quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

8 em cada 10 brasileiros se dizem preocupados com mudanças climáticas

Oito em cada 10 brasileiros estão preocupados com a mudança do clima, segundo dados da pesquisa “Natureza e Cidades: a relação dos brasileiros com a mudança climática”. Os dados são de estudo realizado pela Fundação Grupo Boticário, com apoio de Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), Anamma (Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente) e Aliança Bioconexão Urbana.

A pesquisa mostra ainda que 71% dos entrevistados percebem que, com o passar do tempo, os eventos climáticos extremos estão ficando cada vez mais frequentes e intensos.

Para a diretora-executiva da Fundação Grupo Boticário, Malu Nunes, o resultado da pesquisa pode fazer com que as pessoas reflito sobre soluções:

“A pesquisa nos permite compreender melhor os impactos diretos das mudanças do clima na vida da população, o nível de entendimento das pessoas sobre o aumento dos fenômenos climáticos extremos e, também, refletir sobre possíveis caminhos para tornar nossas cidades mais resilientes à nova realidade.”

Perguntadas sobre a relação das mudanças do clima e o aquecimento global, o estudo mostra que 64% das pessoas sabem que a mudança do clima vai além do aquecimento do planeta. Para 93% dos entrevistados, eventos como tempestades, ondas de calor e de frio, ciclones e outros, estão ficando cada vez mais intensos em todo o planeta. Por esse motivo, 91% dos brasileiros considera as mudanças climáticas importantes.

O levantamento ouviu 2.000 pessoas com idades de 18 a 64 anos nas 5 regiões do país. Na amostra, 50,5% dos entrevistados residem em capitais e 49,5% vivem nas demais cidades.

IMPACTOS

Cerca de 1 em cada 3 pessoas (35%) já se sentiram impactadas ou tiveram um familiar diretamente impactado por fenômenos climáticos extremos. Dentre os que se dizem impactados, 65% relatam alguma perda financeira, com prejuízo médio estimado de R$ 8.485,00 por pessoa.

Questionados sobre quais os eventos que causaram essas consequências diretas, os mais citados pelos entrevistados foram: chuvas fortes ou tempestades (45%), ventanias (21%), inundações e alagamentos (21%), ondas de calor (20%), períodos longos de estiagem (7%) e, por fim, deslizamentos de terra ou desmoronamentos (5%).

O estudo propôs uma escala de 0 a 10 para que os entrevistados marcassem outras repercussões das mudanças climáticas. O aumento nos preços dos alimentos figurou em 1º lugar, com nota média de 8,8 nessa escala. Outras marcações dos entrevistados igual ou acima de 8, na escala, incluem: extinção de espécies (8,5); aumento do nível do mar (8,2); crise no abastecimento de água (8,1) e crise na geração de energia (8).

Em um recorte que considera a região onde vivem os entrevistados, a população que se sente mais impactada diretamente é a da região Sul (45%), seguida por Sudeste (36%), Norte (34%), Centro-Oeste (32%) e Nordeste (29%).

JUSTIÇA CLIMÁTICA

A pesquisa também mostrou que 39% das pessoas entrevistadas percebem que as mudanças do clima impactam de forma e intensidade diferentes grupos sociais e países distintos.

Para a diretora e representante da Unesco no Brasil, Marlova Jovchelovitch Noleto, essa consciência é relevante na busca de igualdade de direitos: “Essa compreensão é importante para percebermos que não se trata de uma questão meramente ambiental, é também uma questão ética e política.

Portanto, como sociedade, precisamos avançar no entendimento sobre a justiça climática”. Nas capitais brasileiras, em média, 59% das pessoas já assimilaram que mudança climática não é o mesmo que previsão do tempo. No entanto, o entendimento sobre causas e consequências das mudanças climáticas varia conforme a escolaridade dos entrevistados.

Segundo os dados coletados, quanto menor o nível de escolaridade, menor a compreensão sobre como o ser humano influencia nas alterações do clima do planeta –o que pode sinalizar a desigualdade no acesso à informação pelas pessoas com menor grau de instrução.

VERDE NAS CIDADES

Além de investigar a opinião da população brasileira sobre as mudanças climáticas, o estudo da Fundação Grupo Boticário tem o objetivo de mostrar a importância de aumentar a presença de áreas verdes nas cidades para amenizar o impacto desses eventos extremos nas regiões urbanas.

Quase a totalidade dos entrevistados (98%) gostariam de viver em cidades mais arborizadas –com mais árvores nas ruas, mais parques urbanos e corredores verdes.

Nove em cada 10 entrevistados percebem que a sensação de calor é maior em regiões com menos áreas verdes. Para 86% dos entrevistados, os espaços verdes estão diminuindo; e 26% disseram que moram em regiões sem parques, bosques ou áreas verdes.

MUDANÇA DE HÁBITOS

Diante dessas percepções, 87% dos entrevistados admitiram estar dispostos a mudar seus hábitos em benefício do planeta, sendo que 19% não indicaram como mudá-los. Dentre os que citaram mudanças, as alternativas listadas incluem: reciclar e descartar o lixo corretamente (24%), plantar árvores (15%), evitar uso de plástico (8%) e usar meios de transporte menos poluentes (8%).

A professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) e integrante da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, Cecilia Polacow Herzog, afirma que é importante aproveitar essa disposição de mudança para incentivar medidas que reduzam o aquecimento global.

Ela também cita algumas ações que podem ser praticadas para ajudar na conscientização daqueles que não sabem o que fazer: “o uso de transporte público e bicicletas; a economia de energia e o uso de energia renovável; o plantio de árvores; os cuidados com as áreas naturais de forma geral e o consumo consciente –privilegiando produtos e serviços de empresas comprometidas com a redução de seus impactos negativos na sociedade e no meio ambiente, entre outras iniciativas”.

“Além disso, é importante incentivar o voto consciente em candidatos que compreendam a importância da conservação da natureza para o nosso futuro”, diz....

 

Ø  Marina Silva é escolhida pela Nature como uma das dez personalidades da ciência em 2023. Por Giovana Girardi

 

No dia em que se encerrou a 28ª Conferência do Clima da ONU, em Dubai, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, foi escolhida pela prestigiosa revista científica Nature como uma das dez pessoas que mais ajudaram a moldar a ciência em 2023. 

Chamada de “Protetora da Amazônia” pela publicação, Marina foi homenageada por seus esforços em derrubar o desmatamento na maior floresta tropical do mundo desde que assumiu o cargo. Foi uma mensagem de esperança, de acordo com a revista, “em um ano que trouxe implacáveis más notícias ambientais, com aquecimento global recorde, ondas de calor escaldantes e incêndios”. 

O texto que trata de Marina na Nature aponta como momento marcante dessa “esperança” uma coletiva de imprensa concedida em 3 de agosto, em que ela anunciou que os alertas de desmatamento nos primeiros sete meses do ano tinham caído 43% na comparação com o mesmo período de 2022. “Esta foi uma mudança acentuada em relação aos quatro anos anteriores, que registaram um aumento acentuado neste tipo de alertas”, lembra a publicação.

Em entrevista à Agência Pública, em Dubai, onde Marina Silva chefiou a delegação brasileira nas negociações climáticas encerradas nesta quarta-feira (13), que resultaram no primeiro acordo que mira um processo de transição para além dos combustíveis fósseis, a ministra disse que foi simbólico receber a homenagem em um dia em que a ciência se fez ouvida na decisão da COP28

“Isso é um esforço da humanidade, né? Então, eu sinto como uma homenagem à própria ciência. Porque todas as pessoas que trabalharam considerando o que diz a ciência fizeram esforços para que se tivesse, em um determinado momento – que infelizmente demorou 31 anos – se considerasse a eliminação de combustíveis fósseis. Porque a ciência já estabeleceu esse diagnóstico há 31 anos. E nós ficamos cuidando da febre, cuidando da dor de cabeça, cuidando de outras coisas”, afirmou.

Por 31 anos a ministra se referiu ao tempo de existência da Convenção do Clima da ONU (UNFCCC), criada durante a Rio-92. É esta instância da ONU que realiza anualmente, desde 1995, as Conferências do Clima a fim de buscar acordos para conter as mudanças climáticas. É a primeira vez, porém, que um texto elaborado em uma COP defende que os países unam esforços para deixar de lado os combustíveis fósseis a fim de manter a temperatura do planeta não acima de 1,5ºC, na comparação com o período pré-Revolução Industrial. Isso é o que a ciência já vem recomendando há anos.

Há quatro anos, um brasileiro também era incluído na lista da Nature por uma relação com desmatamento, mas em contexto bem diferente: o físico Ricardo Galvão, hoje presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que alguns meses antes havia sido exonerado do cargo de diretor geral do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Galvão perdeu a posição após bater de frente com o ex-presidente Jair Bolsonaro, que tinha questionado os dados do instituto quando estes começaram a revelar que o desmatamento da Amazônia estava em frente expansão. Galvão foi escolhido pela publicação justamente por sua defesa aberta à ciência.

Ao ser lembrada disso, Marina disse ter ficado emocionada. “Agora que você trouxe aqui a memória do que aconteceu com o Ricardo Galvão, e ele recebeu o prêmio, eu fiquei emocionada porque assim como os cientistas nunca abriram mão de dizer que é [preciso conter o aquecimento em] 1,5ºC, de dizer que os governos e as empresas têm que fazer a sua parte, de não esconder os dados, a realidade, ele também fez isso e pagou o preço”, afirmou.

“E é isso que faz com que a gente possa chegar no governo de novo, retomar a política pública que dava certo com base nas informações do Deter, que foi um sistema em tempo real que nós criamos retomar essa política e em menos de um ano já ter um resultado de queda de 50% no desmatamento.

Em entrevista à Nature, dada semanas atrás, antes da COP, Marina já havia sinalizado para a importância de não apenas conter a destruição da Amazônia, mas também focar nos combustíveis fósseis. “Se os países não reduzem as suas emissões de COprovenientes da queima dos combustíveis fósseis, as florestas correm o risco de serem destruídas devido às alterações climáticas da mesma forma. Portanto, precisamos de uma mudança civilizacional, de uma mudança em nossos modos de vida.”

Neste ano, além de Marina, também foi homenageada Eleni Myrivili, responsável na ONU por ajudar países a se preparem para os impactos destrutivos das mudanças climáticas. É a primeira vez que um não humano foi considerado também por sua relevância à ciência, o ChatGPT.

 

Fonte: Agencia Brasil/Agencia Pública

 

Nenhum comentário: