sábado, 5 de julho de 2025

Vitiligo: doença não contagiosa que pode ser desencadeada ou agravada por fatores emocionais

Caracterizada pela despigmentação da pele, que causa manchas brancas de tamanhos variados, o vitiligo é uma doença autoimune que ainda gera muitas dúvidas na população. Embora não exista dados epidemiológicos oficiais no Brasil sobre a disseminação da doença, estima-se que ela afete cerca de 0,5% a 2% da população mundial, seguindo esta média também aqui no país.

Para trazer mais informações sobre o tema, a Inspirali, ecossistema que atua na gestão de 15 escolas médicas em diversas regiões do Brasil, convidou Nadire Cristina Freire Pontes, dermatologista e professora na Universidade Potiguar – UNP. Confira:

1. O que é vitiligo?

O vitiligo é uma doença de origem autoimune, caracterizada pela perda progressiva da pigmentação da pele, formando manchas brancas, bem delimitadas e de tamanhos variados. Isso acontece porque as células responsáveis pela produção de melanina — os melanócitos — são destruídas. Trata-se de uma doença relativamente comum nos consultórios dermatológicos, com uma distribuição igualitária entre diferentes regiões, gêneros e etnias.

2. Qual a causa da doença?

O vitiligo tem origem multifatorial. Está relacionado principalmente a processos autoimunes, nos quais o próprio sistema imunológico ataca e destrói os melanócitos. Fatores genéticos, ambientais, estresse oxidativo e traumas na pele (fenômeno de Köebner) também contribuem.

3. Em quem ela costuma se manifestar?

O vitiligo pode surgir em qualquer idade, gênero ou etnia, mas costuma se manifestar principalmente antes dos 30 anos, embora possa surgir mais tarde. Atinge igualmente homens e mulheres, e pessoas de todas as cores de pele — embora seja mais visível em peles mais escuras.

4. É uma condição genética?

Sim, existe uma predisposição genética. Cerca de 20 a 30% dos pacientes têm histórico familiar da doença. No entanto, ter um parente com vitiligo não significa que a pessoa necessariamente desenvolverá a doença, pois outros fatores ambientais e imunológicos também estão envolvidos.

5. Quais os sintomas?

O principal sintoma é o surgimento de manchas brancas, bem delimitadas, que podem aparecer em qualquer parte do corpo. Alguns pacientes relatam:

                •             Sensibilidade aumentada ao sol nas áreas despigmentadas;

                •             Raramente: coceira ou leve ardência no início das lesões;

Não provoca dor, não descama e não causa sintomas físicos mais intensos além da alteração na cor da pele.

6. Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é clínico, realizado através do exame dermatológico. O médico observa as características das manchas e pode usar uma lâmpada especial chamada luz de Wood, que evidencia a ausência de melanina. Em casos duvidosos, pode ser solicitada uma biópsia de pele, além de exames laboratoriais para investigar doenças autoimunes associadas, como hipotireoidismo.

7. A doença pode se desenvolver por questões psicológicas?

O vitiligo não é causado diretamente por fatores emocionais, mas o estresse físico ou psicológico pode atuar como gatilho para o surgimento ou agravamento das lesões, especialmente em pessoas geneticamente predispostas. Portanto, existe uma relação indireta entre fatores emocionais e o desenvolvimento ou piora da doença.

8. Como é feito o tratamento?

O tratamento tem como objetivo controlar a doença, estimular a repigmentação e melhorar a qualidade de vida. As opções incluem:

•        Tratamentos tópicos com cremes/pomadas de corticoides ou imunomduladores;

•        Fototerapia;

•        Cirurgias: enxertos de melanócitos em casos muito selecionados;

•        Tratamento sistêmico: com medicamentos imunomoduladores em casos específicos;

•        Camuflagem cosmética: maquiagem para disfarçar as manchas;

•        Suporte psicológico: extremamente importante para lidar com o impacto emocional da doença.

9. Vitiligo tem cura?

Não, o vitiligo não tem cura definitiva até o momento, mas existem tratamentos que controlam a progressão da doença e podem promover repigmentação parcial ou até total em algumas pessoas.

10. A doença causa algum tipo de limitação para a pessoa afetada?

Fisicamente, o vitiligo não traz limitações funcionais. No entanto, o impacto psicológico e social pode ser significativo, especialmente quando as manchas são muito visíveis. Isso pode afetar a autoestima, relações sociais, profissionais e até causar quadros de ansiedade e depressão em alguns pacientes.

11. É uma doença contagiosa?

Não. O vitiligo não é contagioso, não se pega pelo contato, pelo ar, por secreções ou qualquer outro meio.

•        Vitiligo pode ser controlado com tratamento adequado

O Dia Mundial do Vitiligo, celebrado anualmente em 25 de junho, foi criado, em 2011, pela Organização das Nações Unidas (ONU), para despertar a conscientização sobre a doença e combater o preconceito.

Conforme o Ministério da Saúde (MS), a patologia atinge de 0,5% a 2% da população mundial. No Brasil, são mais de um milhão de pessoas (0,54%). Theodoro Habermann Neto, dermatologista do Vera Cruz Hospital, em Campinas (SP), explica que a doença é caracterizada pela despigmentação da pele. “São lesões, em algumas regiões do corpo, de aparência esbranquiçadas, causadas pela diminuição ou ausência de melanócitos, as células que produzem a melanina, que dá a cor da nossa pele”, define.

Segundo o MS, no Brasil o vitiligo acorre em 1,2% das pessoas brancas e 1,9% das pardas/negras, configurando entre as 25 doenças dermatológicas mais frequentes em todas as regiões do país. “A causa ainda não está bem definida, mas já sabemos que fenômenos autoimunes, traumas emocionais, estresse e ansiedade podem desencadear ou agravar a doença”, explica Habermann.

O tamanho da lesão pode variar e acometer várias partes do corpo. “Normalmente, os pacientes têm diminuição de sensibilidade na região afetada ou podem ter dor. O vitiligo pode acometer a área segmentar (ou unilateral), ou seja, em apenas uma parte do corpo, também podendo ocorrer em pelos e cabelos, que acabam descoloridos; e a área não-segmentar (ou bilateral), que é o tipo mais comum, que manifesta dos dois lados do corpo, por exemplo, duas mãos, dois pés, dois joelhos, etc. Também pode surgir no nariz e na boca. A região afetada perde a cor, em algumas fases há o aumento da lesão e em outras há a estagnação. Esses ciclos podem correr durante toda a vida e a duração e as áreas pigmentadas tendem a se tornar maiores com o passar do tempo”.

<><> Diagnóstico

Ao suspeitar de alguma mancha mais clara pelo corpo, o ideal é procurar um dermatologista. “O diagnóstico é feito clinicamente e, em alguns casos, é preciso realizar uma biópsia, que é a retirada de um pedacinho da pele, para confirma-lo. Exceto na borda da visão, que a gente faz um teste com a Lâmpada de Wood, que é uma luz negra, específica para ajudar na detecção da doença em pacientes com pele branca”.

Segundo o dermatologista, exames de sangue também são comuns para avaliar se o vitiligo tem alguma doença autoimune associada, como hepatite, doença de Addison e problemas de tireoide. “Também é válido ressaltar que 30% dos pacientes têm algum familiar que já apresentou a doença. Então, é muito importante procurar um dermatologista habilitado pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, que possa dar o diagnóstico, fazer o melhor tratamento e a melhor investigação do quadro”, ressalta.

<><> Tratamento

Embora o vitiligo ainda não tenha cura, existem tratamentos bastante eficientes que devem ser adotados de forma individualizada. “O foco é cessar o aumento das lesões, estabilizando o quadro, e também promover a repigmentação da pele. Existem medicamentos à base de cremes que estimulam a produção de melanina, derivados da vitamina D e corticoides. Outra opção é a fototerapia, um banho de luz, com radiação ultravioleta, que é indicado para todas as formas de vitiligo com resultados muito bons, principalmente em lesões de face e tronco. Já o ultravioleta com UVA também pode ser adotado, desde que sejam tomados todos os cuidados com o risco de envelhecimento e câncer de pele. Há ainda tratamentos com laser e técnicas cirúrgicas, como transplante de melanócitos”.

Segundo Habermann, algumas medicações imunobiológicas estão em fase de pesquisa na Europa e nos EUA e, em médio prazo, devem checar ao Brasil, representando mais um importante avanço no tratamento. Para melhores resultados, a orientação do dermatologista é para que o paciente com a doença tenha o acompanhamento psicológico. “Sabemos que as lesões de pele impactam muito na qualidade de vida e autoestima do paciente, por isso é importante que se tenha o suporte psicológico de um profissional, o que irá contribuir, inclusive, para os melhores resultados do tratamento e evitar que problemas como depressão e ansiedade, por exemplo, interfiram na terapêutica adotada”.

<><> Sem receitas caseiras

O médico chama a atenção para os ditos “medicamentos milagrosos”, que muitas vezes são receitas dadas por pessoas leigas no assunto. “Podem levar a riscos de queimadura, deixar as áreas ainda mais brancas e causar reações mais graves. Portanto, o tratamento de vitiligo é individual, deve ser discutido sempre com o dermatologista e cada caso é um caso, não se devendo passar uma coisa igual para todos. Depende da característica de cada pele, de cada paciente, e os resultados vão variar de uma pessoa para outra. Por isso, é importante procurar um dermatologista para saber qual é o melhor controle da doença e qual a repigmentação mais adequada”, orienta.

<><> Cuidados importantes

Para as pessoas com histórico familiar da doença, algumas medidas podem ser adotadas. Tais como observar periodicamente a pele, evitar o uso de roupas apertadas que provoquem atrito e pressão sobre a pele, fazer uso diário de filtro solar e manter o controle em situações de estresse.

 

Fonte: Sáude & Bem Estar

 

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