Os
18 do Forte de Copacabana: os tenentes que desafiaram a oligarquia
Há 103
anos, entre os dias 4 e 5 de julho de 1922, tinha início a Revolta dos 18 do
Forte de Copacabana, a primeira de uma série de rebeliões do movimento
tenentista.
A
insurreição mobilizou militares de baixa e média patente do Exército Brasileiro
que se contrapunham ao domínio das oligarquias de São Paulo e Minas Gerais
sobre o país — a chamada “política do café com leite”.
Os
tenentistas também reivindicavam a reforma do sistema político, o fim do voto
de cabresto e mais investimentos em educação e serviços públicos. O estopim da
revolta foi a eleição de Artur Bernardes à presidência, marcada por fraudes
eleitorais.
Os
rebeldes tomaram o Forte de Copacabana, de onde tentaram coordenar o levante,
mas a insurreição não obteve o apoio do alto comando das Forças Armadas, sendo
rapidamente esmagada.
Apesar
da derrota, o movimento inspiraria uma série de revoltas ao longo dos anos 20,
incluindo a Revolta Paulista de 1924, a Comuna de Manaus, a Coluna Prestes e a
Revolução de 1930.
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A Primeira República
A
década de 1920 foi marcada pela intensa agitação política, impulsionada pelas
transformações sociais e econômicas e pelas tensões decorrentes da crise do
sistema oligárquico da Primeira República.
Em meio
ao acelerado crescimento urbano e à expansão das indústrias no Sudeste,
observou-se a eclosão do movimento operário. Influenciados por ideias
anarquistas e socialistas, os trabalhadores organizaram as primeiras grandes
greves e protestos exigindo melhores salários e condições dignas de vida.
Havia
uma insatisfação generalizada com o sistema político. O país seguia há décadas
subordinado à chamada “política do café com leite”, em que as elites
oligárquicas de São Paulo e Minas Gerais se revezavam no poder, gastando
recursos vultosos subsidiando cafeicultores e pecuaristas mineiros e paulistas,
ao passo que outros setores da economia nacional eram negligenciados.
Práticas
de corrupção e clientelismo eram generalizadas e as eleições eram sempre
marcadas por fraudes, manipulações e pelo chamado “voto de cabresto”. A maior
parte da população, incluindo parte substancial dos setores médios urbanos, não
tinham voz nas decisões políticas.
Agravando
o quadro, o Brasil vivia desde o fim da Primeira Guerra Mundial uma grave crise
fiscal, acentuada pela queda abrupta das exportações durante a gestão de
Epitácio Pessoa. A crise gerou desemprego e o aumento do custo de vida,
ampliando a insatisfação popular.
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O movimento tenentista
Dentro
do Exército, o clima também era de descontentamento. Os oficiais se ressentiam
do desmonte ao qual a instituição estava sendo submetida desde o fim da chamada
“República da Espada”. Os militares de baixas e médias patentes começaram a se
organizar politicamente, a princípio exigindo mais investimentos no Exército,
melhores soldos e assistência aos soldados.
Aos
poucos, as críticas ultrapassaram os limites da caserna e começaram a ser
dirigidas ao próprio sistema político. Os militares passaram a reivindicar
reformas políticas e sociais, como a modernização do sistema eleitoral, o fim
das práticas clientelistas, a instituição do voto secreto, maior independência
entre os poderes e a ampliação dos investimentos em educação e nos serviços
públicos. Esse processo ganharia força a partir de 1922, resultando na criação
do movimento tenentista.
O
tenentismo não era um movimento ideologicamente homogêneo. Embora fosse
fortemente inspirado no positivismo de Benjamin Constant, o movimento absorveu
influências de diversas correntes do nacionalismo e do pensamento progressista.
Englobava, portanto, desde membros que seriam futuramente associados à esquerda
radical (como Luiz Carlos Prestes) até figuras vinculadas à extrema-direita
(caso de Filinto Müller).
O
elemento de coesão que unificava o grupo era reivindicação da superação do
sistema político vigente e a crença de que o Exército era a instituição capaz
de liderar a transformação do país, corrigindo as injustiças e promovendo o
desenvolvimento nacional.
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A eleição de 1922
A
eleição presidencial de 1922 aprofundou a crise política da Primeira República.
O candidato governista ao pleito era o advogado Artur Bernardes, representante
das oligarquias de São Paulo e Minas Gerais. Ele foi fortemente favorecido por
Epitácio Pessoa, o presidente em exercício.
Já a
oposição estava representada pela candidatura do fluminense Nilo Peçanha. Nilo
encabeçava a chapa da Reação Republicana, apoiada por estados como Rio de
Janeiro, Bahia, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Os tenentistas se engajaram
fortemente na campanha de Nilo, articulando alianças com outros setores da
sociedade civil que estavam descontentes com o governo federal.
Além de
ser repudiado como candidato governista, Artur Bernardes atraíra a rejeição dos
militares desde o episódio das chamadas “cartas falsas”. Em outubro de 1921, o
jornal Correio de Manhã reproduziu duas correspondências atribuídas a Bernardes
com insultos e críticas à integridade moral das Forças Armadas. Embora sempre
tenha negado de forma veemente a autenticidade das cartas, Bernardes teve sua
imagem irreversivelmente arranhada pelo episódio.
A
eleição de 1922 foi repleta de denúncias de irregularidades, abusos políticos e
fraudes eleitorais. Artur Bernardes foi declarado o vencedor do pleito,
angariando 59% dos votos válidos — uma margem relativamente apertada para os
padrões da época. Beneficiados pela manipulação eleitoral, os candidatos
governistas facilmente se aproximavam de 90% dos votos.
A
intervenção de Epitácio Pessoa em favor de seu candidato também enfureceu os
tenentistas. O mandatário chegou a empregar as tropas do Exército para
intimidar os eleitores no dia da votação, coagindo-os a votar em Bernardes.
O
resultado da eleição foi imediatamente contestado pela oposição, que convocou
comícios populares e protestos nas grandes cidades. O marechal Hermes da
Fonseca, um dos principais líderes oposicionistas, afirmou abertamente que a
eleição havia sido fraudada e exigiu a anulação do pleito.
Protestos
contra o resultado eleitoral eclodiram por todo o país e os governadores
aliados a Pessoa e Bernardes se tornaram alvos dos militares. Movimentos
insurrecionais foram registrados em Alagoas, Ceará, Paraná e Santa Catarina. No
Maranhão, o governador Raul da Cunha Machado chegou a ser temporariamente
deposto pela Força Pública.
Alarmado
pelo vigor do movimento oposicionista, o governo de Epitácio Pessoa ordenou o
fechamento do Clube Militar e a prisão de Hermes da Fonseca, presidente da
instituição, aumentando ainda mais a insatisfação da categoria.
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A Revolta do Forte de Copacabana
O
descontentamento dos oposicionistas chegou ao ápice pouco tempo depois, quando
os tenentistas deram início a um levante armado. A ação visava derrubar o
governo de Epitácio Pessoa e impedir a posse de Artur Bernardes, prevista para
novembro.
Entre
os dias 4 e 5 de julho de 1922, um grupo de 300 militares tomou o Forte de
Copacabana, uma fortificação estratégica no Rio de Janeiro, então sede do
governo federal. O plano havia sido elaborado por Hermes da Fonseca e executado
com o auxílio dos tenentes Antônio de Siqueira Campos, Eduardo Gomes e Newton
Prado e dos capitães Euclides Hermes da Fonseca (filho do marechal Hermes) e
João Maria Xavier de Brito Júnior.
Os
rebeldes previam o início de uma onda de sublevações nas guarnições militares
da cidade, mobilizando unidades como a Vila Militar e a Escola Militar do
Realengo. A tomada dos fortes cariocas permitiria manter os encouraçados da
Marinha afastados da costa até que os revoltosos controlassem a capital e
tomassem o Palácio do Catete.
A ação,
entretanto, foi mal coordenada e a adesão dos soldados ficou muito aquém do
esperado. O governo havia sido informado por espiões e infiltrados sobre os
planos dos rebeldes e se antecipou à insurreição, prendendo parte dos líderes —
incluindo Hermes da Fonseca.
A
tomada dos fortes de Santa Cruz e Imbuí, aguardada pelos revolucionários,
jamais se concretizou. O alto comando das Forças Armadas manteve-se leal a
Epitácio Pessoa e o governo agiu rapidamente para suprimir o levante. A
tentativa de insurreição na Vila Militar logo foi debelada.
Sob o
comando do capitão Euclides Hermes, os 300 militares amotinados no Forte de
Copacabana tentaram resistir, disparando tiros de canhão contra as tropas
federais e os prédios do governo. Os canhões, entretanto, foram inutilizados
pelas tropas federais, eliminando a capacidade ofensiva dos amotinados. Três
mil soldados foram enviados para cercar a fortaleza.
O
governo decretou estado de sítio e intensificou o cerco aos rebeldes. Entre os
dias 5 e 6 de julho, o Forte de Copacabana foi bombardeado a partir dos canhões
da Fortaleza de Santa Cruz e dos encouraçados São Paulo e Minas Gerais. A
Aviação de Guerra também foi mobilizada e atacou os rebeldes com bombardeios
aéreos.
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A Marcha da Morte
Cercados
por terra e por mar, o capitão Euclides Hermes e o tenente Siqueira Campos
informaram aos revoltosos que não pretendiam desistir da luta e que a morte era
o provável desfecho dos que seguissem lutando, liberando os que quisessem
desistir para se entregarem. Dos 300 militares amotinados, apenas 28
permaneceram.
Euclides
Hermes saiu do forte com uma bandeira branca para tentar negociar a rendição,
mas foi imediatamente capturado pelo governo.
No
início da tarde de 6 de julho, os demais revoltosos, cientes da impossibilidade
de vitória, decidiram deixar o forte e sair em marcha pela Avenida Atlântica,
em direção ao Palácio do Catete. Eles rasgaram a bandeira do forte em pedaços,
distribuindo-os entre si, como símbolos da determinação de lutar até o fim.
Durante
a marcha, 10 rebeldes se dispersaram. Restaram então 18 amotinados — 17
militares e o civil Otávio Correia, um estudante de direito que se juntou ao
grupo espontaneamente em apoio à causa tenentista. Os rebeldes avançaram até o
Posto 3 de Copacabana, quando foram interceptados por um grupo de 10 mil
soldados do governo. Os militares abriram fogo, matando quase todo o grupo.
Somente Siqueira Campos e Eduardo Gomes sobreviveram.
Após a
revolta, o governo de Epitácio Pessoa intensificou a repressão. O estado de
sítio foi prorrogado por um ano, permitindo a suspensão das liberdades civis, a
censura da imprensa, a repressão às organizações de esquerda e aos opositores
do governo.
Mesmo
malsucedida, a Revolta dos Dezoito de Copacabana serviria de inspiração para
militares e civis que se opunham aos desmandos da política do café com leite,
fortalecendo o movimento tenentista e dando origem a outros levantes como a
Revolta Paulista de 1924, a Comuna de Manaus e a Coluna Prestes, rebeliões que
preparariam o caminho para a Revolução de 1930, que, enfim, sepultou a Primeira
República.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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