Gustavo
Hasselmann: As formas contemporâneas de trabalho
O
trabalho é inerente à condição humana. Ele é vital para o homem na vida em
sociedade. Ele opera transformações na natureza e na sociedade. Para muitos,
impera o adágio popular: o trabalho “dignifica o homem”.
Ao
longo de mais de cinco séculos, o trabalho, no ocidente, conviveu com as várias
formas de capitalismo: comercial, industrial e financeiro, este último a partir
dos anos 70 do século passado.
No
capitalismo que vigeu nos 30 anos dourados do ocidente, em que o trabalho se
dava, preponderantemente, no chão da fábrica, imperavam os sistemas fordista e
taylorista. Principalmente a partir do pós segunda guerra mundial, o trabalho
visava a produção em massa de mercadorias, como automóveis, máquinas,
eletrodomésticos etc.
Para
Michel Foucault, era a época da sociedade disciplinar, em que, nos hospitais,
nas escolas, nos presídios, nas fábricas etc., as regras e valores eram
impostos de forma cogente em prol do sistema capitalista.
Nesse
diapasão, vale citar e transcrever excerto da lavra de Ricardo Antunes: “Se no
apogeu do taylorismo -fordismo a força de uma fábrica mensurava-se pelo número
de operários – o operário – massa magistralmente representado por Charles
Chaplin em tempos modernos – , podemos dizer que, na era da acumulação flexível
e da “empresa enxuta”, as empresas que se destacam são aquelas que empregam o
menor contingente de força de trabalho, pois com o avanço tecnológico, elas
podem aumentar fortemente os seus índices de produtividade”.
Com
efeito, nesse período áureo do capitalismo objetivava-se a produção. O sistema
financeiro, majoritariamente, estava voltado para financiar a produção em
massa. Vigia a regulação do capital e as regras estabelecidas nos acordos de
Bretton Woods. O câmbio era fixo e lastreado no dólar e no ouro, o que veio a
desaparecer a partir dos anos 70 do século passado, quando o câmbio passou a
ser flutuante, com arrimo exclusivamente no dólar.
O
filósofo germânico – coreano, Byng Chul Han, em A sociedade do cansaço, assim
descreve a passagem da sociedade da produção\disciplinar (período
fordista-taylorista ) para a sociedade do desempenho: “A sociedade do século
XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade do desempenho. Também
seus habitantes não se chamam mais sujeitos da obediência, mas sujeitos de
desempenho e produção. São empresários de si mesmos”.
Efetivamente,
o trabalho prioritariamente na indústria – com a desregulamentação do capital e
o advento das tecnologias, no trabalho e nas fábricas, que geraram um grande
desemprego – foi transferido para o setor de serviços e financeiro. Houve um
grande processo de desindustrialização, que no Brasil começou a partir dos anos
80 do passado e dura até hoje. O capitalismo produtivo cede espaço à
financeirização, leia-se, rentismo, que campeia sob a doutrina neoliberal.
Antonio
Negri e Michel Hart – com a saída da hegemonia fabril e o ingresso da
predominância do setor de serviços, inclusive digitalizados e plataformizados –
empregam o conceito de “fábrica social” para designar estes últimos, onde a
produção se entrelaça com as formas de vida no tecido social: “A fim de
restabelecer margens de lucro que não podiam mais ser extraídas das fábricas, o
capital teve de colocar o terreno social para trabalhar, e o modo de produção
teve de ser ainda mais entrelaçado às formas de vida. Enquanto processos
industriais automatizados produziam maior número de bens materiais,
desenvolveram-se, do lado de fora das fábricas robotizadas, “serviços”
produtivos cada vez mais sofisticados e integrados que combinavam tecnologias
complexas com ciência fundamental, serviços industriais e serviços humanos.
Nessa segunda fase a digitalização tornou-se mais importante que a automação.
Com efeito, é essa característica que dissemina por toda a sociedade uma
transformação técnica da força de trabalho que já havia se dado na fábrica.
Aqui, então, ao fim dessa marcha selvagem, temos a entrada triunfal dos
computadores e das redes sociais, que unem a automação das fábricas à
digitalização da sociedade, dos modos de produção e das formas de vida: o autômato
administra e controla a sociedade por meio de algoritmos”.
Efetivamente,
emerge, a partir dos anos 80 do século passado, o trabalho uberizado ou
plataformizado, ou melhor, melhor o trabalho na era digital.
Ricardo
Antunes, a respeito do trabalho digital, assinala o seguinte: “Uma de suas
formulações centrais talvez possa assim ser resumida: em plena era da
informatização do trabalho, do mundo maquinal e digital, estamos presenciando o
nascimento e ampliação do “cibertariado”, o proletariado que trabalha com
informática, com o mundo digital, e que, paralelamente, vivencia uma pragmática
moldada cada vez mais pela precarização que muda profundamente a forma de ser
do trabalho”.
Com
efeito, nesse particular, há que se realçar que o trabalho dos motoristas por
aplicativo é por demais precarizado. Eles ganham pouco, trabalham horas
intermináveis, sob a direção do aplicativo, têm que custear as despesas de
manutenção dos veículos etc. Não têm direitos trabalhistas e previdenciários
assegurados.
O
governo Lula, para minorar o problema vivenciado por eles, editou o PLP
12\2024, que é muito pífio e inexpressivo no combate a essa exploração, tendo
estabelecido, pasmem, o limite de 12 horas para a jornada de trabalho.
De
outro lado, nesse diapasão, o STF, contrariando orientação firmada no TST, não
vem reconhecendo a relação de emprego entre os motoristas por aplicativo e as
empresas de plataforma.
Ademais,
esperava-se que o governo Lula 3 revogasse, como ele prometeu em campanha, a
reforma trabalhista de Michel Temer, primeiramente, aprofundada no governo
Bolsonaro depois. Ela mudou completamente as relações de trabalho no Brasil,
aviltando os diretos dos trabalhadores. Criou o trabalho intermitente, em que o
trabalhador só recebe o salário quando trabalha e é chamado para tanto, não
tendo direitos trabalhistas e previdenciários assegurados.
Concebeu
também o trabalho terceirizado, tanto para a atividade meio como para a
atividade fim, o que foi chancelado pelo STF. Fez prevalecer o acordado sobre o
legislado, em detrimento de direitos anteriormente conquistado, com muito suor,
sangue e luta, pela classe trabalhadora. Reduziu a importância tanto do
Ministério do Trabalho, como da Justiça do trabalho. Neste último caso, visando
reduzir o número de demandas trabalhistas, impôs pesados custos judiciais para
os trabalhadores, tais como pagamento de honorários de advogado, custos com
perícia etc, etc. De outro lado, dita reforma não baixou o índice de desemprego
no país, como prometido pelos Presidentes da República da época, parlamentares
de direita e empresários.
Outro
aspecto a ser destacado, na esteira do pensamento de Byng Chul Han, é que, na
sociedade do desempenho em que vivemos na atualidade reina absoluto o
individualismo na vida e no trabalho. O trabalhador, empresário de si mesmo,
quer sempre superar o seu concorrente, trabalhando horas intermináveis por dia.
Ele também procura “ bater metas”.
Com a
era digital, ele não tem jornada de trabalho fixa, pois trabalha de forma
extenuante dia e noite, através do celular e do computador. Ao mais das vezes,
até mesmo nas atividades de entretenimento, ele presta um trabalho adicional e
não remunerado para os empresários de plataformas digitais e para as empresas
que comercializam produtos e serviços.
Outra
forma de trabalho atual, cujo desfecho sobre a sua legalidade ou
constitucionalidade pende de julgamento do STF, é a pejotização. Nesta relação
laboral os trabalhadores são tratados como empresas, tendo CNPJ e tudo mais. Ao
que tudo indica, se o STF reconhecer a validade desse tipo de contratação,
assistiremos ao fim do Direito do Trabalho e da Justiça do Trabalho.
Desse
modo, para arrematar, como o capital precisa do trabalho, e sempre vai
precisar, para sobreviver, embora a precarização deste, fazemos votos de que um
trabalho mais humanizado, num futuro bem próximo, venha a existir no país e no
sul global.
Só que
vejo isso não acontecer, nem mesmo nas sociais democracias fortes do ocidente,
muito menos no sul global. Antevejo, pois, como utopia, o advento do socialismo
como solução para esses e outros problemas vivenciados pela humanidade nessa
quadra.
• A atenção em disputa – nas redes e na
sociedade. Por Arthur Menezes de Carvalho Crespo
Durante
meu estágio, estava na sala de aula acompanhando uma professora e auxiliando
nas atividades. Conversei com a professora e ela me contou sobre a existência
de transformações do tipo de aluno que a escola acolhe e que o professor
ensina, algo natural porque nenhuma geração é igual a outra e possui
necessidades particulares ao seu tempo. No entanto, ela levantou uma questão
sobre o que ou com quem a escola está disputando a importância. Comecei a
pensar nisso após meses dessa conversa, e é algo que frequentemente volta à
minha cabeça, dei uma chance para refletir.
Algo
que podemos observar nos dias atuais de maneira óbvia, é a inclusão da
tecnologia cada vez mais na nossa vida. Na etapa onde nos encontramos é
praticamente impossível não depender dela. Hoje em dia, fazem parte da dinâmica
social, compondo ou ditando a sociedade. Movimentos sociais surgem da internet
e suas ações ultrapassam os limites digitais, transformando o coletivo e o
privado.
Esses
movimentos se utilizam do alto poder de disseminação da internet que entrega
para diversos grupos diferentes ou semelhantes ideologicamente. Esses grupos
podem expressar de forma positiva ou negativa dependendo do conteúdo postado
nas redes sociais, havendo a possibilidade de “ sair da bolha” e gerar mais
engajamento no debate proposto pela postagem. Não é raro de se ver os alunos
repetirem gírias das redes sociais no ambiente escolar, os influencers, possuem
um papel muito importante porque, são deles que se criam tendências e espalham
ideias, sejam elas sobre moda, finanças, músicas, pessoas, política…
No
entanto, os jovens já faziam isso muito antes do advento da internet porque já
havia outras mídias como a televisão por exemplo, mesmo havendo um poder menor
de participação e escuta das ideias. O poder de convencimento muda de acordo
com o tipo de mídia. A mais poderosa que temos atualmente é a internet e,
consequentemente, mais impacta a vida pública e particular.
Quando
falei de grupos que se expressam, podemos entender que há uma transmissão de
ideias e valores que se espalham muito rapidamente, o que é perigoso de uma
determinada forma é a maneira de “cativar” as pessoas com vídeos bem editados
ou até mesmo posts com linguagem acessível, são capazes de até mesmo fazer o
governo recuar numa ação que seria positiva para a população.
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O espaço da disputa: real ou digital?
Não é
somente a internet que possui papel importante na concepção de mundo das
pessoas, o ambiente em que elas vivem, determinam principalmente, a capacidade
da dita cuja “mobilidade social”, não me entenda mal mas, a meritocracia não
passa apenas de mecanismo de transferência de responsabilidade da garantia de
mínimos básicos como moradia, alimentação e trabalho que é a função do Estado
para o indivíduo.
Não
estou dizendo que o indivíduo não seja capaz de conseguir trabalho ou moradia
por conta própria, no entanto, observo que a máquina estatal está voltada sim,
para interesses privados de uma certa elite dominante, ou seja, para a
especulação imobiliária, trabalhos precarizados, pjotização e a uberização do
trabalho são meios existentes para a persistência e a expansão do poder dessa
mesma elite.
Repare,
mesmo que essas mudanças sociais estejam retirando direitos e prejudicando na
qualidade de vida dos trabalhadores, não existe movimentação expressiva sobre
esses ataques nas mídias tradicionais. O poder da persuasão dos atores
políticos que trabalham em prol da elite dominante e se utilizam da internet,
desse espaço sem regulamentação e normas preventivas contra o discurso de ódio,
não gerando um ambiente seguro para a ampla diversidade de crenças e
identidades para atacar as minorias e direitos conquistados pelo suor e luta de
diversos coletivos e organizações populares.
A
disputa da atenção aparece como forma narrativa e convincente quando atende
determinados elementos da confiabilidade de cada um. Como a narrativa é
exposta, conseguindo englobar diversos grupos e apresentar concepções que
dentro de uma determinada lógica, produz sentido real para o indivíduo é sim
possível convencer e mobilizar de alguma forma; seja pelas redes digitais ou
pelas redes sociais reais. O que podem ser os elementos que fazem uma pessoa
confiar na outra? A estética é uma delas.
Com
valores carregados de significado, a estética é importante para o debate
público pois, auxilia na argumentação e na sensação sobre o assunto falado. Em
tempos de campanha eleitoral, a estética com as propagandas televisivas é um
dos fatores que afasta ou não as pessoas de uma determinada ideia. A
representatividade é crucial para entender o sentimento de aproximação dos
eleitores e de suas características mais únicas.
Vejo a
estética como categoria de apoio para expressão de ideias, ou seja, ela é
complemento da forma expressiva de uma determinada ideologia. É um termo muito
amplo e cheio de significados, no entanto, quero me atentar a um detalhe, a
influência dela nos jovens. A juventude possui anseios e busca validação, mesmo
que inconsciente de outros jovens da mesma bolha, ou seja, uma busca ativa de
incorporação de símbolos, valores e ideias; algo para pertencer e chamar de
seu.
A
formação de uma identidade é importante para a constituição mais sólida de um
indivíduo. Suas ideias, gostos, percepções e visões de mundo são construídas na
adolescência mais fortemente, mas também na primeira infância. As mídias
possuem um papel muito forte nessa construção, os jovens irão buscar referência
na internet, principalmente nas redes sociais.
Os
grupos de extrema direita se utilizam da estética da internet e se adaptam para
o jovem, isso é feito atrair exatamente esse mesmo público. A incorporação de
símbolos e ideias da extrema direita acaba por se manifestar nesse jovem e nos
espaços em que o mesmo ocupa, principalmente na escola e nas redes.
Na
escola vai ser manifestado de algumas formas, seja pelas conversas entre os
colegas de classe, desafiando o entendimento do professor sobre os assuntos,
questionamento dos currículos que “doutrinam ” os alunos, entre outros.
Gostaria de trazer uma reflexão: Como podemos lidar com uma geração de alunos
que se guiam, ou seja, buscam referência na internet de como ser, se portar e
pensar?
Lógico
que estou não pensando que a internet educa os jovens de maneira solo, os
familiares possuem importância sim nesse processo. Como lidar com essas novas
questões e suas especificidades é algo para trabalhos futuros.
Fonte:
A Terra é Redonda

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