocidades, atinge
várias cidades. O rio Uruguai atinge várias cidades. Esses parecem ser os
principais. O ideal é que todas as cidades tenham zoneamento de inundação e
sistema de alerta. Quando o Brasil desenvolver um programa seguro, é preciso
utilizar este programa para mitigar a perda econômica.
·
Originalmente, como se davam os ciclos de seca e enchentes no sul do
Brasil? Em que medida ainda vivemos dentro destes ciclos?
Carlos Tucci – Não existem ciclos bem
definidos e previsíveis, mas períodos que ocorreram, como 1941, que foi o ano
de um grande El Niño que inundou o Estado. No período de 1942 a 1951, tivemos
dez anos consecutivos de seca, que levou o gaúcho a se deslocar para
outros estados devido à falta de sustentação na agricultura. Depois disso,
ocorreram os anos de seca em que o estado perdeu de 6 a 8% do PIB, em média a
cada cinco anos. Anos de grandes enchentes estão relacionados ao El Niño,
como 1983 e 2023. Quando este El Niño se agrava é quando o
Oceano Atlântico está mais quente.
·
Como tornar nossas cidades resilientes aos efeitos da crise climática?
Aliás, ainda podemos reverter esse quadro climático?
Carlos Tucci – A resiliência é obtida com as
medidas não estruturais mencionadas de zoneamento de inundação, alerta e seguro
de inundação. Para aumentar a resiliência, com o tempo devem-se criar
mecanismos de incentivos para as populações que ocupam áreas de alto
risco, que os seguros não cobrem, se desloquem para áreas seguras.
A reversão da crise climática é um
problema global e a tendência é que isto não ocorra facilmente, mas a esperança
são as inovações de energia sustentável. De qualquer forma, para as próximas
gerações, a pressão climática pode diminuir depois de 2060, quando a população
do mundo iniciar a redução, já que se espera que a redução ocorra de forma
acelerada.
·
Recentemente, publicamos uma série de entrevistas com gestores de
comitês de bacias hidrográficas do Rio Grande do Sul em que denunciavam o
desmonte dos comitês. Como o senhor analisa o atual momento dos comitês de
bacias hidrográficas e qual a importância destes organismos?
Carlos Tucci – Este é o problema do nosso
país: nós nunca abordamos as soluções de forma adequada. Primeiro, a gestão de
recursos hídricos deve ser profissional, com Agências de Recursos
Hídricos, onde se priorizam os elementos técnicos e com profissionais com
conhecimento técnico em recursos hídricos. Como não há dinheiro para isto,
foram criados comitês onde a grande maioria das pessoas é leiga e voluntária e
sem recursos, o que não permite desenvolver soluções técnicas de gestão. Isto
não é culpa destas pessoas, mas da forma errada como o processo vem sendo
desenvolvido no país. É uma gestão amadora dos recursos hídricos. Isto parece
nos lembrar de que não somos um país sério.
Fonte: Entrevista com Carlos Tucci, para IHU

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