terça-feira, 14 de outubro de 2025

Nobel da Paz: 'Prêmio fortalece ala disposta a tudo para tirar Maduro'

A oposicionista venezuelana María Corina Machado ganhou o Prêmio Nobel da Paz de 2025, segundo anúncio feito nesta sexta-feira (10/10). Em uma publicação no X, o comitê que concede a honraria afirma ter escolhido a política, principal figura da oposição na Venezuela, "por seu trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos do povo da Venezuela e por sua luta para alcançar uma transição justa e pacífica da ditadura para a democracia". Ainda segundo o comitê, María Corina é uma "mulher que mantém acesa a chama da democracia, em meio a uma escuridão crescente", e recebeu o prêmio por ser um dos "exemplos extraordinários" de coragem na América Latina nos últimos tempos.

María Corina, de 58 anos, vem há anos fazendo campanha contra o governo do presidente Nicolás Maduro, que acumula acusações de organizações de direitos humanos e cuja vitória na última eleição não foi reconhecida como legítima por diversos países, entre eles o Brasil. Impedida de concorrer nas eleições presidenciais do ano passado, nas quais Maduro conquistou um terceiro mandato de seis anos, María Corina conseguiu unir a oposição em torno de um único candidato, Edmundo González, trazendo esperança de mudança para milhares de venezuelanos. No cenário internacional, a líder oposicionista é elogiada por seu discurso pró-democracia e pró-liberdades e é vista como uma chance de alternância de poder em relação ao chavismo, que governa a Venezuela desde 1997.

Especialistas que acompanham o país lembram, em entrevista à BBC News Brasil, que, internamente, a visão sobre María Corina tem mais matizes e ela enfrenta ressalvas até de oposicionistas, por algumas estratégias usadas no passado e dada sua proximidade histórica com os governos dos EUA e, agora, com o governo Trump.

María Corina tem apoiado o envio de navios militares dos EUA em direção à costa venezuelana pelos Estados Unidos e a estratégia de explodir barcos que eles considerem levar drogas para território americano. O governo Trump ainda não apresentou provas e detalhes sobre quem ou o que estava a bordo desses barcos, numa ofensiva que começou em setembro. Os ataques no Caribe têm provocado condenação em países como Venezuela e Colômbia, além de críticas do governo brasileiro. Alguns juristas os classificam como uma violação do direito internacional.

No começo do mês, um memorando vazado enviado ao Congresso americano – e divulgado pela imprensa local – revelou que o governo Trump decidiu que está em um "conflito armado não internacional" com cartéis de drogas, alguns dos quais a Casa Branca classifica como "grupos terroristas". Maduro, segundo o governo americano, lidera um desses cartéis.

O memorando foi considerado significativo porque o governo dos EUA é obrigado por lei a informar o Congresso se usará as Forças Armadas, o que sugere que Washington pode estar planejando novas ações militares na região. Maduro rejeita as acusações de narcotráfico e vê o envio de tropas como uma tentativa dos Estados Unidos de intimidar com a ameaça de um eventual ataque à Venezuela, buscando uma mudança de governo. Em resposta, o governo ordenou que soldados ensinassem a população das comunidades pobres a usar armas. Em entrevista à Fox News, María Corina afirmou que a medida de Trump contra a Venezuela era "decisiva". "Estamos em um momento decisivo para as Américas. O que está acontecendo na Venezuela, fruto da firme postura do presidente Trump em desmantelar essa estrutura criminosa, está tendo um impacto enorme", afirmou. Em outra entrevista com Fox News, desta vez em espanhol, Corina diz que seu movimento político está preparado para assumir o poder na Venezuela em caso de queda de Maduro, uma posição que ela repetiu no X: "Estamos prontos para uma transição ordenada e pacífica rumo à democracia. Vamos tomar o controle territorial e institucional com os melhores venezuelanos", escreveu.

<><> 'Um Nobel para María Corina certamente surpreende'

"Um Nobel da paz para María Corina certamente surpreende", afirmou Marsílea Gombata, professora de relações internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (NUPRI) da Universidade de São Paulo (USP).

"Apesar de ser uma líder opositora que nas últimas eleições simbolizou o clamor por um processo eleitoral justo e transparente, María Corina é também uma política que, historicamente, angaria apoio por meio de polarização e estratégias de confronto."

"Um conflito militar na região dificilmente levaria a uma mudança de poder na Venezuela, e teria consequências desastrosas para toda a região", afirma Gombata.

A professora de Relações Internacionais e coordenadora do grupo de pesquisa Realidades Latinoamericanas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Carolina Pedroso, analisa de maneira semelhante: "Chama atenção ela ter sido escolhida, porque ela não é, das figuras opositoras, a mais pacífica", afirma Pedroso.

"Pelo contrário, ela é considerada a mais radical, a que não descarta, ao contrário, incentiva, meios beligerantes para a derrubada do governo", diz a professora da Unifesp.

Pedroso cita o apoio a esse avanço americano sobre o território venezuelano é um dos pontos questionáveis da trajetória de María Corina.

"Os Estados Unidos estão deslocando submarinos nucleares em uma zona que, desde 1968, é desnuclearizada por um acordo internacional do qual os Estados Unidos também fazem parte", diz ela, mencionando o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares.

Nos últimos dois meses, os EUA confirmaram envio de navios de guerra americanos para o Caribe, incluindo destróieres de mísseis guiados e um submarino de propulsão nuclear.

Ao ser informada sobre o prêmio, María Corina fez um gesto para Trump, que esperava ser o ganhador do Nobel da Paz.

"Dedico este prêmio ao povo sofrido da Venezuela e ao presidente Trump por seu apoio decisivo à nossa causa!", escreveu ela em sua conta no X.

Mas a proximidade com o governo norte-americano, rival do governo bolivariano de Chávez e Maduro há décadas, não é recente para María Corina Machado.

"Ela sempre defendeu, pelo menos desde o início do governo Maduro, uma intervenção direta dos Estados Unidos na política venezuelana", afirma Pedroso.

"Estamos falando de uma pessoa que há mais de 20 anos tem um discurso de defender a democracia e a liberdade, mas por outro lado já participou de ações que foram antidemocráticas", diz a professora, citando o apoio de Corina ao golpe contra Hugo Chávez em 2000.

Naquele momento, os Estados Unidos foram o primeiro país a reconhecer o presidente interino, que se autodeclarou presidente após o afastamento de Chávez, que durou 47 horas. "E o papel da María Corina foi essencial para abrir essa articulação", diz.

<><> Ala da oposição sai fortalecida

Para Gombata, que também é mestra e doutora pelo Departamento de Ciência Política da USP, onde defendeu tese sobre democracia e autoritarismo na Venezuela chavista, a premiação de María Corina pode dar musculatura para uma oposição mais beligerante. Pedroso concorda.

"Talvez essa premiação fortaleça uma ala da oposição mais combativa e disposta a qualquer coisa - até mesmo um confronto armado no território venezuelano - para tirar Maduro do poder", diz a professora da Faap.

"Tentar mudar as coisas à força, o que tem sido a tônica do governo Trump desde o seu primeiro mandato, com as sanções ao setor petrolífero venezuelano, não está funcionando. No fim do dia, quem sofre são os venezuelanos cada vez mais empobrecidos, enquanto Maduro se fortalece domesticamente."

Já para Pedroso, além do fortalecimento da oposição, a premiação é uma vitória do governo Trump - o secretário de Estado dos EUA, Marco Rúbio, quando ainda era senador, fez parte do grupo que indicou María Corina ao Nobel em 2024.

"Pode ter parecido uma derrota para Trump por ele não ter sido nomeado, mas não é uma derrota do trumpismo global, porque ela é uma aliada do trumpismo", diz.

¨      Petro critica Nobel da Paz a María Corina ao recordar sua carta a Netanyahu

A entrega do Prêmio Nobel da Paz à líder opositora venezuelana María Corina Machado gerou uma reação crítica por parte do presidente da Colômbia, Gustavo Petro.

Através de uma carta aberta publicada neste sábado (11/10), o mandatário enfatizou principalmente a relação da política de extrema direita com o premiê israelense Benjamin Netanyahu, mais especificamente uma carta enviada por ela ao líder sionista em 2020, na qual pede uma intervenção estrangeira contra o governo de Nicolás Maduro na Venezuela.

O pedido mencionado por Petro também foi uma carta aberta, escrita e enviada por María Corina em dezembro de 2018 e endereçada a Netanyahu e ao então presidente da Argentina Mauricio Macri (2015-2019), e pede abertamente aos dois mandatários que “apliquem a força e influência para avançar no desmonte do criminoso regime venezuelano”.

A mensagem escrita por Petro, sete anos depois da carta original, recorda que “o genocídio em Gaza já produziu um saldo de 70 mil mortos, entre eles 20 mil crianças, e 200 mil feridos”, e acrescenta que até mesmo Donald Trump “conseguiu se separar alguns centímetros de Netanyahu”, devido aos crimes cometidos pelo governo israelense.

Em seguida, o presidente pergunta, fazendo referência a Netanyahu: “como um genocida poderia ajudar a fazer a paz na Venezuela?”.

“Você não acha que o povo venezuelano não deveria estar sob ameaça de invasão, mas sim alegre, livre de bloqueios, para desencadear o grande diálogo nacional com todos os venezuelanos, sem exceções?”, acrescentou Petro, em outra indagação.

Após a repercussão da mensagem inicial, Petro publicou uma segunda mensagem dizendo que não defende o governo de Maduro, e que está “apenas perguntando a María Corina Machado se ela consegue se distanciar de Netanyahu e seus amigos nazistas, e se ela é capaz de ajudar a impedir uma invasão ao seu país e promover o diálogo com todos”.

“Nenhum cidadão decente da Venezuela pode desejar uma invasão estrangeira à pátria de Bolívar. Se isso acontecer, toda a América Latina e o Caribe viverão mais cem anos de solidão. A Colômbia apoiará totalmente o diálogo entre os venezuelanos, jamais uma invasão à nossa grande pátria”, completou Petro.

>>>> Leia abaixo a íntegra da mensagem de Gustavo Petro a María Corina Machado.

Sra. María Corina Machado, Prêmio Nobel da Paz:

Esta carta que apresento a seguir foi publicada com a sua assinatura e é endereçada a Benjamin Netanyahu e Mauricio Macri. A Macri, agradecendo por acolher parte do seu povo (a maioria dos migrantes venezuelanos foi acolhida na Colômbia, e lhe oferecemos o nosso carinho). No entanto, peço uma explicação, que você não precisa me dar; é um direito seu.

O ex-presidente colombiano Juan Manuel Santos recebeu o mesmo Prêmio Nobel da Paz que você e, apesar das nossas diferenças políticas, acredito que ele o mereceu.

Agora, estou tentando tornar realidade o acordo de paz entre as FARC, o grupo guerrilheiro insurgente colombiano, e o governo Santos, e acredito que, apesar da negação total e da paralisação de sua implementação por parte de um governo anterior, cheguei à metade do seu cumprimento.

É difícil para mim ir ao Conselho de Segurança das Nações Unidas em Nova York para demonstrar seus progressos e deficiências, porque, como você sabe, não sou bem-vindo pelo governo dos Estados Unidos.

A razão pela qual o governo dos Estados Unidos me desaprova é porque critiquei a falta de ação dos dois últimos governos norte-americanos para deter o genocídio em Gaza em tempo hábil, que já resultou em 70 mil mortes, incluindo 20 mil crianças, e 200 mil feridos.

Donald Trump conseguiu se distanciar alguns centímetros de Netanyahu agora, depois que a humanidade fez imensos progressos, inclusive na Colômbia e na Argentina, e isso tornou possível deter, por enquanto, o genocídio já em andamento.

O que eu não entendo, e quero que você me explique, é se você ainda está pedindo ajuda a um criminoso contra a humanidade, com um mandado de prisão internacional, para trazer a democracia à Venezuela.

O que significa você ter procurado apoiar o único presidente latino-americano que apoiou o genocídio e o genocida?

O que significa o povo da Noruega, que entrega este prêmio, incentivar esse tipo de aliança global que só poderia ser de barbárie e guerra, não de paz?

Nestes anos de genocídio contra os quais lutei, vi que os grupos políticos de extrema direita do mundo, aqueles em sintonia com Hitler, se tornaram os únicos aliados do genocídio e de Netanyahu.

Como um genocida poderia ajudar a fazer a paz na Venezuela?

Mesmo sob a desculpa do tráfico de cocaína, que, segundo todas as investigações internacionais sobre o mercado de drogas, passa apenas marginalmente por seu país e ainda não é produzida lá, eles usaram dados falsos sobre drogas, que ocultam a produção e o consumo de fentanil, para invadir militarmente o Caribe. Lançaram os mesmos mísseis que caíram sobre Gaza, mas agora mirando barcos com caribenhos dentro, talvez gananciosos, mas pobres, que assassinaram sem perguntar seus nomes ou o que transportavam. Entre os assassinados no Caribe estão vários venezuelanos e colombianos. Eu perguntaria se não seria melhor apoiar um acordo abrangente com o Caribe para interromper definitivamente o trânsito de drogas ilegais pelo Caribe, no marco do direito internacional, que proíbe o uso desproporcional da força, e garantindo a soberania nacional dos países da grande pátria de Bolívar e Martí, a pátria da grande cultura garifuna, composta por africanos que preferiram se lançar ao mar dos navios espanhóis, franceses e ingleses que os trouxeram à força para escravizá-los? Milhares e milhares se afogaram, mas se libertaram no mar.

Não seria melhor um Caribe pacífico, sem assassinatos e com uma forte política antidrogas e sem abuso de poder?

Você não acha que o povo venezuelano não deveria estar sob ameaça de invasão, mas sim alegre, livre de bloqueios, para desencadear o grande diálogo nacional com todos os venezuelanos, sem exceções?

¨      A articulação mundial da infâmia imperialista. Por Jair de Souza

Creio que ainda não existe formalmente, mas, seguramente, na prática, já está em vigor há um bom tempo o Prêmio Nobel da Infâmia. Embora não com esta denominação, ele acaba de ser concedido à representante maior dos interesses imperialistas na Venezuela, a extremista de direita María Corina Machado.

Não é novidade para ninguém com um mínimo de dedicação ao estudo histórico das instituições dos países capitalistas ocidentais como elas são utilizadas para impor e sacramentar o domínio dos centros imperialistas sobre o restante do mundo. Evidentemente, a coisa não seria diferente com as várias modalidades dos prêmios Nobel. Longe de ser por casualidade, no caso da economia, por exemplo, o prêmio é invariavelmente atribuído a defensores ferrenhos do neoliberalismo, ou seja, aos que defendem ao máximo os primados do capitalismo neoliberal.

No entanto, parece que este ano os pruridos e receios de não escancarar sua forma de atuação foram deixados de lado pela comissão encarregada de outorgar o Nobel da Paz. A decisão de entregá-lo a uma das mais fervorosas promotoras do ódio e do servilismo ao imperialismo foi tomada de maneira tão concatenada e articulada com os centros coordenadores dos Estados Unidos que não há como não ser detectada de imediato.

Assim, ao mesmo tempo em que o bufão alaranjado se dizia em campanha para que fosse ele o agraciado com a comenda, seu subordinado mais rasteiro, o Secretário de Estado Marco Rubio, estava propondo o nome da fascista venezuelana. Teria sido uma divergência de opiniões entre o chefe do império e seu subordinado mais fiel? Nada a ver!

A trama indecorosa vem se desenrolando há alguns meses, desde que o governo imperialista do bufão alaranjado classificou o governo venezuelano como o grande responsável pelo tráfico de drogas que afeta os Estados Unidos. A partir de então, a Venezuela passou a ser alvo de ações agressivas por parte das forças militares estadunidenses. Nosso vizinho latino-americano teve seu litoral bloqueado e várias pessoas foram assassinadas por mísseis disparados sem aviso prévio pelas naves de guerra gringas.

Desde o início do processo da Revolução Bolivariana comandado por Hugo Chávez, a Venezuela se tornou a pedra no sapato do imperialismo estadunidense nesta parte do mundo. A firme decisão venezuelana de recuperar o controle de seu petróleo e das demais riquezas naturais enfureceu tremendamente os dirigentes imperialistas. As tentativas de retomar o governo por meio de serviçais internos, dos quais María Corina Machado sempre foi uma das mais dedicadas, todas falharam estrepitosamente.

A organização e a consciência de classe da maioria do povo aniquilaram todas as investidas desfechadas pelos representantes dos interesses do império dentro da Venezuela. Além disso, diferentemente do que ocorre na maioria dos países da América Latina, as Forças Armadas Bolivarianas da Venezuela cultuam a ideologia da soberania nacional, e não o entreguismo ao centro do imperialismo. Portanto, não restou aos gringos nem mesmo a clássica alternativa de derrubar o governo da Venezuela por meio de um golpe de Estado militar. Por isso, a escolha agora está se encaminhando para uma agressão armada direta do próprio império, com planos para uma invasão efetiva por parte dos militares dos Estados Unidos.

É neste contexto que devemos entender a outorga do Prêmio Nobel da Paz à mais notória propagadora do ódio e da morte contra as maiorias populares venezuelanas. O comitê encarregado pela escolha do agraciado demonstrou que está plenamente afinado com todos os ditames originados de seus patrocinadores do centro imperial. Este comitê e seus integrantes devem ser sempre vistos e reconhecidos como uma das engrenagens mais infames na máquina de agredir os povos que lutam por sua dignidade e libertação.

Por isso, em contraposição à sordidez que vem se tornando a marca registrada dos prêmios Nobel, os defensores da justiça e dos direitos dos povos de todo o mundo deveriam instituir a partir de agora o Prêmio Mundial da Infâmia, tendo como seus primeiros agraciados o comitê norueguês encarregado pela definição do Nobel da Paz deste ano e todos os seus integrantes.

 

Fonte: BBC  News/Opera Mundi/Brasil 247

 

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