'Se
queremos igualdade, devemos nos concentrar em impulsionar quem está embaixo',
diz economista sueco
Cerca
de mil pessoas passaram a ser milionárias todos os dias nos Estados Unidos em 2024.
O Global
Wealth Report ("Relatório da Riqueza Global", em tradução
literal), recém-publicado pelo banco suíço UBS, indica que a maioria dessas
pessoas pertence ao que a empresa chama de Emilli's (everyday millionaires ou
"milionários do dia a dia").
Suas
fortunas ficam entre US$ 1 milhão e US$ 5 milhões (cerca de R$ 5,4 milhões a R$
27,2 milhões).
O
número de integrantes desse seleto grupo quadruplicou desde o ano 2000.
Atualmente, são cerca de 52 milhões de pessoas em todo o mundo, e sua riqueza
total soma cerca de US$ 107 trilhões (cerca de R$ 583 trilhões).
Outros
US$ 119 trilhões (cerca de R$ 648 trilhões), ainda segundo o levantamento,
pertence a pessoas com fortunas superiores a US$ 5 milhões (cerca de R$ 27,2
milhões).
Esse
aumento do número de milionários surge em uma época em que as fortunas das
pessoas mais ricas do mundo atingiram níveis nunca antes observados, o que
aumenta a distância que separa os mais ricos dos mais pobres do planeta.
Essas
diferenças palpáveis — e os dados sobre renda e riqueza que elas demonstram —
estabeleceram a noção de que vivemos em um momento de desigualdade crescente.
Nesse
contexto, o economista Daniel Waldenström, pesquisador do Instituto de
Pesquisas sobre Economia Industrial de Estocolmo, na Suécia, acaba de publicar
seu livro Richer and More Equal: A New History of Wealth in the West ("Ricos
e mais iguais: uma nova história da riqueza no Ocidente", em tradução
livre).
O autor
rejeita a noção de que vivemos em um mundo mais desigual.
Baseado
no seu livro, Waldenström também publicou um artigo na revista Foreign Affairs.
Ele afirma que o interesse demonstrado pelas chamativas fortunas dos fundadores
das grandes empresas de tecnologia não permite observar a grande transformação
ocorrida nas sociedades ocidentais.
Nelas,
a riqueza dos lares em geral aumentou até níveis antes inimagináveis, enquanto
os indicadores de bem-estar, como a estimativa de vida e as possibilidades de
consumo, melhoraram de forma generalizada.
Waldenström
defende que as sociedades ocidentais "não são, nem remotamente, tão
desiguais quanto muitos acreditam".
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Confira abaixo a entrevista.
- Muitos
especialistas falam do aumento da desigualdade como uma característica da
época em que vivemos. Alguns chegam a afirmar que as desigualdades globais
contemporâneas se aproximam dos níveis máximos observados no início do
século 20. Mas o sr. acaba de publicar um artigo sobre o que chama de
"mito da desigualdade". Por quê?
Waldenström: Se analisarmos
a história, é claro que a maior parte dos indicadores de desigualdade econômica
— seja a distribuição total da renda disponível das residências, o grau de
mobilidade social, a proporção de residências pobres com baixa renda que têm acesso
a boa educação, as diferenças de estimativa de vida e, na verdade, também as
medidas de distribuição e desigualdade da riqueza — demonstram claramente que o
século 21 é um período muito mais igualitário para o mundo ocidental do que as
épocas históricas anteriores, especialmente o início e meados do século 20.
O mito
é que alguns grupos detêm uma interpretação diferente destes resultados e uma
narrativa diferente, que considero injusta com os Estados de bem-estar que
construímos, financiados pela receita fiscal que quadruplicou ao longo do
século 20.
Atualmente,
obtemos 30% a 45% do PIB em receita fiscal anual, contra 5% ou 10%, 100 anos
atrás.
Por
isso, este mito defende que a desigualdade é muito maior do que antes, que
vivemos em sociedades historicamente desiguais. Não acredito que isso seja
verdade, se analisarmos a maioria das medidas padrão de desigualdade econômica.
É o que
defendo.
- Ninguém parece
discutir que, agora, vivemos melhor do que 100 anos atrás, mas isso não
significa que a diferença entre os mais ricos e os mais pobres não esteja
aumentando. Ou significa?
Waldenström: Vamos ser
claros. Existem muitos abismos: entre o indivíduo mais rico e o mais pobre,
entre homens e mulheres, entre jovens e idosos e assim por diante.
Mas
temos uma economia em crescimento que funciona como uma escada rolante.
Isso
significa que os que estão na escada rolante se beneficiarão do crescimento
econômico, mas que também existem grupos que não irão avançar. São os que vivem
em países extremamente pobres, governados por ditadores ou que enfrentam
guerras, que não têm nada e cujas sociedades estão desestruturadas. Por isso,
eles não estão nessa escada rolante.
Por
isso, a diferença aumenta com o progresso econômico. Isso é verdade.
A boa
notícia é que o grupo que não está na escada rolante está se reduzindo
rapidamente.
Globalmente
falando, os índices de pobreza estão diminuindo. Nos últimos 20 anos, os
índices de pobreza empregados pelo Banco Mundial e por outros organismos foram
reduzidos pela metade.
Por
isso, existem diferenças que podem estar aumentando, mas acredito que não sejam
totalmente representativas.
Por
outro lado, o fato de termos crescimento e pessoas que conseguem enriquecer
porque têm muito sucesso global nos fornecendo produtos e serviços também não é
necessariamente um problema.
Produtos
como os smartphones ajudaram bilhões de pessoas a ter acesso a informações
todos os dias e fazer uso delas quase sem custo. E, como este, há muitos outros
exemplos, de forma que os benefícios estão chegando às pessoas, mesmo havendo
esses super ricos com tanto sucesso.
- Segundo os dados
mencionados, desde 1980 o percentil mais rico dos Estados Unidos aumentou
sua participação na riqueza de pouco mais de 20% para 35% a 40%
atualmente.
Suponho que este aumento não poderia ter ocorrido sem reduzir a
participação do restante da sociedade. Não seria este um indício de
aumento da desigualdade?
Waldenström: É verdade. Este
é um sinal de aumento da desigualdade nessa dimensão.
Falo
disso no artigo e também no meu livro, pois o caso dos Estados Unidos é
levemente diferente do restante do Ocidente.
Na
Europa ocidental, no Canadá e na Austrália, a proporção da riqueza dos mais
ricos praticamente não aumentou na última década.
Mas,
nos Estados Unidos, esse aumento foi evidente. E, enquanto a proporção dos 1%
mais ricos aumentou nos Estados Unidos, é claro que a proporção restante
matematicamente diminuiu.
Este
aspecto da desigualdade aumentou. Mas é importante interpretar estes dados.
Se
analisarmos a lista das maiores empresas do mundo em 1980, a metade delas
estava instalada nos Estados Unidos. A outra metade ficava em países como o
Japão, a Alemanha ou a França.
Atualmente,
esta lista inclui quase exclusivamente empresas americanas. Isso significa que
seus empreendedores de sucesso se saíram melhor na produção de bens e serviços
desejados pelas pessoas e foram os mais bem sucedidos em nível mundial.
Isso
também explica por que sua riqueza aumentou com mais rapidez do que no restante
do mundo ocidental. E, o que é mais importante, a riqueza da classe média
também aumentou nos Estados Unidos durante o mesmo período. Por isso, as
próprias residências de classe média se enriqueceram.
O fato
de que os melhores empreendedores, líderes e donos de empresas superaram todos
os demais explica este aumento da sua participação na riqueza dos Estados
Unidos.
- Uma pesquisa do
Instituto de Políticas Econômicas destacou que, nos Estados Unidos, a
relação entre o pagamento recebido pelos diretores-executivos em
comparação com os trabalhadores era de 21 para 1 em 1965; 45 para 1 em
1989; e 203 para 1, em 2020. Como se explica isso?
Waldenström: É verdade.
Acredito que isso reflita o aumento do tamanho do mercado e está claramente
vinculado à globalização.
Esses
diretores-executivos lideram as maiores empresas com ações na bolsa e que
operam, hoje, em mercados muito maiores que nos anos 1990, 70 ou 60.
Isso
significa que, para os donos de empresas, contratar a pessoa errada poderia
custar milhões ou bilhões de dólares. Por isso, eles estão dispostos a pagar
muito para conseguir a pessoa adequada, o que aumentou o salário oferecido para
estes cargos.
E é
preciso observar que os donos de empresas estão dispostos a usar seu próprio
dinheiro para pagar esses diretores-executivos. Não se trata de dinheiro dos
contribuintes.
- Para respaldar
seu argumento de que a desigualdade não é tão grave quanto muitos
acreditam, o sr. disse que deveríamos considerar outros indicadores além
da renda bruta (antes dos impostos). O sr. poderia explicar quais são
esses indicadores?
Waldenström: A renda antes
dos impostos é a medida mais rudimentar da produtividade.
Nós
desconhecemos o nosso valor de mercado. Não existe um fundamento científico
para defini-lo. Não sei quanto eu valho, mas a melhor estimativa é quanto outra
pessoa me paga.
A
receita antes dos impostos não deveria ser muito utilizada para responder
grandes perguntas. Eu mesmo a usei para falar da desigualdade, mas acredito que
tenha sido exagerado.
Considero
ser melhor usar a renda após os impostos ou a renda após os impostos e
subsídios [o dinheiro que fica com as pessoas depois de pagar os impostos e
receber os auxílios governamentais] para determinar a distribuição do bem-estar
entre os cidadãos.
Ou
seja, como vivemos e qual é a nossa qualidade de vida. Isso é o que importa.
Poderíamos
também incluir aqui a redistribuição de subsídios não monetários. Não só os
subsídios para moradia, os subsídios por filho ou a ajuda econômica, mas também
os subsídios oferecidos como assistência médica gratuita ou mais barata,
assistência aos idosos e educação.
Estes
serviços são financiados pelos impostos e oferecidos gratuitamente em muitos
países. Esta é, atualmente, a transferência de renda mais importante da
economia e é fundamental para as famílias mais pobres.
Por
isso, ela comprime muito a distribuição de renda. Os índices [que marcam as
diferenças econômicas na sociedade] diminuem muito, de forma que acredito que
esta seja uma medida muito melhor.
A
grande diferença na época atual, em relação a qualquer período anterior, com
algumas ressalvas, é que temos a redistribuição dos recursos [pelo pagamento de
impostos] nos países ricos, mas também, em maior medida, nos países de renda
média.
Por
isso, temos impostos mais altos, mais transferências de renda e subsídios. A
receita antes dos impostos ignora totalmente este crescimento [dos serviços
prestados] pelo governo. Ela desconsidera um aspecto fundamental do bem-estar
dos indivíduos ou dos cidadãos nessas economias.
- O sr. disse que,
se alguém tiver bilhões, isso não deveria ser um problema para o cidadão
comum, desde que ele viva bem. Mas, em alguns casos, esse
bilionário investe em áreas que concorrem com o cidadão comum, como
aparentemente ocorre em muitos países com a compra de moradias, o que
aumenta os preços até níveis que muitos trabalhadores não podem pagar...
Waldenström: Existem muitas
nuances e perspectivas sobre as consequências da propriedade da riqueza e suas
diferenças.
Sim, se
você for rico, pode fazer mais coisas e comprar mais, incluindo uma casa maior
etc.
Acredito
que é muito importante garantir que nossos sistemas fiscais e bancários sejam
bons para que os trabalhadores, mesmo que não sejam ricos, possam conseguir
educação e bons empregos, para poderem ir ao banco e pedir um empréstimo para
comprar uma casa ou apartamento.
Mas
eles também poderiam ser apenas inquilinos. Eles podem alugar a casa comprada
por uma pessoa rica.
Ou
seja, existem diferentes variantes sobre como isso irá se desenvolver. E aqui
não fica claro o que está bem e o que está mal, porque se trata de um contínuo.
Existe uma variedade de comportamentos.
Quando
os ricos depositam seu dinheiro nos bancos ou fundos de investimento, eles
ajudam a financiar aqueles que desejam obter empréstimos ou possibilitar os
investimentos necessários para os empreendedores.
Se eles
comprarem carros ou serviços, por exemplo, isso gerará renda, empregos etc., o
que também é positivo. Talvez os preços dos restaurantes aumentem e,
potencialmente, surgirão mais pessoas querendo abrir restaurantes deste tipo —
o que, por sua vez, pode reduzir os preços.
Não
acredito que haja nada correto ou incorreto neste ponto. É como um jogo
espontâneo, mas é importante facilitar o acesso para que as pessoas que não são
ricas possam comprar uma casa e, o mais importante, recebam boa educação.
Precisamos
ter um mercado de trabalho e um sistema de crédito que funcionem.
- No seu artigo, o
sr. afirma que um mau diagnóstico traz soluções ruins. Qual diagnóstico e
qual solução correta o sr. indicaria para o que muitas pessoas percebem
como uma desigualdade cada vez maior?
Waldenström: A razão pela
qual se ouve falar do aumento da desigualdade é que existem grupos que gostam
de falar disso, frequentemente por motivos ideológicos.
São
pessoas de centro-esquerda. Para eles, a desigualdade é sempre alta demais. Mas
foram eles que compreenderam a importância da desigualdade.
O
problema com outros grupos da sociedade, especialmente de centro-direita, é que
eles nunca falam na desigualdade e não sabem nada a respeito.
Consequentemente,
só ouvimos uma narrativa que, na minha opinião, não é totalmente errada, mas,
em grande parte, está desinformada. E acredito que isso seja injusto para os
Estados de bem-estar que construímos, talvez mais na Europa que nos Estados
Unidos.
Mas
também ouvimos estas discussões na Europa. Acredito que isso é muito injusto
para nossas sociedades, que cobram altos impostos.
Acredito
que uma avaliação mais adequada deve observar realmente onde está o problema. E
o problema não é que algumas pessoas tenham muita sorte ou sucesso no seu
trabalho, dirigindo empresas com altos salários ou empreendendo. Este não é o
problema.
Na
verdade, esta renda e os lucros estão sujeitos a impostos e são fundamentais
para financiar nossos sistemas de bem-estar.
E, em
troca, vamos nos concentrar naqueles que não têm acesso suficiente a essas
coisas.
Defendo
firmemente um sistema educacional igualitário, que ofereça educação de
qualidade a custo muito baixo ou gratuita.
Não
gosto da ideia de ter escolas particulares, onde se possa pagar muito para que
os filhos recebam educação de melhor qualidade. Isso vinculará os pais ricos à
qualidade de educação dos seus filhos e este modelo social não me agrada.
Ele é
contrário à mobilidade social e à igualdade de oportunidades, que considero
fundamental.
Por
isso, se quisermos igualdade, deveríamos nos concentrar em como impulsionar
quem está embaixo, e não em desestabilizar os que estão em cima.
Fonte:
BBC News Mundo

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