terça-feira, 14 de outubro de 2025

Gustavo Hasselmann: As formas contemporâneas de trabalho

O trabalho é inerente à condição humana. Ele é vital para o homem na vida em sociedade. Ele opera transformações na natureza e na sociedade. Para muitos, impera o adágio popular: o trabalho “dignifica o homem”.

Ao longo de mais de cinco séculos, o trabalho, no ocidente, conviveu com as várias formas de capitalismo: comercial, industrial e financeiro, este último a partir dos anos 70 do século passado.

No capitalismo que vigeu nos 30 anos dourados do ocidente, em que o trabalho se dava, preponderantemente, no chão da fábrica, imperavam os sistemas fordista e taylorista. Principalmente a partir do pós segunda guerra mundial, o trabalho visava a produção em massa de mercadorias, como automóveis, máquinas, eletrodomésticos etc.

Para Michel Foucault, era a época da sociedade disciplinar, em que, nos hospitais, nas escolas, nos presídios, nas fábricas etc., as regras e valores eram impostos de forma cogente em prol do sistema capitalista.

Nesse diapasão, vale citar e transcrever excerto da lavra de Ricardo Antunes: “Se no apogeu do taylorismo -fordismo a força de uma fábrica mensurava-se pelo número de operários – o operário – massa magistralmente representado por Charles Chaplin em tempos modernos – , podemos dizer que, na era da acumulação flexível e da “empresa enxuta”, as empresas que se destacam são aquelas que empregam o menor contingente de força de trabalho, pois com o avanço tecnológico, elas podem aumentar fortemente os seus índices de produtividade”.

Com efeito, nesse período áureo do capitalismo objetivava-se a produção. O sistema financeiro, majoritariamente, estava voltado para financiar a produção em massa. Vigia a regulação do capital e as regras estabelecidas nos acordos de Bretton Woods. O câmbio era fixo e lastreado no dólar e no ouro, o que veio a desaparecer a partir dos anos 70 do século passado, quando o câmbio passou a ser flutuante, com arrimo exclusivamente no dólar.

O filósofo germânico – coreano, Byng Chul Han, em A sociedade do cansaço, assim descreve a passagem da sociedade da produção\disciplinar (período fordista-taylorista ) para a sociedade do desempenho: “A sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade do desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais sujeitos da obediência, mas sujeitos de desempenho e produção. São empresários de si mesmos”.

Efetivamente, o trabalho prioritariamente na indústria – com a desregulamentação do capital e o advento das tecnologias, no trabalho e nas fábricas, que geraram um grande desemprego – foi transferido para o setor de serviços e financeiro. Houve um grande processo de desindustrialização, que no Brasil começou a partir dos anos 80 do passado e dura até hoje. O capitalismo produtivo cede espaço à financeirização, leia-se, rentismo, que campeia sob a doutrina neoliberal.

Antonio Negri e Michel Hart – com a saída da hegemonia fabril e o ingresso da predominância do setor de serviços, inclusive digitalizados e plataformizados – empregam o conceito de “fábrica social” para designar estes últimos, onde a produção se entrelaça com as formas de vida no tecido social: “A fim de restabelecer margens de lucro que não podiam mais ser extraídas das fábricas, o capital teve de colocar o terreno social para trabalhar, e o modo de produção teve de ser ainda mais entrelaçado às formas de vida. Enquanto processos industriais automatizados produziam maior número de bens materiais, desenvolveram-se, do lado de fora das fábricas robotizadas, “serviços” produtivos cada vez mais sofisticados e integrados que combinavam tecnologias complexas com ciência fundamental, serviços industriais e serviços humanos. Nessa segunda fase a digitalização tornou-se mais importante que a automação. Com efeito, é essa característica que dissemina por toda a sociedade uma transformação técnica da força de trabalho que já havia se dado na fábrica. Aqui, então, ao fim dessa marcha selvagem, temos a entrada triunfal dos computadores e das redes sociais, que unem a automação das fábricas à digitalização da sociedade, dos modos de produção e das formas de vida: o autômato administra e controla a sociedade por meio de algoritmos”.

Efetivamente, emerge, a partir dos anos 80 do século passado, o trabalho uberizado ou plataformizado, ou melhor, melhor o trabalho na era digital.

Ricardo Antunes, a respeito do trabalho digital, assinala o seguinte: “Uma de suas formulações centrais talvez possa assim ser resumida: em plena era da informatização do trabalho, do mundo maquinal e digital, estamos presenciando o nascimento e ampliação do “cibertariado”, o proletariado que trabalha com informática, com o mundo digital, e que, paralelamente, vivencia uma pragmática moldada cada vez mais pela precarização que muda profundamente a forma de ser do trabalho”.

Com efeito, nesse particular, há que se realçar que o trabalho dos motoristas por aplicativo é por demais precarizado. Eles ganham pouco, trabalham horas intermináveis, sob a direção do aplicativo, têm que custear as despesas de manutenção dos veículos etc. Não têm direitos trabalhistas e previdenciários assegurados.

O governo Lula, para minorar o problema vivenciado por eles, editou o PLP 12\2024, que é muito pífio e inexpressivo no combate a essa exploração, tendo estabelecido, pasmem, o limite de 12 horas para a jornada de trabalho.

De outro lado, nesse diapasão, o STF, contrariando orientação firmada no TST, não vem reconhecendo a relação de emprego entre os motoristas por aplicativo e as empresas de plataforma.

Ademais, esperava-se que o governo Lula 3 revogasse, como ele prometeu em campanha, a reforma trabalhista de Michel Temer, primeiramente, aprofundada no governo Bolsonaro depois. Ela mudou completamente as relações de trabalho no Brasil, aviltando os diretos dos trabalhadores. Criou o trabalho intermitente, em que o trabalhador só recebe o salário quando trabalha e é chamado para tanto, não tendo direitos trabalhistas e previdenciários assegurados.

Concebeu também o trabalho terceirizado, tanto para a atividade meio como para a atividade fim, o que foi chancelado pelo STF. Fez prevalecer o acordado sobre o legislado, em detrimento de direitos anteriormente conquistado, com muito suor, sangue e luta, pela classe trabalhadora. Reduziu a importância tanto do Ministério do Trabalho, como da Justiça do trabalho. Neste último caso, visando reduzir o número de demandas trabalhistas, impôs pesados custos judiciais para os trabalhadores, tais como pagamento de honorários de advogado, custos com perícia etc, etc. De outro lado, dita reforma não baixou o índice de desemprego no país, como prometido pelos Presidentes da República da época, parlamentares de direita e empresários.

Outro aspecto a ser destacado, na esteira do pensamento de Byng Chul Han, é que, na sociedade do desempenho em que vivemos na atualidade reina absoluto o individualismo na vida e no trabalho. O trabalhador, empresário de si mesmo, quer sempre superar o seu concorrente, trabalhando horas intermináveis por dia. Ele também procura “ bater metas”.

Com a era digital, ele não tem jornada de trabalho fixa, pois trabalha de forma extenuante dia e noite, através do celular e do computador. Ao mais das vezes, até mesmo nas atividades de entretenimento, ele presta um trabalho adicional e não remunerado para os empresários de plataformas digitais e para as empresas que comercializam produtos e serviços.

Outra forma de trabalho atual, cujo desfecho sobre a sua legalidade ou constitucionalidade pende de julgamento do STF, é a pejotização. Nesta relação laboral os trabalhadores são tratados como empresas, tendo CNPJ e tudo mais. Ao que tudo indica, se o STF reconhecer a validade desse tipo de contratação, assistiremos ao fim do Direito do Trabalho e da Justiça do Trabalho.

Desse modo, para arrematar, como o capital precisa do trabalho, e sempre vai precisar, para sobreviver, embora a precarização deste, fazemos votos de que um trabalho mais humanizado, num futuro bem próximo, venha a existir no país e no sul global.

Só que vejo isso não acontecer, nem mesmo nas sociais democracias fortes do ocidente, muito menos no sul global. Antevejo, pois, como utopia, o advento do socialismo como solução para esses e outros problemas vivenciados pela humanidade nessa quadra.

•        A atenção em disputa – nas redes e na sociedade. Por Arthur Menezes de Carvalho Crespo

Durante meu estágio, estava na sala de aula acompanhando uma professora e auxiliando nas atividades. Conversei com a professora e ela me contou sobre a existência de transformações do tipo de aluno que a escola acolhe e que o professor ensina, algo natural porque nenhuma geração é igual a outra e possui necessidades particulares ao seu tempo. No entanto, ela levantou uma questão sobre o que ou com quem a escola está disputando a importância. Comecei a pensar nisso após meses dessa conversa, e é algo que frequentemente volta à minha cabeça, dei uma chance para refletir.

Algo que podemos observar nos dias atuais de maneira óbvia, é a inclusão da tecnologia cada vez mais na nossa vida. Na etapa onde nos encontramos é praticamente impossível não depender dela. Hoje em dia, fazem parte da dinâmica social, compondo ou ditando a sociedade. Movimentos sociais surgem da internet e suas ações ultrapassam os limites digitais, transformando o coletivo e o privado.

Esses movimentos se utilizam do alto poder de disseminação da internet que entrega para diversos grupos diferentes ou semelhantes ideologicamente. Esses grupos podem expressar de forma positiva ou negativa dependendo do conteúdo postado nas redes sociais, havendo a possibilidade de “ sair da bolha” e gerar mais engajamento no debate proposto pela postagem. Não é raro de se ver os alunos repetirem gírias das redes sociais no ambiente escolar, os influencers, possuem um papel muito importante porque, são deles que se criam tendências e espalham ideias, sejam elas sobre moda, finanças, músicas, pessoas, política…

No entanto, os jovens já faziam isso muito antes do advento da internet porque já havia outras mídias como a televisão por exemplo, mesmo havendo um poder menor de participação e escuta das ideias. O poder de convencimento muda de acordo com o tipo de mídia. A mais poderosa que temos atualmente é a internet e, consequentemente, mais impacta a vida pública e particular.

Quando falei de grupos que se expressam, podemos entender que há uma transmissão de ideias e valores que se espalham muito rapidamente, o que é perigoso de uma determinada forma é a maneira de “cativar” as pessoas com vídeos bem editados ou até mesmo posts com linguagem acessível, são capazes de até mesmo fazer o governo recuar numa ação que seria positiva para a população.

<><> O espaço da disputa: real ou digital?

Não é somente a internet que possui papel importante na concepção de mundo das pessoas, o ambiente em que elas vivem, determinam principalmente, a capacidade da dita cuja “mobilidade social”, não me entenda mal mas, a meritocracia não passa apenas de mecanismo de transferência de responsabilidade da garantia de mínimos básicos como moradia, alimentação e trabalho que é a função do Estado para o indivíduo.

Não estou dizendo que o indivíduo não seja capaz de conseguir trabalho ou moradia por conta própria, no entanto, observo que a máquina estatal está voltada sim, para interesses privados de uma certa elite dominante, ou seja, para a especulação imobiliária, trabalhos precarizados, pjotização e a uberização do trabalho são meios existentes para a persistência e a expansão do poder dessa mesma elite.

Repare, mesmo que essas mudanças sociais estejam retirando direitos e prejudicando na qualidade de vida dos trabalhadores, não existe movimentação expressiva sobre esses ataques nas mídias tradicionais. O poder da persuasão dos atores políticos que trabalham em prol da elite dominante e se utilizam da internet, desse espaço sem regulamentação e normas preventivas contra o discurso de ódio, não gerando um ambiente seguro para a ampla diversidade de crenças e identidades para atacar as minorias e direitos conquistados pelo suor e luta de diversos coletivos e organizações populares.

A disputa da atenção aparece como forma narrativa e convincente quando atende determinados elementos da confiabilidade de cada um. Como a narrativa é exposta, conseguindo englobar diversos grupos e apresentar concepções que dentro de uma determinada lógica, produz sentido real para o indivíduo é sim possível convencer e mobilizar de alguma forma; seja pelas redes digitais ou pelas redes sociais reais. O que podem ser os elementos que fazem uma pessoa confiar na outra? A estética é uma delas.

Com valores carregados de significado, a estética é importante para o debate público pois, auxilia na argumentação e na sensação sobre o assunto falado. Em tempos de campanha eleitoral, a estética com as propagandas televisivas é um dos fatores que afasta ou não as pessoas de uma determinada ideia. A representatividade é crucial para entender o sentimento de aproximação dos eleitores e de suas características mais únicas.

Vejo a estética como categoria de apoio para expressão de ideias, ou seja, ela é complemento da forma expressiva de uma determinada ideologia. É um termo muito amplo e cheio de significados, no entanto, quero me atentar a um detalhe, a influência dela nos jovens. A juventude possui anseios e busca validação, mesmo que inconsciente de outros jovens da mesma bolha, ou seja, uma busca ativa de incorporação de símbolos, valores e ideias; algo para pertencer e chamar de seu.

A formação de uma identidade é importante para a constituição mais sólida de um indivíduo. Suas ideias, gostos, percepções e visões de mundo são construídas na adolescência mais fortemente, mas também na primeira infância. As mídias possuem um papel muito forte nessa construção, os jovens irão buscar referência na internet, principalmente nas redes sociais.

Os grupos de extrema direita se utilizam da estética da internet e se adaptam para o jovem, isso é feito atrair exatamente esse mesmo público. A incorporação de símbolos e ideias da extrema direita acaba por se manifestar nesse jovem e nos espaços em que o mesmo ocupa, principalmente na escola e nas redes.

Na escola vai ser manifestado de algumas formas, seja pelas conversas entre os colegas de classe, desafiando o entendimento do professor sobre os assuntos, questionamento dos currículos que “doutrinam ” os alunos, entre outros. Gostaria de trazer uma reflexão: Como podemos lidar com uma geração de alunos que se guiam, ou seja, buscam referência na internet de como ser, se portar e pensar?

Lógico que estou não pensando que a internet educa os jovens de maneira solo, os familiares possuem importância sim nesse processo. Como lidar com essas novas questões e suas especificidades é algo para trabalhos futuros.

 

Fonte: A Terra é Redonda 

 

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