'Não
chame de Wimbledon': as regras não faladas do mais importante torneio de tênis
do mundo
Existem
algumas características profundamente britânicas que se tornaram marca
registrada do Reino Unido no exterior. Elas atraem turistas do outro lado do
mundo, que vêm conhecer de perto o que faz o país ser tão... britânico.
Entre
elas, estão o chá da tarde, o autocontrole dos britânicos e o torneio de tênis
de Wimbledon — em que o brasileiro João Fonseca acaba de quebrar dois tabus ao
avançar para a terceira rodada na disputa individual masculina.
O
evento que acontece todos os anos na zona sul de Londres é uma instituição
totalmente britânica. E ele inclui suas imagens características, como os
morangos com creme, o coquetel de Pimm's e seus gandulas.
Wimbledon
é um sinal marcante do verão britânico — "a Estação", como dizem os
londrinos. Como a Exposição de Flores de Chelsea, as corridas de cavalo e as
regatas.
E, é
claro, Wimbledon também é um lugar onde as raquetes atingem pequenas bolas com
perfeição.
Mas o
torneio inclui fundamentos menos visíveis, que também são uma marca intrínseca
da sua identidade britânica. Suas regras e etiqueta são importantíssimas, tanto
em termos de comportamento, quanto de vestimenta.
Em
outras palavras, estas regras não declaradas determinam o que os espectadores
devem vestir e fazer, para não ficarem fora de sintonia com os demais.
Mas o
que determina a etiqueta de Wimbledon?
Para
início de conversa, não chame o torneio de Wimbledon, como orienta a
autointitulada rainha da etiqueta, Laura Windsor. Ela atuou como consultora da
série de TV Bridgerton.
"Na
verdade, quando alguém se refere a Wimbledon, deve dizer 'os Championships'
(torneio), já que eles são os torneios de tênis de grama mais antigos e
conceituados do mundo", segundo ela. Outra denominação adequada é
simplesmente "o tênis".
Windsor
conta à BBC que o público deve se comportar "despretensiosamente... é a
nossa identidade britânica, certo? Somos formais e corretos." Mas o que
isso quer dizer?
Primeiramente,
é preciso evitar muitos dos comportamentos comuns em outros eventos esportivos
e se comportar de forma mais adequada a uma visita ao teatro.
Deve-se
falar basicamente em voz baixa — e sem estender 'paus de selfie', que foram
proibidos no torneio em 2015.
Aliás,
"de qualquer forma, uma pessoa que ainda usar um 'pau de selfie' em 2025
precisa ser acompanhada de perto", segundo o instrutor de etiqueta
britânico William Hanson. Ele é o autor do livro Just Good Manners
("Simplesmente boas maneiras", em tradução livre).
• Bom comportamento
Hanson
destaca que "as pessoas adoram o lado social de Wimbledon, mas vale
lembrar que este é um evento esportivo ao qual se assiste sentado, com regras
próprias ao lado das quadras".
"Seja
pontual e chegue ao seu assento com antecedência", prossegue ele.
"Respeite o fato de que você só pode ir e vir nos intervalos."
É claro
que os telefones celulares devem ficar em modo silencioso. E Hanson também
orienta como tratar os jogadores e autoridades na quadra.
"Seja
esportista ao torcer e nunca comemore eventuais erros. Respeite o silêncio
durante a partida e guarde as palmas e incentivos para os momentos entre cada
ponto."
"Evite
perturbar os jogadores chamando por eles e lembre-se de que a decisão do
árbitro é final — nunca interrompa, nem questione os juízes de linha."
Além
disso, "contenha-se", orienta ele.
"Preste
atenção nas pessoas sentadas à sua volta e permaneça no espaço da sua cadeira.
Mesmo se for pequeno, tente não se esparramar acidentalmente para o espaço
pessoal de outro espectador."
E, se
tiver vontade de comer um sanduíche de atum, por exemplo, "evite perturbar
o sossego, sem fazer ruído com os papéis, nem comer alimentos desajeitados ou
com odor forte".
É claro
que as regras também incluem a vestimenta. E "a melhor forma de mostrar
bom comportamento é se vestir adequadamente", segundo Windsor.
Wimbledon
não mantém um código de vestimenta definido, mas é recomendável usar traje
formal, especialmente nas quadras principais. E certos itens são proibidos,
como jeans rasgados, calçados sujos e roupas com frases de teor político.
"Use
roupas confortáveis e adequadas para o clima", orienta Hanson, "mas
evite tudo o que for casual demais ou melhor para usar na praia."
• Código de vestimenta não oficial
Extraoficialmente,
Wimbledon criou e desenvolveu seu próprio código de normas de vestimenta.
Uma
prova dessas "regras" não declaradas, mas ainda palpáveis, foram as
críticas enfrentadas por Meghan Markle, duquesa de Sussex, por ter usado jeans,
chapéu e blazer, para assistir à partida da sua amiga, a tenista americana
Serena Williams, no torneio de 2019.
Daniel-Yaw
Miller é jornalista especializado em esportes e moda. Ele é o criador do
boletim SportsVerse.
Para
ele, "quando se pensa em roupas para usar em Wimbledon, todos têm a mesma
ideia em mente — branco ou bege. Você usa um blazer, você pode usar um
chapéu."
As
espectadoras costumam preferir vestidos florais, com bolinhas e roupas
individualizadas. E, por osmose, parece ter surgido um código de vestimenta.
Windsor
orienta que se vestir adequadamente significa usar "algo que seja modesto
e sofisticado", como roupas sob medida e de puro linho.
Hanson
destaca que "é melhor evitar chapéus de abas largas, que podem ficar na
frente das pessoas sentadas atrás de você".
Ainda
assim, os chapéus panamá são uma espécie de uniforme oficial de Wimbledon. Eles
são populares entre o público do torneio desde o início do século 20.
Ao
longo dos anos, diversas celebridades ofereceram exemplos notórios de
"aces" do vestuário na Quadra Central.
A atriz
e cantora Zendaya — uma espécie de santa padroeira da estética
"tenniscore" — deu uma aula aos espectadores de Wimbledon no ano
passado. Ela vestiu um modelo de Ralph Lauren inspirado em roupas masculinas —
terno de tweed em estilo antigo, camisa azul e branca listrada e gravata.
Outros
sucessos incluem Meghan Markle de camisa branca e pregas perfeitas; Keira
Knightley, com um vestido Chanel de cintura baixa; Tom Cruise, com elegantes
ternos, ano após ano; a apresentadora e modelo britânica Alexa Chung, com
casaco de tricô e camisas de popeline de algodão; e Pierce Brosnan, com terno
de linho azul-marinho e bolsos quadrados bem definidos.
Outras
celebridades fizeram um ace sem se restringirem ao roteiro habitual. Exemplos
perfeitos são a modelo e cantora jamaicana Grace Jones, em roupa de aviador, e
o ator britânico Idris Elba, com uma camiseta marcante da seleção de futebol da
Nigéria.
A
princesa de Gales, Kate Middleton, é a patrona real do All England Lawn Tennis
Club, promotor do evento. Ela costuma usar verde ou roxo, que são as cores
oficiais do torneio desde 1909.
Nos
últimos anos, ela usou uma série de tons de verde, como um vestido Dolce &
Gabanna verde-floresta em 2019 e um traje verde-esmeralda de Emilia Wickstead
em 2021 — a cor da grama no início do torneio, não necessariamente no final.
No ano
passado, a princesa usou um vestido Safiyaa roxo para entregar os troféus do
torneio de simples masculino.
• Senso de tradição
A
presença da realeza todos os anos destaca o senso de tradição do evento. O
tênis, há muito tempo, é associado à riqueza, status e glamour.
"O
tênis era esse jogo social, da elite e glamouroso", afirma Elizabeth
Wilson, autora do livro Love Game: A History of Tennis, from Victorian Pastime
to Global Phenomenon ("O jogo do amor: uma história do tênis, do
passatempo vitoriano até o fenômeno global", em tradução livre).
O
ambiente original do esporte era a casa de campo.
"Ele
é, sem dúvida, um esporte tradicionalmente da classe alta e esta essência ainda
permeia muito o tênis", explica Miller.
Ele
compara o esporte com o críquete ou as corridas de cavalos em Ascot, "onde
você precisa respeitar muito as regras, como se fosse um estranho que acaba de
chegar".
Mesmo
entre os torneios de tênis, Wimbledon é fora do padrão.
"Você
observa os outros Grand Slams, é o extremo oposto", segundo Miller: música
de saída da quadra, jogadores dançando quando saem, câmera do beijo, venda de
cachorros-quentes e canhões de bolas, por exemplo.
Para
Miller, Wimbledon é "um dos últimos bastiões da antiga cultura britânica
no cenário popular". E, para alguns, suas características arcaicas fazem
parte do seu charme e atração.
"Vejo
Wimbledon essencialmente como um museu", explica ele. "Você vai até
lá para ter um dia fantástico, uma noção de como era o passado da sociedade
britânica."
Mas
tudo isso tem suas desvantagens.
"Do
ponto de vista do torcedor, você realmente parece estar pisando em um espaço
que não lhe pertence", segundo Miller. Até certo ponto, você precisa
"agir como se já tivesse estado lá antes."
• Mudança de códigos
Mas, ao
longo dos anos, os códigos de Wimbledon estão mudando. Elizabeth Wilson
acredita que, de muitas formas, "[agora] é mais participativo".
No
passado, "as pessoas descreviam que a atmosfera era mais similar a uma
catedral, havia uma atmosfera um tanto sagrada, muito distante de como é hoje
em dia."
William
Hanson concorda. Para ele, "se pensarmos em Henman Hill/Murray Mound [o
espaço perto da Quadra nº 1] e no resto, os níveis de patriotismo e emoção são
diferentes das exibições públicas que teríamos visto no passado."
Agora,
as multidões gritam, pelo menos entre cada ponto, e até participam
ocasionalmente de uma ola — algo que "ninguém teria pensado em fazer nos
anos 1950", segundo Wilson.
Daniel-Yaw
Miller compareceu ao evento no ano passado. Ele pôde "certamente perceber
que era uma experiência um pouco mais moderna". Ele conta que sentiu que o
torneio está "ficando mais relaxado, apenas um pouquinho".
Também
em relação às roupas, o comportamento está mudando.
Miller
considera Idris Elba e David Beckham como exemplos notórios de pessoas que
sabem se vestir adequadamente para Wimbledon, sem parecer que estão presas ao
passado.
Para
ele, "o visual é mais de 'churrasco elegante' do que de 'evento super
formal'".
Para
Hanson, as normas relativos à etiqueta permanecem válidas.
"A
etiqueta inclui todas as formas em que nossas ações e comportamentos afetam ou
causam impacto sobre outras pessoas", explica ele. "Precisamos ter
consideração e cuidado com o nosso comportamento, para garantir que todos
tenham um ótimo dia assistindo ao tênis."
"Wimbledon
vive de rituais antigos e permanece um dos mais importantes eventos esportivos
tradicionais do verão britânico. Espero que, nesta quinzena tão especial, todos
nós possamos cuidar das nossas maneiras, dentro e fora da quadra."
Fonte:
BBC Culture

Nenhum comentário:
Postar um comentário