Os
3 caminhos que o governo Lula estuda para enfrentar tarifas de Trump
Diversificar
parcerias comerciais, apostar no desgaste da oposição e, se tudo falhar,
retaliar. Esta é a linha de ação com a qual trabalham integrantes do governo do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ouvidos pela BBC News Brasil em
caráter reservado desde quarta-feira (9/7), quando o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros.
Segundo
eles, o anúncio pegou parte do governo de surpresa por conta da dimensão com a
qual as tarifas foram impostas e pelo componente político atrelado a elas.
Na
carta divulgada por Trump, o presidente americano atribui a imposição das
sanções, "em parte", ao processo judicial no qual o ex-presidente
Jair Bolsonaro (PL) é réu junto ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Bolsonaro
é acusado de liderar uma tentativa de golpe de Estado que culminou com os atos
de 8 de janeiro de 2023, quando milhares de militantes invadiram as sedes dos
três poderes, em Brasília.
O
ex-presidente, no entanto, nega seu envolvimento no caso e diz ser vítima de
uma perseguição política.
"Este
julgamento não deveria estar acontecendo. É uma caça às bruxas que deveria
acabar imediatamente", diz um trecho da carta de Trump.
Um dos
integrantes do governo Lula ouvidos pela BBC News Brasil em caráter reservado
afirmou que, como a justificativa para as tarifas é política, e não econômica,
o governo brasileiro não teria subsídios para negociar uma flexibilização das
taxas.
Segundo
ele, o Brasil não vai nem teria como negociar a suspensão dos processos contra
Bolsonaro.
Este
mesmo integrante afirmou que as tarifas foram interpretadas internamente como
uma tentativa do governo Trump de interferir nas eleições de 2026, pressionando
o Brasil a reabilitar eleitoralmente Bolsonaro para que ele dispute a
Presidência da República no ano que vem.
O
ex-presidente, porém, já está inelegível após ter sido condenado em dois casos
por crimes eleitorais julgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Sem
"moeda de troca", o governo deverá, segundo essa fonte, apostar em
estratégias primordialmente políticas e comerciais às tarifas.
Em
entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, na noite desta quinta-feira (10),
Lula anunciou a criação de um comitê com empresários para avaliar a situação e
buscar soluções, como a procura por novos parceiros comerciais no mundo.
O
presidente brasileiro afirmou também que planeja recorrer à Organização Mundial
do Comércio (OMC).
"A
partir daí, se não houver solução, nós vamos entrar com a reciprocidade já a
partir do 1º de agosto, quando ele começa a taxar o Brasil", disse Lula à
TV Globo.
O
presidente se refere à Lei da Reciprocidade, norma em vigor desde abril que
autoriza o governo a retaliar países ou blocos que imponham barreiras
comerciais a produtos brasileiros.
Veja
abaixo os três caminhos possíveis estudados pelo governo.
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1 - Diversificar parcerias
Uma
fonte do governo ouvida em caráter reservado afirmou à BBC News Brasil que uma
das medidas a serem adotadas pelo governo brasileiro nos próximos meses é
intensificar as negociações de acordo comerciais que já estavam em andamento ou
que ainda não haviam começado.
A ideia
é aumentar as opções de clientes para os produtos brasileiros e, assim,
diminuir o impacto das potenciais perdas de exportação para os Estados Unidos.
Entre
as apostas, estão parcerias com a União Europeia, Canadá, Austrália, Coreia do
Sul, Emirados Árabes Unidos, Vietnã e Indonésia.
O
desafio, no entanto, não é trivial. Por país, os Estados Unidos são hoje o
segundo maior parceiro comercial do Brasil, depois da China.
Em
2024, os dois países movimentaram um comércio de US$ 80 bilhões (R$ 443
bilhões). Historicamente, porém, os americanos têm tido um saldo positivo nessa
relação. Segundo o governo brasileiro, nos últimos 15 anos, os Estados Unidos
tiveram um superávit comercial de US$ 410 bilhões em relação ao Brasil.
O
exemplo mais emblemático de uma possível nova parceria é o acordo comercial
entre o Mercosul e a União Europeia, que se arrasta há quase duas décadas e
cujas negociações já foram finalizadas. O acordo prevê a criação de um mercado
comum de 700 milhões de pessoas e poderia representar um incremento de até R$
37 bilhões nas transações comerciais do Brasil até 2044, segundo dados do
governo brasileiro.
Para
entrar em vigor, no entanto, é preciso que o acordo seja aprovado pelo
Parlamento Europeu e pelo Conselho da União Europeia, os dois principais órgãos
de decisão da União Europeia.
A
finalização do acordo sofre oposição histórica da França sob o argumento de que
a facilidade para a entrada de produtos agropecuários do Mercosul poderia
prejudicar os agricultores franceses. Apesar disso, países como a Alemanha,
Espanha e Portugal já demonstraram seus apoios à finalização do acordo.
A
expectativa é de que a diplomacia brasileira intensifique as negociações
restantes com seus parceiros europeus para que uma posição final sobre o acordo
seja anunciada até o final do ano, quando chega ao fim a presidência pro
tempore do Brasil sobre o Mercosul.
Outro
acordo que também estaria prestes a ser finalizado e entrar em vigor é o acordo
comercial com a EFTA (sigla em inglês para Associação Europeia de Livre
Comércio), bloco comercial que reúne a Islândia, Noruega, Liechtenstein e
Suíça.
Na
semana passada, os dois blocos anunciaram o fim das negociações do acordo. O
texto seguiu para a etapa de revisão legal e, após essa fase, irá à etapa de
aprovação e ratificação pelos dois blocos.
Um
diplomata ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmou que a
expectativa dentro do governo brasileiro é de que essas fases sejam finalizadas
antes do final deste ano.
O bloco
tem uma população estimada em 14 milhões de pessoas e estão entre os que têm a
maior renda per capita do mundo. Segundo o governo brasileiro, a estimativa é
de que, uma vez em vigor, o acordo possa gerar um aumento de US$ 2,69 bilhões
(R$ 14,9 bilhões) no Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil até 2044.
Outro
caso mencionado por este diplomata é um eventual acordo comercial com o Canadá.
A possibilidade, segundo ele, foi mencionada pelo primeiro-ministro do país,
Mark Carney, durante encontro bilateral com o presidente Lula na reunião do G7,
grupo composto por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e
Reino Unido.
Segundo
ele, o interesse dos canadenses em um acordo com o Mercosul teria aumentado
depois que os Estados Unidos, sob o comando de Trump, anunciaram tarifas sobre
produtos do país vizinho. As conversas, segundo o governo brasileiro, foram
iniciadas em gestões passadas, mas teriam sido interrompidas durante o governo
do ex-presidente Jair Bolsonaro.
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2 - Narrativa, desgaste e recuo
Outra
aposta do governo é o efeito "rebote" que o anúncio das tarifas de
Trump podem ter sobre a opinião pública brasileira.
O
governo não descarta, por exemplo, que um eventual desgaste da oposição por seu
apoio às tarifas possa fazer com que membros do bolsonarismo defendam, junto a
Trump, que as tarifas sejam revogadas.
Esse
movimento, segundo um integrante do governo, seria uma tentativa de evitar que
as tarifas pudessem jogar a favor da candidatura à reeleição de Lula, em 2026.
Especialistas
ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que, historicamente, ingerências
estrangeiras em assuntos domésticos podem a fortalecer sentimentos
nacionalistas, o que poderia beneficiar o discurso de Lula.
Nas
redes sociais, houve um elevado número de manifestações contrárias às tarifas.
Até mesmo associações patronais tradicionalmente distantes do governo Lula,
como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgaram notas rechaçando a
medida imposta por Trump.
Nas
redes sociais, o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) publicou
uma carta defendendo a imposição das tarifas alegando que elas seriam resultado
dos supostos "abusos" praticados pelo governo brasileiro.
Apesar
de ter recebido diversos comentários de apoio, Jair Bolsonaro e seus filhos
foram alvo de críticas.
A
medida também vem na esteira da campanha liderada pelo PT e por integrantes do
governo em favor da tributação de grandes fortunas, na qual o governo é
colocado como defensor dos mais necessitados.
Segundo
este integrante do governo, uma das batalhas a serem travadas, agora, é pelo
domínio da narrativa em torno das tarifas.
Para
ele, essa disputa será feita nas redes sociais, principalmente.
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3 - Se tudo falhar… Retaliar
A opção
que o governo também não descarta é retaliar o governo americano e anunciar
tarifas à importação de produtos ou serviços fornecidos por empresas dos
Estados Unidos.
A ideia
seria usar a Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Congresso Nacional
em abril deste ano e que autoriza o governo federal a retaliar países que,
eventualmente, imponham tarifas comerciais ou não comerciais a produtos
brasileiros.
Essa
possibilidade foi citada na nota divulgada pelo presidente Lula já na
quarta-feira, horas depois de Trump anunciar as tarifas ao Brasil.
"Qualquer
medida de elevação de tarifas de forma unilateral será respondida à luz da Lei
brasileira de Reciprocidade Econômica", diz um trecho da nota.
O
governo ainda não definiu quando anunciará suas eventuais retaliações.
Inicialmente, o prazo com qual se está lidando é o dia 1º de agosto, quando as
sanções prometidas por Trump começariam a entrar em vigor.
O
governo, no entanto, não descarta demorar mais para responder.
Também
não há uma definição no governo sobre quais setores americanos poderiam ser
atingidos pelas tarifas brasileiras.
Segundo
um integrante do governo ouvido pela BBC News Brasil, a ideia é que as
eventuais tarifas impostas pelo Brasil não prejudiquem setores econômicos
brasileiros.
Em
2024, por exemplo, turborreatores e turbinas usadas na construção de aviões
comerciais lideraram a pauta de exportações dos Estados Unidos para o Brasil.
No ano passado, a importação desses produtos chegou a US$ 6 bilhões (R$ 33
bilhões).
Esses
produtos, no entanto, são usados na indústria aeronáutica brasileira, que,
posteriormente, vende aeronaves prontas, inclusive para os Estados Unidos.
Alguns
setores analisados como potencial alvo de sanções são o de patentes de produtos
farmacêuticos, agrícolas e o de royalties sobre produções audiovisuais.
Outra
possibilidade seria alterar a taxação sobre remessas de dividendos de
multinacionais americanas que atuam no Brasil.
• 'Antes era um atentado contra a
democracia, agora é um atentado à economia', afirma Alckmin sobre Bolsonaro e
tarifaço de Trump
O
vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) afirmou nesta quarta-feira (10) que Jair
Bolsonaro e seus aliados cometeram um “atentado à economia” após já terem
promovido um “atentado à democracia”. A declaração veio após o presidente dos
Estados Unidos, Donald Trump, anunciar tarifas de 50% sobre produtos
brasileiros.
"Antes
era um atentado à democracia, agora é um atentado a economia, prejudicando as
empresas e prejudicando os empregos", disse.
Em
conversa com a imprensa, Alckmin ainda fez apontamentos sobre a atuação do
ex-presidente enquanto ocupava o cargo.
"Nós
já constatávamos que o clã Bolsonaro trabalhou contra o interesse do país e do
povo brasileiro. Se nós formos verificar, na saúde, mais de 700 mil mortos na
Covid - três vezes a média mundial pelo negacionismo e a campanha antivacina.
Ponto de vista de infraestrutura, uma negação total num país continental como é
o Brasil. No ponto de vista do meio ambiente, o maior desmatamento, o que ia
comprometer também o agro, o agro, porque ia dificultar as exportações
brasileiras", comentou.
Em sua
carta de anúncio das tarifas brasileiras, Donald Trump classifica "a forma
como o Brasil tem tratado" o ex-presidente como "vergonha
internacional". "Esse julgamento não deveria estar ocorrendo. É uma
Caça às Bruxas que deve acabar IMEDIATAMENTE!"
Bolsonaro,
no entanto, é réu por tentativa de golpe de Estado em um processo que obedeceu
todos os ritos da Constituição brasileira.
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Reação de Lula
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) classificou a decisão de Trump como
"inadmissível", disse que vai recorrer à Organização Mundial do
Comércio (OMC) e que, caso a medida se confirme, está disposto a utilizar a
reciprocidade.
Em
entrevista exclusiva ao Jornal Nacional, o presidente disse que a vinculação do
aumento nos impostos a questões judiciais internas do Brasil – Trump relacionou
a medida às ações em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra o
ex-presidente Jair Bolsonaro – é algo que "um ser humano e um governo não
pode admitir".
"É
inaceitável que o presidente Trump manda uma carta, sabe, pelo site dele, sabe,
e começa dizendo que é preciso, sabe, acabar com a caça as bruxas. Isso é
inadmissível. Primeiro, porque isso aqui tem Justiça e a gente está fazendo um
processo com direito a presunção de inocência de quem é vítima. Se quem é
vítima e cometeu um erro vai ser punido. Aqui no Brasil é punido", disse o
presidente.
Lula
disse que não vai perder a calma sobre o tema, mas que o país está disposto a
aplicar contramedidas previstas na chamada Lei de Reciprocidade.
Fonte:
BBC News Brasil

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