Atrasos,
desconfiança e preços dinâmicos: até que ponto a Copa do Mundo será
'receptiva'?
O
presidente da Fifa, Gianni Infantino, vem afirmando repetidamente que "o
mundo será bem-vindo" durante a Copa do Mundo masculina do
ano que vem, que ocorrerá majoritariamente nos Estados Unidos, com alguns jogos no
Canadá e no México.
"Traremos
o mundo para os Estados Unidos da América", declarou o suíço. "O
mundo adora a América, independentemente do que digam algumas pessoas."
Mas,
quanto mais se aproxima o início do torneio, maiores são as dúvidas se os Estados
Unidos serão tão receptivos quanto defende Infantino.
A
crescente violência política, o destacamento de tropas federais para cidades
importantes pelo presidente Donald Trump e a posição
mais linha-dura adotada em relação à imigração deixaram a
principal nação anfitriã do torneio em um estado de divisão e ruptura.
Com o
início das vendas de ingressos e os torcedores fazendo planos de viagem, a BBC
Sport detalha algumas das questões preocupantes em relação ao torneio.
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As críticas aos preços dos ingressos
No
início de outubro, foi colocado à venda o primeiro lote de ingressos para os
jogos da Copa do Mundo. Mais de 4,5 milhões de torcedores se inscreveram em um
sorteio para terem a chance de fazer a compra.
Mas a
estratégia da Fifa em relação aos preços causou instantaneamente críticas
significativas.
A Fifa
não publicou formalmente uma lista de preços completa. Mas os torcedores que
ganharam o sorteio, depois de passarem horas em filas digitais no início deste
mês, estão informando os valores na internet.
Os
ingressos gerais são divididos em quatro categorias. Para o primeiro jogo nos
Estados Unidos, eles custam de US$ 560 a US$ 2.235 (cerca de R$ 3 mil a R$ 11,9
mil).
Na
última Copa do Mundo, no Catar, o preço dos ingressos para o jogo de abertura
variava de US$ 55 a US$ 618 (cerca de R$ 294 a R$ 3,3 mil).
O
ingresso mais barato para a final de 2026 custa US$ 2.030 (cerca de R$ 10,8
mil) e o mais caro custa US$ 6 mil (cerca de R$ 32,1 mil).
Os
ingressos VIP ainda não foram colocados à venda, mas certamente terão preços
significativamente mais altos.
Alguns
ingressos para os jogos do início do torneio, em locais com menos prestígio,
são disponíveis por US$ 60 (cerca de R$ 320), mas os mapas dos estádios mostram
que eles representam uma proporção minúscula dos assentos disponíveis.
O
portal The Athletic também informa que a Fifa
criará tarifas de 15% para o comprador e o vendedor de ingressos revendidos
pela sua plataforma oficial.
A Fifa
não respondeu às questões apresentadas pela BBC até a publicação desta
reportagem.
"Estes
preços são espantosos — US$ 2.030 pelo ingresso mais barato da final é
inaceitável", afirma Thomas Concannon, chefe da Embaixada dos Torcedores
da Inglaterra da Associação de Apoiadores de Futebol.
"Se
os torcedores conseguirem obter um ingresso categoria 4 do primeiro jogo até o
último, isso poderá custar pelo menos US$ 3.180 [cerca de R$ 17 mil]",
segundo ele. "É mais que o dobro do custo no Catar."
"Somando
a viagem e as acomodações, esta será, de longe, a Copa do Mundo mais cara que
já vimos para os torcedores que irão assistir aos jogos."
A Fifa
também está adotando um modelo de preços "dinâmicos" para o torneio.
Ou seja, os preços dos ingressos para jogos considerados de alta demanda
poderão aumentar significativamente durante os últimos períodos de venda.
Este
sistema tem o potencial de beneficiar os norte-americanos, afastando os
torcedores estrangeiros.
"O
preço dinâmico realmente existe aqui há mais de uma década", afirma Scott
Friedman, fundador do portal Ticket Talk Network. "Para a Fifa, é oferta e
demanda. Eles estão tentando maximizar sua receita."
"O
sistema oferece aos cidadãos americanos a vantagem de que eles talvez possam
comprar um ingresso de revenda para um jogo com menos demanda, a um preço muito
menor que o valor nominal, 48 horas antes do jogo."
"As
pessoas realmente não podem viajar do exterior para isso", explica
Friedman. "O sistema não é justo para o resto do mundo e certamente poderá
eliminar pessoas de outros países, devido aos preços."
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Atrasos com vistos causam incertezas
A
candidatura dos Estados Unidos, Canadá e México foi aceita durante o primeiro
mandato de Donald Trump.
Na
ocasião, o presidente assinou uma carta defendendo que "todos os atletas
qualificados, autoridades e torcedores de todos os países do mundo conseguirão
entrar nos Estados Unidos, sem discriminação".
Alguns
torcedores, incluindo os provenientes do Reino Unido e da União Europeia,
conseguirão viajar sem visto para assistir à Copa do Mundo. Isso é possível
porque 42 territórios fazem parte do programa de dispensa de vistos dos EUA.
Por
isso, esses torcedores precisarão apenas apresentar sua solicitação pelo
Sistema Eletrônico de Autorização de Viagem. Os pedidos são normalmente
aprovados ou rejeitados em até 72 horas.
Mas os
cidadãos da maioria dos países, especialmente da Ásia, África e América do Sul,
precisam solicitar vistos. E muitos desses países já garantiram sua
classificação para a Copa do Mundo ou estão em vias de se qualificar.
A
Rússia, sede da Copa em 2018, e o Catar, em 2022, implementaram procedimentos
de aprovação rápida de vistos nas duas últimas Copas do Mundo. Mas os Estados
Unidos não tomaram a mesma providência.
Os
torcedores que pretendem assistir aos jogos precisam apresentar sua solicitação
e entrar na mesma fila dos demais visitantes para os Estados Unidos. Eles podem
enfrentar atrasos que talvez os impossibilitem de conseguir a aprovação do
visto a tempo para comparecer ao torneio.
Os
pedidos de vistos americanos normalmente envolvem pelo menos uma entrevista
presencial em uma Embaixada ou consulado do país. E o governo Trump ampliou os
poderes das autoridades para investigar o uso das redes sociais e as
declarações políticas públicas dos solicitantes de visto.
Nestas
circunstâncias, o tempo médio de espera para uma entrevista inicial para um
visto de turista em certos países pode atingir bem mais de um ano.
No
início de outubro, o Departamento de Estado americano anunciou que irá aumentar
o número de funcionários em algumas Embaixadas, para tentar processar os
pedidos com mais rapidez. Mas o órgão não revelou em quais países, nem a
quantidade de funcionários.
"Temos
um longo caminho pela frente para nos prepararmos para recepcionar o
mundo", declarou Travis Murphy, ex-diplomata do Departamento de Estado e
fundador da empresa Jetr Global Sports, que ajuda atletas estrangeiros a obter
vistos americanos.
"O
governo atual vem se manifestando explicitamente sobre a limitação das viagens
internacionais e impondo restrições para dificultar alguns processos."
"O
processo de obtenção de visto nos Estados Unidos não é claro, nem eficiente, há
décadas", prossegue ele. "A regulamentação, na verdade, não mudou
muito e o rigor com que algumas das regras são seguidas é o que realmente
[importa] aqui."
"Você
também tem essa visão geral de que, talvez, as pessoas não sejam bem-vindas ou
não fiquem seguras aqui. Não acho que isso seja verdade, mas posso entender por
que o público internacional teria essa percepção."
"Eu
odiaria ver nosso país se colocar em uma posição na qual eventos futuros
poderão se retirar devido à nossa forma de lidar com esta questão",
lamenta Murphy.
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A violência levanta dúvidas sobre a segurança
Houve
diversos assassinatos políticos nos Estados
Unidos em 2025, além de cerca de 500 ataques a tiros em todo o país, em 2024.
As deportações conduzidas pelo
Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês)
também aumentaram por ordem de Trump, que destacou tropas da Guarda Nacional
para cidades governadas pelos democratas, incluindo Los Angeles, na Califórnia, que irá receber
oito jogos da Copa do Mundo.
O
destacamento do ICE e da Guarda Nacional causou protestos em massa de
comunidades desconfiadas em algumas cidades. Trump ameaçou forçar a retirada de
partidas de cidades que ele considera "inseguras".
"Sem
dúvida, existem divisões consideráveis nos Estados Unidos", afirma Daniel
Byman, diretor do Programa de Estratégias de Guerra, Ameaças Irregulares e
Terrorismo do think tank (centro de pesquisa e debates)
norte-americano Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.
"Dependendo
do dia, o presidente ou algum dos seus principais funcionários tenta promover
uma agenda mais polarizada sobre diferentes questões. A ira é muito
grande."
"Com
o governo Trump, existem muitas questões sem resposta em termos de segurança,
pois eles ainda não têm um longo histórico de grandes eventos."
"Houve
um desmantelamento muito grande de várias agências governamentais",
prossegue ele. "Cortes no Departamento de Segurança Doméstica e no FBI. O
que traz não só perda de pessoal, mas de conhecimento institucional."
"Existem
muitos indivíduos que podem ser desordeiros e perigosos. E é claro que os
Estados Unidos têm fácil acesso a armas de fogo, o que não existe na maioria
dos países", conclui Byman.
¨
"Descuidados e agressivos": por que os agentes
de fronteira estão invadindo as cidades dos EUA?
Os
policiais de patrulha da ordem pública se tornaram soldados rasos onipresentes
no plano de deportação em massa de Donald Trump, e advogados e defensores dos
direitos humanos temem que a agência esteja expandindo suas táticas agressivas
para cidades distantes de seu alcance convencional.
Liderados
por Gregory Bovino, um chefe de setor particularmente linha-dura da Alfândega e
Proteção de Fronteiras (CBP) do sul da Califórnia, os agentes da patrulha de
fronteira se tornaram uma presença diária em diversas cidades importantes dos
EUA.
No
início deste mês, no sudoeste de Chicago, uma patrulha de fronteira atirou
várias vezes em uma mulher em meio a protestos contra as operações
militarizadas de imigração do governo Trump na cidade.
Neste
verão, em Los Angeles, agentes de fronteira a cavalo percorreram um parque
público no centro da cidade, acompanhando tropas da Guarda Nacional e outros
agentes em veículos militares. No sul da Califórnia, vídeos de agentes da
patrulha de fronteira imobilizando e espancando o paisagista Narciso Barranco,
de 48 anos, viralizaram.
Agentes
também efetuaram prisões na região agrícola do Vale Central da Califórnia e em
tribunais de imigração de Nova York. Eles montaram postos de controle de
imigração em Washington, D.C.
Advogados
e defensores dos direitos humanos dizem que os agentes, que são treinados para
bloquear entradas ilegais, traficantes de drogas e pessoas nas fronteiras do
país, podem não ser adequados para conduzir a fiscalização civil da imigração
em comunidades urbanas.
"A
patrulha de fronteira é certamente bastante displicente e historicamente tem
sido muito agressiva no cumprimento de suas responsabilidades de
fiscalização", disse César Cuauhtémoc García Hernández, professor de
direito na Universidade Estadual de Ohio. "Eles tendem a trabalhar em
áreas rurais e regiões isoladas dos Estados Unidos. E geralmente não são
treinados em interação com a comunidade e policiamento."
Até
recentemente, a agência geralmente trabalhava perto da fronteira sul dos EUA —
especialmente ao longo da fronteira sudoeste — embora o departamento tenha há
muito tempo autoridade para conduzir patrulhas mais para o interior.
De
acordo com um estatuto de 1946, os agentes da Patrulha de Fronteira têm a
capacidade de realizar buscas sem mandado a uma "distância razoável"
– ou até 160 quilômetros – de quaisquer fronteiras internacionais. Essas
fronteiras incluem fronteiras terrestres internacionais, bem como litorais –
portanto, seu alcance abrange a maioria das principais cidades dos EUA –
incluindo Los Angeles, Nova York e Washington, D.C. Chicago se enquadra nessa
zona de 160 quilômetros, pois os Grandes Lagos são considerados uma fronteira
marítima.
Quase
dois terços da população dos EUA vive na zona.
Ainda
assim, disse García Hernández, até recentemente, era muito incomum ver agentes
da patrulha de fronteira se afastando muito da fronteira sudoeste.
Mas
agora as travessias ilegais de fronteira estão em um nível historicamente
baixo, e o governo enviou milhares de militares para a fronteira sul, liberando
a Patrulha da Fronteira, disse ele – pronta e disponível como multiplicadores
de força na missão de deportação do governo. O departamento conta atualmente
com cerca de 19.000 agentes. A Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP), que
abrange a Patrulha da Fronteira, conta com cerca de 60.000 efetivos –
tornando-se a maior agência de segurança pública do país.
O
Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), por sua vez, conta com cerca de 5.500
agentes de imigração, além de mais 7.000 agentes encarregados de investigar
atividades criminosas transfronteiriças. Embora a agência esteja fazendo
um grande esforço para contratar
mais 10.000 agentes, espera-se que esse processo leve algum tempo.
Não
está claro exatamente quantos agentes da Patrulha da Fronteira se juntaram ao
Ice e outros agentes federais em incursões contra Chicago, Los Angeles e outras
grandes cidades.
O DHS
não respondeu imediatamente à pergunta do Guardian.
À
medida que os agentes de fronteira se desviam de sua missão original,
especialistas jurídicos têm levantado preocupações de que eles estejam trazendo
consigo uma cultura de aplicação combativa da lei. "A CBP tem um histórico
de tratamento problemático de pessoas, na minha opinião, talvez pior do que
qualquer outra agência de segurança pública", disse Deborah Anthony,
professora de estudos jurídicos na Universidade de Illinois Springfield, com
especialização em direito constitucional e na legalidade das operações da
Patrulha de Fronteira.
A
Patrulha da Fronteira há muito tempo tem "mais liberdade" com as
proteções da quarta emenda da Constituição dos EUA contra abordagens e buscas
aleatórias e arbitrárias, disse Anthony. Eles podem estabelecer postos de
controle e, em alguns casos, patrulhas itinerantes, disse ela – mas essas
autoridades são limitadas por lei.
Os
agentes não podem parar pessoas sem “suspeita razoável” de uma violação de
imigração, nem revistar casas ou veículos sem um mandado ou causa provável.
Em
missões recentes, no entanto, os agentes parecem estar desrespeitando
essas restrições. No início deste mês, agentes da Patrulha da Fronteira,
juntamente com outros agentes federais, realizaram uma operação de imigração em
estilo militar em um complexo de apartamentos em Chicago. Imagens em vídeo
mostraram agentes invadindo as portas da frente indiscriminadamente.
“Todas
as evidências sugerem que houve violações flagrantes de direitos, tanto no
tratamento das pessoas, na falta de mandado, na arrombação de portas, no que
parece ser um ataque quase indiscriminado a quase todos no prédio”, disse
Anthony.
Os
defensores dos imigrantes tiveram sucesso limitado na oposição a esse tipo de
fiscalização indiscriminada. Em uma operação em janeiro, pouco antes da posse
de Trump, agentes de fronteira à paisana invadiram a região do Vale Central da
Califórnia, realizando paradas aleatórias ao longo da rodovia. Em resposta, a
ACLU processou a Patrulha da Fronteira em nome do sindicato United Farm Workers
– e um tribunal distrital federal concluiu que a operação
violava a quarta emenda.
E em
junho, uma ação federal movida por grupos de defesa acusou a Patrulha da
Fronteira, a ICE e outras agências de violar direitos ao traçar perfis de
vendedores ambulantes, lavadores de carros, diaristas e outros, e ao fazer
prisões sem causa adequada — resultando em uma restrição temporária contra tal
fiscalização na Califórnia e em partes da costa oeste.
Mas
provar tais violações da Quarta Emenda pode ser um grande fardo para os
defensores, disse Anthony. E a Patrulha da Fronteira tem um longo histórico de
táticas agressivas de fiscalização.
“Há
evidências de tudo, desde violações legais e constitucionais até abusos e
maus-tratos físicos e sexuais, e muito pouco recurso ou responsabilização”,
disse Anthony. “A disciplina interna dentro da Patrulha da Fronteira é muito
problemática e isso tem sido sistematicamente assim há muito tempo.”
Um
relatório de 2023 do Washington Office on Latin America (Wola) e
da Kino Border Initiative (KBI), grupos
de defesa dos direitos dos migrantes, detalhou abusos persistentes dos direitos
humanos sem responsabilização dentro da agência.
Fonte:
BBC Sport/The Guradian

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